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Nm 15, 38

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Matos Soares

38Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes que façam umas guarnições nas extremidades das suas capas, pondo nelas fitas de púrpura violácea,

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que a natureza dos preceitos cerimoniais não consiste em dizer respeito ao culto de Deus. Porque, na Antiga Lei, foram dados aos judeus certos preceitos acerca da abstinência de alimentos (Lv 11); e acerca de se absterem de certas espécies de vestes, por exemplo (Lv 19,19): "Não vestirás um vestido tecido de duas espécies"; e também (Nm 15,38): "Para fazerem para si borlas nas orlas dos seus vestidos." Ora, estes não são preceitos morais, porque não permanecem na Nova Lei. Nem são preceitos judiciais, porque não dizem respeito ao proferir juízo entre homem e homem. Logo, são preceitos cerimoniais. Todavia, parecem de modo nenhum pertencer ao culto de Deus. Portanto, a natureza dos preceitos cerimoniais não consiste em dizer respeito ao culto divino. Objeção 2: Além disso, alguns afirmam que os preceitos cerimoniais são aqueles que pertencem às solenidades; como se assim fossem chamados dos "círios" [velas] que se acendem nessas ocasiões. Mas muitas outras coisas, além das solenidades, pertencem ao culto de Deus. Logo, não parece que os preceitos cerimoniais sejam assim chamados por dizerem respeito ao culto divino. Objeção 3: Além disso, alguns dizem que os preceitos cerimoniais são padrões, isto é, regras de salvação; porque o grego {chaire} é o mesmo que o latim "salve". Ora, todos os preceitos da Lei são regras de salvação, e não apenas aqueles que pertencem ao culto de Deus. Portanto, não só os preceitos que dizem respeito ao culto divino são chamados cerimoniais. Objeção 4: Além disso, o Rabi Moisés diz (Guia dos Perplexos, III) que os preceitos cerimoniais são aqueles para os quais não há razão evidente. Ora, há razão evidente para muitas coisas pertencentes ao culto de Deus, como a observância do sábado, as festas da Páscoa e dos Tabernáculos, e muitas outras, cuja razão é estabelecida na Lei. Logo, os preceitos cerimoniais não são aqueles que pertencem ao culto de Deus. Em contrário, está escrito (Êx 18,19-20): "Sê tu para o povo naquelas coisas que dizem respeito a Deus... e mostra ao povo as cerimônias e o modo de adorar." Respondo que, como foi dito acima (q. 99, a. 4), os preceitos cerimoniais são determinações dos preceitos morais pelos quais o homem é dirigido a Deus, assim como os preceitos judiciais são determinações dos preceitos morais pelos quais ele é dirigido ao próximo. Ora, o homem é dirigido a Deus pelo culto que Lhe é devido. Portanto, são propriamente chamados cerimoniais aqueles preceitos que pertencem ao culto divino. A razão de serem assim chamados foi dada acima (q. 99, a. 3), quando estabelecemos a distinção entre os preceitos cerimoniais e os outros. Resposta à Objeção 1: O culto divino inclui não só os sacrifícios e coisas semelhantes, que parecem dirigir-se imediatamente a Deus, mas também aquelas coisas pelas quais os seus adoradores são devidamente preparados para O adorar; assim também, noutras matérias, tudo o que é preparatório para o fim cai sob a ciência cujo objeto é o fim. Por conseguinte, aqueles preceitos da Lei que dizem respeito ao vestuário e à comida dos adoradores de Deus, e outras matérias tais, pertencem a uma certa preparação dos ministros, com vistas a torná-los aptos para o culto divino; assim como os que administram a um rei usam de certas observâncias especiais. Consequentemente, tais estão contidos sob os preceitos cerimoniais. Resposta à Objeção 2: A alegada explicação do nome não parece muito provável; especialmente porque a Lei não contém muitos exemplos de acender círios nas solenidades; pois até mesmo as lâmpadas do Candelabro eram providas de "azeite de oliveiras", como se diz em Lv 24,2. Todavia, podemos dizer que todas as coisas pertencentes ao culto divino eram observadas mais cuidadosamente nas festas solenes; de modo que todos os preceitos cerimoniais podem ser incluídos sob a observância das solenidades. Resposta à Objeção 3: Tampouco esta explicação do nome parece muito pertinente, visto que a palavra "cerimônia" não é grega, mas latina. Podemos, contudo, dizer que, sendo a salvação do homem de Deus, aqueles preceitos parecem sobretudo ser regras de salvação que dirigem o homem a Deus; e, por conseguinte, os que se referem ao culto divino são chamados preceitos cerimoniais. Resposta à Objeção 4: Esta explicação dos preceitos cerimoniais tem certa probabilidade; não que sejam chamados cerimoniais precisamente porque não há razão evidente para eles; isto é uma espécie de consequência. Pois, devendo os preceitos referentes ao culto divino ser figurados, como diremos adiante (a. 2), daí se segue que a razão deles não é tão evidente.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether the nature of the ceremonial precepts consists in their pertaining to the worship of God? · séc. XIII

tradução automática

Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que não houve causa razoável para as observâncias cerimoniais. Porque, como diz o Apóstolo (1 Tm 4,4): "Toda criatura de Deus é boa, e nada se deve rejeitar, recebendo-o com ação de graças." Logo, era inconveniente que lhes fosse proibido comer certos alimentos, como imundos segundo Lv 11 [*Cf. Dt 14]. **Objeção 2:** Além disso, assim como os animais são dados ao homem para alimento, também o são as ervas; por isso está escrito (Gn 9,3): "Como as ervas verdes, vos entreguei toda a carne." Ora, a Lei não distinguiu nenhuma erva das demais como imunda, embora algumas sejam mui nocivas, por exemplo, as venenosas. Portanto, parece que também nenhum animal deveria ter sido proibido como imundo. **Objeção 3:** Além disso, se a matéria da qual uma coisa é gerada é imunda, parece que igualmente a coisa gerada é imunda. Ora, a carne é gerada do sangue. Logo, como toda carne não foi proibida como imunda, parece que do mesmo modo nem o sangue deveria ter sido proibido como imundo, nem a gordura que é gerada do sangue. **Objeção 4:** Além disso, o Senhor disse (Mt 10,28; cf. Lc 12,4) que não se devem temer aqueles "que matam o corpo", pois depois da morte "não têm mais o que fazer"; o que não seria verdade se depois da morte algum dano pudesse advir ao homem por algo feito ao seu corpo. Muito menos, portanto, importa a um animal já morto como sua carne é cozida. Consequentemente, parece não haver razão no que se diz em Êx 23,19: "Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." **Objeção 5:** Além disso, tudo o que primeiro nasce do homem e do animal, como sendo o mais perfeito, é mandado oferecer ao Senhor (Êx 13). Logo, é inconveniente o mandamento dado em Lv 19,23: "Quando entrardes na terra e plantardes nela árvores frutíferas, tirareis o prepúcio delas" [*'Praeputia', que a versão de Douai traduz como 'primícias'], isto é, as primeiras colheitas, e "ser-vos-ão imundas; não comereis delas." **Objeção 6:** Além disso, o vestuário é algo alheio ao corpo do homem. Portanto, certos tipos de vestes não deveriam ter sido proibidos aos judeus; por exemplo (Lv 19,19): "Não vestirás uma roupa tecida de duas espécies"; e (Dt 22,5): "A mulher não se vestirá com vestes de homem, nem o homem usará vestes de mulher"; e ainda (Dt 22,11): "Não vestirás uma roupa tecida de lã e linho juntos." **Objeção 7:** Além disso, lembrar-se dos mandamentos de Deus não diz respeito ao corpo, mas ao coração. Portanto, é inconveniente a prescrição (Dt 6,8 ss.) de que "atassem" os mandamentos de Deus "como sinal" em suas mãos; e que os "escrevessem nas entradas"; e (Nm 15,38 ss.) que "fizessem para si franjas nos cantos de suas vestes, pondo nelas fitas azuis... para que se lembrassem... dos mandamentos do Senhor." **Objeção 8:** Além disso, o Apóstolo diz (1 Cor 9,9) que Deus não "tem cuidado dos bois", e, portanto, tampouco dos outros animais irracionais. Logo, sem razão é ordenado (Dt 22,6): "Se encontrares, andando pelo caminho, um ninho de ave numa árvore... não tomarás a mãe com os filhos"; e (Dt 25,4): "Não atarás a boca ao boi que debulha o grão"; e (Lv 19,19): "Não farás teus animais copularem com animais de outra espécie." **Objeção 9:** Além disso, nenhuma distinção foi feita entre plantas limpas e imundas. Muito menos, portanto, deveria ter sido feita alguma distinção acerca do cultivo de plantas. Logo, foi inconvenientemente prescrito (Lv 19,19): "Não semearás o teu campo com sementes diferentes"; e (Dt 22,9 ss.): "Não semearás a tua vinha com sementes diversas"; e: "Não lavrarás com boi e jumento juntos." **Objeção 10:** Além disso, é evidente que as coisas inanimadas estão sob o poder do homem mais do que todas. Portanto, foi inconveniente impedir o homem de tomar a prata e o ouro de que os ídolos eram feitos, ou qualquer coisa que encontrassem nas casas dos ídolos, como expresso no mandamento da Lei (Dt 7,25 ss.). Parece também um mandamento absurdo o que se diz em Dt 23,13: que "cavassem ao redor e... cobrissem com terra aquilo de que se aliviaram." **Objeção 11:** Além disso, a piedade é exigida especialmente nos sacerdotes. Ora, parece ser ato de piedade assistir ao sepultamento dos amigos; por isso Tobias é louvado por fazê-lo (Tb 1,20 ss.). Do mesmo modo, às vezes é ato de piedade casar-se com uma mulher dissoluta, porque assim ela é livrada do pecado e da infâmia. Portanto, parece inconsistente que essas coisas sejam proibidas aos sacerdotes (Lv 21). **Em contrário,** está escrito (Dt 18,14): "Mas tu és instruído de outra maneira pelo Senhor teu Deus"; destas palavras podemos inferir que essas observâncias foram instituídas por Deus como uma prerrogativa especial daquele povo. Logo, não são sem razão ou causa. **Respondo que:** O povo judeu, como foi dito acima (A[5]), foi especialmente escolhido para o culto de Deus, e entre eles os próprios sacerdotes foram especialmente separados para esse fim. E assim como outras coisas que são aplicadas ao culto divino precisam ser marcadas de algum modo particular para que sejam dignas do culto de Deus, também no modo de vida daquele povo, e especialmente dos sacerdotes, era necessário haver certas coisas especiais condizentes com o culto divino, seja espiritual, seja corporal. Ora, o culto prescrito pela Lei prefigurava o mistério de Cristo; de modo que tudo o que faziam era figura das coisas pertencentes a Cristo, segundo 1 Cor 10,11: "Todas estas coisas lhes aconteciam em figuras." Consequentemente, as razões dessas observâncias podem ser tomadas de duas maneiras: primeiro, segundo sua conveniência para o culto de Deus; segundo, segundo prefiguram algo tocante ao modo de vida cristão. **Resposta à Objeção 1:** Como foi dito acima (A[5], ad 4,5), a Lei distinguiu uma dupla poluição ou imundície: uma, a do pecado, pela qual a alma era maculada; e outra, consistindo em alguma espécie de corrupção, pela qual o corpo era de algum modo infectado. Falando, pois, da primeira imundície mencionada, nenhum alimento é imundo, nem pode macular o homem, por sua natureza; por isso lemos (Mt 15,11): "Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso contamina o homem"; palavras que são explicadas (Mt 15,17) como referindo-se aos pecados. Contudo, certos alimentos podem contaminar a alma acidentalmente; na medida em que o homem os toma contra a obediência ou um voto, ou por concupiscência excessiva; ou por serem um incentivo à lascívia, razão pela qual alguns se abstêm de vinho e carne. Se, porém, falamos de imundície corporal, consistindo em alguma espécie de corrupção, a carne de certos animais é imunda, seja porque, como o porco, se alimentam de coisas imundas; seja porque sua vida é em lugares imundos; assim, certos animais, como toupeiras, ratos e semelhantes, vivem debaixo da terra, donde contraem um odor desagradável; seja porque sua carne, por ser demasiado úmida ou demasiado seca, gera humores corruptos no corpo humano. Por isso foram proibidos de comer a carne de animais de pés chatos, isto é, animais de casco não fendido, devido à sua terrenidade; e da mesma forma foram proibidos de comer a carne de animais que têm muitas fendas nos pés, porque tais são muito ferozes e sua carne é muito seca, como a carne de leões e semelhantes. Pela mesma razão foram proibidos de comer certas aves de rapina, cuja carne é muito seca, e certas aves aquáticas, devido à sua excessiva umidade. Da mesma forma, certos peixes sem barbatanas e escamas foram proibidos devido à sua excessiva umidade; tais como enguias e semelhantes. Foi-lhes permitido, no entanto, comer ruminantes e animais de casco fendido, porque nesses animais os humores são bem absorvidos e sua natureza bem equilibrada; pois nem são demasiado úmidos, como indica o casco; nem demasiado terrenos, o que se mostra pelo fato de terem casco fendido e não chato. Dos peixes, foi-lhes permitido comer as espécies mais secas, das quais as barbatanas e escamas são um indício, porque assim a natureza úmida do peixe é temperada. Das aves, foi-lhes permitido comer as espécies mais mansas, como galinhas, perdizes e semelhantes. Outra razão foi a detestação da idolatria: porque os gentios, e especialmente os egípcios, entre os quais haviam crescido, ofereciam esses animais proibidos a seus ídolos, ou os empregavam para fins de feitiçaria; ao passo que não comiam os animais que os judeus podiam comer, mas os adoravam como deuses, ou se abstinham por algum outro motivo de comê-los, como foi dito acima (A[3], ad 2). A terceira razão foi evitar o cuidado excessivo com a comida; por isso lhes foi permitido comer os animais que podiam ser obtidos fácil e rapidamente. Quanto ao sangue e à gordura, foi-lhes proibido participar deles de qualquer animal, sem exceção. O sangue foi proibido, tanto para evitar a crueldade, para que abominassem o derramamento de sangue humano, como foi dito acima (A[3], ad 8); quanto para evitar o rito idólatra pelo qual era costume os homens recolherem o sangue e reunirem-se ao redor dele para um banquete em honra dos ídolos, aos quais consideravam o sangue sumamente aceitável. Por isso o Senhor ordenou que o sangue fosse derramado e coberto com terra (Lv 17,13). Pela mesma razão foi-lhes proibido comer animais sufocados ou estrangulados: porque o sangue desses animais não seria separado do corpo; ou porque essa forma de morte é muito dolorosa para a vítima; e o Senhor queria afastá-los da crueldade até mesmo para com os animais irracionais, para que fossem menos inclinados a ser cruéis com outros homens, por estarem acostumados a ser benignos com as bestas. Foi-lhes proibido comer a gordura: tanto porque os idólatras a comiam em honra de seus deuses; quanto porque era queimada em honra de Deus; e, ainda, porque o sangue e a gordura não são nutritivos, causa esta atribuída pelo rabino Moisés (Doct. Perplex. iii). A razão pela qual lhes foi proibido comer os nervos é dada em Gn 32,32, onde se declara que "os filhos de Israel... não comem o nervo... porque tocou o nervo da coxa de Jacó e este encolheu." A razão figurada dessas coisas é que todos esses animais significavam certos pecados, em sinal dos quais aqueles animais foram proibidos. Donde Agostinho diz (Contra Fausto IV,7): "Se se questiona sobre o porco e o cordeiro, ambos são limpos por natureza, porque todas as criaturas de Deus são boas; contudo, o cordeiro é limpo e o porco é imundo em certa significação. Assim, se falas de um homem insensato e de um sábio, cada uma dessas expressões é limpa considerada na natureza do som, letras e sílabas de que se compõe; mas na significação, uma é limpa, a outra imunda." O animal que rumina e tem casco fendido é limpo em significação. Porque a divisão do casco é figura dos dois Testamentos; ou do Pai e do Filho; ou das duas naturezas em Cristo; da distinção do bem e do mal. Enquanto ruminar significa a meditação das Escrituras e uma sã compreensão delas; e quem carece de qualquer destas coisas é espiritualmente imundo. Da mesma forma, os peixes que têm escamas e barbatanas são limpos em significação. Porque as barbatanas significam a vida celestial ou contemplativa; enquanto as escamas significam uma vida de provações, cada uma das quais é necessária para a pureza espiritual. Das aves, certas espécies foram proibidas. Na águia, que voa a grande altura, é proibida a soberba; no grifo, que é hostil a cavalos e homens, é proibida a crueldade dos poderosos. O mergulhão, que se alimenta de aves muito pequenas, significa aqueles que oprimem os pobres. O milhafre, que é cheio de astúcia, denota aqueles que são fraudulentos em seus negócios. O abutre, que segue um exército, esperando alimentar-se dos cadáveres dos mortos, significa aqueles que gostam que outros morram ou lutem entre si para lucrarem com isso. As aves da espécie do corvo significam aqueles que são enegrecidos por suas concupiscências; ou aqueles que carecem de sentimentos bondosos, pois o corvo não voltou depois de ser solto da arca. O avestruz, que, embora ave, não pode voar e está sempre no chão, significa aqueles que militam pela causa de Deus e ao mesmo tempo se ocupam com negócios mundanos. A coruja, que vê claramente de noite, mas não pode ver de dia, denota aqueles que são hábeis nos assuntos temporais, mas obtusos nas coisas espirituais. A gaivota, que voa no ar e nada na água, significa aqueles que são parciais tanto para a Circuncisão como para o Batismo; ou também denota aqueles que querem voar pela contemplação, mas permanecem nas águas dos deleites sensuais. O falcão, que ajuda os homens a agarrar a presa, é figura daqueles que ajudam os fortes a prender os pobres. A coruja-pequena (screech-owl), que busca seu alimento de noite mas se esconde de dia, significa o homem lascivo que procura esconder-se em suas obras das trevas. O corvo-marinho, constituído de tal modo que pode permanecer muito tempo debaixo d'água, denota o glutão que mergulha nas águas do prazer. O íbis é uma ave africana de bico comprido e se alimenta de serpentes; e talvez seja a mesma que a cegonha: significa o invejoso que se refrigera com os males alheios como com serpentes. O cisne é de cor brilhante e, com o auxílio de seu longo pescoço, extrai seu alimento de lugares profundos na terra ou na água: pode denotar aqueles que buscam lucro terreno mediante uma aparência exterior de virtude. O abetouro (bittern) é uma ave do Oriente; tem bico comprido e suas mandíbulas são providas de folículos, onde armazena o alimento primeiro, depois procedendo a digeri-lo: é figura do avarento, que é excessivamente cuidadoso em entesourar os necessários da vida. A galinha-d'água (coot) [*Douay: 'porphyrion'. A descrição de S. Tomás corresponde à galinha-d'água ou frango-d'água: embora, naturalmente, ele esteja enganado quanto aos pés diferentes um do outro.] tem esta peculiaridade, de entre as aves, que tem um pé com membrana para nadar e um pé fendido para andar; pois nada como um pato na água e anda como uma perdiz na terra; bebe apenas quando morde, pois mergulha todo o alimento em água: é figura do homem que não quer aceitar conselho e não faz nada senão o que está embebido na água de sua própria vontade. A garça (heron) [*Vulg.: 'herodionem'], comumente chamada falcão, significa aqueles "cujos pés são ligeiros para derramar sangue" (Sl 13,3). A tarambola (plover) [*Aqui, novamente, os tradutores de Douai transcreveram da Vulgata: 'charadrion'; 'charadrius' é o nome genérico para todas as tarambolas.], que é uma ave tagarela, significa o mexeriqueiro. A poupa, que constrói seu ninho no esterco, alimenta-se de imundície fétida e cujo canto é como um gemido, denota a tristeza mundana que produz a morte naqueles que são imundos. O morcego, que voa perto do chão, significa aqueles que, dotados de conhecimento mundano, não buscam senão as coisas terrenas. Das aves e quadrúpedes, só foram permitidos aqueles que têm as patas traseiras mais compridas que as dianteiras, de modo que podem saltar; ao passo que foram proibidos aqueles que se apegam mais à terra: porque aqueles que abusam da doutrina dos quatro Evangelistas, de modo que não são elevados por ela, são reputados imundos. Pela proibição do sangue, gordura e nervos, devemos entender a proibição da crueldade, da lascívia e da ousadia em cometer pecado. **Resposta à Objeção 2:** Os homens costumavam comer plantas e outros produtos do solo mesmo antes do dilúvio; mas o comer carne parece ter sido introduzido depois do dilúvio; pois está escrito (Gn 9,3): "Assim como as ervas verdes, vos entreguei toda a carne." A razão disto é que o comer dos produtos do solo cheira mais a uma vida simples; ao passo que o comer carne cheira a vida delicada e demasiado cuidadosa. Porque o solo produz a erva por si mesmo; e tais produtos da terra podem ser obtidos em grande quantidade com muito pouco esforço; ao passo que não é pequeno o trabalho necessário para criar ou capturar um animal. Consequentemente, Deus, desejando trazer o seu povo de volta a um modo de vida mais simples, proibiu-lhes comer muitas espécies de animais, mas não aquelas coisas que são produzidas pelo solo. Outra razão pode ser que os animais eram oferecidos aos ídolos, enquanto os produtos do solo não o eram. **Resposta à Terceira Objeção** é clara pelo que foi dito (ad 1). **Resposta à Objeção 4:** Embora o cabrito morto não perceba o modo como sua carne é cozida, pareceria, contudo, cheirar a dureza de coração se o leite de sua mãe, que foi destinado para a nutrição de sua cria, fosse servido no mesmo prato. Pode-se também dizer que os gentios, ao celebrar as festas de seus ídolos, preparavam a carne de cabritos desse modo, para sacrifício ou banquete; daí que (Êx 23), depois de anunciadas as solenidades a serem celebradas sob a Lei, acrescenta-se: "Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." A razão figurada desta proibição é esta: o cabrito, significando Cristo, por causa "da semelhança da carne do pecado" (Rm 8,3), não devia ser cozido, isto é, morto, pelos judeus, "no leite de sua mãe", isto é, durante sua infância. Ou também significa que o cabrito, isto é, o pecador, não deve ser cozido no leite de sua mãe, isto é, não deve ser enganado pela lisonja. **Resposta à Objeção 5:** Os gentios ofereciam a seus deuses as primícias, que consideravam trazer-lhes boa sorte; ou as queimavam para fins secretos. Consequentemente, (os israelitas) foram ordenados a considerar os frutos dos primeiros três anos como imundos; porque naquela terra quase todas as árvores dão frutos em três anos; a saber, aquelas que são cultivadas a partir de semente, ou de enxerto, ou de estaca; mas raramente acontece que se plantem caroços ou sementes encerradas em vagens; pois levaria mais tempo para darem fruto; e a Lei considerava o que acontecia mais frequentemente. Os frutos do quarto ano, porém, como sendo as primícias dos frutos limpos, eram oferecidos a Deus; e a partir do quinto ano eram comidos. A razão figurada foi que isto prefigurava o fato de que, depois dos três estados da Lei (o primeiro desde Abraão até Davi, o segundo até serem levados cativos para a Babilônia, o terceiro até o tempo de Cristo), o Fruto da Lei, isto é, Cristo, haveria de ser oferecido a Deus. Ou ainda, que devemos desconfiar de nossos primeiros esforços, por causa de sua imperfeição. **Resposta à Objeção 6:** Diz-se de um homem em Eclo 19,27 que "o traje do corpo... mostra o que ele é." Por isso o Senhor quis que seu povo se distinguisse das outras nações, não só pelo sinal da circuncisão, que era na carne, mas também por certa diferença de traje. Por isso lhes foi proibido usar vestes tecidas de lã e linho juntos, e que uma mulher se vestisse com roupas de homem, ou vice-versa, por duas razões. Primeiro, para evitar o culto idólatra. Porque os gentios, em seus ritos religiosos, usavam vestes desse tipo, feitas de vários materiais. Além disso, no culto de Marte, as mulheres vestiam armaduras de homens; enquanto, inversamente, no culto de Vênus, os homens usavam trajes femininos. A segunda razão foi preservá-los da lascívia: porque o emprego de vários materiais na confecção de vestes significava união desordenada dos sexos, enquanto o uso de trajes masculinos por uma mulher, ou vice-versa, é um incentivo a desejos maus e oferece ocasião de lascívia. A razão figurada é que a proibição de usar uma veste tecida de lã e linho significava que era proibido unir a simplicidade da inocência, denotada pela lã, com a duplicidade da malícia, significada pelo linho. Significa também que é proibido à mulher presumir ensinar, ou realizar outros deveres dos homens; ou que o homem não deve adotar os modos efeminados de uma mulher. **Resposta à Objeção 7:** Como diz Jerônimo sobre Mt 23,6, "o Senhor lhes ordenou que fizessem franjas de cor violeta nos quatro cantos de suas vestes, para que os israelitas se distinguissem das outras nações." Assim, desse modo, professavam ser judeus; e, consequentemente, a própria visão desse sinal os lembrava de sua lei. Quando lemos: "Atá-los-ás na tua mão, e estarão sempre diante dos teus olhos [Vulg.: 'estarão e se moverão entre os teus olhos']", os fariseus deram uma falsa interpretação a estas palavras e escreveram o decálogo de Moisés num pergaminho e o ataram em suas testas como uma grinalda, de modo que se movia diante de seus olhos"; ao passo que a intenção do Senhor ao dar este mandamento era que estivessem atados em suas mãos, isto é, em suas obras; e que estivessem diante de seus olhos, isto é, em seus pensamentos. As fitas de cor violeta que eram inseridas em suas capas significam a intenção piedosa que deve acompanhar cada uma de nossas ações. Pode-se, contudo, dizer que, porque eram um povo carnal e de cerviz dura, era necessário que fossem estimulados por estas coisas sensíveis à observância da Lei. **Resposta à Objeção 8:** A afeição no homem é dupla: pode ser uma afeição da razão, ou pode ser uma afeição da paixão. Se a afeição de um homem é de razão, não importa como o homem se comporta para com os animais, porque Deus sujeitou todas as coisas ao poder do homem, segundo Sl 8,8: "Todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés"; e é neste sentido que o Apóstolo diz que "Deus não tem cuidado dos bois"; porque Deus não pergunta ao homem o que ele faz com os bois ou outros animais. Mas se a afeição do homem é de paixão, então ela se move também em relação a outros animais; pois, como a paixão da piedade é causada pelas aflições dos outros; e como acontece que mesmo animais irracionais são sensíveis à dor, é possível que a afeição de piedade surja num homem em relação aos sofrimentos dos animais. Ora, é evidente que, se um homem pratica uma afeição piedosa para com os animais, ele está mais disposto a ter compaixão dos seus semelhantes; por isso está escrito (Pv 12,10): "O justo atenta pela vida dos seus animais; mas as entranhas dos ímpios são cruéis." Consequentemente, o Senhor, para inculcar a piedade no povo judeu, que era propenso à crueldade, quis que eles praticassem a piedade até mesmo para com os animais mudos, e lhes proibiu fazer certas coisas que cheiravam a crueldade para com os animais. Daí lhes proibiu "cozer o cabrito no leite de sua mãe"; e "amarrar a boca ao boi que debulha o grão"; e matar "a mãe com os filhos". Pode-se, contudo, também dizer que estas proibições foram feitas em ódio à idolatria. Pois os egípcios consideravam ímpio permitir que o boi comesse do grão enquanto debulhava o trigo. Além disso, certos feiticeiros costumavam enlaçar a ave mãe com seus filhotes durante a incubação e empregá-los para assegurar a fecundidade e boa sorte na criação dos filhos; também porque era considerado um bom presságio encontrar a mãe chocando seus filhotes. Quanto à mistura de animais de espécies diversas, a razão literal pode ter sido tríplice. A primeira foi mostrar detestação pela idolatria dos egípcios, que empregavam várias misturas no culto dos planetas, que produzem vários efeitos, e sobre vários tipos de coisas segundo suas várias conjunções. A segunda razão foi a condenação dos pecados não naturais. A terceira razão foi a total remoção de todas as ocasiões de concupiscência. Porque animais de espécies diferentes não se reproduzem facilmente, a menos que isso seja provocado pelo homem; e movimentos de lascívia são excitados pela visão de tais coisas. Por isso, nas tradições judaicas, encontra-se prescrito, como afirma o rabino Moisés, que os homens desviem os olhos de tais visões. A razão figurada destas coisas é que as necessidades da vida não devem ser retiradas ao boi que debulha o grão, isto é, ao pregador que traz os feixes da doutrina, como afirma o Apóstolo (1 Cor 9,4 ss.). Também não devemos tomar a mãe com os filhos: porque em certas coisas temos que guardar os sentidos espirituais, isto é, a prole, e deixar de lado a observância da letra, isto é, a mãe, por exemplo, em todas as cerimônias da Lei. É também proibido que o animal de carga, isto é, qualquer pessoa do povo comum, seja permitido gerar, isto é, ter qualquer conexão, com animais de outra espécie, isto é, com gentios ou judeus. **Resposta à Objeção 9:** Todas estas misturas foram proibidas na agricultura; literalmente, em detestação da idolatria. Porque os egípcios, ao adorar os astros, empregavam várias combinações de sementes, animais e vestes, para representar as várias conexões dos astros. Ou então todas estas misturas foram proibidas em detestação do vício não natural. Têm, contudo, uma razão figurada. Pois a proibição: "Não semearás o teu campo com sementes diferentes", deve ser entendida, no sentido espiritual, como a proibição de semear doutrina estranha na Igreja, que é uma vinha espiritual. Da mesma forma, "o campo", isto é, a Igreja, não deve ser semeado "com sementes diferentes", isto é, com doutrinas católicas e heréticas. Tampouco é permitido lavrar "com boi e jumento juntos"; assim, um insensato não deve acompanhar um sábio na pregação, pois um impediria o outro. **Resposta à Objeção 10:** [*A Resposta à Décima Objeção falta nos códices. A solução dada aqui encontra-se em algumas edições e foi fornecida por Nicolai.] A prata e o ouro foram razoavelmente proibidos (Dt 7), não como se não estivessem sujeitos ao poder do homem, mas porque, como os próprios ídolos, todos os materiais de que os ídolos eram feitos foram amaldiçoados como odiosos aos olhos de Deus. Isto fica claro no mesmo capítulo, onde se lê mais adiante (Dt 7,26): "Não trarás nada do ídolo para tua casa, para que não te tornes um anátema como ele." Outra razão foi que, ao tomar prata e ouro, não fossem levados pela avareza à idolatria, para a qual os judeus eram inclinados. O outro preceito (Dt 23), sobre cobrir as excreções, foi justo e conveniente, tanto pela limpeza corporal; quanto para manter o ar saudável; e pelo respeito devido ao tabernáculo da aliança, que estava no meio do acampamento, onde o Senhor dizia habitar; como se expõe claramente na mesma passagem, onde, depois de expresso o mandamento, acrescenta-se logo a razão, a saber: "Pois o Senhor teu Deus anda no meio do teu acampamento, para te livrar, e para te entregar os teus inimigos, e o teu acampamento seja santo [isto é, limpo], e não apareça nele nenhuma imundície." A razão figurada deste preceito, segundo Gregório (Moral. XXXI), é que os pecados, que são as excreções fétidas da mente, devem ser cobertos pela penitência, para que nos tornemos aceitáveis a Deus, segundo Sl 31,1: "Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos." Ou, segundo uma glosa, que devemos reconhecer a condição infeliz da natureza humana e humildemente cobrir e purificar as manchas de um espírito inchado e orgulhoso no sulco profundo do auto-exame. **Resposta à Objeção 11:** Os feiticeiros e sacerdotes idólatras usavam, em seus ritos, ossos e carne de homens mortos. Por isso, a fim de extirpar os costumes do culto idólatra, o Senhor ordenou que os sacerdotes de grau inferior, que em tempos determinados serviam no templo, não "incorressem em imundície pela morte" de ninguém, exceto daqueles que lhes eram estreitamente aparentados, a saber, seu pai ou mãe, e outros assim próximos a eles. Mas o sumo sacerdote tinha de estar sempre pronto para

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether there was any reasonable cause for the ceremonial observances? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que a natureza dos preceitos cerimoniais não consiste em pertencerem ao culto de Deus. Porque, na Lei Antiga, foram dados aos judeus certos preceitos sobre a abstinência de alimentos (Lv 11) e sobre a abstenção de certas espécies de vestes, por exemplo (Lv 19,19): «Não vestireis vestido tecido de duas espécies»; e ainda (Nm 15,38): «Que façam para si franjas nas bordas dos seus vestidos». Ora, estes não são preceitos morais, pois não permanecem na Lei Nova; nem são preceitos judiciais, pois não pertencem ao proferir juízo entre homem e homem. Logo, são preceitos cerimoniais. Todavia, de modo algum parecem pertencer ao culto de Deus. Portanto, a natureza dos preceitos cerimoniais não consiste em pertencerem ao culto divino. **Objeção 2:** Ademais, alguns afirmam que os preceitos cerimoniais são aqueles que pertencem às solenidades, como se fossem assim chamados dos «círios» que se acendem nessas ocasiões. Ora, muitas outras coisas, além das solenidades, pertencem ao culto de Deus. Logo, não parece que os preceitos cerimoniais sejam assim chamados por pertencerem ao culto divino. **Objeção 3:** Ademais, alguns dizem que os preceitos cerimoniais são padrões, isto é, regras de salvação, porque o grego *chaire* equivale ao latim *salve*. Ora, todos os preceitos da Lei são regras de salvação, e não apenas aqueles que pertencem ao culto de Deus. Portanto, não só os preceitos que pertencem ao culto divino são chamados cerimoniais. **Objeção 4:** Ademais, o Rabino Moisés diz (Guia dos Perplexos, III) que os preceitos cerimoniais são aqueles para os quais não há razão evidente. Ora, há razão evidente para muitas coisas pertencentes ao culto de Deus, como a observância do sábado, as festas da Páscoa e dos Tabernáculos, e muitas outras, cuja razão é exposta na Lei. Portanto, os preceitos cerimoniais não são aqueles que pertencem ao culto de Deus. **Em sentido contrário,** está escrito (Êx 18,19-20): «Sê tu ao povo nas coisas que pertencem a Deus... e mostra ao povo as cerimónias e o modo de adorar». **Respondo** que, como foi dito acima (Q. 99, art. 4), os preceitos cerimoniais são determinações dos preceitos morais pelos quais o homem é dirigido a Deus, assim como os preceitos judiciais são determinações dos preceitos morais pelos quais ele é dirigido ao próximo. Ora, o homem é dirigido a Deus pelo culto que Lhe é devido. Por isso, aqueles preceitos são propriamente chamados cerimoniais, que pertencem ao culto divino. A razão de serem assim chamados foi dada acima (Q. 99, art. 3), quando estabelecemos a distinção entre os preceitos cerimoniais e os demais. **Resposta à Objeção 1:** O culto divino inclui não só os sacrifícios e coisas semelhantes, que parecem dirigir-se imediatamente a Deus, mas também aquelas coisas pelas quais os seus adoradores são devidamente preparados para O adorar; assim também, nas outras matérias, tudo o que é preparatório para o fim cai sob a ciência cujo objeto é o fim. Por conseguinte, aqueles preceitos da Lei que dizem respeito ao vestuário e à alimentação dos adoradores de Deus, e outras coisas tais, pertencem a uma certa preparação dos ministros, com vista a dispô-los para o culto divino; assim como os que servem a um rei usam de certas observâncias especiais. Consequentemente, tais preceitos estão contidos sob os preceitos cerimoniais. **Resposta à Objeção 2:** A alegada explicação do nome não parece muito provável, especialmente porque a Lei não contém muitas instâncias de acender círios nas solenidades; pois até as lâmpadas do candelabro eram providas de «azeite de oliveiras», como se diz em Lv 24,2. Contudo, podemos dizer que todas as coisas pertencentes ao culto divino eram observadas com mais cuidado nas festas solenes; de modo que todos os preceitos cerimoniais podem ser incluídos na observância das solenidades. **Resposta à Objeção 3:** Tampouco esta explicação do nome parece muito procedente, visto que a palavra «cerimónia» não é grega, mas latina. Podemos, todavia, dizer que, sendo a salvação do homem proveniente de Deus, aqueles preceitos acima de tudo parecem ser regras de salvação, que dirigem o homem a Deus; e, por conseguinte, os que se referem ao culto divino são chamados preceitos cerimoniais. **Resposta à Objeção 4:** Esta explicação dos preceitos cerimoniais tem certo grau de probabilidade; não que eles sejam chamados cerimoniais precisamente porque não há razão evidente para eles; isto é uma espécie de consequência. Pois, visto que os preceitos referentes ao culto divino devem ser figurados, como diremos adiante (art. 2), daí resulta que a razão deles não é tão evidente.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether the nature of the ceremonial precepts consists in their pertaining to the worship of God? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objecção 1: Parece que não houve causa razoável para as observâncias cerimoniais. Porque, como diz o Apóstolo (1 Tim. 4,4), «toda a criatura de Deus é boa, e nada há que rejeitar, recebendo-o com acção de graças.» Não era, pois, conveniente que lhes fosse proibido comer certos alimentos, como se fossem imundos, segundo Lev. 11 [*Cf. Dt. 14]. Objecção 2: Além disso, assim como os animais são dados ao homem para alimento, assim também as ervas; donde está escrito (Gn. 9,3): «Como as ervas verdes, vos entreguei toda a carne.» Ora, a Lei não distinguiu nenhuma erva das demais como imunda, embora algumas sejam muito nocivas, por exemplo, as venenosas. Logo, parece que nem nenhum animal devia ter sido proibido como imundo. Objecção 3: Além disso, se a matéria da qual uma coisa é gerada é imunda, parece que, do mesmo modo, a coisa gerada dela é imunda. Ora, a carne é gerada do sangue. Portanto, já que toda a carne não foi proibida como imunda, parece que, da mesma forma, nem o sangue devia ter sido proibido como imundo; nem a gordura, que é engendrada do sangue. Objecção 4: Além disso, Nosso Senhor disse (Mat. 10,28; cf. Lc. 12,4) que não se devem temer os que «matam o corpo», pois depois da morte «não têm mais o que fazer»; o que não seria verdade se, depois da morte, pudesse advir ao homem algum dano por algo feito ao seu corpo. Muito menos, portanto, importa a um animal já morto como a sua carne seja cozida. Consequentemente, não parece haver razão no que se diz em Êx. 23,19: «Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.» Objecção 5: Além disso, tudo o que é primeiro gerado do homem e do animal, como sendo o mais perfeito, é mandado oferecer ao Senhor (Êx. 13). Portanto, é um mandamento inconveniente o que se estabelece em Lev. 19,23: «Quando tiverdes entrado na terra e tiverdes plantado nela árvores frutíferas, tirareis a incircuncisão [*'Praeputia', que a versão de Douay traduz como 'primeiros frutos'] delas», isto é, as primeiras colheitas, e «ser-vos-ão imundas; não comereis delas.» Objecção 6: Além disso, o vestuário é algo extrínseco ao corpo do homem. Portanto, não deveriam ter sido proibidas aos judeus certas espécies de vestes; por exemplo (Lev. 19,19): «Não te vestirás com um pano tecido de duas espécies»; e (Dt. 22,5): «A mulher não se vestirá com traje de homem, nem o homem usará traje de mulher»; e mais adiante (Dt. 22,11): «Não te vestirás com um pano tecido de lã e linho juntamente.» Objecção 7: Além disso, lembrar-se dos mandamentos de Deus não diz respeito ao corpo, mas ao coração. Logo, é inconvenientemente prescrito (Dt. 6,8 e segs.) que «ligassem» os mandamentos de Deus «como um sinal» nas suas mãos; e que os «escrevessem no umbral»; e (Num. 15,38 e segs.) que «fizessem franjas nos cantos dos seus vestidos, pondo nelas fitas azuis … para que se lembrassem … dos mandamentos do Senhor.» Objecção 8: Além disso, o Apóstolo diz (1 Cor. 9,9) que Deus não «cuida dos bois» e, portanto, nem de outros animais irracionais. Logo, sem razão se manda (Dt. 22,6): «Se encontrares, andando pelo caminho, o ninho de uma ave numa árvore … não tomarás a mãe com os seus filhos»; e (Dt. 25,4): «Não atarás a boca ao boi que debulha o teu grão»; e (Lev. 19,19): «Não farás misturar os teus animais com animais de outra espécie.» Objecção 9: Além disso, não se fez distinção entre plantas limpas e imundas. Muito menos, portanto, se deveria ter feito alguma distinção acerca do cultivo das plantas. Logo, foi inconvenientemente prescrito (Lev. 19,19): «Não semearás o teu campo com sementes diversas»; e (Dt. 22,9 e segs.): «Não semearás a tua vinha com sementes diversas»; e: «Não lavrarás com boi e jumento juntamente.» Objecção 10: Além disso, é manifesto que as coisas inanimadas estão sobretudo sujeitas ao poder do homem. Portanto, não era conveniente privar o homem de tomar a prata e o ouro de que os ídolos eram feitos, ou qualquer coisa que encontrassem nas casas dos ídolos, como se expressa no mandamento da Lei (Dt. 7,25 e segs.). Parece também um mandamento absurdo o que se estabelece em Dt. 23,13: que «cavassem ao redor e … cobrissem com terra aquilo de que se haviam aliviado.» Objecção 11: Além disso, a piedade é especialmente requerida nos sacerdotes. Mas parece ser um acto de piedade assistir ao sepultamento dos próprios amigos; donde Tobias é louvado por assim fazer (Tob. 1,20 e segs.). Do mesmo modo, é às vezes um acto de piedade casar com uma mulher perdida, porque ela é assim libertada do pecado e da infâmia. Logo, parece inconsistente que estas coisas sejam proibidas aos sacerdotes (Lev. 21). Em contrário, está escrito (Dt. 18,14): «Mas tu és instruído doutra maneira pelo Senhor teu Deus»; donde podemos coligir que estas observâncias foram instituídas por Deus como uma prerrogativa especial daquele povo. Logo, não são sem razão ou causa. Respondo que: O povo judeu, como foi dito acima (A[5]), foi especialmente escolhido para o culto de Deus, e entre eles os próprios sacerdotes foram especialmente separados para esse fim. E assim como as outras coisas que se aplicam ao culto divino precisam ser assinaladas de algum modo particular para que sejam dignas do culto de Deus, assim também no modo de vida daquele povo, e especialmente dos sacerdotes, necessitavam haver certas coisas especiais convenientes ao culto divino, quer espiritual, quer corporal. Ora, o culto prescrito pela Lei prefigurava o mistério de Cristo; de modo que tudo o que faziam era uma figura das coisas pertencentes a Cristo, segundo 1 Cor. 10,11: «Todas estas coisas lhes sucederam em figura.» Consequentemente, as razões destas observâncias podem ser tomadas de dois modos: primeiro, segundo a sua conveniência para o culto de Deus; segundo, segundo prefiguravam algo tocante ao modo de vida cristão. Resposta à Objecção 1: Como foi dito acima (A[5], ad 4,5), a Lei distinguiu uma dupla poluição ou imundícia: uma, a do pecado, pela qual a alma era contaminada; e outra, consistente em alguma espécie de corrupção, pela qual o corpo era de algum modo infectado. Falando, pois, da primeira imundícia mencionada, nenhum alimento é imundo, nem pode contaminar o homem, por sua natureza; donde lemos (Mat. 15,11): «Não o que entra pela boca contamina o homem; mas o que sai da boca, isso contamina o homem»; palavras estas que são explicadas (Mat. 15,17) como referindo-se aos pecados. No entanto, certos alimentos podem contaminar a alma acidentalmente; na medida em que o homem os toma contra a obediência ou um voto, ou por excessiva concupiscência; ou por serem um incentivo à lascívia, pelo que alguns se abstêm do vinho e da carne. Se, porém, falarmos da imundícia corporal, consistente em alguma espécie de corrupção, a carne de certos animais é imunda, ou porque, como o porco, se alimentam de coisas imundas; ou porque a sua vida é em ambientes imundos: assim certos animais, como as toupeiras, ratos e semelhantes, vivem debaixo da terra, donde contraem um certo cheiro desagradável; ou porque a sua carne, por ser demasiado húmida ou demasiado seca, engendra humores corruptos no corpo humano. Por isso lhes foi proibido comer a carne de animais de pés chatos, isto é, animais de casco não fendido, devido à sua terrenalidade; e da mesma forma lhes foi proibido comer a carne de animais que têm muitas fendas nos pés, porque tais são muito ferozes e a sua carne é muito seca, como a carne de leões e semelhantes. Pela mesma razão, foram-lhes proibidas certas aves de rapina, cuja carne é muito seca, e certas aves aquáticas devido à sua excessiva humidade. Do mesmo modo, certos peixes sem barbatanas e escamas foram proibidos devido à sua excessiva humidade; tais como as enguias e semelhantes. Permitiu-se-lhes, contudo, comer ruminantes e animais de casco fendido, porque nesses animais os humores são bem absorvidos e a sua natureza bem equilibrada: pois nem são demasiado húmidos, como indica o casco; nem demasiado terrenos, o que se mostra por terem não um casco chato, mas fendido. Dos peixes, foi-lhes permitido comer as espécies mais secas, das quais as barbatanas e escamas são um indício, porque assim a natureza húmida do peixe é temperada. Das aves, foi-lhes permitido comer as mais mansas, tais como galinhas, perdizes e semelhantes. Outra razão foi a detestação da idolatria: porque os gentios, e especialmente os egípcios, entre os quais haviam crescido, ofereciam aos seus ídolos estes animais proibidos, ou empregavam-nos para fins de feitiçaria; ao passo que não comiam os animais que aos judeus era permitido comer, mas adoravam-nos como deuses, ou abstinham-se, por algum outro motivo, de os comer, como foi dito acima (A[3], ad 2). A terceira razão foi prevenir o cuidado excessivo com a comida: por isso lhes foi permitido comer os animais que podiam ser obtidos fácil e rapidamente. Quanto ao sangue e à gordura, foi-lhes proibido participar deles de qualquer animal, sem excepção. O sangue foi proibido, tanto para evitar a crueldade, a fim de que abominassem o derramamento de sangue humano, como foi dito acima (A[3], ad 8); como para fugir ao rito idólatra pelo qual era costume os homens recolherem o sangue e reunirem-se em volta dele para um banquete em honra dos ídolos, aos quais consideravam o sangue muito aceitável. Por isso o Senhor mandou que o sangue fosse derramado e coberto com terra (Lev. 17,13). Pela mesma razão, foi-lhes proibido comer animais sufocados ou estrangulados: porque o sangue destes animais não seria separado do corpo; ou porque esta forma de morte é muito dolorosa para a vítima; e o Senhor queria afastá-los da crueldade mesmo para com os animais irracionais, para que fossem menos inclinados a ser cruéis para com outros homens, por estarem acostumados a ser bondosos para com as bestas. Foi-lhes proibido comer a gordura: tanto porque os idólatras a comiam em honra dos seus deuses; como porque costumava ser queimada em honra de Deus; e, ainda, porque o sangue e a gordura não são nutritivos, que é a causa assinalada pelo Rabino Moisés (Doct. Perplex. iii). A razão por que lhes foi proibido comer os nervos é dada em Gn. 32,32, onde se diz que «os filhos de Israel … não comem o nervo … porque tocou o nervo da coxa de Jacob e este encolheu.» A razão figurada destas coisas é que todos estes animais significavam certos pecados, em sinal do quais aqueles animais foram proibidos. Por isso diz Agostinho (Contra Faustum iv, 7): «Se o porco e o cordeiro forem postos em questão, ambos são limpos por natureza, porque todas as criaturas de Deus são boas; todavia, o cordeiro é limpo, e o porco é imundo numa certa significação. Assim, se falares de um homem insensato e de um homem sábio, cada uma destas expressões é limpa considerada na natureza do som, letras e sílabas de que é composta; mas na significação, uma é limpa, a outra imunda.» O animal que rumina e tem o casco fendido é limpo em significação. Porque a divisão do casco é uma figura dos dois Testamentos; ou do Pai e do Filho; ou das duas naturezas em Cristo; da distinção do bem e do mal. Enquanto que ruminar significa a meditação das Escrituras e uma sã compreensão delas; e quem carece de qualquer destas coisas é espiritualmente imundo. Do mesmo modo, aqueles peixes que têm escamas e barbatanas são limpos em significação. Porque as barbatanas significam a vida celeste ou contemplativa; enquanto que as escamas significam uma vida de provações, cada uma das quais é exigida para a pureza espiritual. Das aves, certas espécies foram proibidas. Na águia, que voa a grande altura, é proibida a soberba; no grifo, que é hostil a cavalos e homens, é proibida a crueldade dos poderosos. O abutre, que se alimenta de aves muito pequenas, significa aqueles que oprimem os pobres. O milhafre, que é cheio de astúcia, denota os fraudulentos nos seus negócios. O abutre, que segue um exército, esperando alimentar-se dos cadáveres dos mortos, significa aqueles que gostam que outros morram ou lutem entre si para tirarem proveito. As aves da espécie dos corvos significam aqueles que são enegrecidos pelas suas concupiscências; ou aqueles que carecem de sentimentos benignos, pois o corvo não voltou quando foi solto da arca. O avestruz, que, embora seja ave, não pode voar e está sempre no chão, significa aqueles que combatem a causa de Deus e ao mesmo tempo se ocupam com negócios mundanos. O mocho, que vê claramente de noite, mas não pode ver de dia, denota aqueles que são hábeis nos assuntos temporais, mas obtusos nas coisas espirituais. A gaivota, que voa no ar e nada na água, significa aqueles que são parciais tanto para a Circuncisão como para o Batismo; ou então denota aqueles que quereriam voar pela contemplação, mas habitam nas águas dos deleites sensuais. O falcão, que ajuda os homens a apanhar a presa, é figura daqueles que ajudam os poderosos a depredar os pobres. O mocho-pequeno, que busca o alimento de noite mas se esconde de dia, significa o homem luxurioso que procura esconder-se nas suas obras de trevas. O corvo-marinho, constituído de modo a poder permanecer muito tempo debaixo de água, denota o glutão que se mergulha nas águas do prazer. O íbis é uma ave africana de bico comprido e alimenta-se de serpentes; e talvez seja o mesmo que a cegonha: significa o invejoso, que se refrigera com os males alheios, como com serpentes. O cisne é de cor brilhante e, com o auxílio do seu longo pescoço, extrai o alimento de lugares profundos na terra ou na água: pode denotar aqueles que buscam o lucro terreno através de uma aparência exterior de virtude. O abutre-dos-lagartos [*Douay: 'porphyrion.' A descrição de S. Tomás corresponde ao galo-d'água ou frango-d'água, embora, naturalmente, ele se engane quanto aos pés diferentes.] tem esta peculiaridade, diferente das outras aves, que tem um pé palmado para nadar e um pé fendido para andar; pois nada como um pato na água e caminha como uma perdiz em terra; bebe apenas quando morde, pois mergulha todo o alimento na água: é figura de um homem que não aceita conselho e não faz nada senão o que está embebido na água da sua própria vontade. A garça [*Vulg.: 'herodionem'], vulgarmente chamada falcão, significa aqueles cujos «pés são ligeiros para derramar sangue» (Sl. 13,3). O maçarico [*Aqui, novamente, os tradutores de Douay transcreveram da Vulgata: 'charadrion'; 'charadrius' é o nome genérico para todos os maçaricos.], que é uma ave tagarela, significa o mexeriqueiro. A poupa, que constrói o seu ninho no esterco, alimenta-se de imundície fétida e o seu canto é como um gemido, denota a tristeza mundana que obra a morte naqueles que são imundos. O morcego, que voa perto do chão, significa aqueles que, dotados de ciência mundana, não buscam senão as coisas terrenas. Das aves e quadrúpedes, só foram permitidos aqueles que têm as pernas traseiras mais compridas que as dianteiras, de modo a poderem saltar; ao passo que foram proibidos aqueles que se apegam mais à terra: porque aqueles que abusam da doutrina dos quatro Evangelistas, de modo que não são por ela elevados, são reputados imundos. Pela proibição do sangue, da gordura e dos nervos, devemos entender a proibição da crueldade, da lascívia e da ousadia no pecar. Resposta à Objecção 2: Os homens costumavam comer as plantas e outros produtos do solo mesmo antes do dilúvio; mas o comer carne parece ter sido introduzido depois do dilúvio; pois está escrito (Gn. 9,3): «Assim como as ervas verdes, vos entreguei toda a carne.» A razão disto foi que o comer os produtos do solo cheira mais a uma vida simples; enquanto que o comer carne cheira a vida delicada e demasiado cuidadosa. Porque o solo produz a erva por si mesmo; e tais produtos da terra podem ser obtidos em grande quantidade com muito pouco esforço; enquanto que não é pequeno o trabalho necessário para criar ou apanhar um animal. Consequentemente, querendo Deus trazer o Seu povo de volta a um modo de vida mais simples, proibiu-lhes comer muitas espécies de animais, mas não aquelas coisas que são produzidas pelo solo. Outra razão pode ser que os animais eram oferecidos aos ídolos, enquanto que os produtos do solo não o eram. A Resposta à Terceira Objecção é clara pelo que foi dito (ad 1). Resposta à Objecção 4: Embora o cabrito já morto não tenha percepção do modo como a sua carne é cozida, contudo pareceria cheirar a dureza de coração se o leite da sua mãe, que foi destinado para o sustento da sua cria, fosse servido no mesmo prato. Poderia também dizer-se que os gentios, ao celebrar as festas dos seus ídolos, preparavam a carne dos cabritos desta maneira, para fins de sacrifício ou banquete; por isso em Êx. 23, depois de anunciadas as solenidades a celebrar sob a Lei, acrescenta-se: «Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.» A razão figurada desta proibição é esta: o cabrito, significando Cristo, por causa da «semelhança da carne do pecado» (Rom. 8,3), não devia ser cozido, i.e., morto, pelos judeus, «no leite de sua mãe», i.e., durante a Sua infância. Ou então significa que o cabrito, i.e., o pecador, não deve ser cozido no leite de sua mãe, i.e., não deve ser lisonjeado com adulação. Resposta à Objecção 5: Os gentios ofereciam aos seus deuses as primícias, que consideravam como que lhes trazendo boa sorte; ou queimavam-nas para fins de secretismo. Consequentemente, foi mandado aos (israelitas) que considerassem os frutos dos primeiros três anos como imundos: porque naquela terra quase todas as árvores dão fruto em três anos; a saber, aquelas árvores que são cultivadas quer de semente, quer de enxerto, quer de estaca; mas raramente acontece que sejam semeados os caroços ou sementes encerradas numa vagem; pois isso levaria mais tempo a dar fruto; e a Lei considerava o que acontecia mais frequentemente. Os frutos, porém, do quarto ano, como sendo as primícias dos frutos limpos, eram oferecidos a Deus; e a partir do quinto ano eram comidos. A razão figurada foi que isto prefigurava o facto de que, depois dos três estados da Lei (o primeiro durando desde Abraão até David, o segundo até serem levados cativos para Babilónia, o terceiro até ao tempo de Cristo), o Fruto da Lei, i.e., Cristo, havia de ser oferecido a Deus. Ou ainda, que devemos desconfiar dos nossos primeiros esforços, por causa da sua imperfeição. Resposta à Objecção 6: Diz-se de um homem em Eclo. 19,27 que «o trajo do corpo … mostra o que ele é». Por isso o Senhor quis que o Seu povo se distinguisse das outras nações, não só pelo sinal da circuncisão, que era na carne, mas também por uma certa diferença de vestuário. Por isso lhes foi proibido usar vestes tecidas de lã e linho juntamente, e que a mulher se vestisse com traje de homem, ou vice-versa, por duas razões. Primeiro, para evitar o culto idólatra. Porque os gentios, nos seus ritos religiosos, usavam vestes desta espécie, feitas de vários materiais. Além disso, no culto de Marte, as mulheres vestiam as armas dos homens; enquanto que, inversamente, no culto de Vénus, os homens vestiam trajes de mulher. A segunda razão foi para os preservar da lascívia: porque o emprego de vários materiais na confecção das vestes significava a união desordenada dos sexos, enquanto que o uso de traje masculino por uma mulher, ou vice-versa, é um incentivo para os maus desejos e oferece ocasião de lascívia. A razão figurada é que a proibição de usar uma veste tecida de lã e linho significava que era proibido unir a simplicidade da inocência, denotada pela lã, com a duplicidade da malícia, significada pelo linho. Significa também que é proibido à mulher presumir ensinar, ou exercer outros ofícios dos homens; ou que o homem não deve adoptar os modos efeminados de uma mulher. Resposta à Objecção 7: Como diz Jerónimo sobre Mat. 23,6, «o Senhor lhes mandou que fizessem franjas de cor violeta nos quatro cantos dos seus vestidos, para que os israelitas se distinguissem das outras nações.» Por isso, deste modo, professavam ser judeus; e consequentemente a própria vista deste sinal os lembrava da sua lei. Quando lemos: «Atá-las-ás na tua mão, e serão sempre diante dos teus olhos [Vulg.: 'serão e se moverão entre os teus olhos']», os fariseus deram uma falsa interpretação a estas palavras, e escreveram o decálogo de Moisés num pergaminho, e ataram-no nas suas testas como uma coroa, de modo que se movia diante dos seus olhos; ao passo que a intenção do Senhor ao dar este mandamento era que fossem atados nas suas mãos, i.e., nas suas obras; e que estivessem diante dos seus olhos, i.e., nos seus pensamentos. As fitas de cor violeta que eram inseridas nos seus mantos significam a intenção piedosa que deve acompanhar cada uma das nossas acções. Pode, todavia, dizer-se que, por serem um povo carnal e de cerviz dura, era necessário que fossem estimulados por estas coisas sensíveis à observância da Lei. Resposta à Objecção 8: A afeição no homem é dupla: pode ser uma afeição da razão, ou pode ser

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