Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que um homem não pode pecar primeiramente contra o Espírito Santo, sem ter cometido anteriormente outros pecados. Pois a ordem natural requer que se seja movido da imperfeição para a perfeição. Isto é evidente quanto às coisas boas, segundo Provérbios 4,18: «A vereda dos justos, como uma luz resplandecente, vai adiante e cresce até o dia perfeito». Ora, nas coisas más, o perfeito é o maior mal, como diz o Filósofo (Metafísica, V, texto 21). Portanto, sendo o pecado contra o Espírito Santo o pecado mais grave, parece que o homem chega a cometer este pecado cometendo pecados menores. Objeção 2: Além disso, pecar contra o Espírito Santo é pecar por certa malícia, ou por eleição. Ora, o homem não pode fazer isto senão depois de ter pecado muitas vezes; pois o Filósofo diz (Ética, V, 6, 9) que «embora um homem seja capaz de praticar atos injustos, todavia não pode de repente fazê-los como faz um homem injusto», isto é, por eleição. Portanto, parece que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser cometido senão depois de outros pecados. Objeção 3: Além disso, a penitência e a impenitência dizem respeito ao mesmo objeto. Mas não há penitência senão acerca de pecados passados. Portanto, o mesmo se aplica à impenitência, que é uma espécie de pecado contra o Espírito Santo. Logo, o pecado contra o Espírito Santo pressupõe outros pecados. Em contrário: «É fácil aos olhos de Deus enriquecer de repente o homem pobre» (Eclesiástico 11,23). Portanto, inversamente, é possível a um homem, segundo a malícia do diabo que o tenta, ser levado a cometer o mais grave dos pecados, que é o pecado contra o Espírito Santo. Respondo que, como foi dito acima (A[1]), de um modo, pecar contra o Espírito Santo é pecar por certa malícia. Ora, pode-se pecar por certa malícia de dois modos, como no mesmo lugar se disse: primeiro, pela inclinação de um hábito; mas isto não é, propriamente falando, pecar contra o Espírito Santo, nem o homem chega a cometer este pecado de repente, visto que atos pecaminosos devem preceder para causar o hábito que induz ao pecado. Segundo, pode-se pecar por certa malícia, rejeitando desdenhosamente as coisas pelas quais o homem é retirado do pecado. Isto é, propriamente falando, pecar contra o Espírito Santo, como foi dito acima (A[1]); e isto também, na maioria das vezes, pressupõe outros pecados, pois está escrito (Provérbios 18,3): «O ímpio, quando chegou ao fundo dos pecados, despreza». Contudo, é possível a um homem, no seu primeiro ato pecaminoso, pecar contra o Espírito Santo por desprezo, tanto por causa do seu livre-arbítrio, como por causa das muitas disposições anteriores, ou ainda, por ser veementemente movido para o mal, enquanto fracamente apegado ao bem. Por isso, nunca ou raríssimas vezes acontece que os perfeitos pequem de repente contra o Espírito Santo; donde Orígenes diz (Peri Archon, I, 3): «Não creio que alguém que esteja no mais alto grau de perfeição possa falhar ou cair subitamente; isto só pode acontecer por graus e pouco a pouco». O mesmo se aplica, se o pecado contra o Espírito Santo for tomado literalmente como blasfêmia contra o Espírito Santo. Pois tal blasfêmia, como Nosso Senhor fala, procede sempre de uma malícia desdenhosa. Se, porém, com Agostinho (De Verb. Dom., Sermão lxxi) entendermos o pecado contra o Espírito Santo como a impenitência final, isto não diz respeito à questão em pauta, porque este pecado contra o Espírito Santo requer persistência no pecado até o fim da vida. Resposta à primeira objeção: O movimento, tanto no bem como no mal, faz-se, na maioria das vezes, do imperfeito ao perfeito, conforme o homem progride no bem ou no mal; e contudo, em ambos os casos, um homem pode começar de um bem ou mal maior do que outro homem começa. Consequentemente, aquilo de que um homem começa pode ser perfeito no bem ou no mal segundo o seu gênero, embora seja imperfeito quanto à série de ações boas ou más pelas quais o homem progride no bem ou no mal. Resposta à segunda objeção: Esta objeção considera o pecado cometido por certa malícia, quando procede da inclinação de um hábito. Resposta à terceira objeção: Se por impenitência entendemos, com Agostinho (De Verb. Dom., Sermão lxxi), a persistência no pecado até o fim, é claro que ela pressupõe o pecado, assim como a penitência o pressupõe. Se, porém, a tomarmos como impenitência habitual, sentido em que é pecado contra o Espírito Santo, é evidente que pode preceder o pecado: pois é possível que um homem que nunca pecou tenha o propósito de se arrepender ou de não se arrepender, se porventura vier a pecar.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether a man can sin first of all against the Holy Ghost? · séc. XIII
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