Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que há uma só verdade, segundo a qual todas as coisas são verdadeiras. Pois, segundo Agostinho (De Trin. xv, 1), «nada é maior que a mente do homem, exceto Deus». Ora, a verdade é maior que a mente do homem; de outro modo a mente seria juiz da verdade; quando, de fato, ela julga todas as coisas segundo a verdade, e não segundo a sua própria medida. Logo, só Deus é a verdade. Portanto, não há outra verdade senão Deus. Objeção 2: Ademais, Anselmo diz (De Verit. xiv) que «assim como é a relação do tempo para com as coisas temporais, assim é a da verdade para com as coisas verdadeiras». Mas há um só tempo para todas as coisas temporais. Logo, há uma só verdade, pela qual todas as coisas são verdadeiras. Em contrário, está escrito (Sl 11,2): «As verdades se diminuíram dentre os filhos dos homens». Respondo: Em um sentido, a verdade pela qual todas as coisas são verdadeiras é uma; em outro sentido, não. Em prova disto, deve-se considerar que, quando algo é predicado de muitas coisas univocamente, encontra-se em cada uma delas segundo sua própria natureza, como animal se encontra em cada espécie de animal. Quando, porém, algo é predicado de muitas coisas analogicamente, encontra-se em apenas uma delas segundo sua própria natureza, e a partir desta as demais são denominadas. Assim, saúde é predicada do animal, da urina e do medicamento, não que a saúde esteja apenas no animal; mas a partir da saúde do animal, o medicamento é chamado saudável enquanto causa da saúde, e a urina é chamada saudável enquanto indica a saúde. E embora a saúde não esteja nem no medicamento nem na urina, em ambos, todavia, há algo pelo qual um causa e o outro indica a saúde. Ora, dissemos (art. 1) que a verdade reside primariamente no entendimento; e secundariamente nas coisas, conforme se relacionam com o divino entendimento. Se, portanto, falamos da verdade tal como existe no entendimento, segundo sua própria natureza, então há muitas verdades em muitos entendimentos criados; e até em um mesmo entendimento, segundo o número de coisas conhecidas. Donde uma glosa ao Sl 11,2, «As verdades se diminuíram dentre os filhos dos homens», diz: «Assim como de um só rosto de homem muitas semelhanças se refletem num espelho, assim muitas verdades se refletem da única verdade divina». Mas se falamos da verdade tal como está nas coisas, então todas as coisas são verdadeiras por uma verdade primeira, à qual cada uma é assimilada segundo sua própria entidade. E assim, embora as essências ou formas das coisas sejam muitas, a verdade do divino entendimento é uma, em conformidade com a qual todas as coisas são ditas verdadeiras. Resposta à objeção 1: A alma não julga as coisas segundo uma verdade qualquer, mas segundo a verdade primeira, enquanto esta se reflete na alma como num espelho, por causa dos primeiros princípios do intelecto. Segue-se, portanto, que a verdade primeira é maior que a alma. E, contudo, até a verdade criada, que reside em nosso entendimento, é maior que a alma, não simplesmente, mas em certo grau, enquanto é sua perfeição; assim como a ciência pode ser dita maior que a alma. Todavia, é verdade que nada subsistente é maior que a alma racional, exceto Deus. Resposta à objeção 2: A sentença de Anselmo é correta enquanto as coisas são ditas verdadeiras por sua relação com o divino entendimento.
Summa Theologiae — First Part · Article. 6 - Whether there is only one truth, according to which all things are true? · séc. XIII
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