Santo Tomás de Aquino
**Artigo 3 — Se a remissão do pecado mortal é efeito deste sacramento?** **Objeção 1:** Parece que a remissão do pecado mortal é efeito deste sacramento. Pois se diz numa das Coletas (Pós-comunhão, pelos vivos e defuntos): «Que este sacramento seja purificação dos crimes.» Ora, os pecados mortais chamam-se crimes. Logo, os pecados mortais são apagados por este sacramento. **Objeção 2:** Além disso, este sacramento, como o Batismo, obra pela virtude da Paixão de Cristo. Mas os pecados mortais são perdoados pelo Batismo, como se disse acima (Q[69], A[1]). Logo, são perdoados igualmente por este sacramento, sobretudo porque na forma deste sacramento se diz: «Que será derramado por muitos para remissão dos pecados.» **Objeção 3:** Demais, a graça é concedida mediante este sacramento, como se disse acima (A[1]). Ora, pela graça o homem é justificado dos pecados mortais, segundo Rm 3,24: «Justificados gratuitamente por sua graça.» Portanto, os pecados mortais são perdoados por este sacramento. **Em contrário,** está escrito (1 Cor 11,29): «Quem come e bebe indignamente, come e bebe para si o juízo»; e uma glosa do mesmo passo comenta: «Come e bebe indignamente aquele que está em estado de pecado, ou que trata (o sacramento) irreverentemente; e tal come e bebe juízo, isto é, danação, para si.» Logo, aquele que está em pecado mortal, recebendo o sacramento, acumula pecado sobre pecado, antes que obtém remissão do seu pecado. **Respondo que:** A virtude deste sacramento pode ser considerada de dois modos. Primeiro, em si mesmo: e assim este sacramento tem da Paixão de Cristo a virtude de remir todos os pecados, pois a Paixão é a fonte e causa da remissão dos pecados. Segundo, pode ser considerado em comparação com o recipiente do sacramento, enquanto nele se encontra, ou não, um obstáculo para receber o fruto deste sacramento. Ora, todo aquele que está consciente de pecado mortal tem em si um obstáculo para receber o efeito deste sacramento; porque não é recipiente próprio deste sacramento, tanto por não estar vivo espiritualmente, e assim não deve comer o alimento espiritual, pois o alimento é próprio dos vivos; como também porque não pode unir-se a Cristo, que é o efeito deste sacramento, enquanto conserva afeição ao pecado mortal. Consequentemente, como se diz no livro *De Ecclesiasticis Dogmatibus*: «Se a alma se inclina ao pecado, é onerada antes que purificada pela participação da Eucaristia.» Por isso, naquele que está consciente de pecado mortal, este sacramento não causa a remissão do pecado. Contudo, este sacramento pode efetuar a remissão do pecado de dois modos. Primeiro, sendo recebido, não atualmente, mas em desejo; como quando o homem é primeiramente justificado do pecado. Segundo, quando é recebido por alguém em pecado mortal de que não está consciente, e pelo qual não tem afeição; porque talvez não estivesse suficientemente contrito a princípio, mas, aproximando-se deste sacramento devota e reverentemente, obtém a graça da caridade, que aperfeiçoará a sua contrição e trará a remissão do pecado. **Resposta à Objeção 1:** Pedimos que este sacramento seja a «purificação dos crimes», ou daqueles pecados de que não temos consciência, segundo Sl 18,13: «Senhor, purifica-me dos meus ocultos pecados»; ou que a nossa contrição seja aperfeiçoada para a remissão dos pecados; ou que nos seja dada força para evitar o pecado. **Resposta à Objeção 2:** O Batismo é a geração espiritual, que é uma transição do não-ser espiritual para o ser espiritual, e é ministrado por modo de ablução. Consequentemente, sob ambos os aspectos, aquele que está consciente de pecado mortal não se aproxima inconvenientemente do Batismo. Mas neste sacramento o homem recebe Cristo dentro de si por modo de alimento espiritual, o que é inconveniente para quem jaz morto nos seus pecados. Portanto, a comparação não procede. **Resposta à Objeção 3:** A graça é causa suficiente da remissão do pecado mortal; contudo, não perdoa o pecado senão quando é concedida primeiramente ao pecador. Ora, não é concedida deste modo neste sacramento. Logo, o argumento não prova.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the forgiveness of mortal sin is an effect of this sacrament? · séc. XIII
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