Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que o Filho de Deus não assumiu uma alma. Porque João disse, ensinando o mistério da Encarnação (Jo. 1, 14): «O Verbo se fez carne» — sem fazer menção de uma alma. Ora, não se diz que «o Verbo se fez carne» como se mudado em carne, mas porque assumiu carne. Logo, parece que não assumiu uma alma. **Objeção 2:** Ademais, a alma é necessária ao corpo para o vivificar. Mas isto não era necessário ao corpo de Cristo, ao que parece, porque do Verbo de Deus está escrito (Sl. 35, 10): Senhor, «em ti está a fonte da vida». Logo, pareceria totalmente supérfluo que a alma estivesse ali, estando presente o Verbo. Mas «Deus e a natureza nada fazem em vão», como diz o Filósofo (*De Caelo* i, 32; ii, 56). Logo, o Verbo parece não ter assumido uma alma. **Objeção 3:** Ademais, pela união de alma e corpo constitui-se a natureza comum, que é a espécie humana. Mas «no Senhor Jesus Cristo não se deve buscar uma espécie comum», como diz Damasceno (*De Fide Orth*. iii, 3). Logo, Ele não assumiu uma alma. **Em contrário,** Agostinho diz (*De Agone Christ*. xxi): «Não ouçamos os que dizem que somente um corpo humano foi assumido pelo Verbo de Deus; e interpretam 'o Verbo se fez carne' como significando que o homem não tinha alma nem qualquer outra parte de um homem, senão a carne.» **Respondo que,** como diz Agostinho (*De Haeres*. 69, 55), foi primeiramente opinião de Ário e depois de Apolinário que o Filho de Deus assumiu apenas carne, sem alma, sustentando que o Verbo fazia as vezes de alma para o corpo. E consequentemente daí se seguia que não havia duas naturezas em Cristo, mas uma só; porque de alma e corpo se constitui uma natureza humana. Mas esta opinião não pode subsistir, por três razões. **Primeiro,** porque é contrária à autoridade da Escritura, na qual nosso Senhor faz menção de sua alma, Mat. 26, 38: «A minha alma está triste até a morte»; e Jo. 10, 18: «Tenho poder para dar a minha alma». Mas a isto replicou Apolinário que nestas palavras alma é tomada metaforicamente, do mesmo modo que no Antigo Testamento se faz menção da alma de Deus (Is. 1, 14): «A minha alma odeia as vossas luas novas e as vossas solenidades». Porém, como diz Agostinho (*Qq. lxxxiii*, qu. 80), os Evangelistas narram que Jesus se maravilhou, se irou, se entristeceu e teve fome. Ora, estas coisas mostram que Ele tinha uma verdadeira alma, assim como o ter comido, dormido e cansado mostra que tinha um verdadeiro corpo humano: de outro modo, se estas coisas são metáfora, porque coisas semelhantes são ditas de Deus no Antigo Testamento, a confiabilidade da narrativa evangélica é abalada. Pois uma coisa é que as coisas foram preditas em figura, e outra é que os eventos históricos foram relatados com toda verdade pelos Evangelistas. **Segundo,** este erro diminui a utilidade da Encarnação, que é a libertação do homem. Porque Agostinho [*Vigílio Tapsense*] argumenta assim (*Contra Felician*. xiii): «Se o Filho de Deus, ao assumir a carne, omitiu a alma, ou Ele conhecia a sua ausência de pecado e confiava que não precisava de remédio; ou a considerou inadequada a Si e não lhe concedeu o benefício da redenção; ou a julgou totalmente incurável e foi incapaz de a curar; ou a descartou como sem valor e aparentemente imprópria para qualquer uso. Ora, duas destas razões implicam uma blasfêmia contra Deus. Pois como O chamaremos onipotente, se Ele é incapaz de curar o que está além da esperança? Ou Deus de todos, se Ele não fez a nossa alma? E quanto às outras duas razões, numa delas a causa da alma é ignorada, e na outra não se dá lugar ao mérito. Deve ser considerado que compreende a causa da alma, Aquele que procura separá-la do pecado da transgressão voluntária, sendo ela capaz de receber a lei pela dotação do hábito da razão? Ou como pode ser conhecida a Sua generosidade por alguém que diz que ela foi desprezada por causa da sua ignóbil pecaminosidade? Se considerares a sua origem, a substância da alma é mais preciosa que o corpo; mas se considerares o pecado da transgressão, por causa da sua inteligência ela é pior que o corpo. Ora, eu sei e declaro que Cristo é perfeita sabedoria, nem tenho dúvida de que Ele é amantíssimo; e por causa da primeira destas, Ele não desprezou o que era melhor e mais capaz de prudência; e por causa da segunda, protegeu o que estava mais ferido.» **Terceiro,** esta posição é contra a verdade da Encarnação. Porque a carne e as outras partes do homem recebem sua espécie através da alma. Logo, se a alma está ausente, não há ossos nem carne, a não ser por equívoco, como é evidente pelo Filósofo (*De Anima* ii, 9; *Metaph*. vii, 34). **Resposta à objeção 1:** Quando dizemos: «O Verbo se fez carne», «carne» é tomada pelo homem todo, como se disséssemos: «O Verbo se fez homem», como em Is. 40, 5: «Toda a carne junta verá que a boca do Senhor falou». E o homem todo é significado pela carne, porque, como se diz na autoridade citada, o Filho de Deus se tornou visível pela carne; daí se acrescenta: «E vimos a sua glória». Ou porque, como diz Agostinho (*Qq. lxxxiii*, qu. 80), «em toda aquela união o Verbo é o mais alto, e a carne o último e o mais baixo. Logo, querendo recomendar-nos o amor da humildade de Deus, o Evangelista mencionou o Verbo e a carne, deixando a alma de lado, uma vez que esta é inferior ao Verbo e mais nobre que a carne». Além disso, era razoável mencionar a carne, que, como mais distante do Verbo, era menos assumível, ao que parece. **Resposta à objeção 2:** O Verbo é a fonte da vida, como a primeira causa eficiente da vida; mas a alma é o princípio da vida do corpo, como sua forma. Ora, a forma é o efeito do agente. Logo, da presença do Verbo antes se poderia concluir que o corpo era animado, assim como da presença do fogo se pode concluir que o corpo, no qual o fogo adere, é quente. **Resposta à objeção 3:** Não é inconveniente, antes é necessário dizer que em Cristo houve uma natureza constituída pela alma vindo ao corpo. Mas Damasceno negou que em Jesus Cristo houvesse uma espécie comum, i.e., um terceiro algo resultante da Divindade e da humanidade.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the Son of God assumed a soul? · séc. XIII
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