Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Pareceria que o dom do entendimento é incompatível com a fé. Pois Agostinho diz (QQ. lxxxiii, q. 15) que «a coisa que é entendida é limitada pela compreensão de quem a entende». Ora a coisa que é crida não é compreendida, segundo a palavra do Apóstolo aos Filipenses 3,12: «Não que eu já tenha compreendido [*Vulg.: 'Não que já tenha alcançado'], ou já seja perfeito.» Logo parece que a fé e o entendimento são incompatíveis no mesmo sujeito. Objeção 2: Ademais, o que quer que seja entendido é visto pelo entendimento. Ora a fé é de coisas que não aparecem, como foi dito acima (q. 1, a. 4; q. 4, a. 1). Logo a fé é incompatível com o entendimento no mesmo sujeito. Objeção 3: Ademais, o entendimento é mais certo do que a ciência. Ora a ciência e a fé são incompatíveis no mesmo sujeito, como foi dito acima (q. 1, aa. 4,5). Muito menos, portanto, podem o entendimento e a fé estar no mesmo sujeito. Ao contrário, Gregório diz (Moral. i, 15) que «o entendimento ilumina a mente acerca das coisas que ouviu». Ora quem tem fé pode ser iluminado na sua mente acerca do que ouviu; assim está escrito (Lc 24,27.32) que o Senhor abriu as Escrituras aos seus discípulos, para que as entendessem. Logo o entendimento é compatível com a fé. Respondo que precisamos fazer aqui uma dupla distinção: uma do lado da fé, outra da parte do entendimento. Do lado da fé, a distinção a fazer é que certas coisas, por si mesmas, caem diretamente sob a fé, como o mistério de três Pessoas em um só Deus e a encarnação de Deus Filho; enquanto outras coisas caem sob a fé por estarem subordinadas, de um modo ou de outro, àquelas mencionadas, por exemplo, tudo o que está contido nas Divinas Escrituras. Da parte do entendimento, a distinção a observar é que há dois modos pelos quais podemos dizer que entendemos. De um modo, entendemos uma coisa perfeitamente, quando chegamos a conhecer a essência da coisa que entendemos, e a própria verdade considerada em si da proposição entendida. Deste modo, enquanto dura o estado de fé, não podemos entender aquelas coisas que são o objeto direto da fé: embora certas outras coisas subordinadas à fé possam ser entendidas mesmo deste modo. De outro modo, entendemos uma coisa imperfeitamente, quando a essência de uma coisa ou a verdade de uma proposição não é conhecida quanto à sua quididade ou modo de ser, e contudo sabemos que, sejam quais forem as aparências exteriores, elas não contradizem a verdade, na medida em que entendemos que não devemos apartar-nos das coisas de fé por causa das coisas que aparecem exteriormente. Deste modo, mesmo durante o estado de fé, nada impede que entendamos também aquelas coisas que são o objeto direto da fé. Isto basta para as Respostas às Objeções: pois as três primeiras argumentam em referência ao entendimento perfeito, enquanto a última se refere ao entendimento das matérias subordinadas à fé.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the gift of understanding is compatible with faith? · séc. XIII
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