Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o livro da vida não é a mesma coisa que a predestinação. Porquanto está escrito: «Todas as coisas são o livro da vida» (Eclo 4,32) — isto é, o Antigo e o Novo Testamento, segundo uma glosa. Ora, isso não é a predestinação. Logo, o livro da vida não é a predestinação. Objeção 2: Demais, Agostinho diz (A Cidade de Deus XX, 14) que «o livro da vida é uma certa energia divina, pela qual acontece que a cada um se tragam à memória suas boas ou más obras.» Ora, a energia divina parece pertencer, não à predestinação, mas antes ao poder divino. Logo, o livro da vida não é a mesma coisa que a predestinação. Objeção 3: Ademais, a reprovação se opõe à predestinação. Logo, se o livro da vida fosse o mesmo que a predestinação, deveria haver também um livro da morte, assim como há o livro da vida. Em contrário, diz-se numa glosa sobre o Sl 68,29: «Sejam riscados do livro dos vivos. Este livro é o conhecimento de Deus, pelo qual predestinou para a vida aqueles que de antemão conheceu.» Respondo que o livro da vida se toma em Deus em sentido metafórico, por comparação com as coisas humanas. Pois é costume entre os homens que aqueles que são escolhidos para algum ofício sejam inscritos num livro; como, por exemplo, soldados ou conselheiros, que outrora se chamavam «padres conscritos». Ora, é claro pelo que precede (Q. 23, A. 4) que todos os predestinados são escolhidos por Deus para possuir a vida eterna. Esta inscrição, portanto, dos predestinados se chama livro da vida. Diz-se metaforicamente que algo está escrito na mente de alguém quando está firmemente retido na memória, conforme Provérbios 3,3: «Não te esqueças da minha lei, e o teu coração guarde os meus mandamentos», e adiante: «Escreve-os nas tábuas do teu coração.» Pois as coisas são escritas em livros materiais para ajudar a memória. Donde, o conhecimento de Deus, pelo qual Ele firmemente recorda que predestinou alguns para a vida eterna, se chama livro da vida. Pois, assim como a escrita num livro é o sinal das coisas que hão de ser feitas, assim o conhecimento de Deus é n’Ele um sinal daqueles que hão de ser levados à vida eterna, conforme 2 Timóteo 2,19: «O firme fundamento de Deus está firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus.» Resposta à Objeção 1: O livro da vida pode ser entendido de dois modos. De um modo, como a inscrição daqueles que são escolhidos para a vida; assim agora falamos do livro da vida. De outro modo, pode-se chamar livro da vida a inscrição daquelas coisas que nos conduzem à vida; e isto também é duplo: ou das coisas que hão de ser feitas, e assim o Antigo e o Novo Testamento se chamam livro da vida; ou das coisas já feitas, e assim aquela energia divina pela qual acontece que a cada um serão trazidas à memória as suas obras se chama livro da vida. Assim também se pode chamar livro da guerra, quer porque contém os nomes inscritos dos escolhidos para o serviço militar, quer porque trata da arte militar, ou porque relata os feitos dos soldados. Daí a solução da Segunda Objeção. Resposta à Objeção 3: É costume inscrever, não os que são rejeitados, mas os que são escolhidos. Donde não haver um livro da morte correspondente à reprovação, assim como há o livro da vida correspondente à predestinação. Resposta à Objeção 4: A predestinação e o livro da vida são aspectos diferentes da mesma coisa. Pois este último implica o conhecimento da predestinação; como também se esclarece pela glosa citada acima.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether the book of life is the same as predestination? · séc. XIII
tradução automática