Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que nem toda lei deriva da lei eterna. Pois existe a lei do “fomes”, como se disse acima (q. 91, a. 6), a qual não deriva daquela lei divina que é a lei eterna, visto que a ela pertence a “prudência da carne”, da qual diz o Apóstolo (Rm 8,7) que “não pode estar sujeita à lei de Deus”. Portanto, nem toda lei deriva da lei eterna. **Objeção 2:** Ademais, nada de injusto pode derivar da lei eterna, porque, como se afirmou acima (a. 2, objeção 2), “a lei eterna é aquela segundo a qual é justo que todas as coisas estejam ordenadíssimas”. Ora, algumas leis são injustas, conforme Is 10,1: “Ai daqueles que fazem leis iníquas”. Logo, nem toda lei deriva da lei eterna. **Objeção 3:** Ademais, Agostinho diz (De Livre Arbítrio, I, 5) que “a lei feita para governar o povo permite com razão muitas coisas que são punidas pela providência divina”. Ora, o modelo da providência divina é a lei eterna, como se disse acima (a. 1). Logo, nem mesmo toda lei boa deriva da lei eterna. **Em contrário,** a Sabedoria divina diz (Pr 8,15): “Por mim reinam os reis, e os legisladores decretam coisas justas.” Ora, o modelo da Sabedoria divina é a lei eterna, como se estabeleceu acima (a. 1). Portanto, todas as leis procedem da lei eterna. **Respondo:** Como se disse acima (q. 90, aa. 1-2), a lei designa uma espécie de plano que dirige os atos para um fim. Ora, onde quer que existam motores ordenados entre si, a potência do segundo motor precisa derivar-se da potência do primeiro motor, pois o segundo motor não move senão enquanto é movido pelo primeiro. Por isso, observamos o mesmo em todos os que governam: o plano de governo é derivado pelos governadores secundários do governador principal; assim, o plano do que deve ser feito num Estado flui do comando do rei para os seus administradores inferiores; e, do mesmo modo, nas coisas da arte, o plano de tudo quanto deve ser feito pela arte flui do artífice principal para os artífices subordinados, que trabalham com as mãos. Ora, sendo a lei eterna o plano de governo no Governador Principal, todos os planos de governo nos governadores inferiores devem derivar da lei eterna. Mas esses planos dos governadores inferiores são todas as outras leis, além da lei eterna. Portanto, todas as leis, na medida em que participam da reta razão, derivam da lei eterna. Por isso, Agostinho diz (De Livre Arbítrio, I, 6) que “na lei temporal não há nada de justo e legítimo que o homem não tenha tirado da lei eterna”. **Resposta à Objeção 1:** O “fomes” tem natureza de lei no homem enquanto é um castigo proveniente da justiça divina; e, nesse aspecto, é evidente que deriva da lei eterna. Mas enquanto designa uma propensão ao pecado, é contrário à lei divina e não tem natureza de lei, como se disse acima (q. 91, a. 6). **Resposta à Objeção 2:** A lei humana tem natureza de lei na medida em que participa da reta razão; e é claro que, nesse aspecto, deriva da lei eterna. Mas na medida em que se desvia da razão, chama-se lei injusta e tem natureza, não de lei, mas de violência. No entanto, mesmo uma lei injusta, enquanto conserva alguma aparência de lei, embora seja feita por quem está no poder, deriva da lei eterna, pois todo poder vem do Senhor Deus, segundo Rm 13,1. **Resposta à Objeção 3:** Diz-se que a lei humana permite certas coisas, não por as aprovar, mas por não poder dirigi-las. E muitas coisas são dirigidas pela lei divina, que a lei humana não pode dirigir, porque mais coisas estão sujeitas a uma causa superior do que a uma causa inferior. Portanto, o próprio fato de a lei humana não se intrometer em matérias que não pode dirigir cai sob a ordenação da lei eterna. Diferente seria se a lei humana sancionasse o que a lei eterna condena. Consequentemente, não se segue que a lei humana não derive da lei eterna, mas sim que não está em perfeita igualdade com ela.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether every law is derived from the eternal law? · séc. XIII
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