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Sl 5, 7

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Matos Soares

7perdes todos os que dizem a mentira; O homem sanguinário e fraudulento o Senhor o abomina.

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que Deus não ama todas as coisas. Pois, segundo Dionísio (Div. Nom. iv, 1), o amor coloca o amante fora de si mesmo e fá-lo passar, por assim dizer, para o objeto do seu amor. Ora, não é admissível dizer que Deus é colocado fora de Si mesmo e passa para outras coisas. Logo, é inadmissível dizer que Deus ama coisas diversas de Si mesmo. **Objeção 2:** Além disso, o amor de Deus é eterno. Mas as coisas fora de Deus não são desde a eternidade, a não ser em Deus. Portanto, Deus não ama coisa alguma, senão enquanto existe em Si mesmo. Ora, enquanto existente n’Ele, não é outra coisa senão Ele mesmo. Logo, Deus não ama as coisas diversas de Si mesmo. **Objeção 3:** Ademais, o amor é duplo: o amor de desejo e o amor de amizade. Ora, Deus não ama as criaturas irracionais com amor de desejo, pois não necessita de criatura alguma fora de Si. Nem com amor de amizade, porque não pode haver amizade com criaturas irracionais, como mostra o Filósofo (Ética, viii, 2). Logo, Deus não ama todas as coisas. **Objeção 4:** Finalmente, está escrito (Sl 5,7): «Tu aborreces todos os que obram a iniquidade». Ora, ninguém é ao mesmo tempo aborrecido e amado. Logo, Deus não ama todas as coisas. **Em contrário,** diz-se (Sb 11,25): «Tu amas todas as coisas que são, e não aborreces nenhuma das que fizeste». **Respondo que** Deus ama todas as coisas existentes. Pois todas as coisas existentes, enquanto existem, são boas, visto que a existência de uma coisa é em si mesma um bem; e igualmente, qualquer perfeição que possua. Ora, já se mostrou acima (Q. 19, A. 4) que a vontade de Deus é a causa de todas as coisas. Necessário é, portanto, que uma coisa tenha existência, ou qualquer espécie de bem, apenas na medida em que é querida por Deus. Logo, a cada coisa existente Deus quer algum bem. Donde, uma vez que amar nada mais é do que querer o bem a algo, é manifesto que Deus ama tudo o que existe. Contudo, não como nós amamos. Porque, como a nossa vontade não é a causa da bondade das coisas, mas é movida por ela como pelo seu objeto, o nosso amor, pelo qual queremos o bem a algo, não é causa da sua bondade; mas, pelo contrário, a sua bondade, quer real quer imaginária, suscita o nosso amor, pelo qual queremos que ela conserve o bem que tem, e receba além disso o bem que não tem, e para esse fim dirigimos as nossas ações; ao passo que o amor de Deus infunde e cria a bondade. **Resposta à objeção 1:** O amante é colocado fora de si mesmo e faz-se passar para o objeto do seu amor, na medida em que quer o bem ao amado e obra esse bem pela sua providência, assim como obra o seu próprio bem. Por isso Dionísio diz (Div. Nom. iv, 1): «Em defesa da verdade, devemos ousar dizer mesmo isto: que Ele mesmo, a causa de todas as coisas, pelo seu abundante amor e bondade, é colocado fora de Si mesmo pela sua providência para com todas as coisas existentes». **Resposta à objeção 2:** Embora as criaturas não tenham existido desde a eternidade, a não ser em Deus, contudo, porque estiveram n’Ele desde a eternidade, Deus as conheceu eternamente nas suas naturezas próprias; e por essa razão as amou, assim como nós, pelas imagens das coisas que estão em nós, conhecemos as coisas existentes em si mesmas. **Resposta à objeção 3:** A amizade não pode existir senão para com as criaturas racionais, que são capazes de retribuir o amor e de comunicar umas com as outras nas várias obras da vida, e que podem ir bem ou mal, segundo as mudanças da fortuna e da felicidade; como para com elas se exerce propriamente a benevolência. Mas as criaturas irracionais não podem chegar a amar a Deus, nem a participar da vida intelectual e beatífica que Ele vive. Por isso, falando estritamente, Deus não ama as criaturas irracionais com amor de amizade; mas, por assim dizer, com amor de desejo, enquanto as ordena para as criaturas racionais e até para Si mesmo. Contudo, isso não é porque Ele necessite delas, mas somente por causa da sua bondade e dos serviços que elas nos prestam. Pois podemos desejar uma coisa para outrem assim como para nós mesmos. **Resposta à objeção 4:** Nada impede que uma mesma coisa seja amada sob um aspeto e aborrecida sob outro. Deus ama os pecadores enquanto são naturezas existentes; pois eles têm existência e a têm d’Ele. Enquanto são pecadores, não têm existência alguma, mas dela carecem; e isto neles não é de Deus. Logo, sob este aspeto, são por Ele aborrecidos.

Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether God loves all things? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não fostes reconciliados com Deus pela Paixão de Cristo. Pois não há necessidade de reconciliação entre amigos. Mas Deus sempre nos amou, segundo Sb 11,25: "Amas todas as coisas que existem e não odeias nada do que fizeste". Logo, a Paixão de Cristo não nos reconciliou com Deus. Objeção 2: Além disso, a mesma coisa não pode ser causa e efeito; por isso a graça, que é a causa do mérito, não cai sob o mérito. Ora, o amor de Deus é a causa da Paixão de Cristo, segundo Jo 3,16: "Deus amou de tal modo o mundo, que deu o seu Filho unigênito". Não parece, então, que fomos reconciliados com Deus pela Paixão de Cristo, de modo que Ele começasse a nos amar de novo. Objeção 3: Além disso, a Paixão de Cristo foi consumada pelos homens que O mataram; e com isso ofenderam gravemente a Deus. Portanto, a Paixão de Cristo é antes causa de ira do que de reconciliação com Deus. Em contrário, o Apóstolo diz (Rm 5,10): "Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho". Respondo que a Paixão de Cristo é, de dois modos, causa da nossa reconciliação com Deus. Primeiramente, enquanto remove o pecado, pelo qual os homens se tornaram inimigos de Deus, segundo Sb 14,9: "São igualmente odiosos a Deus o ímpio e a sua impiedade"; e Sl 5,7: "Odeias todos os que praticam a iniquidade". De outro modo, enquanto é um sacrifício mui aceitável a Deus. Ora, é efeito próprio do sacrifício aplacar a Deus: assim como também o homem desconsidera uma ofensa cometida contra ele por causa de algum ato de homenagem que lhe seja agradável. Por isso está escrito (1 Sm 26,19): "Se o Senhor te incita contra mim, aceite Ele o sacrifício". E de igual modo, o sofrimento voluntário de Cristo foi um ato tão bom que, por ter sido encontrado na natureza humana, Deus foi aplacado por toda ofensa do gênero humano, no tocante àqueles que se unem a Cristo crucificado da maneira acima referida (A. 1, ad 4). Resposta à objeção 1: Deus ama todos os homens quanto à natureza, que Ele mesmo fez; mas os odeia quanto aos crimes que cometem contra Ele, segundo Eclo 12,3: "O Altíssimo odeia os pecadores". Resposta à objeção 2: Não se diz que Cristo nos reconciliou com Deus como se Deus começasse a nos amar de novo, pois está escrito (Jr 31,3): "Amei-te com amor eterno"; mas porque a causa do ódio foi removida pela Paixão de Cristo, tanto pelo lavação do pecado como pela compensação feita sob a forma de uma oferenda mais agradável. Resposta à objeção 3: Assim como os que mataram Cristo eram homens, também o Cristo morto era homem. Ora, a caridade de Cristo sofredor superou a malícia dos seus matadores. Por isso, a Paixão de Cristo prevaleceu mais para reconciliar Deus com todo o gênero humano do que para O provocar à ira.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether we were reconciled to God through Christ's Passion? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que as mentiras não são suficientemente divididas em mentiras "oficiosas", "jocosas" e "perniciosas". Pois uma divisão deve ser feita segundo aquilo que pertence a uma coisa por razão de sua natureza, como diz o Filósofo (Metaf. vii, texto 43; De Part. Animal i, 3). Ora, a intenção do efeito resultante de um ato moral parece ser algo acidental e à parte da espécie desse ato, de modo que um número indefinido de efeitos pode resultar de um único ato. Ora, esta divisão é feita segundo a intenção do efeito: pois a mentira "jocosa" é dita para fazer graça, a mentira "oficiosa" para algum fim útil, e a mentira "perniciosa" para prejudicar alguém. Logo, as mentiras são divididas de modo inconveniente. **Objeção 2:** Além disso, Agostinho (Contra Ment. xiv) dá oito gêneros de mentiras. A primeira é "na doutrina religiosa"; a segunda é "a mentira que a ninguém aproveita e a alguém prejudica"; a terceira "aproveita a uma parte de modo a prejudicar outra"; a quarta é "dita por mero prazer de mentir e enganar"; a quinta é "dita por desejo de agradar"; a sexta "a ninguém prejudica e a alguém aproveita salvando-lhe o dinheiro"; a sétima "a ninguém prejudica e a alguém aproveita salvando-lhe a morte"; a oitava "a ninguém prejudica e a alguém aproveita salvando-o da contaminação do corpo". Logo, parece que a primeira divisão das mentiras é insuficiente. **Objeção 3:** Além disso, o Filósofo (Ética iv, 7) divide a mentira em "jactância", que excede a verdade no discurso, e "ironia", que fica aquém da verdade dizendo algo menos; e estas duas não estão contidas em nenhum dos gêneros acima mencionados. Logo, parece que a supracitada divisão das mentiras é inadequada. **Ao contrário,** Uma glosa ao Sl 5,7 — "Vós destruireis todos os que falam a mentira" — diz "que há três gêneros de mentiras; pois umas são ditas para o bem-estar e conveniência de alguém; e há outro gênero de mentira que é dito por brincadeira; mas o terceiro gênero de mentira é dito por malícia." O primeiro destes se chama mentira oficiosa, o segundo mentira jocosa, o terceiro mentira perniciosa. Logo, as mentiras se dividem nestes três gêneros. **Resposta:** As mentiras podem ser divididas de três modos. Primeiro, com respeito à sua natureza enquanto mentiras; e esta é a divisão própria e essencial da mentira. Deste modo, segundo o Filósofo (Ética iv, 7), as mentiras são de dois tipos, a saber: a mentira que excede a verdade, e esta pertence à "jactância"; e a mentira que fica aquém da verdade, e esta pertence à "ironia". Esta divisão é uma divisão essencial da própria mentira, porque a mentira enquanto tal se opõe à verdade, conforme foi dito no Artigo anterior; e a verdade é uma espécie de igualdade, à qual o mais e o menos se opõem essencialmente. Em segundo lugar, as mentiras podem ser divididas com respeito à sua natureza como pecados, e com respeito àquelas coisas que agravam ou diminuem o pecado da mentira, da parte do fim pretendido. Ora, o pecado da mentira é agravado se, mentindo, alguém pretende prejudicar a outrem, e esta se chama mentira "perniciosa"; enquanto o pecado da mentira é diminuído se for dirigida a algum bem — seja de prazer, e então é mentira "jocosa"; seja de utilidade, e então temos a mentira "oficiosa", pela qual se pretende ajudar a outra pessoa, ou salvá-la de ser prejudicada. Deste modo, as mentiras se dividem nos três gêneros supracitados. Em terceiro lugar, as mentiras são divididas de modo mais geral, com respeito à sua relação com algum fim, quer este aumente ou diminua a sua gravidade; e deste modo a divisão compreende oito gêneros, como se disse na Segunda Objeção. Aqui, os três primeiros gêneros estão contidos sob as mentiras "perniciosas", que são ou contra Deus, e então temos a mentira "na doutrina religiosa"; ou contra o homem, e isto ou com a só intenção de prejudicá-lo, e então é o segundo gênero de mentira, que "a ninguém aproveita, e a alguém prejudica"; ou com a intenção de prejudicar um e ao mesmo tempo aproveitar a outro, e este é o terceiro gênero de mentira, "que aproveita a um, e prejudica a outro". Destes, o primeiro é o mais grave, porque os pecados contra Deus são sempre mais graves, como foi dito acima (I-II Q[73], A[3]); e o segundo é mais grave do que o terceiro, pois a gravidade deste é diminuída pela intenção de aproveitar a outro. Após estes três, que agravam o pecado da mentira, temos um quarto, que tem sua própria medida de gravidade sem acréscimo ou diminuição; e esta é a mentira que é dita "por mero prazer de mentir e enganar". Esta procede de um hábito, por isso o Filósofo diz (Ética iv, 7) que "o mentiroso, quando mente por hábito, deleita-se em mentir". Os quatro gêneros que seguem diminuem a gravidade do pecado da mentira. Pois o quinto gênero é a mentira jocosa, que é dita "com desejo de agradar"; e os três restantes estão compreendidos sob a mentira oficiosa, na qual se pretende algo útil para outra pessoa. Esta utilidade diz respeito ou a coisas externas, e então temos o sexto gênero de mentira, que "aproveita a alguém salvando-lhe o dinheiro"; ou ao seu corpo, e este é o sétimo gênero, que "salva um homem da morte"; ou à moralidade de sua virtude, e este é o oitavo gênero, que "o salva da contaminação ilícita do seu corpo". Ora, é evidente que quanto maior é o bem pretendido, mais o pecado da mentira é diminuído em gravidade. Por onde, uma consideração cuidadosa da matéria mostrará que estes vários gêneros de mentiras são enumerados na sua ordem de gravidade: pois o bem útil é melhor do que o bem prazeroso, e a vida do corpo é melhor do que o dinheiro, e a virtude é melhor do que a vida do corpo. Isto basta para as Respostas às Objeções.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether lies are sufficiently divided into officious, jocose, and mischievous lies? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que toda mentira é pecado mortal. Pois está escrito (Sl 6,7): «Vós destruireis todos os que falam mentira», e (Sb 1,11): «A boca que mente mata a alma». Ora, só o pecado mortal causa destruição e morte da alma. Logo, toda mentira é pecado mortal. **Objeção 2:** Além disso, tudo o que é contra um preceito do Decálogo é pecado mortal. Ora, mentir é contra este preceito do Decálogo: «Não dirás falso testemunho». Logo, toda mentira é pecado mortal. **Objeção 3:** Além disso, Agostinho diz (De Doctr. Christ. I, 36): «Todo mentiroso quebra sua fé ao mentir, pois deseja que a pessoa a quem mente tenha fé nele, e contudo não guarda a fé com ela, quando lhe mente; e quem quebra sua fé é réu de iniqüidade». Ora, ninguém é dito quebrar sua fé ou «ser réu de iniqüidade» por um pecado venial. Logo, nenhuma mentira é pecado venial. **Objeção 4:** Além disso, a recompensa eterna não se perde senão por um pecado mortal. Ora, por uma mentira perdeu-se a recompensa eterna, sendo trocada por um galardão temporal. Pois Gregório diz (Moral. XVIII) que «aprendemos com a recompensa das parteiras o que merece o pecado de mentir: porque a recompensa que mereciam por sua bondade, e que poderiam ter recebido na vida eterna, diminuiu para um galardão temporal por causa da mentira de que foram culpadas». Logo, mesmo uma mentira oficiosa, como foi a das parteiras, que aparentemente é a menor das mentiras, é pecado mortal. **Objeção 5:** Além disso, Agostinho diz (Lib. De Mend. XVII) que «é um preceito de perfeição não somente não mentir de modo algum, mas nem sequer desejar mentir». Ora, agir contra um preceito é pecado mortal. Logo, toda mentira dos perfeitos é pecado mortal; e, conseqüentemente, também o é uma mentira dita por qualquer outro; do contrário, os perfeitos estariam em pior situação que os outros. **Em contrário,** Agostinho diz sobre o Sl 5,7, «Vós destruireis», etc.: «Há dois tipos de mentira que não são gravemente pecaminosos, mas não são isentos de pecado: quando mentimos por brincadeira ou para o bem do próximo». Ora, todo pecado mortal é grave. Logo, as mentiras jocosa e oficiosa não são pecados mortais. **Resposta:** Digo que, propriamente falando, o pecado mortal é aquele contrário à caridade, pela qual a alma vive em união com Deus, como foi dito acima (Q. 24, A. 12; Q. 35, A. 3). Ora, uma mentira pode ser contrária à caridade de três modos: primeiro, em si mesma; segundo, quanto ao mal intencionado; terceiro, acidentalmente. Uma mentira pode ser em si mesma contrária à caridade por causa de sua falsa significação. Pois se esta for acerca de coisas divinas, é contrária à caridade de Deus, cuja verdade se esconde ou corrompe por tal mentira; de modo que uma mentira deste tipo se opõe não somente à virtude da caridade, mas também às virtudes da fé e da religião; por isso é um pecado gravíssimo e mortal. Se, porém, a falsa significação for acerca de algo cujo conhecimento afeta o bem do homem, por exemplo, se pertence à perfeição da ciência ou à conduta moral, uma mentira desta descrição inflige injúria ao próximo, pois lhe causa uma opinião falsa; por isso é contrária à caridade quanto ao amor ao próximo, e conseqüentemente é pecado mortal. Por outro lado, se a opinião falsa gerada pela mentira for acerca de alguma matéria cujo conhecimento é de nenhuma importância, então a mentira em questão não causa dano ao próximo; por exemplo, se uma pessoa é enganada acerca de certos particulares contingentes que não lhe dizem respeito. Por isso, uma mentira deste tipo, considerada em si mesma, não é pecado mortal. Quanto ao fim em vista, uma mentira pode ser contrária à caridade por ser dita com o propósito de injuriar a Deus, e isto é sempre pecado mortal, pois se opõe à religião; ou para injuriar o próximo, em sua pessoa, seus bens ou sua boa fama, e isto também é pecado mortal, pois injuriar o próximo é pecado mortal, e peca-se mortalmente se se tem meramente a intenção de cometer um pecado mortal. Mas, se o fim intencionado não é contrário à caridade, a mentira considerada sob este aspecto também não será pecado mortal, como no caso de uma mentira jocosa, onde se intenciona um pequeno prazer, ou numa mentira oficiosa, onde se intenciona também o bem do próximo. Acidentalmente, uma mentira pode ser contrária à caridade por causa do escândalo ou de qualquer outra injúria que dela resulte; e assim, novamente, será pecado mortal, por exemplo, se um homem não for dissuadido pelo escândalo de mentir publicamente. **Resposta à objeção 1:** As passagens citadas referem-se à mentira nociva, como explica uma glosa sobre as palavras do Sl 5,7: «Vós destruireis todos os que falam mentira». **Resposta à objeção 2:** Visto que todos os preceitos do Decálogo se dirigem ao amor de Deus e do próximo, como foi dito acima (Q. 44, A. 1, ad 3; I-II, Q. 100, A. 5, ad 1), a mentira é contrária a um preceito do Decálogo na medida em que é contrária ao amor de Deus e do próximo. Por isso, é expressamente proibido dar falso testemunho contra o próximo. **Resposta à objeção 3:** Mesmo um pecado venial pode ser chamado «iniqüidade» em sentido amplo, na medida em que está fora da eqüidade da justiça; por isso está escrito (1 Jo 3,4): «Todo pecado é iniqüidade». É neste sentido que Agostinho fala. **Resposta à objeção 4:** A mentira das parteiras pode ser considerada de dois modos. Primeiro, quanto ao seu sentimento de bondade para com os judeus e sua reverência e temor de Deus, pelo qual sua disposição virtuosa é louvada. Por isso, uma recompensa eterna lhes é devida. Daí que Jerônimo (em sua exposição de Is 65,21, «E edificarão casas») explique que Deus «lhes edificou casas espirituais». Segundo, pode ser considerada quanto ao ato externo de mentir. Pois por isso não podiam merecer uma recompensa eterna, mas talvez algum galardão temporal, cujo merecimento não era incompatível com a deformidade de sua mentira, embora esta fosse incompatível com o merecimento de uma recompensa eterna. É neste sentido que devemos entender as palavras de Gregório, e não que por aquela mentira merecessem perder a recompensa eterna como se já a tivessem merecido por sua bondade precedente, como a objeção entende as palavras. **Resposta à objeção 5:** Alguns dizem que para os perfeitos toda mentira é pecado mortal. Mas esta afirmação é irrazoável. Pois nenhuma circunstância faz um pecado ser infinitamente mais grave a menos que o transfira para outra espécie. Ora, uma circunstância de pessoa não transfere um pecado para outra espécie, exceto talvez por algo anexo a essa pessoa, por exemplo, se for contra seu voto; e isto não pode aplicar-se a uma mentira oficiosa ou jocosa. Por isso, uma mentira oficiosa ou jocosa não é pecado mortal em homens perfeitos, exceto talvez acidentalmente por causa do escândalo. Podemos entender neste sentido a afirmação de Agostinho de que «é um preceito de perfeição não somente não mentir de modo algum, mas nem sequer desejar mentir»; embora Agostinho não o diga afirmativamente, mas duvidosamente, pois começa dizendo: «A menos que talvez seja um preceito», etc. Nem importa que estejam colocados numa posição de salvaguardar a verdade: porque estão obrigados a salvaguardar a verdade por virtude de seu ofício ao julgar ou ensinar, e se mentirem nestas matérias, sua mentira será pecado mortal; mas não se segue que pequem mortalmente quando mentem em outras matérias.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether every lie is a mortal sin? · séc. XIII

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