Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Deus não conhece as coisas singulares. Pois o intelecto divino é mais imaterial que o intelecto humano. Ora, o intelecto humano, por sua imaterialidade, não conhece as coisas singulares; mas, como diz o Filósofo (De Anima ii), “a razão tem por objeto os universais, o sentido, as coisas singulares”. Logo, Deus não conhece as coisas singulares. **Objeção 2:** Ademais, em nós, só aquelas faculdades conhecem o singular que recebem a espécie não abstraída das condições materiais. Ora, em Deus, as coisas estão no mais alto grau abstraídas de toda materialidade. Logo, Deus não conhece as coisas singulares. **Objeção 3:** Ademais, todo conhecimento se dá mediante alguma semelhança. Ora, a semelhança das coisas singulares enquanto singulares não parece estar em Deus; pois o princípio da singularidade é a matéria, a qual, por estar apenas em potência, é de todo dessemelhante de Deus, que é ato puro. Portanto, Deus não pode conhecer as coisas singulares. **Em sentido contrário,** está escrito (Provérbios 16,2): “Todos os caminhos do homem estão abertos aos seus olhos.” **Respondo** que Deus conhece as coisas singulares. Pois todas as perfeições que se encontram nas criaturas preexistem em Deus de modo mais excelente, como se vê claramente do que foi dito (Q. 4, A. 2). Ora, conhecer as coisas singulares faz parte de nossa perfeição. Logo, Deus deve conhecer as coisas singulares. Até o Filósofo considera incongruente que algo conhecido por nós seja desconhecido de Deus; e assim, contra Empédocles, argumenta (De Anima i e Metafísica iii) que Deus seria ignorantíssimo se não conhecesse a discórdia. Ora, as perfeições que estão divididas entre os seres inferiores existem simples e unitariamente em Deus; portanto, embora por uma faculdade conheçamos o universal e imaterial, e por outra as coisas singulares e materiais, contudo Deus conhece umas e outras por seu intelecto simples. Alguns, querendo mostrar como isto é possível, disseram que Deus conhece as coisas singulares pelas causas universais. Pois nada existe em qualquer coisa singular que não provenha de alguma causa universal. Dão o exemplo de um astrólogo que conhece todos os movimentos universais dos céus e pode, daí, predizer todos os eclipses futuros. Isto, porém, não é suficiente; pois as coisas singulares, a partir das causas universais, atingem certas formas e potências que, por mais que se conjuguem, não se individualizam senão pela matéria individual. Por conseguinte, quem conhece Sócrates porque é branco, ou porque é filho de Sofronisco, ou por algo do gênero, não o conheceria enquanto é este homem particular. Logo, segundo o modo acima referido, Deus não conheceria as coisas singulares em sua singularidade. Por outro lado, outros disseram que Deus conhece as coisas singulares pela aplicação das causas universais aos efeitos particulares. Mas isto não é válido; porque ninguém pode aplicar uma coisa a outra sem primeiro conhecê-la; portanto, a dita aplicação não pode ser a razão do conhecimento do particular, pois pressupõe o conhecimento das coisas singulares. É preciso, pois, dizer de outro modo: que, sendo Deus a causa das coisas por seu conhecimento, como foi dito acima (A. 8), seu conhecimento se estende tanto quanto sua causalidade. Logo, assim como a potência ativa de Deus se estende não só às formas, que são a fonte da universalidade, mas também à matéria, como provaremos adiante (Q. 44, A. 2), o conhecimento de Deus deve estender-se às coisas singulares, que são individualizadas pela matéria. Pois, uma vez que Ele conhece as coisas diferentes de si por sua essência, como sendo a semelhança delas, ou como seu princípio ativo, sua essência deve ser o princípio suficiente para conhecer todas as coisas por Ele feitas, não só no universal, mas também no singular. O mesmo se daria com o conhecimento do artífice, se fosse produtor da coisa toda, e não apenas da forma. **Resposta à Objeção 1:** Nosso intelecto abstrai a espécie inteligível dos princípios individualizantes; portanto, a espécie inteligível em nosso intelecto não pode ser a semelhança dos princípios individuais; e por isso nosso intelecto não conhece o singular. Mas a espécie inteligível no intelecto divino, que é a essência de Deus, é imaterial não por abstração, mas por si mesma, sendo o princípio de todos os princípios que entram na composição das coisas, quer princípios da espécie, quer princípios do indivíduo; portanto, por ela Deus conhece não só as coisas universais, mas também as singulares. **Resposta à Objeção 2:** Embora, quanto à espécie no intelecto divino, seu ser não tenha condições materiais, como as imagens recebidas na imaginação e no sentido, contudo sua potência se estende tanto às coisas imateriais quanto às materiais. **Resposta à Objeção 3:** Embora a matéria, quanto à sua potencialidade, se distancie da semelhança com Deus, todavia, mesmo enquanto tem ser deste modo, conserva certa semelhança com o ser divino.
Summa Theologiae — First Part · Article. 11 - Whether God knows singular things? · séc. XIII
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