Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que os cismáticos não são justamente punidos com a excomunhão. Pois a excomunhão priva o homem principalmente da participação nos sacramentos. Mas Agostinho diz (Contra os Donatistas, VI, 5) que «o Batismo pode ser recebido de um cismático». Logo, parece que a excomunhão não é uma punição adequada para os cismáticos. Objecção 2: Ademais, é dever dos fiéis de Cristo reconduzir os que se desviaram, pelo que está escrito contra certas pessoas (Ezequiel 34,4): «O que foi afastado não trouxestes de volta, nem buscastes o que se perdeu». Ora, os cismáticos são mais facilmente trazidos de volta por aqueles que podem manter comunhão com eles. Portanto, parece que não devem ser excomungados. Objecção 3: Além disso, não se inflige dupla punição por um mesmo pecado, conforme Naum 1,9: «Deus não julgará a mesma coisa duas vezes» [*versão dos Setenta]. Ora, alguns recebem uma punição temporal pelo pecado do cisma, segundo a Questão 23, Artigo 5, onde se afirma: «Tanto as leis divinas quanto as terrenas estabeleceram que aqueles que se separam da unidade da Igreja e perturbam a sua paz devem ser punidos pelo poder secular». Portanto, não devem ser punidos com a excomunhão. Em contrário, está escrito (Números 16,26): «Retirai-vos das tendas destes homens ímpios», a saber, os que haviam causado o cisma, «e não toqueis em nada do que lhes pertence, para que não sejais envolvidos nos seus pecados». Respondo: Segundo Sabedoria 11,11, «Pelas mesmas coisas que alguém peca, por essas mesmas deve ser punido» [Vulgata: «é atormentado»]. Ora, o cismático, como foi mostrado acima (Art. 1), comete um duplo pecado: primeiro, separando-se da comunhão com os membros da Igreja, e a este respeito a punição adequada para os cismáticos é que sejam excomungados. Segundo, recusam a sujeição à cabeça da Igreja; pelo que, já que não querem ser controlados pelo poder espiritual da Igreja, é justo que sejam compelidos pelo poder secular. Resposta à Objecção 1: Não é lícito receber o Batismo de um cismático, a não ser em caso de necessidade, pois é melhor para o homem deixar esta vida, marcado com o sinal de Cristo, não importa de quem o receba, seja de um judeu ou de um pagão, do que privado dessa marca, que é conferida no Batismo. Resposta à Objecção 2: A excomunhão não proíbe o trato pelo qual alguém, por meio de saudáveis advertências, reconduz à unidade da Igreja os que dela estão separados. Na verdade, essa mesma separação os traz de volta de algum modo, porque, envergonhados pela sua separação, são às vezes levados a fazer penitência. Resposta à Objecção 3: As punições da vida presente são medicinais, e portanto, quando uma punição não basta para coagir um homem, outra é acrescentada: assim como os médicos empregam vários remédios corporais quando um não tem efeito. De modo semelhante, a Igreja, quando a excomunhão não refreia suficientemente certos homens, emprega a coação do braço secular. Se, contudo, uma punição basta, outra não deve ser empregada.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether it is right that schismatics should be punished with excommunication? · séc. XIII
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