Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a felicidade consiste num ato da vontade. Porque Agostinho diz (De Civ. Dei xix, 10,11) que a felicidade do homem consiste na paz; donde está escrito (Sl 147:3): “Que estabeleceu a paz nos teus confins”. Ora, a paz pertence à vontade. Logo, a felicidade do homem está na vontade. **Objeção 2:** Ademais, a felicidade é o sumo bem. Mas o bem é o objeto da vontade. Logo, a felicidade consiste numa operação da vontade. **Objeção 3:** Ademais, o fim último corresponde ao primeiro motor; assim, o fim último de todo o exército é a vitória, que é o fim do general, o qual move todos os soldados. Ora, o primeiro motor quanto às operações é a vontade, porque move as demais potências, como adiante exporemos (Q. 9, A. 1, 3). Logo, a felicidade diz respeito à vontade. **Objeção 4:** Ademais, se a felicidade é uma operação, há de ser a operação mais excelente do homem. Ora, o amor de Deus, que é ato da vontade, é operação mais excelente do que o conhecimento, que é operação do intelecto, como declara o Apóstolo (1 Cor 13). Logo, parece que a felicidade consiste num ato da vontade. **Objeção 5:** Ademais, Agostinho diz (De Trin. xiii, 5) que “feliz é aquele que tem quanto deseja e nada deseja mal”. E pouco adiante (6) acrescenta: “É felicíssimo aquele que deseja bem, seja o que for que deseje; pois as coisas boas fazem o homem feliz, e tal homem já possui algum bem — a saber, uma boa vontade.” Logo, a felicidade consiste num ato da vontade. **Em contrário**, Nosso Senhor disse (Jo 17:3): “Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro.” Ora, a vida eterna é o fim último, como acima foi dito (A. 2, ad 1). Logo, a felicidade do homem consiste no conhecimento de Deus, que é um ato do intelecto. **Respondo:** Como foi dito acima (Q. 2, A. 6), duas coisas são necessárias para a felicidade: uma, que é a essência da felicidade; outra, que é, por assim dizer, o seu acidente próprio, isto é, o deleite que a acompanha. Digo, pois, que, quanto à própria essência da felicidade, é impossível que esta consista num ato da vontade. Porque é evidente, pelo que já foi dito (A. 1, 2; Q. 2, A. 7), que a felicidade é a consecução do fim último. Ora, a consecução do fim não consiste no próprio ato da vontade. Pois a vontade se ordena ao fim tanto quando ausente, desejando-o, como quando presente, deleitando-se ao nele repousar. É evidente, porém, que o próprio desejo do fim não é a consecução do fim, mas um movimento para o fim; ao passo que o deleite advém à vontade por estar presente o fim, e não, inversamente, que uma coisa se torne presente pelo fato de a vontade nela se deleitar. Portanto, que o fim esteja presente a quem o deseja deve-se a algo diverso de um ato da vontade. Isto é manifesto no tocante aos fins sensíveis. Com efeito, se a aquisição do dinheiro se desse por um ato da vontade, o avarento o teria desde o momento em que o desejasse. Mas, naquele momento, está longe dele; e só o alcança quando o apreende com a mão, ou de algum modo semelhante; e então se deleita com o dinheiro obtido. E assim é com o fim inteligível. Pois, primeiro, desejamos alcançar um fim inteligível; alcançamo-lo por ele nos ser tornado presente mediante um ato do intelecto; e então a vontade deleitada repousa no fim alcançado. Portanto, a essência da felicidade consiste num ato do intelecto; mas o deleite que resulta da felicidade pertence à vontade. Neste sentido, Agostinho diz (Confess. x, 23) que a felicidade é “a alegria na verdade”, porque, a saber, a própria alegria é a consumação da felicidade. **Resposta à objeção 1:** A paz pertence ao fim último do homem, não como se fosse a própria essência da felicidade, mas porque é antecedente e consequente a ela: antecedente, enquanto se removem todas as coisas que perturbam e impedem o homem de alcançar o fim último; consequente, na medida em que, após ter alcançado o fim último, o homem permanece em paz, repousado o seu desejo. **Resposta à objeção 2:** O objeto primeiro da vontade não é o seu ato; assim como também o objeto primeiro da vista não é a visão, mas a coisa visível. Por conseguinte, do próprio fato de a felicidade pertencer à vontade como seu objeto primeiro, segue-se que não lhe pertence como seu ato. **Resposta à objeção 3:** O intelecto apreende o fim antes da vontade; todavia, o movimento para o fim começa na vontade. Por isso, à vontade pertence aquilo que, por último, se segue à consecução do fim, a saber, o deleite ou o gozo. **Resposta à objeção 4:** O amor supera o conhecimento quanto ao mover, mas o conhecimento precede o amor quanto ao alcançar; pois “nada se ama senão o que é conhecido”, como diz Agostinho (De Trin. x, 1). Consequentemente, alcançamos primeiro um fim inteligível por um ato do intelecto; assim como alcançamos primeiro um fim sensível por um ato dos sentidos. **Resposta à objeção 5:** Aquele que tem quanto deseja é feliz porque tem o que deseja; e isto, na verdade, se dá por algo diverso do ato de sua vontade. Quanto a não desejar nada mal, é necessário para a felicidade como disposição requerida para ela. E a boa vontade é contada entre os bens que fazem o homem feliz, porquanto é uma inclinação da vontade; assim como o movimento se reduz ao gênero do seu termo, por exemplo, a “alteração” ao gênero “qualidade”.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether, if happiness is in the intellective part, it is an operation of the intellect or of the will? · séc. XIII
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