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Sl 147, 3

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Matos Soares

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a felicidade consiste num ato da vontade. Porque Agostinho diz (De Civ. Dei xix, 10,11) que a felicidade do homem consiste na paz; donde está escrito (Sl 147:3): “Que estabeleceu a paz nos teus confins”. Ora, a paz pertence à vontade. Logo, a felicidade do homem está na vontade. **Objeção 2:** Ademais, a felicidade é o sumo bem. Mas o bem é o objeto da vontade. Logo, a felicidade consiste numa operação da vontade. **Objeção 3:** Ademais, o fim último corresponde ao primeiro motor; assim, o fim último de todo o exército é a vitória, que é o fim do general, o qual move todos os soldados. Ora, o primeiro motor quanto às operações é a vontade, porque move as demais potências, como adiante exporemos (Q. 9, A. 1, 3). Logo, a felicidade diz respeito à vontade. **Objeção 4:** Ademais, se a felicidade é uma operação, há de ser a operação mais excelente do homem. Ora, o amor de Deus, que é ato da vontade, é operação mais excelente do que o conhecimento, que é operação do intelecto, como declara o Apóstolo (1 Cor 13). Logo, parece que a felicidade consiste num ato da vontade. **Objeção 5:** Ademais, Agostinho diz (De Trin. xiii, 5) que “feliz é aquele que tem quanto deseja e nada deseja mal”. E pouco adiante (6) acrescenta: “É felicíssimo aquele que deseja bem, seja o que for que deseje; pois as coisas boas fazem o homem feliz, e tal homem já possui algum bem — a saber, uma boa vontade.” Logo, a felicidade consiste num ato da vontade. **Em contrário**, Nosso Senhor disse (Jo 17:3): “Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro.” Ora, a vida eterna é o fim último, como acima foi dito (A. 2, ad 1). Logo, a felicidade do homem consiste no conhecimento de Deus, que é um ato do intelecto. **Respondo:** Como foi dito acima (Q. 2, A. 6), duas coisas são necessárias para a felicidade: uma, que é a essência da felicidade; outra, que é, por assim dizer, o seu acidente próprio, isto é, o deleite que a acompanha. Digo, pois, que, quanto à própria essência da felicidade, é impossível que esta consista num ato da vontade. Porque é evidente, pelo que já foi dito (A. 1, 2; Q. 2, A. 7), que a felicidade é a consecução do fim último. Ora, a consecução do fim não consiste no próprio ato da vontade. Pois a vontade se ordena ao fim tanto quando ausente, desejando-o, como quando presente, deleitando-se ao nele repousar. É evidente, porém, que o próprio desejo do fim não é a consecução do fim, mas um movimento para o fim; ao passo que o deleite advém à vontade por estar presente o fim, e não, inversamente, que uma coisa se torne presente pelo fato de a vontade nela se deleitar. Portanto, que o fim esteja presente a quem o deseja deve-se a algo diverso de um ato da vontade. Isto é manifesto no tocante aos fins sensíveis. Com efeito, se a aquisição do dinheiro se desse por um ato da vontade, o avarento o teria desde o momento em que o desejasse. Mas, naquele momento, está longe dele; e só o alcança quando o apreende com a mão, ou de algum modo semelhante; e então se deleita com o dinheiro obtido. E assim é com o fim inteligível. Pois, primeiro, desejamos alcançar um fim inteligível; alcançamo-lo por ele nos ser tornado presente mediante um ato do intelecto; e então a vontade deleitada repousa no fim alcançado. Portanto, a essência da felicidade consiste num ato do intelecto; mas o deleite que resulta da felicidade pertence à vontade. Neste sentido, Agostinho diz (Confess. x, 23) que a felicidade é “a alegria na verdade”, porque, a saber, a própria alegria é a consumação da felicidade. **Resposta à objeção 1:** A paz pertence ao fim último do homem, não como se fosse a própria essência da felicidade, mas porque é antecedente e consequente a ela: antecedente, enquanto se removem todas as coisas que perturbam e impedem o homem de alcançar o fim último; consequente, na medida em que, após ter alcançado o fim último, o homem permanece em paz, repousado o seu desejo. **Resposta à objeção 2:** O objeto primeiro da vontade não é o seu ato; assim como também o objeto primeiro da vista não é a visão, mas a coisa visível. Por conseguinte, do próprio fato de a felicidade pertencer à vontade como seu objeto primeiro, segue-se que não lhe pertence como seu ato. **Resposta à objeção 3:** O intelecto apreende o fim antes da vontade; todavia, o movimento para o fim começa na vontade. Por isso, à vontade pertence aquilo que, por último, se segue à consecução do fim, a saber, o deleite ou o gozo. **Resposta à objeção 4:** O amor supera o conhecimento quanto ao mover, mas o conhecimento precede o amor quanto ao alcançar; pois “nada se ama senão o que é conhecido”, como diz Agostinho (De Trin. x, 1). Consequentemente, alcançamos primeiro um fim inteligível por um ato do intelecto; assim como alcançamos primeiro um fim sensível por um ato dos sentidos. **Resposta à objeção 5:** Aquele que tem quanto deseja é feliz porque tem o que deseja; e isto, na verdade, se dá por algo diverso do ato de sua vontade. Quanto a não desejar nada mal, é necessário para a felicidade como disposição requerida para ela. E a boa vontade é contada entre os bens que fazem o homem feliz, porquanto é uma inclinação da vontade; assim como o movimento se reduz ao gênero do seu termo, por exemplo, a “alteração” ao gênero “qualidade”.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether, if happiness is in the intellective part, it is an operation of the intellect or of the will? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que nem todas as coisas desejam a paz. Porque, segundo Dionísio (Div. Nom. XI), a paz “une o consentimento”. Ora, não pode haver unidade de consentimento nas coisas que são privadas de conhecimento. Logo, tais coisas não podem desejar a paz. Objecção 2: Além disso, o apetite não tende para coisas opostas ao mesmo tempo. Ora, muitos desejam a guerra e a discórdia. Portanto, nem todos os homens desejam a paz. Objecção 3: Além disso, só o bem é objecto do apetite. Ora, certa paz é, ao que parece, má; do contrário Nosso Senhor não teria dito (Mat. 10:34): “Não vim trazer a paz.” Portanto, nem todas as coisas desejam a paz. Objecção 4: Além disso, aquilo que todos desejam é, ao que parece, o sumo bem, que é o fim último. Ora, isto não se verifica a respeito da paz, pois ela é alcançável até mesmo por um peregrino; do contrário, em vão ordenaria Nosso Senhor (Marc. 9:49): “Tende paz entre vós.” Portanto, nem todas as coisas desejam a paz. Em contrário, diz Agostinho (De Civ. Dei XIX, 12,14) que “todas as coisas desejam a paz”; e Dionísio diz o mesmo (Div. Nom. XI). Respondo que, pelo próprio facto de um homem desejar uma certa coisa, segue-se que ele deseja obter o que deseja e, consequentemente, remover tudo quanto possa ser obstáculo a que o obtenha. Ora, um homem pode ser impedido de obter o bem que deseja por um desejo contrário, seja dele mesmo, seja de outrem; e ambos são removidos pela paz, como foi dito acima. Donde se segue, necessariamente, que todo aquele que deseja alguma coisa, deseja a paz, enquanto todo aquele que deseja alguma coisa deseja alcançar, com tranquilidade e sem impedimento, aquilo que deseja. E é isto o que se entende por paz, que Agostinho define (De Civ. Dei XIX, 13) como “a tranquilidade da ordem”. Resposta à objecção 1: A paz designa união não só do apetite intelectivo ou racional, ou do apetite animal, em ambos os quais se pode encontrar consentimento, mas também do apetite natural. Por isso Dionísio diz que “a paz é causa do consentimento e da connaturalidade”, onde “consentimento” designa a união dos apetites provenientes do conhecimento, e “connaturalidade” a união dos apetites naturais. Resposta à objecção 2: Mesmo aqueles que buscam a guerra e a discórdia nada mais desejam senão a paz, que julgam não possuir. Pois, como dissemos acima, não há paz quando um homem concorda com outro homem contra o que ele preferiria. Consequentemente, os homens buscam, por meio da guerra, romper essa concordância, porque é uma paz defeituosa, a fim de obterem uma paz em que nada seja contrário à sua vontade. Portanto, todas as guerras são travadas para que os homens encontrem uma paz mais perfeita do que aquela que antes tinham. Resposta à objecção 3: A paz dá calma e unidade ao apetite. Ora, assim como o apetite pode tender para o bem simplesmente, ou para o bem aparente, assim também a paz pode ser verdadeira ou aparente. Não pode haver paz verdadeira senão onde o apetite se dirige ao bem verdadeiro, pois todo mal, embora apareça de certo modo como bem, de modo a acalmar o apetite em algum aspecto, tem, contudo, muitos defeitos, que fazem com que o apetite permaneça inquieto e perturbado. Por isso, a paz verdadeira só existe nos homens bons e acerca de coisas boas. A paz dos ímpios não é paz verdadeira, mas uma aparência dela; donde está escrito (Sab. 14:22): “Vivendo eles em grande guerra de ignorância, chamam paz a tão grandes e tão numerosos males.” Resposta à objecção 4: Visto que a paz verdadeira só existe acerca de coisas boas, assim como o bem verdadeiro é possuído de dois modos, perfeita e imperfeitamente, assim também há uma dupla paz verdadeira. Uma é a paz perfeita: consiste no perfeito gozo do sumo bem, e une todos os desejos dando-lhes descanso num só objecto. Esta é o fim último da criatura racional, segundo o Salmo 147:3: “Quem estabeleceu a paz nos teus termos.” A outra é a paz imperfeita, que se pode ter neste mundo; pois, embora o movimento principal da alma encontre descanso em Deus, há, contudo, certas coisas dentro e fora que perturbam a paz.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether all things desire peace? · séc. XIII

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