Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que os pecadores amam a si mesmos. Pois aquilo que é o princípio do pecado encontra-se maximamente no pecador. Ora, o amor de si mesmo é o princípio do pecado, segundo Agostinho (De Civ. Dei, XIV, 28), que diz que ele «edifica a cidade de Babilônia». Logo, os pecadores amam a si mesmos maximamente. **Objeção 2:** Além disso, o pecado não destrói a natureza. Ora, é conforme à natureza que cada homem ame a si mesmo; por isso, mesmo os seres irracionais naturalmente desejam o seu próprio bem, por exemplo, a conservação do seu ser e coisas semelhantes. Logo, os pecadores amam a si mesmos. **Objeção 3:** Além disso, o bem é amado por todos, como afirma Dionísio (Div. Nom., IV). Ora, muitos pecadores se consideram bons. Logo, muitos pecadores amam a si mesmos. **Em contrário,** está escrito (Sl 10,6): «O que ama a iniquidade, aborrece a sua própria alma.» **Respondo que:** O amor de si mesmo é comum a todos de um modo; de outro modo é próprio dos bons; de um terceiro modo, é próprio dos maus. Pois é comum a todos que cada um ame aquilo que julga ser. Ora, um homem é dito ser uma coisa de duas maneiras: primeiro, quanto à sua substância e natureza, e, deste modo, todos se julgam ser o que são, isto é, compostos de alma e corpo. Deste modo também todos os homens, tanto bons como maus, amam a si mesmos, enquanto amam a sua própria conservação. Segundamente, um homem é dito ser algo em razão de alguma predominância, como o soberano de um Estado é dito ser o Estado, e assim, o que o soberano faz, o Estado é dito fazer. Deste modo, nem todos se julgam ser o que são. Pois a mente racional é a parte predominante do homem, enquanto a natureza sensitiva e corporal ocupa o segundo lugar; daquelas, o Apóstolo chama a primeira de «homem interior» e a segunda de «homem exterior» (2 Cor 4,16). Ora, os bons consideram a sua natureza racional ou o homem interior como o principal em si mesmos; por isso, deste modo, julgam ser o que são. Por outro lado, os maus consideram a sua natureza sensitiva e corporal, ou o homem exterior, como ocupando o primeiro lugar. Por conseguinte, como não se conhecem retamente, não se amam retamente, mas amam o que julgam ser. Os bons, porém, conhecem-se verdadeiramente e, portanto, amam-se verdadeiramente. O Filósofo prova isto por cinco coisas próprias da amizade. Pois, primeiramente, todo amigo deseja que o amigo seja e viva; segundamente, deseja-lhe bens; terceiramente, faz-lhe o bem; quartamente, compraz-se na sua companhia; quintamente, está de acordo com ele, alegrando-se e entristecendo-se com as mesmas coisas quase. Deste modo, os bons amam a si mesmos quanto ao homem interior, porque desejam a sua conservação na sua integridade, desejam-lhe bens, a saber, bens espirituais, na verdade envidam o seu melhor esforço para os obter, e comprazem-se em entrar no próprio coração, porque ali encontram bons pensamentos no presente, a memória dos bens passados e a esperança dos bens futuros, tudo o que é fonte de prazer. Igualmente, não experimentam conflito de vontades, pois toda a sua alma tende a uma só coisa. Por outro lado, os maus não desejam ser conservados na integridade do homem interior, nem desejam bens espirituais para ele, nem trabalham para esse fim, nem se comprazem na própria companhia entrando no próprio coração, porque tudo o que ali encontram, presente, passado e futuro, é mau e horrível; nem concordam consigo mesmos, por causa dos remorsos da consciência, conforme o Sl 49,21: «Eu te arguirei e porei tudo diante de teu rosto.» Do mesmo modo, pode-se mostrar que os maus amam a si mesmos quanto à corrupção do homem exterior, ao passo que os bons não se amam assim. **Resposta à objeção 1:** O amor de si mesmo que é princípio do pecado é aquele próprio dos maus, e chega «até ao desprezo de Deus», como se afirma no passo citado, porque os maus desejam tanto os bens exteriores que desprezam os bens espirituais. **Resposta à objeção 2:** Embora o amor natural não seja de todo perdido pelos homens maus, contanto é neles pervertido, como foi explicado acima. **Resposta à objeção 3:** Os maus participam de algum amor de si mesmos, na medida em que se julgam bons. Todavia, tal amor de si mesmo não é verdadeiro, mas aparente; e nem mesmo isso é possível naqueles que são extremamente maus.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether sinners love themselves? · séc. XIII
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