Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o homem não deve amar o seu corpo por caridade. Pois não amamos aquele com quem não queremos associar-nos. Ora, os que têm caridade fogem da sociedade do corpo, conforme Rom. 7,24: “Quem me livrará do corpo desta morte?” e Fil. 1,23: “Tendo desejo de ser desatado e de estar com Cristo.” Logo, nossos corpos não devem ser amados por caridade. **Objeção 2:** Ademais, a amizade da caridade se funda na comunhão da fruição de Deus. Ora, o corpo não pode ter parte nessa fruição. Logo, o corpo não deve ser amado por caridade. **Objeção 3:** Ademais, sendo a caridade uma espécie de amizade, dirige-se àqueles que são capazes de retribuir o amor. Ora, nosso corpo não pode amar-nos por caridade. Portanto, não deve ser amado por caridade. **Ao contrário,** Agostinho diz (Doutr. Crist. I, 23,26) que há quatro coisas que devemos amar por caridade, e entre elas enumera o nosso próprio corpo. **Respondo:** Nosso corpo pode ser considerado de dois modos: primeiro, quanto à sua natureza; segundo, quanto à corrupção do pecado e sua pena. Ora, a natureza do nosso corpo foi criada, não por um princípio mau, como fingem os maniqueus, mas por Deus. Portanto, podemos usá-lo para o serviço de Deus, conforme Rom. 6,13: “Apresentai vossos membros como instrumentos de justiça a Deus.” Consequentemente, pelo amor da caridade com que amamos a Deus, devemos amar também nossos corpos; mas não devemos amar os maus efeitos do pecado e a corrupção da pena; antes, pelo desejo da caridade, devemos ansiar pela remoção de tais coisas. **Resposta à objeção 1:** O Apóstolo não fugia da sociedade do seu corpo quanto à natureza do corpo; com efeito, sob esse aspecto, ele relutava em ser privado dela, conforme 2 Cor. 5,4: “Não queremos ser despojados, mas revestidos.” Ele desejava, porém, escapar da mancha da concupiscência, que permanece no corpo, e da corrupção do corpo que oprime a alma, impedindo-a de ver a Deus. Por isso diz expressamente: “Do corpo desta morte.” **Resposta à objeção 2:** Embora nossos corpos não possam fruir de Deus conhecendo-O e amando-O, todavia, pelas obras que fazemos por meio do corpo, podemos alcançar o perfeito conhecimento de Deus. Por isso, da fruição na alma transborda uma certa felicidade para o corpo, a saber, “a saúde e a incorrupção”, como diz Agostinho (Ep. ad Dióscoro, CXVIII). Portanto, visto que o corpo tem, de certo modo, uma participação na felicidade, pode ser amado com o amor da caridade. **Resposta à objeção 3:** O amor mútuo encontra-se na amizade que se tem por outrem, mas não naquela que um homem tem por si mesmo, seja quanto à sua alma, seja quanto ao seu corpo.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether a man ought to love his body out of charity? · séc. XIII
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