Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a ira não é apenas para com aqueles para com os quais temos uma obrigação de justiça. Pois não há justiça entre o homem e os seres irracionais. E todavia, às vezes alguém se ira com seres irracionais; assim, por ira, um escritor lança fora a sua pena, ou um cavaleiro golpeia o seu cavalo. Logo, a ira não é apenas para com aqueles para com os quais temos uma obrigação de justiça. Objeção 2: Ademais, “não há justiça para consigo mesmo... nem há justiça para com os seus próprios” (Ética V, 6). Mas às vezes um homem se ira consigo mesmo; por exemplo, um penitente, por causa do seu pecado; donde está escrito (Sl 4,5): “Irai-vos e não pequeis.” Logo, a ira não é apenas para com aqueles com os quais se tem relação de justiça. Objeção 3: Ademais, a justiça e a injustiça podem ser de um homem para com toda uma classe, ou toda uma comunidade; por exemplo, quando o Estado injuria um indivíduo. Mas a ira não é para com uma classe, mas apenas para com um indivíduo, como afirma o Filósofo (Retórica II, 4). Portanto, propriamente falando, a ira não é para com aqueles com os quais se tem relação de justiça ou injustiça. O contrário, todavia, pode-se coligir do Filósofo (Retórica II, 2,3). Respondo que, como foi dito acima (Art. 6), a ira deseja o mal como meio de justa vingança. Consequentemente, a ira é para com aqueles para com os quais somos justos ou injustos: pois a vingança é um ato de justiça, e o malefício é um ato de injustiça. Portanto, tanto da parte da causa, a saber, o dano causado por outrem, quanto da parte da vingança procurada pelo irado, é evidente que a ira diz respeito àqueles para com os quais se é justo ou injusto. Resposta à Objeção 1: Como foi dito acima (Art. 4, ad 2), a ira, embora siga um ato da razão, pode contudo estar nos animais mudos desprovidos de razão, na medida em que pelo seu instinto natural são movidos pela sua imaginação para algo semelhante à ação racional. Visto que no homem há tanto razão como imaginação, o movimento da ira pode ser suscitado no homem de dois modos. Primeiro, quando apenas a sua imaginação denuncia a injúria: e deste modo o homem é excitado a um movimento de ira mesmo contra seres irracionais e inanimados, movimento este semelhante ao que ocorre nos animais contra tudo o que os injuria. Segundo, pela razão denunciando a injúria: e assim, segundo o Filósofo (Retórica II, 3), “é impossível irar-se com coisas insensíveis, ou com os mortos”: tanto porque não sentem dor, que é, acima de tudo, o que o irado busca naqueles com quem se ira; como porque não se trata de vingança para com eles, pois não nos podem causar dano. Resposta à Objeção 2: Como diz o Filósofo (Ética V, 11), “metaforicamente falando, há uma certa justiça e injustiça entre o homem e si mesmo”, na medida em que a razão governa as partes irascível e concupiscível da alma. E neste sentido se diz que um homem se vinga a si mesmo, e consequentemente, que se ira contra si mesmo. Mas propriamente, e de acordo com a natureza das coisas, um homem nunca se ira contra si mesmo. Resposta à Objeção 3: O Filósofo (Retórica II, 4) atribui como uma diferença entre o ódio e a ira, que “o ódio pode ser sentido para com uma classe, como odiamos toda a classe dos ladrões; ao passo que a ira se dirige apenas a um indivíduo.” A razão é que o ódio nasce de considerarmos uma qualidade como discordando de nossa disposição; e isto pode referir-se a uma coisa em geral ou em particular. A ira, por outro lado, sobrevém de alguém nos ter injuriado por sua ação. Ora, todas as ações são atos de indivíduos: e consequentemente a ira sempre se dirige a um indivíduo. Quando todo o Estado nos fere, todo o Estado é considerado como um indivíduo [*V. Q. 29, Art. 6].
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 7 - Whether anger is only towards those to whom one has an obligation of justice? · séc. XIII
tradução automática