Santo Tomás de Aquino
Objeção 1: Parece que a graça não implica nada na alma. Pois se diz que o homem tem a graça de Deus assim como a graça do homem. Donde está escrito (Gn 39,21) que o Senhor deu a José “graça [favor] diante do chefe da prisão”. Ora, quando dizemos que um homem tem o favor de outro, nada se implica naquele que tem o favor do outro, mas uma aceitação se implica naquele cujo favor ele tem. Logo, quando dizemos que um homem tem a graça de Deus, nada se implica na sua alma; mas apenas significamos a aceitação divina. Objeção 2: Ademais, assim como a alma vivifica o corpo, assim Deus vivifica a alma; donde está escrito (Dt 30,20): “Ele é a tua vida”. Ora, a alma vivifica o corpo imediatamente. Logo, nada pode vir como médio entre Deus e a alma. Portanto, a graça não implica nada de criado na alma. Objeção 3: Ademais, sobre Rom 1,7: “Graça a vós e paz”, diz a glosa: “Graça, isto é, a remissão dos pecados”. Ora, a remissão do pecado nada implica na alma, mas somente em Deus, que não imputa o pecado, segundo o Salmo 31,2: “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputou pecado”. Logo, nem a graça implica nada na alma. Ao contrário, a luz implica algo naquilo que é iluminado. Ora, a graça é uma luz da alma; donde Agostinho diz (Da Natureza e da Graça, xxii): “A luz da verdade desampara com justiça o prevaricador da lei, e os que assim foram desamparados tornam-se cegos.” Portanto, a graça implica algo na alma. Respondo que, segundo o modo comum de falar, a graça costuma ser tomada de três modos. Primeiro, pelo amor de alguém, como costumamos dizer que o soldado está nas boas graças do rei, isto é, o rei o olha com favor. Segundo, toma-se por qualquer dom dado gratuitamente, como costumamos dizer: Faço-vos esta graça. Terceiro, toma-se pela recompensa de um dom dado *gratis*, na medida em que somos ditos “gratos” pelos benefícios. Destes três, o segundo depende do primeiro, pois um concede algo a outro *gratis* pelo amor com que o recebe em suas boas “graças”. E do segundo procede o terceiro, pois dos benefícios concedidos *gratis* nasce a “gratidão”. Ora, quanto aos dois últimos, é claro que a graça implica algo naquele que recebe a graça: primeiro, o dom dado gratuitamente; segundo, o reconhecimento do dom. Mas quanto ao primeiro, deve-se notar uma diferença entre a graça de Deus e a graça do homem; pois, como o bem da criatura procede da vontade divina, algum bem na criatura flui do amor de Deus, pelo qual Ele quer o bem da criatura. Por outro lado, a vontade do homem é movida pelo bem preexistente nas coisas; e, portanto, o amor do homem não causa totalmente o bem da coisa, mas o pressupõe, em parte ou no todo. Portanto, é claro que todo amor de Deus é seguido em algum tempo por um bem causado na criatura, mas não coeterno com o amor eterno. E segundo essa diferença de bem, o amor de Deus para com a criatura é considerado de modo diferente. Pois um é comum, pelo qual Ele ama “todas as coisas que existem” (Sb 11,25), e assim dá às coisas o seu ser natural. Mas o segundo é um amor especial, pelo qual Ele atrai a criatura racional acima da condição de sua natureza para uma participação do bem divino; e segundo este amor, diz-se que Ele ama alguém simplesmente, pois é por este amor que Deus simplesmente quer para a criatura o bem eterno, que é Ele mesmo. Por conseguinte, quando se diz que um homem tem a graça de Deus, significa-se algo concedido ao homem por Deus. Contudo, a graça de Deus às vezes significa o amor eterno de Deus, como dizemos a graça da predestinação, na medida em que Deus gratuitamente e não por méritos predestina ou elege alguns; pois está escrito (Ef 1,5): “Ele nos predestinou para a adoção de filhos… para o louvor da glória da sua graça.” Resposta à objeção 1: Mesmo quando se diz que um homem está nas boas graças de outro, entende-se que há nele algo que agrada ao outro; assim como se diz que alguém tem a graça de Deus — com esta diferença: o que agrada a um homem em outro é pressuposto pelo seu amor, mas o que agrada a Deus em um homem é causado pelo amor divino, como foi dito acima. Resposta à objeção 2: Deus é a vida da alma à maneira de causa eficiente; mas a alma é a vida do corpo à maneira de causa formal. Ora, não há médio entre a forma e a matéria, pois a forma, por si mesma, “informa” a matéria ou sujeito; ao passo que o agente “informa” o sujeito, não pela sua substância, mas pela forma, que causa na matéria. Resposta à objeção 3: Agostinho diz (Retratações, i, 25): “Quando eu disse que a graça era para a remissão dos pecados, e a paz para a nossa reconciliação com Deus, não deveis entender que a paz e a reconciliação não pertencem à paz geral, mas que o nome especial de graça significa a remissão dos pecados.” Portanto, não só a graça, mas muitos outros dons de Deus pertencem à graça. E daí a remissão dos pecados não se dá sem algum efeito divinamente causado em nós, como aparecerá adiante (Q[113], A[2]).
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether grace implies anything in the soul? · séc. XIII
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