Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a docilidade não deve ser considerada uma parte da prudência. Pois aquilo que é condição necessária de toda virtude intelectual não deve ser apropriado a uma delas. Ora, a docilidade é necessária para toda virtude intelectual. Logo, não deve ser considerada uma parte da prudência. Objeção 2: Ademais, o que pertence a uma virtude humana está em nosso poder, pois é pelas coisas que estão em nosso poder que somos louvados ou censurados. Ora, não está em nosso poder ser dóceis, pois isto convém a alguns por sua disposição natural. Logo, não é parte da prudência. Objeção 3: Ademais, a docilidade está no discípulo; ao passo que a prudência, por fazer preceitos, parece pertencer antes aos mestres, que também são chamados "preceptores". Logo, a docilidade não é parte da prudência. Ao contrário, Macróbio, seguindo a opinião de Plotino, coloca a docilidade entre as partes da prudência. Respondo que, como foi dito acima (A[2], ad 1; Q[47], A[3]), a prudência se ocupa das matérias particulares de ação, e como tais matérias são de variedade infinita, nenhum homem pode considerá-las todas suficientemente; nem se pode fazer isto rapidamente, pois requer longo tempo. Por isso, nas questões de prudência, o homem tem grande necessidade de ser ensinado por outros, especialmente pelos anciãos que adquiriram uma sã compreensão dos fins nas coisas práticas. Por isso o Filósofo diz (Ética VI, 11): "É justo dar não menos atenção às asserções e opiniões não demonstradas de pessoas que são experientes, mais velhas do que nós e prudentes, do que às suas demonstrações, pois sua experiência lhes dá um discernimento dos princípios." Assim está escrito (Pr 3,5): "Não te estribes na tua prudência", e (Eclo 6,35): "Assiste na multidão dos anciãos (isto é, dos velhos) que são sábios, e ajunta-te de coração à sua sabedoria." Ora, é próprio da docilidade estar pronto a ser ensinado; e, consequentemente, a docilidade é convenientemente considerada uma parte da prudência. Resposta à Objeção 1: Embora a docilidade seja útil a toda virtude intelectual, contudo pertence à prudência principalmente, pela razão acima exposta. Resposta à Objeção 2: O homem tem aptidão natural para a docilidade, assim como para outras coisas relativas à prudência. Contudo, seus próprios esforços contam muito para alcançar a perfeita docilidade: e ele deve aplicar diligentemente, frequentemente e reverentemente seu espírito aos ensinamentos dos doutos, nem negligenciando-os por preguiça, nem desprezando-os por orgulho. Resposta à Objeção 3: Pela prudência, o homem faz preceitos não só para os outros, mas também para si mesmo, como foi dito acima (Q[47], A[12], ad 3). Donde, como se diz (Ética VI, 11), mesmo nos súbditos há lugar para a prudência; à qual pertence a docilidade. E, contudo, até os doutos devem ser dóceis em alguns aspectos, pois ninguém é totalmente autossuficiente nas questões de prudência, como foi dito acima.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether docility should be accounted a part of prudence? · séc. XIII
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