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Sl 16, 15

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Matos Soares

15Eu, porém, na justiça verei a tua face, saciar-me-ei, ao despertar, com o teu semblante.

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que a Felicidade pode ser perdida. Pois a Felicidade é uma perfeição. Mas toda perfeição está na coisa perfeita segundo o modo desta. Ora, o homem é, por sua natureza, mutável. Logo, parece que a Felicidade é participada pelo homem de modo mutável. E, por consequência, parece que o homem pode perder a Felicidade. **Objeção 2:** Além disso, a Felicidade consiste num ato do intelecto; e o intelecto está sujeito à vontade. Mas a vontade pode dirigir-se a opostos. Logo, parece que pode desistir da operação pela qual o homem se torna feliz; e assim o homem cessará de ser feliz. **Objeção 3:** Ademais, o fim corresponde ao princípio. Mas a Felicidade do homem tem um princípio, pois o homem nem sempre foi feliz. Logo, parece que tem um fim. **Pelo contrário,** está escrito (Mat. 25,46) dos justos: «Irão para a vida eterna», a qual, como se disse acima (A[2]), é a Felicidade dos santos. Ora, o que é eterno não cessa. Portanto, a Felicidade não pode ser perdida. **Respondo que,** se falarmos da felicidade imperfeita, tal como pode existir nesta vida, neste sentido ela pode ser perdida. Isto é evidente quanto à felicidade contemplativa, que se perde ou pelo esquecimento, por exemplo, quando o conhecimento se perde por doença; ou ainda por certas ocupações, pelas quais o homem é totalmente afastado da contemplação. Isto é também evidente quanto à felicidade ativa: pois a vontade do homem pode ser mudada de modo a cair no vício a partir da virtude, em cujo ato essa felicidade consiste principalmente. Se, contudo, a virtude permanecer íntegra, as mudanças exteriores podem de fato perturbar tal felicidade, na medida em que impedem muitos atos de virtude; mas não podem tirá-la por completo, porque ainda permanece um ato de virtude, pelo qual o homem suporta estas provações de modo louvável. E porque a felicidade desta vida pode ser perdida, circunstância que parece contrária à natureza da felicidade, por isso o Filósofo afirmou (Ética i, 10) que alguns são felizes nesta vida não simplesmente, mas «como homens», cuja natureza está sujeita à mudança. Mas se falarmos daquela Felicidade perfeita que esperamos depois desta vida, deve-se observar que Orígenes (*Peri Archon.* ii, 3), seguindo o erro de certos Platônicos, sustentou que o homem pode tornar-se infeliz após a Felicidade final. Isto, porém, é evidentemente falso, por duas razões. Primeiro, pela noção geral de felicidade. Pois, como a felicidade é o «bem perfeito e suficiente», ela deve necessariamente sossegar o desejo do homem e excluir todo mal. Ora, o homem deseja naturalmente reter o bem que tem e ter a certeza de sua retenção; caso contrário, ele deve necessariamente ser perturbado pelo medo de perdê-lo, ou pela tristeza de saber que o perderá. Portanto, é necessário para a verdadeira Felicidade que o homem tenha a opinião assegurada de nunca perder o bem que possui. Se esta opinião é verdadeira, segue-se que ele nunca perderá a felicidade; mas se é falsa, é em si um mal que ele tenha uma opinião falsa: porque o falso é o mal do intelecto, assim como o verdadeiro é o seu bem, como se afirma na *Ética* vi, 2. Consequentemente, ele não será mais verdadeiramente feliz, se houver mal nele. Em segundo lugar, é novamente evidente se considerarmos a natureza específica da Felicidade. Pois foi mostrado acima (Q[3], A[8]) que a perfeita Felicidade do homem consiste na visão da Essência Divina. Ora, é impossível que alguém que veja a Essência Divina queira não vê-la. Porque todo bem que alguém possui e, contudo, deseja não ter, ou é insuficiente, desejando-se algo mais suficiente em seu lugar; ou tem algum incómodo associado a ele, por cuja razão se torna enfadonho. Mas a visão da Essência Divina enche a alma de todos os bens, pois a une à fonte de toda bondade; por isso está escrito (Sl 16,15): «Satisfar-me-ei quando aparecer a Tua glória»; e (Sb 7,11): «Todos os bens me vieram juntamente com ela», isto é, com a contemplação da sabedoria. Do mesmo modo, não tem nenhum incómodo associado; porque está escrito sobre a contemplação da sabedoria (Sb 8,16): «A sua conversação não tem amargura, nem a sua companhia, enfado». É, portanto, evidente que o homem feliz não pode abandonar a Felicidade por sua própria vontade. Além disso, também não pode perder a Felicidade por Deus lha tirar. Porque, sendo a privação da Felicidade um castigo, não pode ser infligida por Deus, justo Juiz, a não ser por alguma culpa; e aquele que vê a Deus não pode cair em culpa, pois a retidão da vontade resulta necessariamente dessa visão, como foi mostrado acima (Q[4], A[4]). Nem pode ser tirada por qualquer outro agente. Porque a mente que está unida a Deus é elevada acima de todas as outras coisas; e, consequentemente, nenhum outro agente pode separar a mente dessa união. Portanto, parece irrazoável que, com o tempo, o homem passe da felicidade à miséria, e vice-versa; porque tais vicissitudes do tempo só podem existir para as coisas que estão sujeitas ao tempo e ao movimento. **Resposta à Objeção 1:** A Felicidade é a perfeição consumada, que exclui todo defeito do feliz. E, portanto, quem tem a felicidade a possui de modo totalmente imutável: isso é feito pelo poder Divino, que eleva o homem à participação da eternidade, que transcende toda mudança. **Resposta à Objeção 2:** A vontade pode dirigir-se a opostos nas coisas que são ordenadas ao fim; mas está ordenada, por necessidade natural, ao fim último. Isto é evidente pelo fato de o homem não poder não desejar ser feliz. **Resposta à Objeção 3:** A Felicidade tem um princípio devido à condição do participante; mas não tem fim por causa da condição do bem, cuja participação faz o homem feliz. Daí que o princípio da felicidade provém de uma causa, a sua interminabilidade de outra.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether happiness once had can be lost? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1.** Parece que as recompensas atribuídas às bem-aventuranças não se referem a esta vida. Porque alguns são ditos felizes por esperarem uma recompensa, como se disse acima (A. 1). Ora, o objeto da esperança é a futura bem-aventurança. Logo, estas recompensas se referem à vida futura. **Objeção 2.** Ademais, certos castigos são postos em oposição às bem-aventuranças, Lc. 6,25, onde lemos: «Ai de vós, os que estais fartos, porque haveis de ter fome; ai de vós, os que agora rides, porque haveis de gemer e chorar.» Ora, estes castigos não se referem a esta vida, porque frequentemente os homens não são castigados nela, conforme Jó 21,13: «Passam os seus dias na riqueza.» Logo, nem as recompensas das bem-aventuranças se referem a esta vida. **Objeção 3.** Ademais, o reino dos céus, que é posto como recompensa da pobreza, é a bem-aventurança do céu, como diz Agostinho (De Civ. Dei XIX; cf. De Serm. Dom. in Monte I, 1). Igualmente, a plena saciedade não se pode ter senão na vida futura, segundo Sl. 16,15: «Saciarme-ei quando aparecer a Tua glória.» Além disso, é só na vida futura que veremos a Deus e que a nossa filiação divina será manifesta, conforme 1 Jo. 3,2: «Agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é.» Logo, estas recompensas se referem à vida futura. **Em sentido contrário,** Agostinho diz (De Serm. Dom. in Monte I, 4): «Estas promessas podem cumprir-se nesta vida, como cremos que se cumpriram nos Apóstolos. Pois nenhuma palavra pode exprimir aquela transformação completa até à semelhança do anjo, que nos é prometida depois desta vida.» **Respondo.** Os expositores da Sagrada Escritura não concordam ao falar destas recompensas. Uns, com Ambrósio (Super Luc. V), afirmam que todas estas recompensas se referem à vida futura; outros, como Agostinho (De Serm. Dom. in Monte I, 4), sustentam que se referem à vida presente; e Crisóstomo, nas suas homilias (In Matth. XV), diz que algumas se referem à vida futura e outras à presente. Para esclarecer a questão, devemos notar que a esperança da futura bem-aventurança pode estar em nós por duas razões. Primeiro, por termos uma preparação ou disposição para a futura bem-aventurança; e isto é a modo de mérito. Segundo, por uma espécie de incoação imperfeita da futura bem-aventurança nos santos, ainda nesta vida. Pois uma coisa é esperar que a árvore dê fruto quando as folhas começam a aparecer, e outra quando vemos os primeiros sinais do fruto. Por conseguinte, aquelas coisas que são postas como méritos nas bem-aventuranças são uma espécie de preparação ou disposição para a bem-aventurança, perfeita ou incoada; ao passo que as que são atribuídas como recompensas podem ser a bem-aventurança perfeita (e então se referem à vida futura) ou algum começo de bem-aventurança, como o que se encontra naqueles que chegaram à perfeição (e então se referem à vida presente). Porque, quando um homem começa a progredir nos atos das virtudes e dos dons, é de esperar que chegue à perfeição, tanto como viandante quanto como cidadão do reino celeste. **Resposta à objeção 1.** A esperança tem por objeto a futura bem-aventurança como fim último; mas pode também ter por objeto o auxílio da graça, como o que conduz a esse fim, segundo Sl. 27,7: «Nele esperou o meu coração, e fui ajudado.» **Resposta à objeção 2.** Embora às vezes os ímpios não sofram castigo temporal nesta vida, contudo sofrem castigo espiritual. Por isso Agostinho diz (Confiss. I): «Decretaste, Senhor, e assim é, que a mente desordenada seja o seu próprio castigo.» Diz também o Filósofo a respeito dos ímpios (Ética IX, 4) que «a sua alma está dividida contra si mesma . . . uma parte puxa para cá, outra para lá»; e depois conclui: «Se a maldade torna o homem tão miserável, deve esforçar-se ao máximo para evitar o vício.» Do mesmo modo, embora, por outro lado, os bons às vezes não recebam recompensas materiais nesta vida, contudo nunca lhes faltam recompensas espirituais, ainda nesta vida, segundo Mt. 19,29 e Mc. 10,30: «Recebereis cem vezes tanto, já neste tempo.» **Resposta à objeção 3.** Todas estas recompensas serão plenamente consumadas na vida futura; mas entretanto, de certo modo, começam já nesta vida. Porque o «reino dos céus», como diz Agostinho (De Civ. Dei XIV; cf. De Serm. Dom. in Monte I, 1), pode significar o começo da perfeita sabedoria, na medida em que «o espírito» começa a reinar nos homens. A «posse» da terra designa as afeições bem ordenadas da alma, que repousa, pelo seu desejo, no fundamento sólido da herança eterna, significada pela «terra». Eles são «consolados» nesta vida, por receberem o Espírito Santo, que é chamado «Paráclito», isto é, Consolador. «Ficam saciados», ainda nesta vida, daquele alimento do qual o Senhor disse (Jo. 4,34): «A minha comida é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou.» Também nesta vida os homens «alcançam» a «Misericórdia» de Deus. Além disso, purificado o olho pelo dom do entendimento, podemos, por assim dizer, «ver a Deus». Do mesmo modo, nesta vida, aqueles que são «pacificadores» dos seus próprios movimentos se aproximam da semelhança com Deus e são chamados «filhos de Deus». Todavia, estas coisas serão mais perfeitamente cumpridas no céu.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the rewards assigned to the beatitudes refer to this life? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que a Beatitude pode perder-se. Porque a Beatitude é uma perfeição. Ora, toda perfeição está na coisa perfeita segundo o modo desta. Portanto, sendo o homem, por sua natureza, mutável, parece que a Beatitude é participada pelo homem de modo mutável. E, consequentemente, parece que o homem pode perder a Beatitude. Objeção 2: Além disso, a Beatitude consiste num ato do intelecto; e o intelecto está sujeito à vontade. Ora, a vontade pode dirigir-se a opostos. Logo, parece que pode desistir da operação pela qual o homem se torna feliz: e assim o homem cessará de ser feliz. Objeção 3: Além disso, o fim corresponde ao princípio. Ora, a Beatitude do homem tem um princípio, pois o homem nem sempre foi feliz. Portanto, parece que tem também um fim. Ao contrário, está escrito (Mt 25,46) a respeito dos justos que "irão para a vida eterna", a qual, como acima se disse (A[2]), é a Beatitude dos santos. Ora, o que é eterno não cessa. Portanto, a Beatitude não pode perder-se. Respondo que, se falamos da felicidade imperfeita, tal qual se pode ter nesta vida, neste sentido ela pode perder-se. Isto é claro quanto à felicidade contemplativa, que se perde ou pelo esquecimento, por exemplo, quando o conhecimento se perde por doença; ou ainda por certas ocupações, pelas quais o homem é totalmente retirado da contemplação. Isto também é claro quanto à felicidade ativa: pois a vontade do homem pode mudar-se de modo a cair da virtude no vício, no ato da qual essa felicidade consiste principalmente. Se, porém, a virtude permanecer íntegra, as mudanças exteriores podem, na verdade, perturbar tal felicidade, enquanto impedem muitos atos de virtude; mas não podem tirá-la totalmente, porque permanece ainda um ato de virtude, pelo qual o homem suporta essas provas de modo louvável. E porque a felicidade desta vida pode perder-se, circunstância que parece contrária à natureza da felicidade, por isso o Filósofo disse (Ética, I, 10) que alguns são felizes nesta vida, não simplesmente, mas "como homens", cuja natureza está sujeita à mudança. Mas, se falamos daquela Beatitude perfeita que esperamos depois desta vida, cumpre notar que Orígenes (Peri Archon, II, 3), seguindo o erro de certos platônicos, sustentou que o homem pode tornar-se infeliz após a Beatitude final. Isto, porém, é evidentemente falso, por duas razões. Primeiro, pela noção geral de Beatitude. Pois, sendo a Beatitude o "bem perfeito e suficiente", é necessário que aquiete o desejo do homem e exclua todo mal. Ora, o homem deseja naturalmente reter o bem que possui e ter a segurança de o possuir; do contrário, será necessariamente perturbado pelo temor de perdê-lo, ou pela tristeza de saber que o perderá. Portanto, é necessário para a verdadeira Beatitude que o homem tenha a opinião segura de nunca perder o bem que possui. Se esta opinião for verdadeira, segue-se que nunca perderá a Beatitude; mas se for falsa, é em si um mal que ele tenha uma opinião falsa: porque o falso é o mal do intelecto, assim como o verdadeiro é o seu bem, como se diz na Ética, VI, 2. Consequentemente, não será mais verdadeiramente feliz, se houver nele algum mal. Segundo, é também evidente se considerarmos a natureza específica da Beatitude. Porque se mostrou acima (Q[3], A[8]) que a Beatitude perfeita do homem consiste na visão da Essência Divina. Ora, é impossível que alguém vendo a Essência Divina queira não a ver. Porque todo bem que alguém possui e contudo deseja não ter, ou é insuficiente, desejando-se algo mais suficiente em seu lugar; ou tem algum incómodo ligado a ele, por cuja razão se torna enfadonho. Mas a visão da Essência Divina enche a alma de todos os bens, pois a une à fonte de toda bondade; por isso está escrito (Sl 16,15): "Saciado serei quando aparecer a Tua glória"; e (Sb 7,11): "Todos os bens me vieram juntamente com ela", isto é, com a contemplação da sabedoria. Do mesmo modo, também não tem nenhum incómodo ligado a ela; porque está escrito acerca da contemplação da sabedoria (Sb 8,16): "Sua conversação não tem amargura, nem sua companhia enfado." É, portanto, evidente que o homem feliz não pode abandonar a Beatitude por sua própria vontade. Além disso, também não pode perder a Beatitude, por Deus lha tirar. Porque, sendo a privação da Beatitude uma pena, não pode ser infligida por Deus, justo Juiz, senão por alguma falta; e aquele que vê a Deus não pode cair em falta, pois daquela visão resulta necessariamente a retidão da vontade, como se mostrou acima (Q[4], A[4]). Nem pode ser-lhe tirada por nenhum outro agente. Porque a mente unida a Deus é elevada acima de todas as outras coisas: e, consequentemente, nenhum outro agente pode separar a mente dessa união. Logo, parece irrazoável que, com o passar do tempo, o homem passe da felicidade à miséria e vice-versa; porque tais vicissitudes do tempo só podem ocorrer nas coisas sujeitas ao tempo e ao movimento. Resposta à Objeção 1: A Beatitude é a perfeição consumada, que exclui todo defeito do bem-aventurado. E, portanto, quem tem a Beatitude a tem de modo inteiramente imutável: isto é feito pelo poder divino, que eleva o homem à participação da eternidade, que transcende toda mudança. Resposta à Objeção 2: A vontade pode dirigir-se a opostos nas coisas que são ordenadas ao fim; mas é ordenada, por necessidade natural, ao fim último. Isto é evidente pelo fato de o homem não poder não querer ser feliz. Resposta à Objeção 3: A Beatitude tem um princípio devido à condição do participante; mas não tem fim devido à condição do bem, cuja participação faz o homem feliz. Portanto, o princípio da Beatitude vem de uma causa, a sua interminabilidade vem de outra.

Summa Theologiae — First Part · Article. 4 - Whether happiness once had can be lost? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte, sobre o Artigo 2 - Se as recompensas atribuídas às bem-aventuranças se referem a esta vida?** **Objeção 1:** Parece que as recompensas atribuídas às bem-aventuranças não se referem a esta vida. Porque alguns são ditos felizes porque esperam uma recompensa, como foi dito acima (A[1]). Ora, o objeto da esperança é a felicidade futura. Portanto, estas recompensas se referem à vida futura. **Objeção 2:** Ademais, certas punições são estabelecidas em oposição às bem-aventuranças em Lucas 6,25, onde lemos: "Ai de vós, os que estais fartos, porque haveis de ter fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos haveis de lamentar e chorar." Ora, estas punições não se referem a esta vida, porque frequentemente os homens não são punidos nesta vida, segundo Jó 21,13: "Passam seus dias em prosperidade." Logo, tampouco as recompensas das bem-aventuranças se referem a esta vida. **Objeção 3:** Ademais, o reino dos céus, que é estabelecido como recompensa da pobreza, é a felicidade do céu, como diz Agostinho (A Cidade de Deus xix) [*Cf. Do Sermão do Senhor no Monte i, 1]. Outrossim, a abundante plenitude não se pode ter senão na vida futura, segundo o Salmo 16,15: "Serei saciado quando a Tua glória aparecer." Demais, é somente na vida futura que veremos a Deus, e que a nossa filiação divina se manifestará, segundo 1 João 3,2: "Agora somos filhos de Deus; e ainda não apareceu o que havemos de ser. Sabemos que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é." Portanto, estas recompensas se referem à vida futura. **Ao contrário,** Agostinho diz (Do Sermão do Senhor no Monte i, 4): "Estas promessas podem ser cumpridas nesta vida, como cremos que foram cumpridas nos apóstolos. Pois nenhuma palavra pode exprimir aquela completa transformação na semelhança até mesmo de um anjo, que nos é prometida depois desta vida." **Respondo que:** Os expositores da Sagrada Escritura não concordam ao falar destas recompensas. Pois alguns, com Ambrósio (Sobre Lucas v), sustentam que todas estas recompensas se referem à vida futura; enquanto Agostinho (Do Sermão do Senhor no Monte i, 4) as refere à vida presente; e Crisóstomo, em suas homílias (Sobre Mateus xv), diz que algumas se referem ao futuro, e algumas à vida presente. Para esclarecer a questão, devemos notar que a esperança da felicidade futura pode estar em nós por duas razões. Primeira, por termos uma preparação ou disposição para a felicidade futura; e isto se dá por modo de mérito; segunda, por uma espécie de iniciação imperfeita da felicidade futura nos santos, mesmo nesta vida. Pois uma coisa é esperar que a árvore dará fruto, quando as folhas começam a aparecer, e outra, quando vemos os primeiros sinais do fruto. Por conseguinte, aquelas coisas que são postas como méritos nas bem-aventuranças são uma espécie de preparação ou disposição para a felicidade, perfeita ou incoada; enquanto aquelas que são atribuídas como recompensas podem ser ou a felicidade perfeita, de modo a se referirem à vida futura, ou algum início de felicidade, como se encontra naqueles que atingiram a perfeição, caso em que se referem à vida presente. Pois quando um homem começa a progredir nos atos das virtudes e dons, é de se esperar que chegue à perfeição, tanto como viandante, quanto como cidadão do reino celeste. **Resposta à Objeção 1:** A esperança tem por objeto a felicidade futura como fim último; contudo, pode também ter por objeto o auxílio da graça como aquilo que conduz a esse fim, segundo o Salmo 27,7: "Nele esperou o meu coração, e fui ajudado." **Resposta à Objeção 2:** Embora às vezes os ímpios não sofram punição temporal nesta vida, contudo sofrem punição espiritual. Donde Agostinho diz (Confissões i): "Vós decretastes, e assim é, Senhor — que a mente desordenada seja seu próprio castigo." O Filósofo também diz dos ímpios (Ética ix, 4) que "a sua alma está dividida contra si mesma... uma parte puxa para um lado, outra para outro"; e depois conclui, dizendo: "Se a maldade torna um homem tão miserável, deve ele esforçar-se ao máximo para evitar o vício." De modo semelhante, embora, por outro lado, os bons às vezes não recebam recompensas materiais nesta vida, contudo nunca lhes faltam recompensas espirituais, mesmo nesta vida, segundo Mateus 19,29 e Marcos 10,30: "Recebereis cem vezes tanto" ainda "neste tempo." **Resposta à Objeção 3:** Todas estas recompensas serão plenamente consumadas na vida futura; mas entrementes, elas são, de certo modo, iniciadas ainda nesta vida. Porque o "reino dos céus", como diz Agostinho (A Cidade de Deus xiv; *Cf. Do Sermão do Senhor no Monte i, 1), pode significar o início da sabedoria perfeita, na medida em que "o espírito" começa a reinar nos homens. A "possessão" da terra denota as afeições bem ordenadas da alma que repousa, por seu desejo, no sólido fundamento da herança eterna, significada pela "terra". Eles são "consolados" nesta vida, por receberem o Espírito Santo, que é chamado "Paráclito", i.e., o Consolador. Eles "se fartam", mesmo nesta vida, daquele alimento do qual o Senhor disse (João 4,34): "A minha comida é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou." Outrossim, nesta vida os homens "alcançam" a "Misericórdia" de Deus. Demais, purificado o olho pelo dom do entendimento, podemos, por assim dizer, "ver a Deus". Da mesma forma, nesta vida, aqueles que são "pacificadores" de seus próprios movimentos, aproximam-se da semelhança com Deus, e são chamados "filhos de Deus". Contudo, estas coisas serão mais perfeitamente cumpridas no céu.

Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether the rewards assigned to the beatitudes refer to this life? · séc. XIII

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