Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a discórdia não é filha da vanglória. Porque a ira é um vício distinto da vanglória. Ora, a discórdia é aparentemente filha da ira, segundo Prov. 15, 18: "O homem apaixonado suscita contendas." Logo, não é filha da vanglória. Objeção 2: Ademais, Agostinho, expondo as palavras de Jo 7, 39: "Ainda não era dado o Espírito", diz (Tract. xxxii): "A malícia separa, a caridade une." Ora, a discórdia é apenas uma separação de vontades. Logo, a discórdia nasce da malícia, i. é, da inveja, antes que da vanglória. Objeção 3: Ademais, o que dá origem a muitos males parece ser um vício capital. Ora, tal é a discórdia, porque Jerónimo, comentando Mt 12, 25: "Todo o reino dividido contra si mesmo será assolado", diz: "Assim como a concórdia faz prosperar as coisas pequenas, assim a discórdia arruína as maiores." Logo, a discórdia deveria ser considerada ela mesma um vício capital, antes que filha da vanglória. Em sentido contrário, está a autoridade de Gregório (Moral. xxxi, 45). Respondo que a discórdia denota uma certa desunião de vontades, enquanto, a saber, a vontade de um homem se apega a uma coisa e a vontade de outro a outra. Ora, se a vontade de um homem se apega ao seu próprio parecer, isto se deve ao facto de ele preferir o que é seu ao que é dos outros; e, se o faz desordenadamente, deve-se ao orgulho e à vanglória. Portanto, a discórdia, pela qual um homem se apega ao seu próprio modo de pensar e se afasta do dos outros, é considerada filha da vanglória. Resposta à Objeção 1: A contenda não é o mesmo que discórdia; pois a contenda consiste em atos externos; por onde, é conveniente que nasça da ira, que incita o ânimo a prejudicar o próximo; ao passo que a discórdia consiste numa divergência nos movimentos das vontades, que nasce do orgulho ou da vanglória, pela razão já dada. Resposta à Objeção 2: Na discórdia podemos considerar aquilo que é o termo "de onde", i. é, a vontade alheia da qual nos afastamos, e, sob este aspecto, nasce da inveja; e podemos ainda considerar aquilo que é o termo "para onde", i. é, algo do nosso a que nos apegamos, e, sob este aspecto, é causada pela vanglória. E, porque em todo movimento o termo "para onde" é mais importante do que o termo "de onde" (pois o fim é de maior conta do que o princípio), a discórdia é considerada filha da vanglória antes que da inveja, embora possa nascer de ambas por diferentes razões, como foi dito. Resposta à Objeção 3: A razão pela qual a concórdia faz prosperar as coisas pequenas, e a discórdia arruína as maiores, é porque "quanto mais unida é uma força, tanto mais forte é; quanto mais desunida, tanto mais fraca se torna" (De Causis xvii). Por onde, é evidente que isto é parte do efeito próprio da discórdia, que é a desunião das vontades, e de modo algum indica que outros vícios nascem da discórdia, como se ela fosse um vício capital.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether discord is a daughter of vainglory? · séc. XIII
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