Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que algum bem criado constitui a felicidade do homem. Pois Dionísio diz (Div. Nom. VII) que a Divina Sabedoria “une os fins das primeiras coisas aos princípios das segundas”, do que podemos coligir que o cume de uma natureza inferior toca a base da natureza superior. Ora, o sumo bem do homem é a felicidade. Visto que, então, o anjo está acima do homem na ordem da natureza, como se afirma na I Parte, Q[111], A[1], parece que a felicidade do homem consiste em alcançar de algum modo o anjo. Objeção 2: Além disso, o fim último de cada coisa é aquilo que, em relação a ela, é perfeito; por isso a parte é para o todo, como para seu fim. Ora, o universo das criaturas, que se chama macrocosmo, é comparado ao homem, que se chama microcosmo (Fís. VIII, 2), como o perfeito ao imperfeito. Portanto, a felicidade do homem consiste em todo o universo das criaturas. Objeção 3: Além disso, o homem é feito feliz por aquilo que aquieta o seu desejo natural. Mas o desejo natural do homem não se estende a um bem que ultrapasse a sua capacidade. Visto que, então, a capacidade do homem não inclui aquele bem que ultrapassa os limites de toda a criação, parece que o homem pode ser feito feliz por algum bem criado. Por conseguinte, algum bem criado constitui a felicidade do homem. Em contrário, Agostinho diz (De Civ. Dei XIX, 26): “Assim como a alma é a vida do corpo, assim Deus é a vida da felicidade do homem; do qual está escrito: ‘Bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor’ (Sl 143,15).” Respondo que é impossível que algum bem criado constitua a felicidade do homem. Pois a felicidade é o bem perfeito, que aquieta totalmente o apetite; de outro modo não seria o fim último, se ainda restasse algo a desejar. Ora, o objeto da vontade, isto é, do apetite do homem, é o bem universal; assim como o objeto do intelecto é o verdadeiro universal. Por onde é evidente que nada pode aquietar a vontade do homem, senão o bem universal. Este não se encontra em criatura alguma, mas somente em Deus; porque toda criatura tem bondade por participação. Portanto, só Deus pode satisfazer a vontade do homem, segundo as palavras do Sl 102,5: “Que farta de bens o teu desejo.” Portanto, só Deus constitui a felicidade do homem. Resposta à primeira objeção: O cume do homem toca realmente a base da natureza angélica por uma certa semelhança; mas o homem não descansa aí como em seu fim último, mas tende para a própria fonte universal do bem, que é o objeto comum de felicidade de todos os bem-aventurados, como sendo o bem infinito e perfeito. Resposta à segunda objeção: Se um todo não é o fim último, mas ordenado a um fim ulterior, então o fim último de uma parte dele não é o todo em si, mas algo outro. Ora, o universo das criaturas, ao qual o homem é comparado como parte ao todo, não é o fim último, mas é ordenado a Deus, como a seu fim último. Portanto, o fim último do homem não é o bem do universo, mas o próprio Deus. Resposta à terceira objeção: O bem criado não é menor do que o bem de que o homem é capaz, como de algo intrínseco e inerente a ele; mas é menor do que o bem de que é capaz, como de um objeto, e que é infinito. E o bem participado que está no anjo e em todo o universo é um bem finito e restrito.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 8 - Whether any created good constitutes man's happiness? · séc. XIII
tradução automática