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Sl 144, 9

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Matos Soares

9Bom é o Senhor para com todos, e compassivo com todas as suas obras.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a razão de se ter compaixão não é um defeito na pessoa que se compadece. Pois é próprio de Deus ser misericordioso, donde está escrito (Sl 144,9): «As suas misericórdias são sobre todas as suas obras». Ora, em Deus não há defeito algum. Logo, um defeito não pode ser a razão de se ter compaixão. Objeção 2: Ademais, se um defeito é a razão de se ter compaixão, aqueles em quem há mais defeito hão de ter necessariamente mais compaixão. Mas isto é falso, pois o Filósofo diz (Retórica, II, 8) que «os que estão em estado desesperado são sem compaixão». Logo, parece que a razão de se ter compaixão não é um defeito naquele que se compadece. Objeção 3: Ademais, ser tratado com desprezo é ser defeituoso. Ora, o Filósofo diz (Retórica, II, 8) que «os que são inclinados à contumélia são sem compaixão». Logo, a razão de se ter compaixão não é um defeito naquele que se compadece. Em contrário, a compaixão é uma espécie de tristeza. Ora, um defeito é a razão da tristeza, donde os que estão com má saúde se entregam mais facilmente à tristeza, como adiante se dirá (Q. 35, Art. 1, ad 2). Logo, a razão pela qual alguém se compadece é um defeito em si mesmo. Respondo que, sendo a compaixão uma tristeza pelo mal alheio, como acima se disse (Art. 1), pelo próprio facto de alguém se compadecer de outrem, segue-se que o mal alheio o entristece. E como a tristeza ou pesar é acerca dos próprios males, entristece-se ou pesa-se pelo mal alheio na medida em que considera o mal alheio como seu. Ora, isto se dá de dois modos: primeiro, pela união dos afectos, que é efeito do amor. Pois, como aquele que ama outrem considera o amigo como um outro eu, reputa o dano do amigo como seu, de modo que se entristece pelo dano do amigo como se fosse ele próprio danificado. Por isso o Filósofo (Ética, IX, 4) enumera o «entristecer-se com o amigo» como um dos sinais de amizade, e o Apóstolo diz (Rm 12,15): «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram». Segundo, dá-se por uma união real, por exemplo quando o mal alheio se nos aproxima, de modo a passar dele para nós. Por isso o Filósofo diz (Retórica, II, 8) que os homens se compadecem dos que lhes são aparentados e semelhantes, porque isso lhes faz compreender que o mesmo lhes pode suceder. Daí também que os velhos e os sábios, que consideram poder cair em tempos adversos, assim como os fracos e os tímidos, sejam mais inclinados à compaixão; ao passo que os que se julgam felizes e tão poderosos que pensam não correr perigo de sofrer qualquer dano, não são tão inclinados à compaixão. Por conseguinte, um defeito é sempre a razão de se ter compaixão, ou porque se considera o defeito alheio como próprio, por estar unido a outrem pelo amor, ou por causa da possibilidade de sofrer de modo semelhante. Resposta à objeção 1: Deus se compadece de nós apenas pelo amor, enquanto nos ama como seus. Resposta à objeção 2: Os que já estão em infinita aflição não temem sofrer mais, por isso são sem compaixão. Do mesmo modo, isto se aplica também aos que estão em grande temor, pois estão tão concentrados na sua própria paixão que não prestam atenção ao sofrimento alheio. Resposta à objeção 3: Os que são inclinados à contumélia, seja por terem sido desprezados, seja porque desejam desprezar os outros, são incitados à ira e à audácia, paixões viris que excitam o espírito humano a empreender coisas difíceis. Por isso fazem o homem pensar que há de sofrer algo no futuro, de modo que, enquanto assim estão dispostos, são sem compaixão, conforme Pv 27,4: «A ira não tem misericórdia, nem o furor, quando se derrama». Pela mesma razão, os soberbos são sem compaixão, porque desprezam os outros e os consideram maus, julgando que sofrem merecidamente tudo o que sofrem. Por isso Gregório diz (Hom. in Evang. XXXIV) que a «falsa piedade», isto é, dos soberbos, «não é compassiva, mas desdenhosa».

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the reason for taking pity is a defect in the person who pities? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a misericórdia é a maior das virtudes. Porque o culto a Deus parece um ato virtuosíssimo. Ora, a misericórdia é preferida ao culto a Deus, conforme Oseias 6,6 e Mateus 12,7: «Quero misericórdia, e não sacrifício». Logo, a misericórdia é a maior virtude. Objeção 2: Ademais, sobre as palavras de 1 Timóteo 4,8: «A piedade para tudo é proveitosa», uma glosa diz: «A soma total da regra de vida cristã consiste na misericórdia e na piedade». Ora, a regra de vida cristã abrange toda virtude. Logo, a soma total de todas as virtudes está contida na misericórdia. Objeção 3: Ademais, «A virtude é aquilo que torna bom o seu possuidor», segundo o Filósofo. Logo, quanto mais uma virtude torna o homem semelhante a Deus, tanto melhor é essa virtude: pois o homem é tanto melhor quanto mais semelhante a Deus. Ora, isso se dá principalmente pela misericórdia, pois de Deus se diz (Salmo 144,9) que «as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras», e (Lucas 6,36) o Senhor disse: «Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso». Logo, a misericórdia é a maior das virtudes. Em contrário, o Apóstolo, depois de dizer (Colossenses 3,12): «Revesti-vos, como eleitos de Deus, de entranhas de misericórdia», etc., acrescenta (Colossenses 3,14): «Sobre todas as coisas, tende caridade». Logo, a misericórdia não é a maior das virtudes. RESPONDO: Uma virtude pode ter precedência sobre outras de dois modos: primeiro, em si mesma; segundo, em comparação com o seu sujeito. Em si mesma, a misericórdia tem precedência sobre as outras virtudes, pois à misericórdia pertence ser liberal para com os outros e, o que é mais, socorrer os outros em suas necessidades, o que cabe principalmente àquele que está acima. Por isso, a misericórdia é considerada como própria de Deus, e nela se declara que sua onipotência se manifesta principalmente [Colecta do Décimo Domingo depois de Pentecostes]. Por outro lado, com respeito ao seu sujeito, a misericórdia não é a maior virtude, a menos que esse sujeito seja maior que todos os outros, por nenhum superado e a todos excelendo: pois para aquele que tem alguém acima de si, é melhor unir-se ao que está acima do que suprir a falta do que está abaixo. [*«A qualidade da misericórdia não é forçada; / É a mais poderosa nos mais poderosos: / Fica melhor ao monarca entronizado do que sua coroa.» — Mercador de Veneza, Ato IV, Cena i.] Portanto, quanto ao homem, que tem Deus acima de si, a caridade, que o une a Deus, é maior do que a misericórdia, pela qual ele supre as faltas do próximo. Mas entre todas as virtudes que se referem ao próximo, a misericórdia é a maior, assim como seu ato supera todos os outros, pois pertence a quem é mais alto e melhor suprir a falta de outro, na medida em que este é deficiente. Resposta à Objeção 1: Adoramos a Deus com sacrifícios e dons exteriores, não para proveito próprio dEle, mas para o nosso e do próximo. Pois Ele não necessita de nossos sacrifícios, mas quer que Lhe sejam oferecidos para despertar nossa devoção e beneficiar o próximo. Por isso, a misericórdia, pela qual suprimos as faltas alheias, é um sacrifício mais aceitável a Ele, por conduzir mais diretamente ao bem-estar do próximo, conforme Hebreus 13,16: «Não vos esqueçais da beneficência e da comunicação; porque com tais sacrifícios se alcança o favor de Deus». Resposta à Objeção 2: A soma total da religião cristã consiste na misericórdia, quanto às obras externas; mas o amor interior da caridade, pelo qual nos unimos a Deus, prepondera tanto sobre o amor como sobre a misericórdia para com o próximo. Resposta à Objeção 3: A caridade nos assemelha a Deus unindo-nos a Ele pelo vínculo do amor; por isso supera a misericórdia, que nos assemelha a Deus quanto à semelhança das obras.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether mercy is the greatest of the virtues? · séc. XIII

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Sl 144, 9 nos Padres da Igreja | Aurea