Santo Thomas Aquinas
**Artigo 5 — Se em Cristo houve união de alma e corpo?** **Objeção 1:** Parece que em Cristo não houve união de alma e corpo. Pois da união da alma e do corpo em nós se origina uma pessoa ou uma hipóstase humana. Logo, se a alma e o corpo estivessem unidos em Cristo, seguir-se-ia que dessa união resultou uma hipóstase. Mas esta não era a hipóstase de Deus Verbo, porque esta é eterna. Portanto, em Cristo haveria uma pessoa ou hipóstase além da hipóstase do Verbo, o que é contrário ao que se disse (AA[2],3). **Objeção 2:** Ademais, da união da alma e do corpo resulta a natureza da espécie humana. Ora, Damasceno diz (De Fide Orth. iii, 3) que «não devemos conceber uma espécie comum no Senhor Jesus Cristo». Logo, não houve nele união de alma e corpo. **Objeção 3:** Além disso, a alma une-se ao corpo somente para vivificá-lo. Ora, o corpo de Cristo podia ser vivificado pelo próprio Deus Verbo, visto que Ele é a fonte e o princípio da vida. Logo, em Cristo não houve união de alma e corpo. **Em contrário:** O corpo não se diz animado senão pela sua união com a alma. Ora, o corpo de Cristo é dito animado, como a Igreja canta: «Tomando um corpo animado, dignou-Se nascer de uma Virgem» [*Festa da Circuncisão, Ant. ii, Laudes]. Logo, em Cristo houve união de alma e corpo. **Respondo que:** Cristo é chamado homem univocamente com os outros homens, como sendo da mesma espécie, segundo o Apóstolo (Fl 2,7): «feito à semelhança dos homens». Ora, pertence essencialmente à espécie humana que a alma esteja unida ao corpo, pois a forma não constitui a espécie senão enquanto se torna ato da matéria, e este é o termo da geração pela qual a natureza visa a espécie. Portanto, deve-se afirmar que em Cristo a alma esteve unida ao corpo; e o contrário é herético, por destruir a verdade da humanidade de Cristo. **Resposta à Objeção 1:** Esta parece ter sido a razão que pesou para aqueles que negaram a união da alma e do corpo em Cristo, a saber, para não serem forçados a admitir uma segunda pessoa ou hipóstase em Cristo, pois viam que a união da alma e do corpo nos meros homens resultava numa pessoa. Mas isto acontece nos meros homens porque a alma e o corpo estão neles unidos de modo a existirem por si mesmos. Em Cristo, porém, estão unidos entre si de modo a estarem unidos a algo superior, que subsiste na natureza composta deles. E, portanto, da união da alma e do corpo em Cristo não resulta uma nova hipóstase ou pessoa, mas o que deles é composto se une à hipóstase ou Pessoa já existente. Nem se segue, por isso, que a união da alma e do corpo em Cristo seja de menor efeito do que em nós, pois a sua união com algo mais nobre não diminui, antes aumenta, a sua virtude e valor; assim como a alma sensitiva nos animais constitui a espécie, por ser considerada a forma última, mas no homem não o faz, embora seja de maior efeito e dignidade, e isto por causa da sua união com uma perfeição ulterior e mais nobre, a saber, a alma racional, como se disse acima (A[2], ad 2). **Resposta à Objeção 2:** Esta afirmação de Damasceno pode ser entendida de dois modos. Primeiro, como referindo-se à natureza humana, a qual, enquanto está num único indivíduo, não tem a natureza de uma espécie comum, a não ser enquanto é abstraída de cada indivíduo e considerada em si mesma pela mente, ou enquanto está em todos os indivíduos. Ora, o Filho de Deus não assumiu a natureza humana tal como existe no puro pensamento do intelecto, porque, deste modo, não a teria assumido realmente, a menos que se diga que a natureza humana é uma ideia separada, como os platônicos concebiam o homem sem matéria. Mas, assim, o Filho de Deus não teria assumido a carne, contrariamente ao que está escrito (Lc 24,39): «Um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Nem se pode dizer que o Filho de Deus assumiu a natureza humana tal como está em todos os indivíduos da mesma espécie, porque, doutro modo, teria assumido todos os homens. Portanto, resta, como diz Damasceno mais adiante (De Fide Orth. iii, 11), que Ele assumiu a natureza humana «in atomo», isto é, num indivíduo; não, porém, noutro indivíduo que seja um suposito ou uma pessoa dessa natureza, mas na Pessoa do Filho de Deus. Segundo, esta afirmação de Damasceno pode ser tomada não como referindo-se à natureza humana, como se da união da alma e do corpo não resultasse uma natureza comum (a saber, humana), mas como referindo-se à união das duas naturezas, divina e humana, as quais não se combinam de modo a formar um terceiro algo que se torne uma natureza comum, porque, assim, tornar-se-ia predicável de muitos; e é a isto que ele visa, pois acrescenta: «Pois não foi gerado, nem jamais será gerado, outro Cristo, que, da divindade e da humanidade, e na divindade e na humanidade, é perfeito Deus e perfeito homem». **Resposta à Objeção 3:** Há dois princípios da vida corpórea: um é o princípio efetivo, e deste modo o Verbo de Deus é o princípio de toda a vida; o outro é o princípio formal da vida, pois, como diz o Filósofo (De Anima ii, 37), «nos seres vivos, o ser é viver», assim como tudo é formalmente pela sua forma, do mesmo modo o corpo vive pela alma; deste modo, um corpo não poderia viver pelo Verbo, que não pode ser forma de um corpo.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether in Christ there is any union of soul and body? · séc. XIII
tradução automática