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Sl 39, 9

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Matos Soares

9em fazer a tua vontade, ó meu Deus, me deleito, e a tua lei está no íntimo do meu coração.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1**: Pareceria que em Cristo não há duas vontades, uma divina e outra humana. Pois a vontade é o primeiro motor e o primeiro comandante em todo aquele que quer. Mas em Cristo o primeiro motor e comandante era a vontade divina, visto que em Cristo tudo o que era humano era movido pela vontade divina. Logo, parece que em Cristo havia uma só vontade, a saber, a divina. **Objeção 2**: Além disso, um instrumento não é movido por sua própria vontade, mas pela vontade de seu motor. Ora, a natureza humana de Cristo era o instrumento de sua Divindade. Logo, a natureza humana de Cristo não era movida por sua própria vontade, mas pela vontade divina. **Objeção 3**: Ademais, só se multiplica em Cristo o que pertence à natureza. Mas a vontade não parece pertencer à natureza: pois as coisas naturais são por necessidade; ao passo que o que é voluntário não é por necessidade. Portanto, há uma só vontade em Cristo. **Objeção 4**: Além disso, Damasceno diz (*De Fide Orth.* iii, 14) que "querer desta ou daquela maneira não pertence à nossa natureza, mas ao nosso intelecto", i.e., ao nosso intelecto pessoal. Ora, toda vontade é esta ou aquela vontade, visto que não há nada em um gênero que não esteja ao mesmo tempo em alguma de suas espécies. Logo, toda vontade pertence à pessoa. Mas em Cristo houve e há uma só pessoa. Portanto, em Cristo há uma só vontade. **Pelo contrário**, o Senhor diz (Lc 22,42): "Pai, se queres, afasta de mim este cálice. Todavia, não a minha vontade, mas a tua seja feita." E Ambrósio, citando isto ao Imperador Graciano (*De Fide* ii, 7), diz: "Assim como assumiu a minha vontade, assumiu a minha tristeza"; e sobre Lc 22,42 diz: "A sua vontade, refere-se ao Homem; a do Pai, à Divindade. Porque a vontade do homem é temporal, e a vontade da Divindade é eterna." **Respondo** que alguns colocaram em Cristo uma só vontade; mas parecem ter tido diferentes motivos para assim sustentar. Pois Apolinário não admitia em Cristo uma alma intelectual, mas afirmava que o Verbo estava no lugar da alma, ou mesmo no lugar do intelecto. Daí, como "a vontade está na razão", como diz o Filósofo (*De Anima* iii, 9), seguiu-se que em Cristo não havia vontade humana; e assim havia nele uma só vontade. Do mesmo modo, Eutiques e todos os que sustentavam em Cristo uma natureza composta foram forçados a colocar nele uma só vontade. Nestório também, que afirmava que a união de Deus e homem era de afeição e vontade, sustentava em Cristo uma só vontade. Mas posteriormente, Macário, Patriarca de Antioquia, Ciro de Alexandria, e Sérgio de Constantinopla e alguns de seus seguidores, sustentaram que há uma só vontade em Cristo, embora defendessem que em Cristo há duas naturezas unidas em uma hipóstase; porque criam que a natureza humana de Cristo nunca se movia com movimento próprio, mas apenas na medida em que era movida pela Divindade, como é evidente pela carta sinodal do Papa Ágato [*Terceiro Concílio de Constantinopla, Ato 4*]. E por isso no sexto Concílio celebrado em Constantinopla [*Ato 18*] foi decretado que se deve dizer que há duas vontades em Cristo, na seguinte passagem: "De acordo com o que os Profetas antigos nos ensinaram acerca de Cristo, e como Ele mesmo nos ensinou, e o Símbolo dos Santos Padres nos transmitiu, confessamos nele duas vontades naturais e duas operações naturais." E isto era necessário dizer. Pois é manifesto que o Filho de Deus assumiu uma natureza humana perfeita, como foi demonstrado acima (Q[5]; Q[9], A[1]). Ora, a vontade pertence à perfeição da natureza humana, sendo uma de suas potências naturais, assim como o intelecto, como foi dito na Primeira Parte, QQ[79],80. Logo, devemos dizer que o Filho de Deus assumiu uma vontade humana juntamente com a natureza humana. Ora, pela assunção da natureza humana, o Filho de Deus não sofreu diminuição alguma do que pertence à sua natureza divina, à qual compete ter vontade, como foi dito na Primeira Parte, Q[19], A[1]. Portanto, deve-se dizer que há duas vontades em Cristo, i.e., uma humana, outra divina. **Resposta à Objeção 1**: Tudo o que estava na natureza humana de Cristo era movido ao mando da vontade divina; contudo, não se segue que em Cristo não houvesse movimento da vontade próprio da natureza humana, pois as boas vontades dos outros santos são movidas pela vontade de Deus, "que opera" neles "o querer e o efetuar", como está escrito em Fl 2,13. Porque, embora a vontade não possa ser interiormente movida por nenhuma criatura, pode, todavia, ser interiormente movida por Deus, como foi dito na Primeira Parte, Q[105], A[4]. E assim também Cristo, por sua vontade humana, seguia a vontade divina, segundo o Sl 39,9: "Para fazer a tua vontade, ó Deus meu, eu desejei." Por isso, Agostinho diz (*Contra Maxim.* ii, 20): "Quando o Filho diz ao Pai: 'Não o que eu quero, mas o que tu queres', que ganhas tu ao acrescentar tuas próprias palavras e dizer 'Ele mostra que a sua vontade estava verdadeiramente sujeita ao seu Pai', como se nós negássemos que a vontade do homem deve estar sujeita à vontade de Deus?" **Resposta à Objeção 2**: É próprio de um instrumento ser movido pelo agente principal, mas diversamente, segundo a propriedade de sua natureza. Pois um instrumento inanimado, como um machado ou uma serra, é movido pelo artífice com apenas um movimento corpóreo; mas um instrumento animado por uma alma sensitiva é movido pelo apetite sensitivo, como um cavalo pelo seu cavaleiro; e um instrumento animado por alma racional é movido pela sua vontade, assim como pelo comando do seu senhor o servo é movido a agir, sendo o servo como um instrumento animado, como diz o Filósofo (*Polit.* i, 2,4; *Ethic.* viii, 11). E assim, deste modo, a natureza humana de Cristo era o instrumento da Divindade, e era movida por sua própria vontade. **Resposta à Objeção 3**: A potência da vontade é natural, e segue necessariamente a natureza; mas o movimento ou ato desta potência — que também se chama vontade — é às vezes natural e necessário, p. ex., com respeito à bem-aventurança; e às vezes provém do livre-arbítrio e não é necessário nem natural, como é evidente pelo que foi dito na Primeira da Segunda, Q[10], AA[1],[2] [*Cf. Primeira Parte, Q[82], A[2]*]. E, contudo, até mesmo a própria razão, que é o princípio deste movimento, é natural. Portanto, além da vontade divina, é necessário colocar em Cristo uma vontade humana, não apenas como potência natural, ou movimento natural, mas mesmo como movimento racional. **Resposta à Objeção 4**: Quando dizemos "querer de certa maneira", significamos um modo determinado de querer. Ora, um modo determinado diz respeito à coisa da qual é modo. Logo, como a vontade pertence à natureza, "querer de certa maneira" pertence à natureza, não considerada absolutamente, mas como está na hipóstase. Por isso, a vontade humana de Cristo teve um modo determinado pelo fato de estar numa hipóstase divina, i.e., era sempre movida de acordo com o mando da vontade divina.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether there are two wills in Christ? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Artigo 5 — Se a vontade humana de Cristo era inteiramente conforme à divina no objeto querido.** **Objeção 1:** Parece que a vontade humana em Cristo não queria nada senão o que Deus queria. Pois está escrito (Sl 39,9) na pessoa de Cristo: «Que eu faça a tua vontade: ó meu Deus, eu a desejei.» Ora, quem deseja fazer a vontade de outrem quer o que o outro quer. Logo, parece que a vontade humana de Cristo não queria nada senão o que era querido pela sua vontade divina. **Objeção 2:** Além disso, a alma de Cristo tinha caridade perfeitíssima, a qual, na verdade, excede a compreensão de todo o nosso conhecimento, segundo Efésios 3,19: «a caridade de Cristo, que excede todo o conhecimento.» Ora, a caridade faz com que os homens queiram o que Deus quer; donde o Filósofo diz (Ética ix, 4) que uma marca da amizade é «querer e escolher as mesmas coisas.» Portanto, a vontade humana em Cristo não queria nada mais do que o que era querido pela sua vontade divina. **Objeção 3:** Além disso, Cristo era um verdadeiro compreensor. Mas os Santos que são compreensores no céu querem apenas o que Deus quer; doutra forma não seriam felizes, porque não obteriam tudo o que querem, pois «bem-aventurado é aquele que tem o que quer e não quer nada de errado», como diz Agostinho (De Trin. xiii, 5). Portanto, na sua vontade humana Cristo não quer nada mais do que a vontade divina. **Em contrário,** Agostinho diz (Contra Maxim. ii, 20): «Quando Cristo diz: "Não o que eu quero, mas o que Tu queres", mostra ter querido algo diferente do que o Pai; e isto só podia ter sido pelo seu coração humano, pois não transfigurou a nossa fraqueza na sua vontade divina, mas na sua vontade humana.» **Respondo que,** como foi dito (AA[2],3), em Cristo segundo a sua natureza humana há uma vontade dupla, a saber: a vontade da sensualidade, que se chama vontade por participação, e a vontade racional, considerada seja à maneira da natureza, seja à maneira da razão. Ora, foi dito acima (Q[13], A[3], ad 1; Q[14], A[1], ad 2) que, por uma certa dispensação, o Filho de Deus antes da sua Paixão «permitiu à sua carne fazer e sofrer o que lhe pertencia.» E de igual modo permitiu a todas as potências da sua alma fazer o que lhes pertencia. Ora, é claro que a vontade da sensualidade naturalmente recua diante das dores sensíveis e dos danos corporais. De igual modo, a vontade como natureza se afasta do que é contra a natureza e do que é mau em si mesmo, como a morte e coisas semelhantes; contudo, a vontade como razão pode às vezes escolher estas coisas em relação a um fim, como num mero homem a sensualidade e a vontade considerada absolutamente recuam diante da queimadura, a qual, no entanto, a vontade como razão pode escolher por causa da saúde. Ora, era vontade de Deus que Cristo sofresse dor, padecimento e morte, não que estas coisas por si mesmas fossem queridas por Deus, mas por causa da salvação dos homens. Portanto, é manifesto que na sua vontade de sensualidade e na sua vontade racional considerada como natureza, Cristo podia querer o que Deus não queria; mas na sua vontade como razão sempre quis o mesmo que Deus, o que aparece do que diz (Mt 26,39): «Não como eu quero, mas como Tu queres.» Pois Ele quis na sua razão que a vontade divina se cumprisse, embora dissesse que queria outra coisa por outra vontade. **Resposta à Objeção 1:** Pela sua vontade racional Cristo quis que a vontade divina se cumprisse; mas não pela sua vontade de sensualidade, cujo movimento não se estende à vontade de Deus – nem pela sua vontade considerada como natureza, que considera as coisas absolutamente consideradas e não em relação à vontade divina. **Resposta à Objeção 2:** A conformidade da vontade humana com a divina diz respeito à vontade da razão: segundo a qual as vontades até dos amigos concordam, na medida em que a razão considera algo querido na sua relação com a vontade de um amigo. **Resposta à Objeção 3:** Cristo era ao mesmo tempo compreensor e viandante, na medida em que gozava de Deus na sua mente e tinha um corpo passível. Por isso, coisas repugnantes à sua vontade natural e ao seu apetite sensitivo podiam acontecer-Lhe na sua carne passível.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether the human will of Christ was altogether conformed to the Divine will in the thing willed? · séc. XIII

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