24Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a riqueza.
Trechos em que os Padres comentam diretamente esta passagem ou o seu contexto imediato.
JC
São João Crisóstomo
Ou de outro modo: no que precedera, Ele havia reprimido a tirania da avareza por muitos e graves motivos, mas agora acrescenta ainda mais. As riquezas não somente nos prejudicam por armarem ladrões contra nós, e por obscurecerem o nosso entendimento, mas além disso nos desviam do serviço de Deus. Isto Ele prova a partir de noções familiares, dizendo: "Ninguém pode servir a dois senhores;" dois, quer dizer, cujas ordens são contrárias; pois a concórdia faz de muitos um só. Isto se prova pelo que segue: "porque ou há de aborrecer a um." Ele menciona dois, para que vejamos que é fácil a mudança para melhor. Pois se alguém se entregasse ao desespero, como tendo sido feito escravo das riquezas, a saber, por amá-las, daqui pode aprender que lhe é possível mudar para um serviço melhor, a saber, não se submetendo a tal escravidão, mas desprezando-a.
Hom xxi · Hom xxi · séc. V
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GO
Glossa Ordinária
Por "mamona" entende-se o Diabo, que é o senhor do dinheiro, não que possa concedê-lo senão onde Deus o quer, mas porque por meio dele engana os homens.
Glossa Ordinaria · ord
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A
Santo Agostinho
Quem serve a "Mamom" (isto é, às riquezas) verdadeiramente serve aquele que, por merecimento da sua perversidade posto sobre estas coisas terrenas, é chamado pelo Senhor "o príncipe deste mundo". Ou de outro modo; quem são os dois senhores Ele mostra quando diz: "Não podeis servir a Deus e a Mamom", isto é, a Deus e ao Diabo. "Ou" então o homem "aborrecerá a um e amará ao outro", a saber, a Deus; "ou sofrerá a um e desprezará ao outro". Pois quem é servo de Mamom sofre um duro senhor; porque enlaçado pela sua própria concupiscência tornou-se sujeito ao Diabo, e não o ama. Como aquele cujas paixões o ligaram à serva de outro homem, sofre uma dura escravidão, e contudo não ama aquele cuja serva ama. Mas Ele disse "desprezará", e não "aborrecerá", o outro, porque ninguém pode com reta consciência odiar a Deus. Mas despreza, isto é, não O teme, como quem está certo da Sua bondade.
Serm. in Mont. · Serm. in Mont., ii, 14 · séc. V
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GO
Glossa Ordinária
De outro modo: havia-se declarado acima que as coisas boas se tornam más, quando feitas com propósito mundano. Poderia, pois, alguém ter dito: Farei boas obras por motivos mundanos e celestiais ao mesmo tempo. Contra isto diz o Senhor: "Ninguém pode servir a dois senhores."
Glossa · non occ
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GO
Glossa Ordinária
Ou então: parece aludir a dois diferentes gêneros de servos; um gênero que serve livremente por amor, outro que serve servilmente por temor. Se, pois, alguém serve a dois senhores de caráter contrário por amor, é mister que aborreça a um; se por temor, ao tempo em que treme diante de um, há de desprezar o outro. Mas, conforme o mundo ou Deus predominem no coração de um homem, este há de ser arrastado para sentidos contrários; pois Deus atrai para as coisas de cima aquele que O serve; a terra atrai para as coisas de baixo; por isso Ele conclui: "Não podeis servir a Deus e a mamona."
Glossa · non occ
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J
São Jerônimo
"Mamona" — assim se chamam as riquezas em siríaco. Ouça isto o avaro que é chamado pelo nome cristão: que não pode servir ao mesmo tempo a Cristo e às riquezas. Contudo, não disse: aquele que tem riquezas, mas: aquele que é servo das riquezas. Pois aquele que é escravo do dinheiro guarda o seu dinheiro como escravo; mas aquele que sacudiu o jugo de sua escravidão dispensa-o como senhor.
séc. V
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JC
São João Crisóstomo
O Senhor havia dito acima que aquele que tem mente espiritual é capaz de conservar o seu corpo livre do pecado; e que aquele que não a tem, não é capaz. Disto Ele aqui dá a razão, dizendo: "Ninguém pode servir a dois senhores."
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
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Citações internas
1
Trechos em que este versículo aparece citado dentro de outro argumento patrístico.
TA
Santo Thomas Aquinas
Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, Artigo 5 — Se um homem pode ter vários fins últimos?
Objeção 1. Pareceria possível que a vontade de um homem se dirigisse ao mesmo tempo a várias coisas como fins últimos. Pois diz Agostinho (De Civ. Dei xix, 1) que alguns consideravam o fim último do homem consistir em quatro coisas, a saber: «no prazer, no repouso, nos dons da natureza e na virtude». Ora, estas são claramente mais de uma coisa. Logo, um homem pode colocar o fim último da sua vontade em muitas coisas.
Objeção 2. Além disso, coisas que não se opõem entre si não se excluem mutuamente. Ora, há muitas coisas que não se opõem entre si. Logo, a suposição de que uma coisa é o fim último da vontade não exclui outras.
Objeção 3. Além disso, pelo fato de colocar o seu fim último em uma coisa, a vontade não perde a sua liberdade. Ora, antes de colocar o seu fim último naquela coisa, por exemplo, no prazer, podia colocá-lo em outra, por exemplo, nas riquezas. Logo, mesmo depois de ter colocado o seu fim último no prazer, um homem pode ao mesmo tempo colocar o seu fim último nas riquezas. Portanto, é possível que a vontade de um homem se dirija ao mesmo tempo a várias coisas como fins últimos.
Em contrário, Aquilo em que um homem descansa como em seu fim último é senhor de suas afeições, pois ele tira daí toda a sua regra de vida. Donde está escrito dos glutões (Filipenses 3,19): «O deus deles é o ventre»: a saber, porque colocam o seu fim último nos prazeres do ventre. Ora, segundo Mateus 6,24: «Ninguém pode servir a dois senhores», tais como os que não são ordenados um ao outro. Logo, é impossível que um homem tenha vários fins últimos não ordenados um ao outro.
Respondo que é impossível que a vontade de um homem se dirija ao mesmo tempo a diversas coisas como fins últimos. Três razões podem ser atribuídas para isto. Primeira, porque, desejando tudo a sua própria perfeição, o homem deseja como seu fim último aquilo que deseja como seu bem perfeito e coroador. Donde Agostinho (De Civ. Dei xix, 1): «Ao falarmos do fim do bem, queremos dizer agora, não que ele passe de modo a não mais existir, mas que é aperfeiçoado de modo a estar completo.» É, portanto, necessário que o fim último encha de tal modo o apetite do homem, que nada reste além dele para o homem desejar. O que não é possível, se algo mais for requerido para a sua perfeição. Consequentemente, não é possível que o apetite tenda a duas coisas como se cada uma fosse o seu bem perfeito.
A segunda razão é porque, assim como no processo do raciocínio, o princípio é aquilo que é naturalmente conhecido, assim no processo do apetite racional, i.e., a vontade, o princípio precisa ser aquilo que é naturalmente desejado. Ora, isto precisa ser um: pois a natureza tende a uma só coisa. Mas o princípio no processo do apetite racional é o fim último. Logo, aquilo a que a vontade tende como seu fim último é um.
A terceira razão é porque, recebendo as ações voluntárias a sua espécie do fim, como foi dito acima (A[3]), elas precisam receber o seu gênero do fim último, que é comum a todas elas: assim como as coisas naturais são colocadas em um gênero segundo uma forma comum. Pois, então, todas as coisas que podem ser desejadas pela vontade pertencem, como tais, a um só gênero, o fim último precisa ser um. E tanto mais porque em todo gênero há um primeiro princípio; e o fim último tem a natureza de um primeiro princípio, como foi dito acima. Ora, assim como o fim último do homem, simplesmente como homem, está para todo o gênero humano, assim o fim último de qualquer homem individual está para aquele indivíduo. Portanto, assim como de todos os homens há naturalmente um só fim último, assim a vontade de um homem individual deve estar fixada em um só fim último.
Resposta à Objeção 1. Todos estes vários objetos foram considerados como um só bem perfeito deles resultante, por aqueles que neles colocaram o fim último.
Resposta à Objeção 2. Embora seja possível encontrar várias coisas que não se opõem entre si, contudo é contrário ao bem perfeito de uma coisa que algo além seja requerido para a perfeição dessa coisa.
Resposta à Objeção 3. O poder da vontade não se estende a fazer existir opostos ao mesmo tempo. O que seria o caso se ela tendesse a vários objetos diversos como fins últimos, como foi mostrado acima (ad 2).
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether one man can have several last ends? · séc. XIII