Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não há justiça em Deus. Porque a justiça se opõe à temperança. Ora, a temperança não existe em Deus; logo, nem a justiça. Objeção 2: Ademais, aquele que faz tudo quanto quer e apraz não obra segundo a justiça. Ora, como diz o Apóstolo: «Deus opera todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade» (Efés. 1,11). Logo, não se Lhe pode atribuir justiça. Objeção 3: Ademais, o ato da justiça é pagar o que é devido. Ora, Deus não é devedor de ninguém. Logo, a justiça não pertence a Deus. Objeção 4: Ademais, tudo o que está em Deus é a Sua essência. Ora, a justiça não pode pertencer a ela, porque Boécio diz (De Hebdom.) que «o bem respeita a essência; a justiça, o ato». Logo, a justiça não pertence a Deus. Em contrário, está escrito (Sal. 10,8): «O Senhor é justo, e amou a justiça.» Respondo que: Há duas espécies de justiça. Uma consiste no dar e receber mútuo, como na compra e venda, e outros gêneros de trato e troca. A esta chama o Filósofo (Ética v, 4) justiça comutativa, que dirige as trocas e os negócios. Esta não pertence a Deus, pois, como diz o Apóstolo: «Quem primeiro Lhe deu, para que lhe seja retribuído?» (Rom. 11,35). A outra consiste na distribuição, e chama-se justiça distributiva, pela qual o governante ou o dispenseiro dá a cada um o que lhe cabe segundo a sua condição. Portanto, assim como a ordem própria que se vê no governo de uma família ou de qualquer multidão manifesta esta justiça no governante, assim também a ordem do universo, que se vê tanto nos efeitos da natureza como nos efeitos da vontade, mostra a justiça de Deus. Por isso Dionísio diz (Div. Nom. viii, 4): «É necessário que vejamos que Deus é verdadeiramente justo, ao ver como dá a todas as coisas existentes o que é próprio da condição de cada uma, e conserva a natureza de cada uma na ordem e com os poderes que lhe pertencem propriamente.» Resposta à Objeção 1: Algumas virtudes morais versam sobre as paixões, como a temperança sobre a concupiscência, a fortaleza sobre o temor e a ousadia, a mansidão sobre a ira. Tais virtudes só metaforicamente se podem atribuir a Deus, porque, como se disse acima (Q.20, A.1), em Deus não há paixões, nem apetite sensitivo, que é, como diz o Filósofo (Ética iii, 10), o sujeito dessas virtudes. Por outro lado, certas virtudes morais versam sobre obras de dar e despender, como a justiça, a liberalidade e a magnificência; e estas residem não na faculdade sensitiva, mas na vontade. Logo, nada impede que atribuamos a Deus tais virtudes; não, porém, em coisas civis, mas naqueles atos que Lhe não são inconvenientes. Pois, como diz o Filósofo (Ética x, 8), seria absurdo louvar a Deus pelas suas virtudes políticas. Resposta à Objeção 2: Visto que o bem apreendido pelo intelecto é o objeto da vontade, é impossível que Deus queira algo senão o que a Sua sabedoria aprova. Isto é, por assim dizer, a Sua lei de justiça, segundo a qual a Sua vontade é reta e justa. Portanto, o que faz segundo a Sua vontade, fá-lo justamente; assim como nós fazemos justamente o que fazemos segundo a lei. Porém, ao passo que a lei nos vem de um poder superior, Deus é lei para Si mesmo. Resposta à Objeção 3: A cada um é devido o que é seu. Ora, diz-se que é seu aquilo que está ordenado para o homem. Assim, o senhor possui o servo, e não o contrário, porque é livre o que é causa de si mesmo. Na palavra débito, portanto, está implícita uma certa exigência ou necessidade da coisa para a qual se ordena. Ora, há que considerar dupla ordem nas coisas: uma, pela qual uma criatura se ordena a outra, como as partes ao todo, o acidente à substância, e todas as coisas ao seu fim; outra, pela qual todas as criaturas se ordenam a Deus. Assim, nas operações divinas o débito pode considerar-se de dois modos: como devido a Deus, ou como devido às criaturas; e de ambos os modos Deus paga o que é devido. É devido a Deus que se cumpra nas criaturas o que a Sua vontade e sabedoria requerem, e que manifesta a Sua bondade. Neste sentido, a justiça de Deus respeita o que Lhe convém, enquanto Ele rende a Si mesmo o que Lhe é devido. É também devido à criatura que possua o que lhe está ordenado; assim, é devido ao homem ter mãos, e que os outros animais o sirvam. Deste modo também Deus exerce a justiça quando dá a cada coisa o que lhe é devido pela sua natureza e condição. Este débito, porém, deriva do primeiro; porque o que é devido a cada coisa o é enquanto está ordenada a ela segundo a divina sabedoria. E embora Deus pague assim a cada coisa o seu devido, todavia Ele mesmo não é devedor, porque não está ordenado para outras coisas, mas antes as outras coisas estão ordenadas para Ele. Por isso, a justiça em Deus umas vezes se diz como o acompanhamento conveniente da Sua bondade; outras vezes, como a recompensa do merecimento. Anselmo toca em ambos os aspectos quando diz (Prosolog. 10): «Quando Tu castigas os ímpios, é justo, porque concorda com os seus merecimentos; e quando Tu poupas os ímpios, também é justo, porque convém à Tua bondade.» Resposta à Objeção 4: Embora a justiça respeite o ato, isso não impede que seja a essência de Deus; pois mesmo o que é da essência de uma coisa pode ser princípio de ação. Mas o bem nem sempre respeita o ato; porque uma coisa se chama boa não só relativamente ao ato, mas também enquanto perfeição na sua essência. Por esta razão se diz (De Hebdom.) que o bem se relaciona com o justo como o geral com o especial.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether there is justice in God? · séc. XIII
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