Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a vontade humana não precisa sempre estar conforme à vontade divina quanto à coisa querida. Porque não podemos querer o que não conhecemos, visto que o bem apreendido é o objeto da vontade. Ora, em muitas coisas ignoramos o que Deus quer. Logo, a vontade humana não pode estar conforme à vontade divina quanto à coisa querida. **Objeção 2:** Ademais, Deus quer a danação do homem que prevê estar para morrer em pecado mortal. Se, pois, o homem fosse obrigado a conformar a sua vontade à vontade divina no ponto da coisa querida, seguir-se-ia que o homem é obrigado a querer a sua própria danação. O que é inadmissível. **Objeção 3:** Além disso, ninguém é obrigado a querer o que é contra a piedade filial. Ora, se o homem quisesse o que Deus quer, isto seria às vezes contrário à piedade filial; por exemplo, quando Deus quer a morte de um pai; se o filho também a quisesse, seria contra a piedade filial. Portanto, o homem não é obrigado a conformar a sua vontade à vontade divina quanto à coisa querida. **Em contrário, (1)** Sobre o Sl 32,1: "Alegrai-vos, justos, no Senhor", diz uma glosa: "Tem o coração reto aquele que quer o que Deus quer." Ora, todo homem é obrigado a ter o coração reto. Logo, todo homem é obrigado a querer o que Deus quer. **(2)** Ademais, a vontade recebe sua forma do objeto, como todo ato. Se, portanto, o homem é obrigado a conformar a sua vontade à vontade divina, segue-se que é obrigado a conformá-la quanto à coisa querida. **(3)** Ademais, a oposição de vontades surge de os homens quererem coisas diversas. Ora, quem tem uma vontade oposta à vontade divina, tem uma vontade má. Logo, quem não conforma a sua vontade à vontade divina quanto à coisa querida, tem uma vontade má. **Respondo que,** como é evidente pelo que foi dito acima (q.19, a.3 e a.5), a vontade tende ao seu objeto conforme ele é proposto pela razão. Ora, uma coisa pode ser considerada pela razão de vários modos, de modo a parecer boa sob um aspecto e não boa sob outro. E, portanto, se a vontade de um homem quer que uma coisa seja, conforme ela lhe parece boa, a sua vontade é boa; e a vontade de outro homem, que quer que essa coisa não seja, conforme lhe parece má, também é boa. Assim, um juiz tem uma boa vontade ao querer que um ladrão seja morto, porque isto é justo; enquanto a vontade de outro — por exemplo, da esposa ou do filho do ladrão, que desejam que ele não seja morto, na medida em que matar é um mal natural — também é boa. Ora, como a vontade segue a apreensão da razão ou do intelecto, quanto mais universal é o aspecto do bem apreendido, tanto mais universal é o bem para o qual a vontade tende. Isto se evidencia no exemplo dado acima: porque o juiz cuida do bem comum, que é a justiça, e por isso deseja a morte do ladrão, que tem a razão de bem em relação ao estado comum; ao passo que a esposa do ladrão deve considerar o bem particular, o bem da família, e deste ponto de vista ela deseja que seu marido, o ladrão, não seja morto. Ora, o bem de todo o universo é o que é apreendido por Deus, que é o Criador e Governador de todas as coisas; logo, tudo quanto Ele quer, Ele o quer sob a razão de bem comum; isto é a sua própria Bondade, que é o bem de todo o universo. Por outro lado, a apreensão de uma criatura, segundo a sua natureza, é de algum bem particular, proporcionado a essa natureza. Ora, pode acontecer que uma coisa seja boa sob um aspecto particular e não boa sob um aspecto universal, ou vice-versa, como foi dito acima. E, portanto, dá-se que uma certa vontade é boa por querer algo considerado sob um aspecto particular, coisa que Deus não quer sob um aspecto universal, e vice-versa. E daí também vem que várias vontades de vários homens podem ser boas com respeito a coisas opostas, enquanto, sob aspectos diversos, desejam que uma coisa particular seja ou não seja. Mas a vontade do homem não é reta querendo um bem particular, a menos que o refira ao bem comum como fim; visto que até o apetite natural de cada parte é ordenado ao bem comum do todo. Ora, é o fim que fornece, por assim dizer, a razão formal de querer tudo o que é dirigido ao fim. Consequentemente, para que um homem queira algum bem particular com vontade reta, ele deve querer esse bem particular materialmente, e o bem divino e universal formalmente. Portanto, a vontade humana é obrigada a estar conforme à vontade divina quanto ao que é querido formalmente, pois é obrigada a querer o bem divino e universal; mas não quanto ao que é querido materialmente, pela razão acima exposta. Ao mesmo tempo, em ambos esses aspectos, a vontade humana está de certo modo conforme à divina. Porque, na medida em que está conforme à vontade divina no aspecto comum da coisa querida, está-lhe conforme quanto ao fim último. Enquanto, na medida em que não está conforme à vontade divina na coisa querida materialmente, está conforme a essa vontade considerada como causa eficiente; visto que a inclinação própria consequente à natureza, ou à apreensão particular de alguma coisa particular, vem à coisa de Deus como sua causa eficiente. Por isso é costume dizer que a vontade do homem, a este respeito, está conforme à vontade divina, porque quer o que Deus quer que ele queira. Há ainda outro tipo de conformidade quanto à causa formal, que consiste em o homem querer algo por caridade, assim como Deus o quer. E esta conformidade reduz-se também à conformidade formal, isto é, quanto ao fim último, que é o objeto próprio da caridade. **Resposta à Objeção 1:** Podemos saber de modo geral o que Deus quer. Pois sabemos que tudo quanto Deus quer, Ele o quer sob a razão de bem. Consequentemente, quem quer uma coisa sob qualquer aspecto de bem, tem a vontade conforme à vontade divina quanto à razão da coisa querida. Mas não sabemos o que Deus quer em particular; e a este respeito não somos obrigados a conformar a nossa vontade à vontade divina. Todavia, no estado de glória, cada um verá, em cada coisa que quer, a relação dessa coisa com o que Deus quer naquela matéria particular. Por conseguinte, conformará a sua vontade a Deus em todas as coisas, não só formalmente, mas também materialmente. **Resposta à Objeção 2:** Deus não quer a danação de um homem considerada precisamente como danação, nem a morte de um homem considerada precisamente como morte, porque "Ele quer que todos os homens se salvem" (1Tm 2,4); mas quer tais coisas sob o aspecto da justiça. Por onde, quanto a tais coisas, basta ao homem querer a manutenção da justiça de Deus e da ordem natural. **Donde é evidente a resposta à Terceira Objeção.** **Ao primeiro argumento apresentado em contrário**, deve-se dizer que o homem que conforma a sua vontade à de Deus no aspecto da razão da coisa querida, quer o que Deus quer mais do que aquele que conforma a sua vontade à de Deus no ponto da própria coisa querida; porque a vontade tende mais ao fim do que ao que é por causa do fim. **Ao segundo**, deve-se responder que a espécie e a forma de um ato são tomadas do objeto considerado formalmente, mais do que do objeto considerado materialmente. **Ao terceiro**, deve-se dizer que não há oposição de vontades quando várias pessoas desejam coisas diferentes, mas não sob o mesmo aspecto; há, porém, oposição de vontades quando, sob um mesmo aspecto, um homem quer uma coisa que outro não quer. Mas disto não se trata aqui.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 10 - Whether it is necessary for the human will, in order to be good, to be conformed to the Divine will, as regards the thing willed? · séc. XIII
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