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Sl 110, 10

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Matos Soares

10O temor do Senhor é o princípio da sabedoria: procedem com prudência todos os quê o adoram; o seu louvor permanece para sempre.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que o entendimento, considerado como dom do Espírito Santo, não é prático, mas apenas especulativo. Pois, segundo Gregório (Moral. i, 32), «o entendimento penetra certas coisas mais elevadas». Ora o intelecto prático ocupa-se, não com coisas elevadas, mas com coisas inferiores, a saber, os singulares, acerca dos quais as ações se ocupam. Logo o entendimento, considerado como dom, não é prático. Objeção 2: Ademais, o dom do entendimento é algo mais excelente do que a virtude intelectual do entendimento. Ora a virtude intelectual do entendimento ocupa-se apenas com coisas necessárias, segundo o Filósofo (Ética vi, 6). Muito mais, portanto, o dom do entendimento se ocupa apenas com matérias necessárias. Ora o intelecto prático não é acerca de coisas necessárias, mas acerca de coisas que podem ser de outro modo do que são, e que podem resultar da atividade humana. Logo o dom do entendimento não é prático. Objeção 3: Ademais, o dom do entendimento ilumina a mente em matérias que excedem a razão natural. Ora as atividades humanas, com as quais o intelecto prático se ocupa, não excedem a razão natural, que é o princípio diretivo nas matérias de ação, como foi esclarecido acima (I-II, q. 58, a. 2; I-II, q. 71, a. 6). Logo o dom do entendimento não é prático. Ao contrário, está escrito (Sl 110,10): «Bom entendimento a todos os que o praticam.» Respondo que, como foi dito acima (a. 2), o dom do entendimento não é apenas acerca daquelas coisas que caem sob a fé primeiro e principalmente, mas também acerca de todas as coisas subordinadas à fé. Ora as boas ações têm uma certa relação com a fé: pois «a fé opera pela caridade», segundo o Apóstolo (Gl 5,6). Por isso o dom do entendimento se estende também a certas ações, não como se estas fossem o seu objeto principal, mas na medida em que a regra das nossas ações é a lei eterna, à qual a razão superior, aperfeiçoada pelo dom do entendimento, adere, contemplando-a e consultando-a, como afirma Agostinho (De Trin. xii, 7). Resposta à objeção 1: As coisas com que as ações humanas se ocupam não são sumamente elevadas consideradas em si mesmas, mas, enquanto referidas à regra da lei eterna e ao fim da felicidade divina, são elevadas de modo a poderem ser matéria do entendimento. Resposta à objeção 2: A excelência do dom do entendimento consiste precisamente em considerar as matérias eternas ou necessárias, não só enquanto são regras das ações humanas, porque uma virtude cognitiva é tanto mais excelente quanto maior é a extensão do seu objeto. Resposta à objeção 3: A regra das ações humanas é a razão humana e a lei eterna, como foi dito acima (I-II, q. 71, a. 6). Ora a lei eterna excede a razão humana: de modo que o conhecimento das ações humanas, enquanto reguladas pela lei eterna, excede a razão natural e requer a luz sobrenatural de um dom do Espírito Santo.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the gift of understanding is merely speculative or also practical? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o temor não é o princípio da sabedoria. Porque o princípio de uma coisa é parte dela. Ora, o temor não é parte da sabedoria, pois o temor reside na faculdade apetitiva, enquanto a sabedoria está no intelecto. Logo, parece que o temor não é o princípio da sabedoria. Objeção 2: Ademais, nada é princípio de si mesmo. Ora, "o temor do Senhor é a sabedoria", segundo Jó 28,28. Logo, parece que o temor de Deus não é o princípio da sabedoria. Objeção 3: Ademais, nada é anterior ao princípio. Ora, algo é anterior ao temor, pois a fé precede o temor. Logo, parece que o temor não é o princípio da sabedoria. Em contrário, está escrito no Sl. 110,10: "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria". Respondo que uma coisa pode ser chamada princípio da sabedoria de dois modos: de um modo, porque é o princípio da própria sabedoria quanto à sua essência; de outro modo, quanto ao seu efeito. Assim, o princípio de uma arte quanto à sua essência consiste nos princípios a partir dos quais a arte procede; enquanto o princípio de uma arte quanto ao seu efeito é aquilo a partir do qual ela começa a operar: por exemplo, poderíamos dizer que o princípio da arte de edificar é o fundamento, porque é por onde o edificador começa o seu trabalho. Ora, sendo a sabedoria o conhecimento das coisas divinas, como adiante se dirá (Q. 45, A. 1), ela é considerada por nós de um modo, e de outro modo pelos filósofos. Pois, visto que a nossa vida é ordenada para o gozo de Deus, e para ele é dirigida segundo uma participação da Natureza Divina, que nos é conferida pela graça, a sabedoria, tal como a consideramos, é vista não somente como cognoscitiva de Deus, como é com os filósofos, mas também como diretiva da conduta humana; já que esta é dirigida não só pela lei humana, mas também pela lei divina, como Agostinho mostra (De Trin. xii, 14). Por conseguinte, o princípio da sabedoria quanto à sua essência consiste nos primeiros princípios da sabedoria, isto é, os artigos de fé, e neste sentido a fé é dita princípio da sabedoria. Quanto ao efeito, porém, o princípio da sabedoria é o ponto a partir do qual a sabedoria começa a operar, e deste modo o temor é o princípio da sabedoria, mas o temor servil de um modo, e o temor filial de outro. Pois o temor servil é como um princípio que dispõe o homem para a sabedoria exteriormente, enquanto ele se abstém do pecado pelo temor da pena, e assim é preparado para o efeito da sabedoria, segundo Eclo. 1,27: "O temor do Senhor expulsa o pecado". Por outro lado, o temor casto ou filial é o princípio da sabedoria, como sendo o primeiro efeito da sabedoria. Porquanto, pertencendo à sabedoria a regulação da conduta humana pela lei divina, para que se faça um começo, o homem deve primeiro temer a Deus e submeter-se a Ele; pois disso resultará que em todas as coisas será governado por Deus. Resposta à Objeção 1: Este argumento prova que o temor não é o princípio da sabedoria quanto à essência da sabedoria. Resposta à Objeção 2: O temor de Deus se compara a toda a vida do homem, que é governada pela sabedoria de Deus, como a raiz à árvore; por isso está escrito (Eclo. 1,25): "A raiz da sabedoria é temer o Senhor, porque [Vulg.: 'e'] os seus ramos são de longa duração". Consequentemente, assim como a raiz é dita virtualmente a árvore, assim o temor de Deus é dito sabedoria. Resposta à Objeção 3: Como foi dito acima, a fé é o princípio da sabedoria de um modo, e o temor de outro. Por isso está escrito (Eclo. 25,16): "O temor de Deus é o princípio do amor; e o princípio da fé é estar firmemente unido a ele".

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether fear is the beginning of wisdom? · séc. XIII

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