Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a definição de eternidade dada por Boécio (De Consol. v) não é boa: “Eternidade é a posse simultaneamente-toda e perfeita de uma vida interminável.” Pois a palavra “interminável” é negativa. Ora, a negação só pertence ao que é defeituoso, o que não convém à eternidade. Portanto, na definição de eternidade não se deve pôr a palavra “interminável”. Objeção 2: Além disso, eternidade significa uma certa duração. Ora, a duração diz respeito ao existir mais do que à vida. Portanto, não se deve introduzir na definição de eternidade a palavra “vida”, mas antes a palavra “existência”. Objeção 3: Além disso, “todo” é o que tem partes. Ora, isto é alheio à eternidade, que é simples. Logo, impropriamente se diz que ela é “toda”. Objeção 4: Muitos dias não podem ocorrer juntos, nem muitos tempos existir ao mesmo tempo. Ora, na eternidade mencionam-se dias e tempos no plural, pois está escrito: “As suas saídas são desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Miquéias 5,2); e também se diz: “Segundo a revelação do mistério escondido desde a eternidade” (Romanos 16,25). Portanto, a eternidade não é omni-simultânea. Objeção 5: Além disso, “todo” e “perfeito” são a mesma coisa. Suposto, portanto, que ela seja “toda”, é supérfluo chamá-la “perfeita”. Objeção 6: Além disso, a duração não implica “posse”. Ora, a eternidade é uma espécie de duração. Logo, a eternidade não é posse. Respondo que: Assim como chegamos ao conhecimento das coisas simples por meio das compostas, assim devemos alcançar o conhecimento da eternidade por meio do tempo, que não é senão a numeração do movimento segundo o “antes” e o “depois”. Pois, visto que em todo movimento há sucessão e uma parte vem após outra, o fato de contarmos o antes e o depois no movimento nos faz apreender o tempo, que não é outra coisa senão a medida do antes e do depois no movimento. Ora, numa coisa isenta de movimento, que é sempre a mesma, não há antes nem depois. Assim como, portanto, a ideia de tempo consiste na numeração do antes e do depois no movimento, assim também a ideia de eternidade consiste na apreensão da uniformidade do que está fora do movimento. Além disso, dizem-se medidas pelo tempo as coisas que têm princípio e fim no tempo, porque em tudo o que é movido há princípio e há fim. Mas assim como o que é totalmente imutável não pode ter sucessão, também não tem princípio nem fim. Assim, a eternidade é conhecida por duas fontes: primeiro, porque o que é eterno é interminável — isto é, não tem princípio nem fim (ou seja, nenhum termo em nenhum dos lados); segundo, porque a eternidade não tem sucessão, sendo simultaneamente toda. Resposta à Objeção 1: As coisas simples costumam ser definidas por via de negação; como “ponto é o que não tem partes”. Contudo, isto não se deve tomar como se a negação pertencesse à sua essência, mas porque o nosso intelecto, que primeiro apreende as coisas compostas, não pode alcançar o conhecimento das simples senão removendo o oposto. Resposta à Objeção 2: O que é verdadeiramente eterno não é apenas ser, mas também viver; e a vida se estende à operação, o que não se dá com o ser. Ora, a prolongação da duração parece pertencer antes à operação do que ao ser; por isso o tempo é a numeração do movimento. Resposta à Objeção 3: A eternidade é chamada “toda”, não porque tem partes, mas porque nada lhe falta. Resposta à Objeção 4: Assim como Deus, embora incorpóreo, é nomeado na Escritura metaforicamente por nomes corpóreos, assim a eternidade, embora simultaneamente toda, é designada por nomes que implicam tempo e sucessão. Resposta à Objeção 5: No tempo, duas coisas se consideram: o tempo mesmo, que é sucessivo; e o “agora” do tempo, que é imperfeito. Por isso, a expressão “simultaneamente-toda” se emprega para remover a ideia de tempo, e a palavra “perfeita” para excluir o “agora” do tempo. Resposta à Objeção 6: Tudo o que é possuído é mantido firme e quietamente; portanto, para designar a imutabilidade e a permanência da eternidade, usamos a palavra “posse”.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether this is a good definition of eternity, “The simultaneously-whole and perfect possession of interminable life”? · séc. XIII
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