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Sl 18, 13

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Matos Soares

13quem é que adverte, não obstante, os seus deslizes? Purifica-me dos que me são ocultos.

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

**Artigo 3 — Se a remissão do pecado mortal é efeito deste sacramento?** **Objeção 1:** Parece que a remissão do pecado mortal é efeito deste sacramento. Pois se diz numa das Coletas (Pós-comunhão, pelos vivos e defuntos): «Que este sacramento seja purificação dos crimes.» Ora, os pecados mortais chamam-se crimes. Logo, os pecados mortais são apagados por este sacramento. **Objeção 2:** Além disso, este sacramento, como o Batismo, obra pela virtude da Paixão de Cristo. Mas os pecados mortais são perdoados pelo Batismo, como se disse acima (Q[69], A[1]). Logo, são perdoados igualmente por este sacramento, sobretudo porque na forma deste sacramento se diz: «Que será derramado por muitos para remissão dos pecados.» **Objeção 3:** Demais, a graça é concedida mediante este sacramento, como se disse acima (A[1]). Ora, pela graça o homem é justificado dos pecados mortais, segundo Rm 3,24: «Justificados gratuitamente por sua graça.» Portanto, os pecados mortais são perdoados por este sacramento. **Em contrário,** está escrito (1 Cor 11,29): «Quem come e bebe indignamente, come e bebe para si o juízo»; e uma glosa do mesmo passo comenta: «Come e bebe indignamente aquele que está em estado de pecado, ou que trata (o sacramento) irreverentemente; e tal come e bebe juízo, isto é, danação, para si.» Logo, aquele que está em pecado mortal, recebendo o sacramento, acumula pecado sobre pecado, antes que obtém remissão do seu pecado. **Respondo que:** A virtude deste sacramento pode ser considerada de dois modos. Primeiro, em si mesmo: e assim este sacramento tem da Paixão de Cristo a virtude de remir todos os pecados, pois a Paixão é a fonte e causa da remissão dos pecados. Segundo, pode ser considerado em comparação com o recipiente do sacramento, enquanto nele se encontra, ou não, um obstáculo para receber o fruto deste sacramento. Ora, todo aquele que está consciente de pecado mortal tem em si um obstáculo para receber o efeito deste sacramento; porque não é recipiente próprio deste sacramento, tanto por não estar vivo espiritualmente, e assim não deve comer o alimento espiritual, pois o alimento é próprio dos vivos; como também porque não pode unir-se a Cristo, que é o efeito deste sacramento, enquanto conserva afeição ao pecado mortal. Consequentemente, como se diz no livro *De Ecclesiasticis Dogmatibus*: «Se a alma se inclina ao pecado, é onerada antes que purificada pela participação da Eucaristia.» Por isso, naquele que está consciente de pecado mortal, este sacramento não causa a remissão do pecado. Contudo, este sacramento pode efetuar a remissão do pecado de dois modos. Primeiro, sendo recebido, não atualmente, mas em desejo; como quando o homem é primeiramente justificado do pecado. Segundo, quando é recebido por alguém em pecado mortal de que não está consciente, e pelo qual não tem afeição; porque talvez não estivesse suficientemente contrito a princípio, mas, aproximando-se deste sacramento devota e reverentemente, obtém a graça da caridade, que aperfeiçoará a sua contrição e trará a remissão do pecado. **Resposta à Objeção 1:** Pedimos que este sacramento seja a «purificação dos crimes», ou daqueles pecados de que não temos consciência, segundo Sl 18,13: «Senhor, purifica-me dos meus ocultos pecados»; ou que a nossa contrição seja aperfeiçoada para a remissão dos pecados; ou que nos seja dada força para evitar o pecado. **Resposta à Objeção 2:** O Batismo é a geração espiritual, que é uma transição do não-ser espiritual para o ser espiritual, e é ministrado por modo de ablução. Consequentemente, sob ambos os aspectos, aquele que está consciente de pecado mortal não se aproxima inconvenientemente do Batismo. Mas neste sacramento o homem recebe Cristo dentro de si por modo de alimento espiritual, o que é inconveniente para quem jaz morto nos seus pecados. Portanto, a comparação não procede. **Resposta à Objeção 3:** A graça é causa suficiente da remissão do pecado mortal; contudo, não perdoa o pecado senão quando é concedida primeiramente ao pecador. Ora, não é concedida deste modo neste sacramento. Logo, o argumento não prova.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the forgiveness of mortal sin is an effect of this sacrament? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que o homem pode saber que tem a graça. Pois a graça, pela sua realidade física, está na alma. Ora, a alma tem um conhecimento certíssimo das coisas que estão nela pela sua realidade física, como aparece em Agostinho (Gen. ad lit. xii, 31). Logo, a graça pode ser conhecida certissimamente por quem tem a graça. **Objeção 2:** Ademais, assim como o conhecimento é um dom de Deus, assim também o é a graça. Mas quem recebe de Deus o conhecimento sabe que tem o conhecimento, conforme Sabedoria 7,17: O Senhor "me deu a verdadeira ciência das coisas que existem". Logo, com igual razão, quem recebe de Deus a graça sabe que tem a graça. **Objeção 3:** Ademais, a luz é mais cognoscível que as trevas, pois, segundo o Apóstolo (Efésios 5,13), "tudo o que se manifesta é luz". Ora, o pecado, que são trevas espirituais, pode ser conhecido com certeza por quem está em pecado. Muito mais, portanto, pode ser conhecida a graça, que é luz espiritual. **Objeção 4:** Ademais, o Apóstolo diz (1 Coríntios 2,12): "Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que é de Deus, para que conheçamos as coisas que nos foram dadas por Deus". Ora, a graça é o primeiro dom de Deus. Logo, o homem que recebe a graça pelo Espírito Santo, pelo mesmo Espírito Santo conhece a graça que lhe foi dada. **Objeção 5:** Ademais, foi dito pelo Senhor a Abraão (Gênesis 22,12): "Agora sei que temes a Deus", isto é, "fiz-te saber". Ora, Ele aí fala do temor casto, que não existe sem a graça. Logo, o homem pode saber que tem a graça. **Em contrário,** está escrito (Eclesiastes 9,1): "O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio". Ora, a graça santificante torna o homem digno do amor de Deus. Logo, ninguém pode saber se tem a graça santificante. **Respondo:** Há três modos de conhecer uma coisa: primeiro, por revelação; e deste modo alguém pode saber que tem a graça, pois Deus, por um privilégio especial, às vezes o revela a alguns, para que a alegria da salvação comece neles já nesta vida e para que empreendam obras laboriosas com maior confiança e maior energia, e suportem os males da vida presente, como foi dito a Paulo (2 Coríntios 12,9): "Basta-te a minha graça". Segundo, o homem pode, por si mesmo, conhecer algo, e com certeza; e deste modo ninguém pode saber que tem a graça. Pois a certeza acerca de uma coisa só pode ser obtida quando podemos julgá-la pelo seu princípio próprio. Assim, é pelos princípios universais indemonstráveis que se obtém a certeza acerca das conclusões demonstrativas. Ora, ninguém pode saber que possui o conhecimento de uma conclusão se não conhece o seu princípio. Mas o princípio da graça e o seu objeto é Deus, o qual, por causa de sua própria excelência, nos é desconhecido, segundo Jó 36,26: "Eis que Deus é grande, excede a nossa ciência". E, portanto, a sua presença em nós e a sua ausência não podem ser conhecidas com certeza, segundo Jó 9,11: "Se ele vier a mim, não o verei; se se retirar, não o entenderei". E, por isso, o homem não pode julgar com certeza que tem a graça, segundo 1 Coríntios 4,3-4: "Nem eu mesmo me julgo... mas quem me julga é o Senhor". Terceiro, as coisas são conhecidas conjecturalmente por sinais; e deste modo alguém pode saber que tem a graça, quando tem consciência de se deleitar em Deus e de desprezar as coisas mundanas, e na medida em que o homem não tem consciência de nenhum pecado mortal. E assim está escrito (Apocalipse 2,17): "Ao vencedor darei o maná escondido... que ninguém conhece, senão aquele que o recebe", porque quem o recebe o conhece por experimentar uma certa doçura, que quem não o recebe não experimenta. Contudo, este conhecimento é imperfeito; por isso o Apóstolo diz (1 Coríntios 4,4): "Não tenho consciência de nada contra mim, mas nem por isso sou justificado", pois, segundo o Salmo 18,13: "Quem pode entender os pecados? Purifica-me, Senhor, dos meus ocultos, e poupa o teu servo dos alheios". **Resposta à Objeção 1:** As coisas que estão na alma pela sua realidade física são conhecidas mediante o conhecimento experimental; na medida em que, através dos atos, o homem tem experiência dos seus princípios interiores: assim, quando queremos, percebemos que temos vontade; e quando exercemos as funções da vida, observamos que há vida em nós. **Resposta à Objeção 2:** É condição essencial do conhecimento que o homem tenha certeza dos objetos do conhecimento; e também é condição essencial da fé que o homem esteja certo das coisas da fé, e isto porque a certeza pertence à perfeição do intelecto, no qual estes dons existem. Logo, quem tem conhecimento ou fé tem certeza de que os possui. Mas é diferente com a graça e a caridade e coisas semelhantes, que aperfeiçoam a faculdade apetitiva. **Resposta à Objeção 3:** O pecado tem por objeto principal o bem mutável, que nos é conhecido. Mas o objeto ou fim da graça nos é desconhecido por causa da grandeza da sua luz, segundo 1 Timóteo 6,16: "Que... habita a luz inacessível". **Resposta à Objeção 4:** O Apóstolo fala aqui dos dons da glória, que nos foram dados em esperança, e estes conhecemos certissimamente pela fé, embora não saibamos com certeza que temos a graça para os merecer. Ou pode-se dizer que ele fala do conhecimento privilegiado, que vem da revelação. Por isso acrescenta (1 Coríntios 2,10): "Mas Deus no-los revelou pelo seu Espírito". **Resposta à Objeção 5:** O que foi dito a Abraão pode referir-se ao conhecimento experimental, que brota das obras de que temos consciência. Pois na obra que Abraão acabara de realizar, ele podia saber experimentalmente que tinha o temor de Deus. Ou pode referir-se a uma revelação.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether man can know that he has grace? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que a soberba não é o primeiro de todos os pecados. Pois o primeiro mantém-se em tudo o que o segue. Ora, a soberba não acompanha todos os pecados, nem é a origem de todos; pois Agostinho diz (De Nat. et Grat. xx) que muitas coisas se fazem «erradamente que não se fazem com soberba». Portanto, a soberba não é o primeiro de todos os pecados. Objeção 2: Ademais, está escrito (Eclesiástico 10,14) que o «princípio da soberba é apartar-se de Deus». Portanto, o apartar-se de Deus precede a soberba. Objeção 3: Ademais, a ordem dos pecados parece seguir a ordem das virtudes. Ora, não a humildade, mas a fé é a primeira de todas as virtudes. Logo, a soberba não é o primeiro de todos os pecados. Objeção 4: Ademais, está escrito (2Tm 3,13): «Os homens maus e sedutores irão de mal a pior»; de modo que, aparentemente, o princípio da maldade no homem não é o maior dos pecados. Ora, a soberba é o maior dos pecados, como se afirmou no artigo anterior. Portanto, a soberba não é o primeiro pecado. Objeção 5: Ademais, a semelhança e a simulação vêm depois da realidade. Ora, o Filósofo diz (Ética, III, 7) que «a soberba imita a fortaleza e a ousadia». Portanto, o vício da ousadia precede o vício da soberba. Em contrário, está escrito (Eclesiástico 10,15): «A soberba é o princípio de todo pecado». Respondo que o primeiro em todo gênero é aquilo que é essencial. Ora, foi dito acima (A[6]) que a aversão de Deus, que é o complemento formal do pecado, pertence essencialmente à soberba, e aos outros pecados, consequentemente. Por isso a soberba preenche as condições de um primeiro, e é «o princípio de todos os pecados», como foi dito acima (FS, Q[84], A[2]), quando tratávamos das causas do pecado por parte da aversão, que é a parte principal do pecado. Resposta à objeção 1: Diz-se que a soberba é «o princípio de todo pecado», não como se todo pecado se originasse da soberba, mas porque qualquer espécie de pecado é naturalmente propensa a nascer da soberba. Resposta à objeção 2: Diz-se que apartar-se de Deus é o princípio da soberba, não como se fosse um pecado distinto da soberba, mas como sendo a primeira parte da soberba. Pois foi dito acima (A[5]) que a soberba diz respeito principalmente à sujeição a Deus, que ela despreza, e, por consequência, despreza estar sujeita a uma criatura por amor de Deus. Resposta à objeção 3: Não é necessário que a ordem das virtudes seja a mesma que a dos vícios. Pois o vício é corruptivo da virtude. Ora, o que é primeiro a ser gerado é o último a ser corrompido. Portanto, assim como a fé é a primeira das virtudes, assim a infidelidade é o último dos pecados, ao qual às vezes o homem é levado por outros pecados. Donde uma glosa ao Sl 136,7: «Arrasai-a, arrasai-a até aos seus fundamentos», diz que «amontoando vício sobre vício, o homem cairá na infidelidade», e o Apóstolo diz (1Tm 1,19) que «alguns, rejeitando a boa consciência, naufragaram na fé». Resposta à objeção 4: Diz-se que a soberba é o mais grave dos pecados porque aquilo que dá ao pecado a sua gravidade é essencial à soberba. Logo, a soberba é a causa da gravidade nos outros pecados. Portanto, antes da soberba pode haver certos pecados menos graves que são cometidos por ignorância ou fraqueza. Mas entre os pecados graves, o primeiro é a soberba, como causa pela qual os outros pecados se tornam mais graves. E, assim como o que é primeiro na causa dos pecados é o último na retirada do pecado, uma glosa ao Sl 18,13: «Serei purificado do maior pecado», diz: «A saber, do pecado da soberba, que é o último naqueles que voltam para Deus, e o primeiro naqueles que se afastam de Deus». Resposta à objeção 5: O Filósofo associa a soberba à fortaleza fingida, não que ela consista precisamente nisso, mas porque o homem pensa que será mais exaltado diante dos homens, se parecer ousado ou corajoso.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether pride is the first sin of all? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que o homem pode saber que tem a graça. Porque a graça, pela sua realidade física, está na alma. Ora, a alma tem um conhecimento certíssimo daquelas coisas que estão nela pela sua realidade física, como aparece em Agostinho (Gên. ad lit. XII, 31). Logo, a graça pode ser conhecida certissimamente por quem tem a graça. Objeção 2: Além disso, assim como o conhecimento é um dom de Deus, também o é a graça. Ora, quem recebe de Deus o conhecimento, sabe que tem o conhecimento, segundo Sb 7,17: O Senhor «me deu a verdadeira ciência das coisas que existem.» Logo, pela mesma razão, quem recebe de Deus a graça, sabe que tem a graça. Objeção 3: Além disso, a luz é mais cognoscível do que as trevas, pois, segundo o Apóstolo (Ef 5,13), «tudo o que se manifesta é luz.» Ora, o pecado, que são trevas espirituais, pode ser conhecido com certeza por quem está em pecado. Muito mais, portanto, pode ser conhecida a graça, que é luz espiritual. Objeção 4: Além disso, o Apóstolo diz (1 Cor 2,12): «Ora, nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos as coisas que nos foram dadas por Deus.» Ora, a graça é o primeiro dom de Deus. Logo, o homem que recebe a graça pelo Espírito Santo, pelo mesmo Espírito Santo conhece a graça que lhe foi dada. Objeção 5: Além disso, o Senhor disse a Abraão (Gn 22,12): «Agora conheço que temes a Deus», isto é, «fiz-te conhecer.» Ora, Ele fala ali do temor casto, que não existe sem a graça. Logo, o homem pode saber que tem a graça. Em contrário, está escrito (Ecle 9,1): «O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio.» Ora, a graça santificante torna o homem digno do amor de Deus. Logo, ninguém pode saber se tem a graça santificante. Respondo: Há três modos de conhecer uma coisa: primeiro, por revelação; e assim qualquer um pode saber que tem a graça, pois Deus, por um privilégio especial, revela isto por vezes a alguns, para que a alegria da salvação comece neles já nesta vida, e para que prossigam nas obras laboriosas com maior confiança e maior energia, e suportem os males da vida presente, como quando foi dito a Paulo (2 Cor 12,9): «Basta-te a minha graça.» Segundo, o homem pode, por si mesmo, conhecer alguma coisa, e com certeza; e deste modo ninguém pode saber que tem a graça. Pois a certeza acerca de uma coisa só pode ter-se quando podemos julgá-la pelo seu princípio próprio. Assim, é pelos princípios universais indemonstráveis que se obtém a certeza acerca das conclusões demonstrativas. Ora, ninguém pode saber que tem o conhecimento de uma conclusão se não conhece o seu princípio. Mas o princípio da graça e seu objeto é Deus, o qual, em razão da sua própria excelência, nos é desconhecido, segundo Jó 36,26: «Eis que Deus é grande, excedendo o nosso conhecimento.» E, portanto, a sua presença em nós e a sua ausência não podem ser conhecidas com certeza, segundo Jó 9,11: «Se ele vier a mim, não o verei; se se retirar, não o entenderei.» E, portanto, o homem não pode julgar com certeza que tem a graça, segundo 1 Cor 4,3-4: «Mas nem eu mesmo me julgo a mim... Quem me julga é o Senhor.» Terceiro, as coisas são conhecidas por conjectura, através de sinais; e assim qualquer um pode saber que tem a graça, quando se sente deleitar-se em Deus e desprezar as coisas mundanas, e enquanto não tem consciência de nenhum pecado mortal. E assim está escrito (Ap 2,17): «Ao vencedor darei o maná escondido... que ninguém conhece senão aquele que o recebe», porque quem o recebe, experimentando uma certa doçura, conhece-o; o que não o recebe, não experimenta. Contudo, este conhecimento é imperfeito; por isso o Apóstolo diz (1 Cor 4,4): «Não tenho consciência de nada, mas nem por isso sou justificado», pois, segundo o Sl 18,13: «Quem pode entender os pecados? Purifica-me, Senhor, dos meus ocultos, e poupa ao teu servo os alheios.» Resposta à objeção 1: Aquelas coisas que estão na alma pela sua realidade física são conhecidas por um conhecimento experimental; na medida em que, através dos atos, o homem experimenta os seus princípios interiores: assim, quando queremos, percebemos que temos vontade; e quando exercemos as funções da vida, notamos que há vida em nós. Resposta à objeção 2: É condição essencial do conhecimento que o homem tenha certeza dos objetos do conhecimento; e também é condição essencial da fé que o homem tenha certeza das coisas da fé, e isto porque a certeza pertence à perfeição do intelecto, no qual estes dons existem. Logo, quem tem conhecimento ou fé, tem certeza de que os tem. Mas é diferente com a graça e a caridade e coisas semelhantes, que aperfeiçoam a faculdade apetitiva. Resposta à objeção 3: O pecado tem por objeto principal o bem comutável, que nos é conhecido. Mas o objeto ou fim da graça nos é desconhecido por causa da grandeza da sua luz, segundo 1 Tm 6,16: «Que... habita a luz inacessível.» Resposta à objeção 4: O Apóstolo fala aqui dos dons da glória, que nos foram dados na esperança, e estes conhecemos certissimamente pela fé, embora não saibamos com certeza que temos a graça para os merecer. Ou pode dizer-se que fala do conhecimento privilegiado, que vem da revelação. Por isso acrescenta (1 Cor 2,10): «Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito.» Resposta à objeção 5: O que foi dito a Abraão pode referir-se ao conhecimento experimental que nasce das obras de que temos consciência. Pois na obra que Abraão acabara de realizar, podia conhecer experimentalmente que tinha o temor de Deus. Ou pode referir-se a uma revelação.

Summa Theologiae — First Part · Article. 5 - Whether man can know that he has grace? · séc. XIII

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