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Sl 118, 120

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Matos Soares

120Estremece a minha carne com temor de ti, e temo os teus decretos.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a pobreza de espírito não é a bem-aventurança correspondente ao dom do temor. Pois o temor é o princípio da vida espiritual, como foi explicado acima (A[7]); ao passo que a pobreza pertence à perfeição da vida espiritual, segundo Mt 19,21: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres.” Logo, a pobreza de espírito não corresponde ao dom do temor. **Objeção 2:** Além disso, está escrito (Sl 118,120): “Crava na minha carne o teu temor,” donde parece seguir-se que pertence ao temor refrear a carne. Ora, o refreamento da carne parece pertencer antes à bem-aventurança dos que choram. Logo, a bem-aventurança dos que choram corresponde ao dom do temor, mais do que a bem-aventurança da pobreza. **Objeção 3:** Além disso, o dom do temor corresponde à virtude da esperança, como foi dito acima (A[9], ad 1). Ora, a última bem-aventurança, que é: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus,” parece corresponder acima de tudo à esperança, porque, segundo Rm 5,2, “nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus.” Logo, essa bem-aventurança corresponde ao dom do temor, mais do que a pobreza de espírito. **Objeção 4:** Além disso, foi dito acima (FS, Q[70], A[2]) que os frutos correspondem às bem-aventuranças. Ora, nenhum dos frutos corresponde ao dom do temor. Logo, também nenhuma das bem-aventuranças lhe corresponde. **Ao contrário,** Agostinho diz (De Serm. Dom. in Monte i, 4): “O temor do Senhor é próprio dos humildes, dos quais se diz: Bem-aventurados os pobres de espírito.” **Respondo** que a pobreza de espírito corresponde propriamente ao temor. Porque, como é próprio do temor filial mostrar reverência e submissão a Deus, tudo o que resulta dessa submissão pertence ao dom do temor. Ora, do próprio fato de um homem se submeter a Deus, segue-se que ele deixa de buscar a grandeza, quer em si mesmo quer em outrem, mas a busca somente em Deus. Pois isso seria incompatível com a perfeita sujeição a Deus, por isso está escrito (Sl 19,8): “Uns confiam nos carros, e outros nos cavalos; mas nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus.” Segue-se que, se um homem temer perfeitamente a Deus, não busca, por orgulho, a grandeza nem em si mesmo nem nos bens exteriores, a saber, honras e riquezas. Em ambos os casos, isto procede da pobreza de espírito, enquanto esta denota ou o esvaziamento de um espírito inchado e orgulhoso, segundo a interpretação de Agostinho (De Serm. Dom. in Monte i, 4), ou a renúncia dos bens mundanos que se faz em espírito, isto é, pela própria vontade, por instigação do Espírito Santo, segundo a exposição de Ambrósio sobre Lc 6,20 e de Jerônimo sobre Mt 5,3. **Resposta à Objeção 1:** Visto que uma bem-aventurança é um ato de virtude perfeita, todas as bem-aventuranças pertencem à perfeição da vida espiritual. E esta perfeição parece exigir que todo aquele que se esforça por obter uma parte perfeita dos bens espirituais, precisa começar por desprezar os bens terrenos, por isso o temor ocupa o primeiro lugar entre os dons. A perfeição, porém, não consiste na própria renúncia dos bens temporais; pois este é o caminho para a perfeição: ao passo que o temor filial, ao qual corresponde a bem-aventurança da pobreza, é compatível com a perfeição da sabedoria, como foi dito acima (AA[7],10). **Resposta à Objeção 2:** A indevida exaltação do homem, quer em si mesmo quer em outrem, opõe-se mais diretamente àquela submissão a Deus que resulta do temor filial do que o prazer exterior. Contudo, isto é, por consequência, oposto ao temor, pois quem teme a Deus e a Ele se submete, não se deleita em coisas outras que não Deus. No entanto, o prazer não está relacionado, como a exaltação, com o caráter árduo de uma coisa que o temor considera: e assim a bem-aventurança da pobreza corresponde diretamente ao temor, e a bem-aventurança dos que choram, consequentemente. **Resposta à Objeção 3:** A esperança denota um movimento por via de relação de tendência para um termo, ao passo que o temor implica movimento por via de relação de afastamento de um termo: pelo que a última bem-aventurança, que é o termo da perfeição espiritual, corresponde convenientemente à esperança, por via de objeto último; enquanto a primeira bem-aventurança, que implica afastamento das coisas exteriores que impedem a submissão a Deus, corresponde convenientemente ao temor. **Resposta à Objeção 4:** Quanto aos frutos, parece que aquelas coisas correspondem ao dom do temor que pertencem ao uso moderado das coisas temporais ou à abstinência delas; tais são a modéstia, a continência e a castidade.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 12 - Whether poverty of spirit is the beatitude corresponding to the gift of fear? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que os sete dons do Espírito Santo são enumerados inadequadamente. Pois nessa enumeração quatro são apresentados como correspondentes às virtudes intelectuais, a saber: sabedoria, entendimento, ciência e conselho, que corresponde à prudência; enquanto nada é apresentado correspondente à arte, que é a quinta virtude intelectual. Além disso, algo é incluído correspondente à justiça, a saber, a piedade, e algo correspondente à fortaleza, a saber, o dom da fortaleza; ao passo que nada há correspondente à temperança. Logo, os dons são enumerados insuficientemente. Objeção 2: Ademais, a piedade é uma parte da justiça. Mas nenhuma parte da fortaleza é atribuída para corresponder a ela, e sim a própria fortaleza. Logo, dever-se-ia ter estabelecido a própria justiça, e não a piedade. Objeção 3: Ademais, as virtudes teologais, mais do que quaisquer outras, nos dirigem a Deus. Portanto, visto que os dons aperfeiçoam o homem conforme ele é movido por Deus, parece que alguns dons correspondentes às virtudes teologais deveriam ter sido incluídos. Objeção 4: Ademais, assim como Deus é objeto de temor, assim também o é de amor, de esperança e de alegria. Ora, o amor, a esperança e a alegria são paixões condivisas com o temor. Logo, assim como o temor é estabelecido como um dom, também os outros três o deveriam ser. Objeção 5: Ademais, a sabedoria é acrescentada para dirigir o entendimento; o conselho, para dirigir a fortaleza; a ciência, para dirigir a piedade. Portanto, algum dom deveria ter sido acrescentado com o propósito de dirigir o temor. Logo, os sete dons do Espírito Santo são enumerados inadequadamente. Ao contrário, está a autoridade da Sagrada Escritura (Is 11,2,3). Respondo que, como foi dito acima (A[3]), os dons são hábitos que aperfeiçoam o homem de modo que ele esteja pronto a seguir as moções do Espírito Santo, assim como as virtudes morais aperfeiçoam as potências apetitivas para que obedeçam à razão. Ora, assim como é natural que as potências apetitivas sejam movidas pelo comando da razão, assim também é natural que todas as forças no homem sejam movidas pelo instinto de Deus, como por uma potência superior. Portanto, quaisquer potências no homem que possam ser princípios das ações humanas podem também ser sujeitos dos dons, assim como são das virtudes; e tais potências são a razão e o apetite. Ora, a razão é especulativa e prática: e em ambas encontramos a apreensão da verdade (que diz respeito à descoberta da verdade) e o juízo acerca da verdade. Portanto, para a apreensão da verdade, a razão especulativa é aperfeiçoada pelo "entendimento"; a razão prática, pelo "conselho". Para julgar retamente, a razão especulativa é aperfeiçoada pela "sabedoria"; a razão prática, pela "ciência". A potência apetitiva, nas matérias que tocam as relações do homem com outrem, é aperfeiçoada pela "piedade"; nas matérias que tocam a si mesmo, é aperfeiçoada pela "fortaleza" contra o temor dos perigos; e contra a concupiscência desordenada dos prazeres, pelo "temor", segundo Prov 15,27: "Pelo temor do Senhor cada um se aparta do mal", e Sl 118,120: "Crava com o teu temor a minha carne, porque estou atemorizado dos teus juízos." Portanto, fica claro que estes dons se estendem a todas aquelas coisas a que se estendem as virtudes, tanto intelectuais quanto morais. Resposta à Objeção 1: Os dons do Espírito Santo aperfeiçoam o homem nas matérias relativas à boa vida; ao passo que a arte não se dirige a tais matérias, mas às coisas exteriores que podem ser feitas, pois a arte é a reta razão, não acerca de coisas a serem feitas, mas acerca de coisas a serem fabricadas (Ética VI, 4). Contudo, podemos dizer que, quanto à infusão dos dons, a arte está da parte do Espírito Santo, que é o motor principal, e não da parte dos homens, que são seus instrumentos quando Ele os move. O dom do temor corresponde, de certo modo, à temperança: pois assim como pertence à temperança, propriamente falando, conter o homem dos maus prazeres em prol do bem determinado pela razão, assim também pertence ao dom do temor afastar o homem dos maus prazeres mediante o temor de Deus. Resposta à Objeção 2: A justiça é assim chamada a partir da retidão da razão, e por isso é mais convenientemente chamada virtude do que dom. Mas o nome de piedade denota a reverência que damos a nosso pai e à nossa pátria. E, visto que Deus é Pai de todos, o culto de Deus também é chamado piedade, como diz Agostinho (De Civ. Dei X, 1). Portanto, o dom pelo qual o homem, por reverência a Deus, obra o bem a todos, é convenientemente chamado piedade. Resposta à Objeção 3: A mente do homem não é movida pelo Espírito Santo, a menos que de algum modo esteja unida a Ele: assim como o instrumento não é movido pelo artífice, a menos que haja contato ou algum outro tipo de união entre eles. Ora, a união primordial do homem com Deus é pela fé, esperança e caridade: e, consequentemente, estas virtudes são pressupostas aos dons, como sendo suas raízes. Portanto, todos os dons correspondem a estas três virtudes, como delas derivados. Resposta à Objeção 4: O amor, a esperança e a alegria têm o bem por seu objeto. Ora, Deus é o Bem Soberano: por isso os nomes dessas paixões são transferidos para as virtudes teologais que unem o homem a Deus. Por outro lado, o objeto do temor é o mal, que de modo algum pode aplicar-se a Deus: portanto, o temor não denota união com Deus, mas afastamento de certas coisas por reverência a Deus. Logo, ele não dá seu nome a uma virtude teologal, mas a um dom, que nos afasta do mal por motivos mais elevados do que a virtude moral faz. Resposta à Objeção 5: A sabedoria dirige tanto o intelecto quanto os afetos do homem. Por isso, dois dons são estabelecidos como correspondentes à sabedoria como seu princípio diretivo; da parte do intelecto, o dom do entendimento; da parte dos afetos, o dom do temor. Porque a principal razão para temer a Deus é tomada da consideração da excelência divina, que a sabedoria considera.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the seven gifts of the Holy Ghost are suitably enumerated? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a temperança não é uma virtude. Pois nenhuma virtude vai contra a inclinação da natureza, visto que "há em nós uma aptidão natural para a virtude", como se afirma na Ética, II, 1. Ora, a temperança nos retrai dos prazeres para os quais a natureza inclina, segundo a Ética, II, 3,8. Logo, a temperança não é uma virtude. Objeção 2: Ademais, as virtudes são conexas entre si, como se disse acima (Prima Secundae, Q[65], A[1]). Mas alguns possuem a temperança sem ter as outras virtudes: pois encontramos muitos que são temperantes e, no entanto, são cobiçosos ou tímidos. Logo, a temperança não é uma virtude. Objeção 3: Além disso, a toda virtude corresponde um dom, como se depreende do que foi dito acima (Prima Secundae, Q[68], A[4]). Mas, aparentemente, nenhum dom corresponde à temperança, pois todos os dons já foram atribuídos às outras virtudes (QQ[8],9,19,45,52,71,139). Logo, a temperança não é uma virtude. Em contrário, Agostinho diz (Música, VI, 15): "A temperança é o nome de uma virtude." Respondo que, como foi dito acima (Prima Secundae, Q[55], A[3]), é essencial à virtude inclinar o homem para o bem. Ora, o bem do homem consiste em estar de acordo com a razão, como afirma Dionísio (Nomes Divinos, IV). Portanto, a virtude humana é aquela que inclina o homem para algo conforme a razão. Ora, a temperança evidentemente inclina o homem para isso, pois seu próprio nome implica moderação ou temperança, que a razão causa. Logo, a temperança é uma virtude. Resposta à objeção 1: A natureza inclina cada coisa para aquilo que lhe é conveniente. Por isso, o homem naturalmente deseja os prazeres que lhe são convenientes. Visto, porém, que o homem, enquanto tal, é um ser racional, segue-se que são convenientes ao homem os prazeres que estão de acordo com a razão. Destes prazeres a temperança não o retrai, mas daqueles que são contrários à razão. Portanto, fica claro que a temperança não é contrária à inclinação da natureza humana, mas está de acordo com ela. É, contudo, contrária à inclinação da natureza animal não sujeita à razão. Resposta à objeção 2: A temperança que cumpre as condições da virtude perfeita não existe sem a prudência, a qual falta a todos os que estão em pecado. Por isso, os que carecem das outras virtudes, por estarem sujeitos aos vícios opostos, não possuem a temperança que é virtude, embora pratiquem atos de temperança por uma certa disposição natural, na medida em que certas virtudes imperfeitas são ou naturais ao homem, como foi dito acima (Prima Secundae, Q[63], A[1]), ou adquiridas pela habituação; tais virtudes, por falta de prudência, não são aperfeiçoadas pela razão, como se disse acima (Prima Secundae, Q[65], A[1]). Resposta à objeção 3: A temperança também tem um dom correspondente, a saber, o temor, pelo qual o homem é retraído dos prazeres da carne, conforme o Salmo 118:120: "Crava na minha carne o teu temor." O dom do temor tem por objeto principal a Deus, a quem evita ofender, e, sob esse aspecto, corresponde à virtude da esperança, como foi dito acima (Q[19], A[9], ad 1). Mas pode ter por objeto secundário tudo o que o homem evita para não ofender a Deus. Ora, o homem tem a máxima necessidade do temor de Deus para evitar aquelas coisas que são as mais sedutoras, e estas são a matéria da temperança; por isso, o dom do temor corresponde também à temperança.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether temperance is a virtue? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que os sete dons do Espírito Santo são enumerados inadequadamente. Pois, nessa enumeração, quatro são estabelecidos correspondentes às virtudes intelectuais, a saber: sabedoria, entendimento, ciência e conselho, que corresponde à prudência; ao passo que nada é estabelecido correspondente à arte, que é a quinta virtude intelectual. Além disso, inclui-se algo correspondente à justiça, a saber, a piedade, e algo correspondente à fortaleza, a saber, o dom da fortaleza; enquanto nada há que corresponda à temperança. Logo, os dons são enumerados insuficientemente. **Objeção 2:** Ademais, a piedade é uma parte da justiça. Ora, nenhuma parte da fortaleza é atribuída para lhe corresponder, mas a própria fortaleza. Portanto, dever-se-ia ter estabelecido a justiça mesma, e não a piedade. **Objeção 3:** Ademais, as virtudes teologais, mais do que quaisquer outras, nos dirigem a Deus. Visto que, então, os dons aperfeiçoam o homem segundo ele é movido por Deus, parece que alguns dons, correspondentes às virtudes teologais, deveriam ter sido incluídos. **Objeção 4:** Ademais, assim como Deus é objeto de temor, assim o é de amor, de esperança e de gozo. Ora, o amor, a esperança e o gozo são paixões condivididas com o temor. Logo, assim como o temor é estabelecido como um dom, assim também o deveriam ser os outros três. **Objeção 5:** Ademais, a sabedoria é acrescentada para dirigir o entendimento; o conselho, para dirigir a fortaleza; a ciência, para dirigir a piedade. Portanto, algum dom deveria ter sido acrescentado com o fim de dirigir o temor. Logo, os sete dons do Espírito Santo são enumerados inadequadamente. **Em contrário,** está a autoridade da Sagrada Escritura (Is 11,2-3). **Respondo que,** como foi dito acima (A[3]), os dons são hábitos que aperfeiçoam o homem de modo que ele esteja pronto a seguir as inspirações do Espírito Santo, assim como as virtudes morais aperfeiçoam as potências apetitivas para que obedeçam à razão. Ora, assim como é natural que as potências apetitivas sejam movidas pelo comando da razão, assim é natural que todas as forças no homem sejam movidas pelo instinto de Deus, como por uma potência superior. Portanto, quaisquer potências no homem que possam ser os princípios das ações humanas podem também ser os sujeitos dos dons, assim como são virtudes; e tais potências são a razão e o apetite. Ora, a razão é especulativa e prática; e em ambas encontramos a apreensão da verdade (que pertence à descoberta da verdade) e o juízo acerca da verdade. Por conseguinte, para a apreensão da verdade, a razão especulativa é aperfeiçoada pelo "entendimento"; a razão prática, pelo "conselho". Para julgar retamente, a razão especulativa é aperfeiçoada pela "sabedoria"; a razão prática pela "ciência". A potência apetitiva, nas coisas que tocam as relações do homem com outrem, é aperfeiçoada pela "piedade"; nas coisas que tocam a si mesmo, é aperfeiçoada pela "fortaleza" contra o temor dos perigos; e contra a concupiscência desordenada dos prazeres, pelo "temor", segundo Prov 15,27: "Pelo temor do Senhor cada um se desvia do mal", e Sl 118,120: "Crava a minha carne com o teu temor; porque eu temo os teus juízos." Portanto, é claro que estes dons se estendem a todas aquelas coisas a que se estendem as virtudes, tanto intelectuais como morais. **Resposta à Objeção 1:** Os dons do Espírito Santo aperfeiçoam o homem nas coisas concernentes a uma boa vida; ao passo que a arte não se dirige a tais coisas, mas às coisas exteriores que podem ser feitas, pois a arte é a reta razão, não acerca das coisas que hão de ser feitas, mas acerca das coisas que hão de ser produzidas (Ética, VI, 4). Contudo, podemos dizer que, quanto à infusão dos dons, a arte está por parte do Espírito Santo, que é o motor principal, e não por parte dos homens, que são seus órgãos quando Ele os move. O dom do temor corresponde, de certo modo, à temperança: pois, assim como pertence à temperança, propriamente falando, refrear o homem dos prazeres maus por causa do bem estabelecido pela razão, assim pertence ao dom do temor afastar o homem dos prazeres maus pelo temor de Deus. **Resposta à Objeção 2:** A justiça é assim chamada pela retidão da razão, e por isso é mais adequadamente chamada virtude do que dom. Mas o nome de piedade denota a reverência que prestamos a nosso pai e a nossa pátria. E, visto que Deus é o Pai de todos, o culto a Deus também é chamado piedade, como Agostinho afirma (A Cidade de Deus, X, 1). Portanto, o dom pelo qual um homem, por reverência a Deus, obra o bem para todos, é apropriadamente chamado piedade. **Resposta à Objeção 3:** A mente do homem não é movida pelo Espírito Santo, a menos que de algum modo lhe esteja unida: assim como o instrumento não é movido pelo artífice, a menos que haja contato ou algum outro tipo de união entre eles. Ora, a união primordial do homem com Deus é pela fé, esperança e caridade; e, consequentemente, estas virtudes são pressupostas aos dons, como suas raízes. Portanto, todos os dons correspondem a estas três virtudes, como delas derivados. **Resposta à Objeção 4:** O amor, a esperança e o gozo têm o bem por objeto. Ora, Deus é o Soberano Bem; por isso os nomes destas paixões são transferidos para as virtudes teologais, que unem o homem a Deus. Por outro lado, o objeto do temor é o mal, que de modo algum pode aplicar-se a Deus; por isso o temor não denota união com Deus, mas afastamento de certas coisas por reverência a Deus. Portanto, não dá o seu nome a uma virtude teologal, mas a um dom, que nos afasta do mal por motivos mais elevados do que a virtude moral. **Resposta à Objeção 5:** A sabedoria dirige tanto o intelecto como os afetos do homem. Por isso, dois dons são estabelecidos como correspondentes à sabedoria como seu princípio diretor: por parte do intelecto, o dom do entendimento; por parte dos afetos, o dom do temor. Pois a principal razão para temer a Deus é tomada da consideração da excelência divina, que a sabedoria considera.

Summa Theologiae — First Part · Article. 4 - Whether the seven gifts of the Holy Ghost are suitably enumerated? · séc. XIII

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Sl 118, 120 nos Padres da Igreja | Aurea