Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a razão de se ter compaixão não é um defeito na pessoa que se compadece. Pois é próprio de Deus ser misericordioso, donde está escrito (Sl 144,9): «As suas misericórdias são sobre todas as suas obras». Ora, em Deus não há defeito algum. Logo, um defeito não pode ser a razão de se ter compaixão. Objeção 2: Ademais, se um defeito é a razão de se ter compaixão, aqueles em quem há mais defeito hão de ter necessariamente mais compaixão. Mas isto é falso, pois o Filósofo diz (Retórica, II, 8) que «os que estão em estado desesperado são sem compaixão». Logo, parece que a razão de se ter compaixão não é um defeito naquele que se compadece. Objeção 3: Ademais, ser tratado com desprezo é ser defeituoso. Ora, o Filósofo diz (Retórica, II, 8) que «os que são inclinados à contumélia são sem compaixão». Logo, a razão de se ter compaixão não é um defeito naquele que se compadece. Em contrário, a compaixão é uma espécie de tristeza. Ora, um defeito é a razão da tristeza, donde os que estão com má saúde se entregam mais facilmente à tristeza, como adiante se dirá (Q. 35, Art. 1, ad 2). Logo, a razão pela qual alguém se compadece é um defeito em si mesmo. Respondo que, sendo a compaixão uma tristeza pelo mal alheio, como acima se disse (Art. 1), pelo próprio facto de alguém se compadecer de outrem, segue-se que o mal alheio o entristece. E como a tristeza ou pesar é acerca dos próprios males, entristece-se ou pesa-se pelo mal alheio na medida em que considera o mal alheio como seu. Ora, isto se dá de dois modos: primeiro, pela união dos afectos, que é efeito do amor. Pois, como aquele que ama outrem considera o amigo como um outro eu, reputa o dano do amigo como seu, de modo que se entristece pelo dano do amigo como se fosse ele próprio danificado. Por isso o Filósofo (Ética, IX, 4) enumera o «entristecer-se com o amigo» como um dos sinais de amizade, e o Apóstolo diz (Rm 12,15): «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram». Segundo, dá-se por uma união real, por exemplo quando o mal alheio se nos aproxima, de modo a passar dele para nós. Por isso o Filósofo diz (Retórica, II, 8) que os homens se compadecem dos que lhes são aparentados e semelhantes, porque isso lhes faz compreender que o mesmo lhes pode suceder. Daí também que os velhos e os sábios, que consideram poder cair em tempos adversos, assim como os fracos e os tímidos, sejam mais inclinados à compaixão; ao passo que os que se julgam felizes e tão poderosos que pensam não correr perigo de sofrer qualquer dano, não são tão inclinados à compaixão. Por conseguinte, um defeito é sempre a razão de se ter compaixão, ou porque se considera o defeito alheio como próprio, por estar unido a outrem pelo amor, ou por causa da possibilidade de sofrer de modo semelhante. Resposta à objeção 1: Deus se compadece de nós apenas pelo amor, enquanto nos ama como seus. Resposta à objeção 2: Os que já estão em infinita aflição não temem sofrer mais, por isso são sem compaixão. Do mesmo modo, isto se aplica também aos que estão em grande temor, pois estão tão concentrados na sua própria paixão que não prestam atenção ao sofrimento alheio. Resposta à objeção 3: Os que são inclinados à contumélia, seja por terem sido desprezados, seja porque desejam desprezar os outros, são incitados à ira e à audácia, paixões viris que excitam o espírito humano a empreender coisas difíceis. Por isso fazem o homem pensar que há de sofrer algo no futuro, de modo que, enquanto assim estão dispostos, são sem compaixão, conforme Pv 27,4: «A ira não tem misericórdia, nem o furor, quando se derrama». Pela mesma razão, os soberbos são sem compaixão, porque desprezam os outros e os consideram maus, julgando que sofrem merecidamente tudo o que sofrem. Por isso Gregório diz (Hom. in Evang. XXXIV) que a «falsa piedade», isto é, dos soberbos, «não é compassiva, mas desdenhosa».
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the reason for taking pity is a defect in the person who pities? · séc. XIII
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