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Sl 46, 8

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Matos Soares

8Porque Deus é o rei de toda a terra, cantai um hino.

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que há uma só Lei Divina. Porque, onde há um rei num só reino, há uma só lei. Ora, toda a humanidade está para Deus como para um só rei, segundo o Salmo 46,8: «Deus é o Rei de toda a terra.» Logo, há uma só Lei Divina. Objeção 2: Além disso, toda lei se ordena ao fim que o legislador intenta para aqueles a quem faz a lei. Mas Deus intenta uma só e mesma coisa para todos os homens, pois segundo 1 Timóteo 2,4: «Ele quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.» Logo, há uma só Lei Divina. Objeção 3: Além disso, a Lei Divina parece ser mais aparentada com a lei eterna, que é una, do que a lei natural, na medida em que a revelação da graça é de ordem superior ao conhecimento natural. Logo, muito mais é a Lei Divina una. Em contrário, o Apóstolo diz (Hebreus 7,12): «Mudando-se o sacerdócio, necessário é que se faça também mudança da lei.» Ora, o sacerdócio é duplo, como se diz no mesmo lugar, a saber, o sacerdócio levítico e o sacerdócio de Cristo. Portanto, a Lei Divina é dupla, a saber, a Antiga Lei e a Nova Lei. Respondo: Como se disse na Primeira Parte, Q. 30, Art. 3, a distinção é causa do número. Ora, as coisas podem distinguir-se de dois modos. Primeiro, como aquelas que são totalmente diferentes especificamente, v.g., um cavalo e um boi. Segundo, como perfeito e imperfeito na mesma espécie, v.g., um menino e um homem; e deste modo a Lei Divina se divide em Antiga e Nova. Donde o Apóstolo (Gálatas 3,24.25) comparar o estado do homem sob a Antiga Lei ao de uma criança «debaixo de um aio»; mas o estado sob a Nova Lei, ao de um homem feito, que «já não está debaixo de aio». Ora, a perfeição e imperfeição destas duas leis deve ser considerada em relação às três condições pertencentes à lei, como acima se estabeleceu. Pois, em primeiro lugar, pertence à lei ordenar-se ao bem comum como ao seu fim, como acima se disse (Q. 90, Art. 2). Este bem pode ser duplo. Pode ser um bem sensível e terreno; e a este o homem era ordenado diretamente pela Antiga Lei; por isso, logo no início da lei, o povo foi convidado ao reino terreno dos Cananeus (Êxodo 3,8.17). Pode também ser um bem inteligível e celeste; e a este o homem é ordenado pela Nova Lei. Por isso, logo no início da sua pregação, Cristo convidou os homens ao reino dos céus, dizendo (Mateus 4,17): «Fazei penitência, porque o reino dos céus está próximo.» Donde Agostinho dizer (Contra Fausto, IV) que «as promessas dos bens temporais estão contidas no Antigo Testamento, pelo que se chama velho; mas a promessa da vida eterna pertence ao Novo Testamento.» Em segundo lugar, pertence à lei dirigir os atos humanos segundo a ordem da justiça (Art. 4); no que também a Nova Lei supera a Antiga Lei, pois dirige os nossos atos internos, segundo Mateus 5,20: «Se a vossa justiça não for mais abundante do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.» Donde o dito que «a Antiga Lei refreia a mão, mas a Nova Lei governa a mente» (Sentenças, III, D, XL). Em terceiro lugar, pertence à lei induzir os homens a observar os seus mandamentos. Isto a Antiga Lei fazia pelo temor da pena; mas a Nova Lei, pelo amor, que é derramado em nossos corações pela graça de Cristo, outorgada na Nova Lei, mas prefigurada na Antiga. Donde Agostinho dizer (Contra Adimanto, discípulo maniqueu, XVII) que «pouca diferença há entre a Lei e o Evangelho — o temor e o amor.» Resposta à objeção 1: Como o pai de família dá ordens diferentes aos filhos e aos adultos, assim também o único Rei, Deus, no Seu único reino, deu uma lei aos homens, quando ainda imperfeitos, e outra mais perfeita, quando, pela lei precedente, eles foram conduzidos a uma maior capacidade para as coisas divinas. Resposta à objeção 2: A salvação do homem não podia realizar-se senão por Cristo, segundo Atos 4,12: «Não há outro nome dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos.» Consequentemente, a lei que conduz todos à salvação não podia ser dada senão depois da vinda de Cristo. Mas antes da Sua vinda era necessário dar ao povo, do qual Cristo havia de nascer, uma lei contendo certos rudimentos de justiça para a salvação, a fim de prepará-los para O receber. Resposta à objeção 3: A lei natural dirige o homem por meio de certos preceitos gerais, comuns tanto aos perfeitos como aos imperfeitos; por isso é uma e a mesma para todos. Mas a lei divina dirige o homem também em certas matérias particulares, às quais os perfeitos e imperfeitos não se relacionam da mesma maneira. Daí a necessidade de a lei divina ser dupla, como já foi explicado.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether there is but one Divine law? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que todos os homens estavam obrigados a observar a Lei Antiga. Pois quem está sujeito ao rei, necessariamente está sujeito à sua lei. Ora, a Lei Antiga foi dada por Deus, que é "Rei de toda a terra" (Sl 46,8). Logo, todos os habitantes da terra estavam obrigados a observar a Lei. Objeção 2: Além disso, os judeus não podiam salvar-se sem observar a Lei Antiga, pois está escrito (Dt 27,26): "Maldito aquele que não permanecer nas palavras desta lei, e não as cumprir em obra". Se, portanto, os outros homens podiam salvar-se sem a observância da Lei Antiga, os judeus estariam em pior condição do que os outros homens. Objeção 3: Além disso, os gentios eram admitidos ao ritual judaico e às observâncias da Lei; pois está escrito (Ex 12,48): "Se algum estrangeiro quiser habitar entre vós e celebrar a Fase do Senhor, sejam primeiro circuncidados todos os seus varões, e então a celebrará segundo o rito; e será como o natural da terra". Ora, seria inútil admitir estrangeiros às observâncias legais por ordenação divina, se eles pudessem salvar-se sem a observância da Lei. Logo, ninguém podia salvar-se sem observar a Lei. Em contrário, Dionísio diz (Hier. Cel. IX) que muitos dos gentios foram reconduzidos a Deus pelos anjos. Mas é claro que os gentios não observavam a Lei. Logo, alguns podiam salvar-se sem observar a Lei. Respondo que a Lei Antiga manifestava os preceitos da lei natural, e acrescentava certos preceitos próprios. Assim, quanto aos preceitos da lei natural contidos na Lei Antiga, todos estavam obrigados a observar a Lei Antiga; não porque pertencessem à Lei Antiga, mas porque pertenciam à lei natural. Mas quanto aos preceitos que foram acrescentados pela Lei Antiga, estes não obrigavam senão ao povo judeu unicamente. A razão disso é porque a Lei Antiga, como foi dito acima (A[4]), foi dada ao povo judeu, para que este recebesse uma prerrogativa de santidade, em reverência a Cristo que havia de nascer desse povo. Ora, quaisquer leis que são estabelecidas para a santificação especial de alguns, obrigam somente a estes; assim os clérigos, que são separados para o serviço de Deus, estão obrigados a certos encargos a que os leigos não estão obrigados; do mesmo modo os religiosos são obrigados por sua profissão a certas obras de perfeição, a que as pessoas que vivem no mundo não estão obrigadas. De maneira semelhante, este povo estava obrigado a certas observâncias especiais, a que os outros povos não estavam obrigados. Por isso está escrito (Dt 18,13): "Serás perfeito e sem mácula diante do Senhor teu Deus"; e por esta razão usavam de uma espécie de fórmula de profissão, como aparece em Dt 26,3: "Professo hoje diante do Senhor teu Deus", etc. Resposta à Objeção 1: Os que estão sujeitos a um rei são obrigados a observar a sua lei, que ele faz para todos em geral. Mas se ele ordena que certas coisas sejam observadas pelos servos da sua casa, os outros não estão obrigados a elas. Resposta à Objeção 2: Quanto mais o homem está unido a Deus, melhor se torna o seu estado; por isso, quanto mais o povo judeu estava obrigado ao culto de Deus, tanto maior era a sua excelência sobre os outros povos. Daí está escrito (Dt 4,8): "Que outra nação há tão ilustre, que tenha cerimônias e justos juízos e toda esta lei?" Do mesmo modo, por este ponto de vista, o estado dos clérigos é melhor que o dos leigos, e o estado dos religiosos melhor que o das pessoas que vivem no mundo. Resposta à Objeção 3: Os gentios obtinham a salvação mais perfeitamente e mais seguramente sob as observâncias da Lei do que sob a mera lei natural; e por isso eram admitidos a elas. Assim também agora os leigos são admitidos às fileiras do clero, e as pessoas seculares às dos religiosos, embora possam salvar-se sem isto.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether all men were bound to observe the Old Law? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que há uma só lei divina. Porque, onde há um só rei num só reino, há uma só lei. Ora, toda a humanidade é comparada a Deus como a um só rei, segundo o Sal. 46:8: "Deus é o Rei de toda a terra". Logo, há uma só lei divina. Objeção 2: Ademais, toda lei é dirigida ao fim que o legislador pretende para aqueles para quem faz a lei. Ora, Deus pretende uma e a mesma coisa para todos os homens; pois segundo 1 Tim. 2:4: "Ele quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade". Logo, há uma só lei divina. Objeção 3: Ademais, a lei divina parece ser mais afim à lei eterna, que é uma só, do que a lei natural, na medida em que a revelação da graça é de uma ordem mais elevada do que o conhecimento natural. Logo, muito mais é a lei divina apenas uma. Em contrário, o Apóstolo diz (Heb. 7:12): "Mudado o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei". Ora, o sacerdócio é duplo, como é dito no mesmo passo, a saber, o sacerdócio levítico e o sacerdócio de Cristo. Logo, a lei divina é dupla, a saber, a Lei Antiga e a Lei Nova. Respondo: Como foi dito na Primeira Parte, Q[30], A[3], a distinção é a causa do número. Ora, as coisas podem distinguir-se de dois modos. Primeiro, como aquelas que são totalmente diferentes especificamente, e.g., um cavalo e um boi. Segundo, como perfeito e imperfeito na mesma espécie, e.g., um menino e um homem; e deste modo a lei divina se divide em Antiga e Nova. Por isso, o Apóstolo (Gál. 3:24,25) compara o estado do homem sob a Lei Antiga ao de uma criança "sob o pedagogo"; mas o estado sob a Lei Nova, ao de um homem feito, que "já não está sob o pedagogo". Ora, a perfeição e imperfeição destas duas leis deve ser tomada em conexão com as três condições pertencentes à lei, como foi dito acima. Pois, em primeiro lugar, pertence à lei ser dirigida ao bem comum como seu fim, como foi dito acima (Q[90], A[2]). Este bem pode ser duplo. Pode ser um bem sensível e terreno; e para este o homem foi

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que todos os homens estavam obrigados a observar a Antiga Lei. Porque todo aquele que está sujeito ao rei, necessariamente está sujeito à sua lei. Mas a Antiga Lei foi dada por Deus, que é “Rei de toda a terra” (Ps. 46, 8). Logo, todos os habitantes da terra estavam obrigados a observar a Lei. Objeção 2: Além disso, os judeus não podiam salvar-se sem observar a Antiga Lei; pois está escrito (Dt. 27, 26): “Maldito seja aquele que não permanecer nas palavras desta lei, e não as cumprir em obras.” Se, portanto, outros homens podiam salvar-se sem a observância da Antiga Lei, os judeus estariam em pior condição que os outros homens. Objeção 3: Além disso, os gentios eram admitidos ao rito judaico e às observâncias da Lei; pois está escrito (Êx. 12, 48): “Se algum estrangeiro quiser habitar entre vós, e guardar a Páscoa do Senhor, todos os seus varões serão primeiro circuncidados, e então a celebrará segundo o rito; e será como o natural da terra.” Mas teria sido inútil admitir estrangeiros às observâncias legais segundo a ordenação divina, se eles pudessem salvar-se sem a observância da Lei. Logo, ninguém podia salvar-se sem observar a Lei. Em contrário, Dionísio diz (Hier. Cel. ix) que muitos dos gentios foram reconduzidos a Deus pelos anjos. Mas é claro que os gentios não observavam a Lei. Logo, alguns podiam salvar-se sem observar a Lei. Respondo que a Antiga Lei manifestava os preceitos da lei natural, e acrescentava certos preceitos próprios. Portanto, quanto aos preceitos da lei natural contidos na Antiga Lei, todos estavam obrigados a observar a Antiga Lei; não porque pertencessem à Antiga Lei, mas porque pertenciam à lei natural. Mas quanto aos preceitos que foram acrescentados pela Antiga Lei, eles não obrigavam senão o povo judeu exclusivamente. A razão disto é porque a Antiga Lei, como foi dito acima (A[4]), foi dada ao povo judeu, para que recebesse uma prerrogativa de santidade, em reverência a Cristo que devia nascer daquele povo. Ora, quaisquer leis que são promulgadas para a especial santificação de alguns, obrigam somente a estes: assim os clérigos, que são separados para o serviço de Deus, estão obrigados a certos deveres aos quais os leigos não estão obrigados; da mesma forma, os religiosos estão obrigados por sua profissão a certas obras de perfeição, às quais as pessoas que vivem no século não estão obrigadas. De modo semelhante, este povo estava obrigado a certas observâncias especiais, às quais outros povos não estavam obrigados. Por isso está escrito (Dt. 18, 13): “Serás perfeito e sem mácula diante do Senhor teu Deus”; e por esta razão usavam uma espécie de forma de profissão, como aparece em Dt. 26, 3: “Professo hoje diante do Senhor teu Deus,” etc. Resposta à primeira objeção: Todos os que estão sujeitos a um rei são obrigados a observar a sua lei que ele faz para todos em geral. Mas se ele ordena que certas coisas sejam observadas pelos servos de sua casa, os outros não estão obrigados a isso. Resposta à segunda objeção: Quanto mais um homem está unido a Deus, melhor se torna o seu estado; por isso, quanto mais o povo judeu estava obrigado ao culto de Deus, maior era a sua excelência sobre os outros povos. Donde está escrito (Dt. 4, 8): “Que outra nação há tão renomada que tenha cerimônias e justos juízos, e toda uma lei?” De modo semelhante, deste ponto de vista, o estado dos clérigos é melhor que o dos leigos, e o estado dos religiosos melhor que o das pessoas que vivem no século. Resposta à terceira objeção: Os gentios obtinham a salvação mais perfeitamente e mais seguramente sob as observâncias da Lei do que sob a mera lei natural; e por esta razão eram admitidos a elas. Assim também os leigos são agora admitidos às fileiras do clero, e as pessoas seculares às dos religiosos, embora possam salvar-se sem isso.

Summa Theologiae — First Part · Article. 5 - Whether all men were bound to observe the Old Law? · séc. XIII

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