Santo Thomas Aquinas
Artigo 1 — Se Cristo devia pregar não só aos judeus, mas também aos gentios? Objeção 1: Parece que Cristo devia pregar não só aos judeus, mas também aos gentios. Pois está escrito (Is. 49:6): «Pouco é que tu sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó [Vulg.: 'Israel'] e converter as relíquias de Jacó [Vulg.: 'Israel']: eis que te dei por luz dos gentios, para que sejas a minha salvação até a extremidade da terra.» Ora, Cristo deu luz e salvação mediante sua doutrina. Logo, parece que foi «pouca coisa» que ele pregasse somente aos judeus, e não aos gentios. Objeção 2: Ademais, como está escrito (Mt. 7:29): «Ensinava-os como quem tem poder.» Ora, o poder da doutrina manifesta-se mais na instrução daqueles que, como os gentios, não receberam notícia alguma; donde diz o Apóstolo (Rm. 15:20): «Assim me esforcei por pregar o evangelho, não onde Cristo era nomeado [Vulg.: 'este' evangelho], para não edificar sobre fundamento alheio.» Portanto, muito mais devia Cristo ter pregado aos gentios do que aos judeus. Objeção 3: Ademais, é mais útil instruir muitos do que um só. Ora, Cristo instruiu alguns gentios em particular, como a mulher samaritana (Jo. 4) e a mulher cananeia (Mt. 15). Logo, com muito mais razão, devia Cristo pregar aos gentios em geral. Ao contrário, Nosso Senhor disse (Mt. 15:24): «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.» E (Rm. 10:15) está escrito: «Como pregarão eles, se não forem enviados?» Logo, Cristo não devia pregar aos gentios. Respondo que convinha que a pregação de Cristo, quer por si mesmo quer por seus apóstolos, se dirigisse primeiramente só aos judeus. Primeiro, para mostrar que com sua vinda se cumpriram as promessas feitas outrora aos judeus, e não aos gentios. Assim diz o Apóstolo (Rm. 15:8): «Digo que Cristo foi ministro da circuncisão», isto é, apóstolo e pregador dos judeus, «para a verdade de Deus, a fim de confirmar as promessas feitas aos pais.» Segundo, para mostrar que sua vinda era de Deus; porque, como está escrito (Rm. 13:1): «As coisas que são de Deus são bem ordenadas [Vulg.: 'as que são, são ordenadas por Deus']» [*Ver Índice Bíblico sobre esta passagem]. Ora, a ordem reta exigia que a doutrina de Cristo fosse primeiramente manifestada aos judeus, que, crendo e adorando um só Deus, estavam mais próximos de Deus, e que fosse transmitida por eles aos gentios: assim como na hierarquia celeste a iluminação divina chega aos anjos inferiores por meio dos superiores. Donde, a respeito de Mt. 15:24, «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel», diz Jerônimo: «Não quer dizer com isso que não foi enviado aos gentios, mas que foi enviado primeiramente aos judeus.» E assim lemos (Is. 66:19): «Enviarei deles que forem salvos», isto é, dos judeus, «aos gentios... e eles anunciarão a minha glória aos gentios.» Terceiro, para tirar aos judeus a ocasião de escusa. Donde, a respeito de Mt. 10:5, «Não ireis pelo caminho dos gentios», diz Jerônimo: «Convinha que a vinda de Cristo fosse anunciada primeiramente aos judeus, para que não tivessem escusa válida e dissessem que rejeitaram a Nosso Senhor porque tinha enviado seus apóstolos aos gentios e samaritanos.» Quarto, porque foi pelo triunfo da cruz que Cristo mereceu o poder e o senhorio sobre os gentios. Donde está escrito (Ap. 2:26, 28): «O que vencer... dar-lhe-ei poder sobre as nações... assim como eu também recebi de meu Pai»; e isso porque se fez «obediente até a morte de cruz, e Deus o exaltou... para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho...» e «toda língua confesse» (Fl. 2:8-11). Consequentemente, não quis que sua doutrina fosse pregada aos gentios antes de sua Paixão: foi depois de sua Paixão que disse a seus discípulos (Mt. 28:19): «Ide, ensinai a todas as nações.» Por isso, quando, pouco antes de sua Paixão, certos gentios quiseram ver Jesus, disse ele: «Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto» (Jo. 12:20-25); e como diz Agostinho comentando esta passagem: «Chamou-se a si mesmo grão de trigo que devia ser mortificado pela incredulidade dos judeus e multiplicado pela fé das nações.» Resposta à Objeção 1: Cristo foi dado por luz e salvação dos gentios por meio de seus discípulos, a quem enviou para pregar-lhes. Resposta à Objeção 2: É sinal, não de menor, mas de maior poder, fazer algo por meio de outros do que por si mesmo. E assim o poder divino de Cristo foi especialmente mostrado nisto, que ele concedeu ao ensinamento de seus discípulos tal poder que converteram os gentios a Cristo, embora estes nada tivessem ouvido dele. Ora, o poder do ensino de Cristo deve ser considerado nos milagres com que confirmou sua doutrina, na eficácia de sua persuasão e na autoridade de suas palavras, pois falava como quem estava acima da Lei quando disse: «Eu, porém, vos digo» (Mt. 5:22,28,32,34,39,44); e, ainda, na força de sua justiça manifestada em sua vida sem pecado. Resposta à Objeção 3: Assim como não convinha que Cristo de início manifestasse sua doutrina aos gentios igualmente como aos judeus, para que aparecesse como enviado aos judeus, como ao povo primogênito; assim também não lhe convinha desprezar totalmente os gentios, para que não fossem privados da esperança de salvação. Por esta razão, alguns gentios em particular foram admitidos, por causa da excelência de sua fé e devoção.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether Christ should have preached not only to the Jews, but also to the Gentiles? · séc. XIII
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