Santo Tomás de Aquino
**Objecção 1.** Parece que uma virtude não pode ser maior ou menor que outra. Pois está escrito (Apoc. 21, 16) que os lados da cidade de Jerusalém são iguais; e uma glosa diz que os lados significam as virtudes. Logo, todas as virtudes são iguais; e, consequentemente, uma não pode ser maior que outra. **Objecção 2.** Além disso, uma coisa que, por sua natureza, consiste num máximo não pode ser mais ou menos. Ora, a natureza da virtude consiste num máximo, pois a virtude é "o limite da potência", como afirma o Filósofo (De Céu I, texto 116); e Agostinho diz (De Livre Arbítrio II, 19) que "as virtudes são bens muito grandes, e ninguém pode usá-las para o mal". Portanto, parece que uma virtude não pode ser maior ou menor que outra. **Objecção 3.** Além disso, a quantidade do efeito mede-se pela potência do agente. Ora, as virtudes perfeitas, isto é, as infusas, procedem de Deus, cujo poder é uniforme e infinito. Logo, parece que uma virtude não pode ser maior que outra. **Em contrário,** onde pode haver aumento e maior abundância, pode haver desigualdade. Ora, as virtudes admitem maior abundância e aumento: pois está escrito (Mat. 5, 20): "Se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus"; e (Prov. 15, 5): "Na justiça abundante há a maior força [virtus]". Logo, parece que uma virtude pode ser maior ou menor que outra. **Respondo.** Quando se pergunta se uma virtude pode ser maior que outra, a questão pode ser tomada em dois sentidos. Primeiro, aplicando-se a virtudes de espécies diferentes. Neste sentido, é claro que uma virtude é maior que outra; pois uma causa é sempre mais excelente que o seu efeito; e, entre os efeitos, os mais próximos da causa são os mais excelentes. Ora, do que foi dito (Q. 18, a. 5; Q. 61, a. 2) é claro que a causa e raiz do bem humano é a razão. Por conseguinte, a prudência, que aperfeiçoa a razão, supera em bondade as outras virtudes morais, que aperfeiçoam a potência apetitiva, na medida em que participam da razão. E entre estas, uma é melhor que a outra conforme se aproxima mais da razão. Consequentemente, a justiça, que está na vontade, excede as demais virtudes morais; e a fortaleza, que está na parte irascível, sobrepuja-se à temperança, que está na parte concupiscível, que tem menor participação da razão, como se afirma na Ética, VII, 6. A questão pode ser tomada de outro modo, referindo-se a virtudes da mesma espécie. Deste modo, segundo o que foi dito acima (Q. 52, a. 1), quando tratávamos da intensidade dos hábitos, a virtude pode ser dita maior ou menor de duas maneiras: primeiro, em si mesma; segundo, em relação ao sujeito que dela participa. Se a considerarmos em si mesma, chamá-la-emos maior ou menor conforme as coisas às quais se estende. Ora, quem possui uma virtude, e.g., a temperança, a possui em relação a tudo a que a temperança se estende. Mas isso não se aplica à ciência e à arte: pois nem todo gramático sabe tudo o que se refere à gramática. E neste sentido os estóicos disseram com razão, como Simplício afirma em seu Comentário aos Predicamentos, que a virtude não pode ser mais ou menos, como a ciência e a arte podem; porque a natureza da virtude consiste num máximo. Se, porém, considerarmos a virtude da parte do sujeito, então pode ser maior ou menor, ou em relação a tempos diferentes, ou em homens diferentes. Porque um homem está melhor disposto que outro para alcançar o meio da virtude que é definido pela reta razão; e isto, seja por maior habituação, seja por melhor disposição natural, seja por um juízo da razão mais perspicaz, ou ainda por um maior dom da graça, que é dada a cada um "segundo a medida do dom de Cristo", como se afirma em Efésios 4, 9. E aqui os estóicos erraram, pois sustentavam que nenhum homem deveria ser considerado virtuoso, a menos que estivesse, no mais alto grau, disposto à virtude. Pois a natureza da virtude não exige que o homem atinja o meio da reta razão como se fosse um ponto indivisível, como pensavam os estóicos; mas basta que se aproxime do meio, como se afirma na Ética, II, 6. Além disso, um mesmo alvo indivisível é alcançado mais próxima e facilmente por um do que por outro: como se vê quando vários arcos miram um alvo fixo. **Resposta à primeira objeção.** Esta igualdade não é de quantidade absoluta, mas de proporção: porque todas as virtudes crescem no homem proporcionalmente, como veremos adiante (a. 2). **Resposta à segunda objeção.** Este "limite" que pertence à virtude pode ter a característica de algo "mais" ou "menos" bom, das maneiras explicadas acima: pois, como foi dito, não é um limite indivisível. **Resposta à terceira objeção.** Deus não opera por necessidade da natureza, mas segundo a ordem da Sua sabedoria, pela qual concede aos homens várias medidas de virtude, conforme Efésios 4, 7: "A cada um de vós [Vulg.: 'nós'] é dada a graça segundo a medida do dom de Cristo."
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether one virtue can be greater or less than another? · séc. XIII
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