Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que se pode fazer violência à vontade. Pois tudo pode ser compelido por aquilo que é mais poderoso. Mas há algo, a saber, Deus, que é mais poderoso que a vontade humana. Logo, ela pode ser compelida, ao menos por Ele. Objeção 2: Além disso, todo sujeito passivo é compelido pelo seu princípio ativo, quando é por ele alterado. Ora, a vontade é uma potência passiva: pois é um "motor movido" (De Anima iii, 10). Portanto, como às vezes é movida pelo seu princípio ativo, parece que às vezes é compelida. Objeção 3: Ademais, movimento violento é aquele que é contrário à natureza. Ora, o movimento da vontade é às vezes contrário à natureza, como é claro pelo movimento da vontade para o pecado, que é contrário à natureza, como diz Damasceno (De Fide Orth. iv, 20). Logo, o movimento da vontade pode ser compelido. Ao contrário, diz Agostinho (De Civ. Dei v, 10) que o que é feito pela vontade não é feito por necessidade. Ora, tudo o que é feito sob compulsão é feito por necessidade: consequentemente, o que é feito pela vontade não pode ser compelido. Portanto, a vontade não pode ser compelida a agir. Respondo que o ato da vontade é duplo: um é o seu ato imediato, por assim dizer, por ela eliciado, a saber, "querer"; o outro é um ato da vontade por ela comandado e posto em execução por meio de alguma outra potência, como "andar" e "falar", que são comandados pela vontade para serem executados por meio da potência motriz. Quanto aos atos comandados da vontade, então, a vontade pode sofrer violência, na medida em que a violência pode impedir os membros exteriores de executar o comando da vontade. Mas quanto ao ato próprio da vontade, não se pode fazer violência à vontade. A razão disto é que o ato da vontade não é senão uma inclinação procedente do princípio interior do conhecimento; assim como o apetite natural é uma inclinação procedente de um princípio interior sem conhecimento. Ora, o que é compelido ou violento procede de um princípio exterior. Consequentemente, é contrário à natureza do ato próprio da vontade que ele esteja sujeito a compulsão e violência: assim como também é contrário à natureza de uma inclinação ou movimento natural. Pois uma pedra pode ter um movimento para cima por violência, mas que esse movimento violento provenha de sua inclinação natural é impossível. De modo semelhante, um homem pode ser arrastado à força: mas é contrário ao próprio conceito de violência que ele seja arrastado por sua própria vontade. Resposta à Objeção 1: Deus, que é mais poderoso que a vontade humana, pode mover a vontade do homem, conforme Prov. 21,1: "O coração do rei está na mão do Senhor; para onde Ele quiser, o inclinará". Mas se isso fosse por compulsão, já não seria por um ato da vontade, nem a vontade mesma seria movida, mas algo outro contra a vontade. Resposta à Objeção 2: Nem sempre é um movimento violento quando um sujeito passivo é movido pelo seu princípio ativo; mas somente quando isso é feito contra a inclinação interior do sujeito passivo. Do contrário, toda alteração e geração de corpos simples seria não natural e violenta; enquanto elas são naturais por causa da aptidão interior natural da matéria ou sujeito para tal disposição. De modo semelhante, quando a vontade é movida, de acordo com sua própria inclinação, pelo objeto apetecível, esse movimento não é violento, mas voluntário. Resposta à Objeção 3: Aquilo a que a vontade tende pelo pecado, embora na realidade seja mau e contrário à natureza racional, contudo é apreendido como algo bom e adequado à natureza, na medida em que é adequado ao homem por razão de alguma sensação prazerosa ou de algum hábito vicioso.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether violence can be done to the will? · séc. XIII
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