Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a semelhança não é causa de amor. Porque a mesma coisa não é causa de contrários. Ora, a semelhança é causa de ódio; pois está escrito (Prov. 13:10): "Entre os soberbos há sempre contendas"; e o Filósofo diz (Ética, VIII, 1) que "os oleiros brigam uns com os outros". Logo, a semelhança não é causa de amor. Objeção 2: Ademais, Agostinho diz (Confissões, IV, 14) que "o homem ama em outro aquilo que ele mesmo não quereria ser: assim, ama um ator, mas não quereria ser ator". Ora, não seria assim se a semelhança fosse a causa própria do amor; porque então o homem amaria em outro aquilo que ele mesmo possui ou desejaria possuir. Logo, a semelhança não é causa de amor. Objeção 3: Ademais, todo homem ama aquilo de que precisa, mesmo que não o tenha: assim, o doente ama a saúde, e o pobre ama as riquezas. Ora, enquanto precisa delas e delas carece, é diferente delas. Portanto, não só a semelhança, mas também a dessemelhança é causa de amor. Objeção 4: Ademais, o Filósofo diz (Retórica, II, 4) que "amamos os que nos dão dinheiro e saúde; e também os que conservam sua amizade pelos mortos". Ora, nem todos são tais. Logo, a semelhança não é causa de amor. Pelo contrário, está escrito (Eclesiástico 13:19): "Todo animal ama o seu semelhante". Respondo que, propriamente falando, a semelhança é causa de amor. Mas deve-se observar que a semelhança entre as coisas é dupla. Uma espécie de semelhança surge do fato de cada coisa possuir a mesma qualidade em ato: por exemplo, dizem-se semelhantes duas coisas que possuem a qualidade da brancura. Outra espécie de semelhança surge do fato de uma coisa possuir potencialmente e por modo de inclinação uma qualidade que a outra possui em ato: assim, podemos dizer que um corpo pesado existente fora do seu lugar próprio é semelhante a outro corpo pesado que existe no seu lugar próprio; ou ainda, segundo o modo pelo qual a potencialidade se assemelha ao seu ato, pois o ato está contido, de certo modo, na própria potencialidade. Assim, a primeira espécie de semelhança causa o amor de amizade ou de bem-estar. Pois o próprio fato de dois homens serem semelhantes, tendo, por assim dizer, uma forma, faz com que sejam, de certo modo, um nessa forma: assim, dois homens são uma coisa na espécie da humanidade, e dois homens brancos são uma coisa na brancura. Portanto, as afeições de um tendem para o outro como sendo um com ele; e deseja-lhe o bem como a si mesmo. Mas a segunda espécie de semelhança causa o amor de concupiscência, ou a amizade fundada na utilidade ou no prazer: porque tudo o que está em potencialidade, como tal, tem desejo do seu ato; e nele se compraz, se for um ser sensitivo e cognoscente. Ora, já foi dito acima (Q. 26, A. 4) que, no amor de concupiscência, o amante, propriamente falando, ama a si mesmo, ao querer o bem que deseja. Mas o homem ama a si mesmo mais do que a outro: porque é um consigo mesmo substancialmente, ao passo que com outro é um apenas na semelhança de alguma forma. Consequentemente, se a semelhança deste outro com ele, proveniente da participação de uma forma, o impede de obter o bem que ama, torna-se-lhe odioso, não por ser semelhante a ele, mas por impedi-lo de obter o seu próprio bem. É por isso que "os oleiros brigam entre si", porque impedem uns aos outros o ganho; e "há contendas entre os soberbos", porque impedem uns aos outros de alcançar a posição que cobiçam. Donde fica clara a resposta à primeira objeção. Resposta à objeção 2: Mesmo quando o homem ama em outro o que não ama em si mesmo, há certa semelhança de proporção: porque assim como aquele está para o que nele é amado, assim este está para o que ama em si mesmo; por exemplo, se um bom cantor ama um bom escritor, podemos ver uma semelhança de proporção, na medida em que cada um possui aquilo que lhe convém em relação à sua arte. Resposta à objeção 3: Aquele que ama o de que precisa tem semelhança com o que ama, como a potencialidade tem semelhança com o seu ato, conforme foi dito acima. Resposta à objeção 4: Segundo a mesma semelhança da potencialidade com o seu ato, o homem avaro ama o homem liberal, na medida em que espera dele algo que deseja. O mesmo se aplica ao homem constante na amizade em comparação com o inconstante. Pois em ambos os casos a amizade parece fundar-se na utilidade. Poderíamos também dizer que, embora nem todos os homens tenham essas virtudes no hábito completo, têm-nas, contudo, segundo certos princípios seminais na razão, em virtude dos quais o homem não virtuoso ama o homem virtuoso, como concordante com a sua própria razão natural.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether likeness is a cause of love? · séc. XIII
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