Santo Agostinho
Finalmente, porque mesmo para aqueles que estavam debaixo da graça era difícil, nesta vida mortal, cumprir aquilo da Lei: «Não cobiçarás», Ele, feito Sacerdote pelo sacrifício da Sua carne, obteve para nós esta indulgência, cumprindo Ele mesmo a Lei, de modo que aquilo que por nossa enfermidade não podíamos, fôssemos fortalecidos pela Sua perfeição, do qual, como cabeça, todos nós somos membros. Pois assim entendo que se deva tomar estas palavras: «cumprir» a Lei, acrescentando-lhe algo, isto é, coisas que contribuem ou para a explicação das antigas glosas, ou para habilitar a guardá-la. Porque o Senhor nos mostrou que até um movimento maligno dos pensamentos para injúria de um irmão deve ser tido como uma espécie de homicídio. O Senhor também nos ensina que é melhor permanecer perto da verdade sem jurar, do que, com um juramento verdadeiro, aproximar-se da blasfêmia. Mas como, vós, maniqueus, não recebeis a Lei e os Profetas, vendo que Cristo aqui diz que não veio para os subverter, mas para os cumprir? A isto responde o herege Fausto : De quem é o testemunho de que Cristo falou isto? O de Mateus. Como se explica, então, que João não dá esta palavra, ele que estava com Ele no monte, mas só Mateus, que não seguiu a Jesus senão depois de Ele ter descido do monte? A isto replica Agostinho: Se ninguém pode falar verdade acerca de Cristo senão quem O viu e ouviu, não há hoje ninguém que fale verdade acerca dEle. Por que não poderia então Mateus ouvir da boca de João a verdade como Cristo a falara, assim como nós, que nascemos tão depois, podemos falar a verdade do livro de João? Do mesmo modo também, não só o Evangelho de Mateus, mas também os de Lucas e Marcos são por nós recebidos, e não com autoridade inferior. E, além disso, o próprio Senhor poderia ter contado a Mateus as coisas que fizera antes de o chamar. Mas falai claro e dizei que não credes no Evangelho; pois os que creem no Evangelho só naquilo que querem crer, creem antes em si mesmos do que no Evangelho. A isto retruca Fausto: Provaremos que isto não foi escrito por Mateus, mas por outra mão, desconhecida, em seu nome. Porque abaixo ele diz: «Jesus viu um homem sentado na alfândega, chamado Mateus.» Quem, escrevendo de si mesmo, diria «viu um homem», e não antes «viu-me»?
cont. Faust. · cont. Faust., 19, 7. et seq · séc. V
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