Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Deus não ama todas as coisas. Pois, segundo Dionísio (Div. Nom. iv, 1), o amor coloca o amante fora de si mesmo e fá-lo passar, por assim dizer, para o objeto do seu amor. Ora, não é admissível dizer que Deus é colocado fora de Si mesmo e passa para outras coisas. Logo, é inadmissível dizer que Deus ama coisas diversas de Si mesmo. **Objeção 2:** Além disso, o amor de Deus é eterno. Mas as coisas fora de Deus não são desde a eternidade, a não ser em Deus. Portanto, Deus não ama coisa alguma, senão enquanto existe em Si mesmo. Ora, enquanto existente n’Ele, não é outra coisa senão Ele mesmo. Logo, Deus não ama as coisas diversas de Si mesmo. **Objeção 3:** Ademais, o amor é duplo: o amor de desejo e o amor de amizade. Ora, Deus não ama as criaturas irracionais com amor de desejo, pois não necessita de criatura alguma fora de Si. Nem com amor de amizade, porque não pode haver amizade com criaturas irracionais, como mostra o Filósofo (Ética, viii, 2). Logo, Deus não ama todas as coisas. **Objeção 4:** Finalmente, está escrito (Sl 5,7): «Tu aborreces todos os que obram a iniquidade». Ora, ninguém é ao mesmo tempo aborrecido e amado. Logo, Deus não ama todas as coisas. **Em contrário,** diz-se (Sb 11,25): «Tu amas todas as coisas que são, e não aborreces nenhuma das que fizeste». **Respondo que** Deus ama todas as coisas existentes. Pois todas as coisas existentes, enquanto existem, são boas, visto que a existência de uma coisa é em si mesma um bem; e igualmente, qualquer perfeição que possua. Ora, já se mostrou acima (Q. 19, A. 4) que a vontade de Deus é a causa de todas as coisas. Necessário é, portanto, que uma coisa tenha existência, ou qualquer espécie de bem, apenas na medida em que é querida por Deus. Logo, a cada coisa existente Deus quer algum bem. Donde, uma vez que amar nada mais é do que querer o bem a algo, é manifesto que Deus ama tudo o que existe. Contudo, não como nós amamos. Porque, como a nossa vontade não é a causa da bondade das coisas, mas é movida por ela como pelo seu objeto, o nosso amor, pelo qual queremos o bem a algo, não é causa da sua bondade; mas, pelo contrário, a sua bondade, quer real quer imaginária, suscita o nosso amor, pelo qual queremos que ela conserve o bem que tem, e receba além disso o bem que não tem, e para esse fim dirigimos as nossas ações; ao passo que o amor de Deus infunde e cria a bondade. **Resposta à objeção 1:** O amante é colocado fora de si mesmo e faz-se passar para o objeto do seu amor, na medida em que quer o bem ao amado e obra esse bem pela sua providência, assim como obra o seu próprio bem. Por isso Dionísio diz (Div. Nom. iv, 1): «Em defesa da verdade, devemos ousar dizer mesmo isto: que Ele mesmo, a causa de todas as coisas, pelo seu abundante amor e bondade, é colocado fora de Si mesmo pela sua providência para com todas as coisas existentes». **Resposta à objeção 2:** Embora as criaturas não tenham existido desde a eternidade, a não ser em Deus, contudo, porque estiveram n’Ele desde a eternidade, Deus as conheceu eternamente nas suas naturezas próprias; e por essa razão as amou, assim como nós, pelas imagens das coisas que estão em nós, conhecemos as coisas existentes em si mesmas. **Resposta à objeção 3:** A amizade não pode existir senão para com as criaturas racionais, que são capazes de retribuir o amor e de comunicar umas com as outras nas várias obras da vida, e que podem ir bem ou mal, segundo as mudanças da fortuna e da felicidade; como para com elas se exerce propriamente a benevolência. Mas as criaturas irracionais não podem chegar a amar a Deus, nem a participar da vida intelectual e beatífica que Ele vive. Por isso, falando estritamente, Deus não ama as criaturas irracionais com amor de amizade; mas, por assim dizer, com amor de desejo, enquanto as ordena para as criaturas racionais e até para Si mesmo. Contudo, isso não é porque Ele necessite delas, mas somente por causa da sua bondade e dos serviços que elas nos prestam. Pois podemos desejar uma coisa para outrem assim como para nós mesmos. **Resposta à objeção 4:** Nada impede que uma mesma coisa seja amada sob um aspeto e aborrecida sob outro. Deus ama os pecadores enquanto são naturezas existentes; pois eles têm existência e a têm d’Ele. Enquanto são pecadores, não têm existência alguma, mas dela carecem; e isto neles não é de Deus. Logo, sob este aspeto, são por Ele aborrecidos.
Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether God loves all things? · séc. XIII
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