Santo Tomás de Aquino
Objeção 1: Parece que o homem, por si mesmo e sem o auxílio externo da graça, pode preparar-se para a graça. Porque nada impossível é imposto ao homem, como acima se afirmou (A[4], ad 1). Mas está escrito (Zac. 1,3): «Convertei-vos a mim… e eu me converterei a vós». Ora, preparar-se para a graça não é mais do que converter-se a Deus. Logo, parece que o homem, por si mesmo e sem o auxílio externo da graça, pode preparar-se para a graça. Objeção 2: Ademais, o homem prepara-se para a graça fazendo o que está em seu poder fazer; pois, se o homem faz o que está em seu poder, Deus não lhe negará a graça, como está escrito (Mt. 7,11) que Deus dá o seu bom Espírito «aos que lho pedem». Ora, o que está em nosso poder, está em nós fazê-lo. Logo, parece que está em nosso poder prepararmo-nos para a graça. Objeção 3: Ademais, se o homem necessita da graça para se preparar para a graça, com igual razão necessitará da graça para se preparar para a primeira graça; e assim ao infinito, o que é impossível. Logo, parece que não se deve ir além do que primeiro foi dito, isto é, que o homem, por si mesmo e sem a graça, pode preparar-se para a graça. Objeção 4: Ademais, está escrito (Prov. 16,1) que «é da parte do homem preparar a alma». Ora, diz-se que uma ação é parte do homem quando este a pode fazer por si mesmo. Logo, parece que o homem, por si mesmo, pode preparar-se para a graça. Pelo contrário, está escrito (Jo. 6,44): «Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer». Ora, se o homem se pudesse preparar a si mesmo, não precisaria ser trazido por outro. Logo, o homem não pode preparar-se sem o auxílio da graça. Respondo que a preparação da vontade humana para o bem é dupla: a primeira, pela qual se prepara para obrar retamente e gozar de Deus; e esta preparação da vontade não pode dar-se sem o dom habitual da graça, que é o princípio das obras meritórias, como acima se afirmou (A[5]). De um segundo modo, pode a vontade humana considerar-se preparada para o próprio dom da graça habitual. Ora, para que o homem se prepare para receber este dom, não é necessário pressupor na alma qualquer outro dom habitual; de contrário, iríamos ao infinito. Mas deve-se pressupor um dom gratuito de Deus, que move interiormente a alma ou inspira o bom desejo. Pois, destes dois modos necessitamos do auxílio divino, como acima se afirmou (AA[2],3). Ora, que necessitemos do auxílio de Deus para nos mover, é manifesto. Porque, visto que todo agente obra por um fim, toda causa deve dirigir o seu efeito para o seu fim; e, portanto, como a ordem dos fins é segundo a ordem dos agentes ou motores, o homem deve ser dirigido ao fim último pelo movimento do primeiro motor, e ao fim próximo pelo movimento de qualquer dos motores subordinados; assim como o ânimo do soldado é inclinado a buscar a vitória pelo movimento do chefe do exército, e a seguir a bandeira de um regimento pelo movimento do porta-estandarte. E assim, visto que Deus é o Primeiro Motor, simplesmente, é pelo seu movimento que tudo procura assemelhar-se a Deus a seu modo. Por isso, Dionísio diz (Div. Nom. iv) que «Deus volta todas as coisas para si». Mas dirige os justos para si como para um fim especial que eles buscam e ao qual desejam aderir, conforme o Salmo 72,28: «Bom é para mim o aderir-me a Deus». E que eles sejam «voltados» para Deus só pode provir de Deus os ter «voltado». Ora, preparar-se para a graça é, por assim dizer, ser voltado para Deus; assim como quem tem os olhos desviados da luz do sol prepara-se para receber a luz solar, voltando os olhos para o sol. Portanto, é claro que o homem não pode preparar-se para receber a luz da graça senão pelo auxílio gratuito de Deus que o move interiormente. Resposta à objeção 1: A conversão do homem para Deus dá-se pelo livre-arbítrio; e assim o homem é exortado a converter-se a Deus. Mas o livre-arbítrio só pode ser convertido a Deus quando Deus o converte, conforme Jer. 31,18: «Converte-me, e converter-me-ei, porque tu és o Senhor, meu Deus»; e Lam. 5,21: «Converte-nos a ti, Senhor, e converter-nos-emos». Resposta à objeção 2: O homem nada pode fazer sem ser movido por Deus, conforme Jo. 15,5: «Sem mim nada podeis fazer». Logo, quando se diz que o homem faz o que está em seu poder, isto se diz estar em seu poder enquanto é movido por Deus. Resposta à objeção 3: Esta objeção refere-se à graça habitual, para a qual se requer alguma preparação, pois toda forma exige uma disposição naquilo que há de ser seu sujeito. Mas, para que o homem seja movido por Deus, não se pressupõe nenhum outro movimento, pois Deus é o Primeiro Motor. Por isso, não é necessário ir ao infinito. Resposta à objeção 4: É da parte do homem preparar a sua alma, porque o faz pelo seu livre-arbítrio. Contudo, não o faz sem o auxílio de Deus que o move e o atrai para si, como acima se disse.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether a man, by himself and without the external aid of grace, can prepare himself for grace? · séc. XIII
tradução automática