Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Pareceria que os anjos têm corpos a eles naturalmente unidos. Pois Orígenes diz (Peri Archon i): "É atributo só de Deus — isto é, pertence ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como propriedade de natureza — que Ele é compreendido existir sem nenhuma substância material e sem nenhuma companhia de adição corporal." Bernardo igualmente diz (Hom. vi super Cant.): "Atribuamos a incorporeidade só a Deus, assim como a imortalidade, cuja natureza só, nem por si mesma nem por causa de outra coisa, precisa do auxílio de nenhum órgão corporal. Mas é claro que todo espírito criado precisa de substância corporal." Agostinho também diz (Gen. ad lit. iii): "Os demônios são chamados animais da atmosfera porque sua natureza é afim dos corpos aéreos." Ora, a natureza dos demônios e dos anjos é a mesma. Logo os anjos têm corpos a eles naturalmente unidos. Objeção 2: Além disso, Gregório (Hom. x in Ev.) chama o anjo de animal racional. Ora, todo animal é composto de corpo e alma. Logo os anjos têm corpos a eles naturalmente unidos. Objeção 3: Além disso, a vida é mais perfeita nos anjos do que nas almas. Ora, a alma não só vive, mas dá vida ao corpo. Logo os anjos animam corpos que lhes são naturalmente unidos. Em contrário, Dionísio diz (Div. Nom. iv) que "os anjos são compreendidos como incorpóreos." Respondo que: Os anjos não têm corpos a eles naturalmente unidos. Pois tudo o que pertence a alguma natureza como acidente não se encontra universalmente nessa natureza; assim, por exemplo, ter asas, porque não é da essência do animal, não pertence a todo animal. Ora, como entender não é ato de um corpo, nem de nenhuma energia corporal, como se mostrará depois (Q[75], A[2]), segue-se que ter um corpo unido a si não é da natureza de uma substância intelectual, enquanto tal; mas é acidental a alguma substância intelectual por causa de outra coisa. Assim também pertence à alma humana estar unida a um corpo, porque é imperfeita e existe potencialmente no gênero das substâncias intelectuais, não tendo a plenitude do conhecimento em sua própria natureza, mas adquirindo-o das coisas sensíveis por meio dos sentidos corporais, como se explicará adiante (Q[84], A[6]; Q[89], A[1]). Ora, sempre que encontramos algo imperfeito em algum gênero, devemos pressupor algo perfeito nesse gênero. Portanto, na natureza intelectual há algumas substâncias perfeitamente intelectuais, que não precisam adquirir conhecimento das coisas sensíveis. Consequentemente, nem todas as substâncias intelectuais estão unidas a corpos; mas algumas estão completamente separadas dos corpos, e a estas chamamos anjos. Resposta à objeção 1: Como foi dito acima (Q[50], A[1]), foi opinião de alguns que todo ser é um corpo; e consequentemente alguns parecem ter pensado que não existiam substâncias incorpóreas senão unidas a corpos; de modo que alguns chegaram a sustentar que Deus era a alma do mundo, como nos conta Agostinho (De Civ. Dei vii). Como isto é contrário à Fé Católica, que afirma que Deus está exaltado sobre todas as coisas, segundo o Sl 8,2: "Tua magnificência está exaltada sobre os céus"; Orígenes, recusando-se a dizer tal coisa de Deus, seguiu a opinião acima de outros a respeito das outras substâncias; sendo enganado aqui como também o foi em muitos outros pontos, por seguir as opiniões dos antigos filósofos. A expressão de Bernardo pode ser explicada: o espírito criado precisa de algum instrumento corporal, que não lhe está naturalmente unido, mas assumido para algum propósito, como se explicará (A[2]). Agostinho fala não como afirmando o fato, mas apenas usando a opinião dos platônicos, que sustentavam existirem alguns animais aéreos, aos quais chamavam demônios. Resposta à objeção 2: Gregório chama o anjo de animal racional metaforicamente, por causa da semelhança com a natureza racional. Resposta à objeção 3: Dar a vida efetivamente é uma perfeição simplesmente falando; logo, pertence a Deus, como se diz (1 Reis 2,6): "O Senhor tira a vida e a dá." Mas dar a vida formalmente pertence a uma substância que é parte de alguma natureza, e que não tem em si mesma a plenitude da natureza da espécie. Logo, uma substância intelectual que não está unida a um corpo é mais perfeita do que aquela que está unida a um corpo.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether the angels have bodies naturally united to them? · séc. XIII
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