Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a pobreza de espírito não é a bem-aventurança correspondente ao dom do temor. Pois o temor é o princípio da vida espiritual, como foi explicado acima (A[7]); ao passo que a pobreza pertence à perfeição da vida espiritual, segundo Mt 19,21: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres.” Logo, a pobreza de espírito não corresponde ao dom do temor. **Objeção 2:** Além disso, está escrito (Sl 118,120): “Crava na minha carne o teu temor,” donde parece seguir-se que pertence ao temor refrear a carne. Ora, o refreamento da carne parece pertencer antes à bem-aventurança dos que choram. Logo, a bem-aventurança dos que choram corresponde ao dom do temor, mais do que a bem-aventurança da pobreza. **Objeção 3:** Além disso, o dom do temor corresponde à virtude da esperança, como foi dito acima (A[9], ad 1). Ora, a última bem-aventurança, que é: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus,” parece corresponder acima de tudo à esperança, porque, segundo Rm 5,2, “nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus.” Logo, essa bem-aventurança corresponde ao dom do temor, mais do que a pobreza de espírito. **Objeção 4:** Além disso, foi dito acima (FS, Q[70], A[2]) que os frutos correspondem às bem-aventuranças. Ora, nenhum dos frutos corresponde ao dom do temor. Logo, também nenhuma das bem-aventuranças lhe corresponde. **Ao contrário,** Agostinho diz (De Serm. Dom. in Monte i, 4): “O temor do Senhor é próprio dos humildes, dos quais se diz: Bem-aventurados os pobres de espírito.” **Respondo** que a pobreza de espírito corresponde propriamente ao temor. Porque, como é próprio do temor filial mostrar reverência e submissão a Deus, tudo o que resulta dessa submissão pertence ao dom do temor. Ora, do próprio fato de um homem se submeter a Deus, segue-se que ele deixa de buscar a grandeza, quer em si mesmo quer em outrem, mas a busca somente em Deus. Pois isso seria incompatível com a perfeita sujeição a Deus, por isso está escrito (Sl 19,8): “Uns confiam nos carros, e outros nos cavalos; mas nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus.” Segue-se que, se um homem temer perfeitamente a Deus, não busca, por orgulho, a grandeza nem em si mesmo nem nos bens exteriores, a saber, honras e riquezas. Em ambos os casos, isto procede da pobreza de espírito, enquanto esta denota ou o esvaziamento de um espírito inchado e orgulhoso, segundo a interpretação de Agostinho (De Serm. Dom. in Monte i, 4), ou a renúncia dos bens mundanos que se faz em espírito, isto é, pela própria vontade, por instigação do Espírito Santo, segundo a exposição de Ambrósio sobre Lc 6,20 e de Jerônimo sobre Mt 5,3. **Resposta à Objeção 1:** Visto que uma bem-aventurança é um ato de virtude perfeita, todas as bem-aventuranças pertencem à perfeição da vida espiritual. E esta perfeição parece exigir que todo aquele que se esforça por obter uma parte perfeita dos bens espirituais, precisa começar por desprezar os bens terrenos, por isso o temor ocupa o primeiro lugar entre os dons. A perfeição, porém, não consiste na própria renúncia dos bens temporais; pois este é o caminho para a perfeição: ao passo que o temor filial, ao qual corresponde a bem-aventurança da pobreza, é compatível com a perfeição da sabedoria, como foi dito acima (AA[7],10). **Resposta à Objeção 2:** A indevida exaltação do homem, quer em si mesmo quer em outrem, opõe-se mais diretamente àquela submissão a Deus que resulta do temor filial do que o prazer exterior. Contudo, isto é, por consequência, oposto ao temor, pois quem teme a Deus e a Ele se submete, não se deleita em coisas outras que não Deus. No entanto, o prazer não está relacionado, como a exaltação, com o caráter árduo de uma coisa que o temor considera: e assim a bem-aventurança da pobreza corresponde diretamente ao temor, e a bem-aventurança dos que choram, consequentemente. **Resposta à Objeção 3:** A esperança denota um movimento por via de relação de tendência para um termo, ao passo que o temor implica movimento por via de relação de afastamento de um termo: pelo que a última bem-aventurança, que é o termo da perfeição espiritual, corresponde convenientemente à esperança, por via de objeto último; enquanto a primeira bem-aventurança, que implica afastamento das coisas exteriores que impedem a submissão a Deus, corresponde convenientemente ao temor. **Resposta à Objeção 4:** Quanto aos frutos, parece que aquelas coisas correspondem ao dom do temor que pertencem ao uso moderado das coisas temporais ou à abstinência delas; tais são a modéstia, a continência e a castidade.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 12 - Whether poverty of spirit is the beatitude corresponding to the gift of fear? · séc. XIII
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