Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que Deus não ama sempre mais as coisas melhores. Porque é manifesto que Cristo é melhor do que todo o gênero humano, sendo Deus e homem. Mas Deus amou mais o gênero humano do que amou a Cristo; pois está escrito: «Não poupou Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós» (Rom. 8,32). Logo, Deus não ama sempre mais as coisas melhores. Objecção 2: Além disso, um anjo é melhor do que um homem. Donde se diz do homem: «Fizeste-o um pouco menor que os anjos» (Sl. 8,6). Mas Deus amou mais os homens do que amou os anjos, pois está escrito: «Em nenhum lugar toma Ele os anjos, mas toma a descendência de Abraão» (Heb. 2,16). Logo, Deus não ama sempre mais as coisas melhores. Objecção 3: Além disso, Pedro era melhor do que João, pois amava mais a Cristo. Donde o Senhor, sabendo ser isto verdade, perguntou a Pedro, dizendo: «Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?» No entanto, Cristo amou mais a João do que a Pedro. Pois, como diz Agostinho, comentando as palavras «Simão, filho de João, amas-Me?»: «Por esta mesma marca se distingue João dos outros discípulos, não porque O amasse só ele, mas porque O amava mais que os outros.» Logo, Deus não ama sempre mais as coisas melhores. Objecção 4: Além disso, o homem inocente é melhor do que o penitente, pois a penitência é, como diz Jerónimo (Cap. 3 in Isa.), «uma segunda tábua depois do naufrágio.» Mas Deus ama mais o penitente do que o inocente; pois se alegra mais com ele. Porque está escrito: «Digo-vos que haverá alegria no céu por um pecador que faz penitência, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de penitência» (Lc. 15,7). Logo, Deus não ama sempre mais as coisas melhores. Objecção 5: Além disso, o justo que é presciente é melhor do que o pecador predestinado. Ora, Deus ama mais o pecador predestinado, pois Lhe quer um bem maior, a vida eterna. Logo, Deus não ama sempre mais as coisas melhores. Ao contrário, Toda coisa ama o que é semelhante a si, como se vê em (Eclo. 13,19): «Todo animal ama o seu semelhante.» Ora, quanto melhor é uma coisa, tanto mais semelhante é a Deus. Logo, as coisas melhores são mais amadas por Deus. Respondo que, Necessariamente, segundo o que foi dito antes, Deus ama mais as coisas melhores. Pois foi mostrado (AA[2],3), que Deus amar uma coisa mais do que outra não é senão querer para essa coisa um bem maior: porque a vontade de Deus é a causa da bondade nas coisas; e a razão pela qual umas coisas são melhores do que outras é que Deus lhes quer um bem maior. Donde se segue que Ele ama mais as coisas melhores. Resposta à Objecção 1: Deus ama a Cristo não só mais do que ama todo o gênero humano, mas mais do que ama todo o universo criado: porque Lhe quis o maior bem, dando-Lhe «um nome que está acima de todo nome», enquanto era verdadeiro Deus. Nem diminuiu algo da Sua excelência quando Deus O entregou à morte para a salvação do gênero humano; antes se tornou por isso um glorioso vencedor: «O governo foi posto sobre Seu ombro», segundo Is. 9,6. Resposta à Objecção 2: Deus ama a natureza humana assumida pelo Verbo de Deus na pessoa de Cristo mais do que ama todos os anjos; porque essa natureza é melhor, especialmente em razão da união com a Divindade. Mas falando da natureza humana em geral, e comparando-a com a angélica, ambas se encontram iguais, na ordem da graça e da glória: pois segundo Apoc. 21,17, a medida de um homem e de um anjo é a mesma. Contudo, de modo que, a este respeito, alguns anjos se acham mais nobres do que alguns homens, e alguns homens mais nobres do que alguns anjos. Mas quanto à condição natural, um anjo é melhor do que um homem. Deus portanto não assumiu a natureza humana porque amava o homem, absolutamente falando, mais; mas porque as necessidades do homem eram maiores; assim como o senhor de uma casa pode dar um petisco custoso a um servo doente, que não dá a seu próprio filho são. Resposta à Objecção 3: Esta dúvida acerca de Pedro e João foi resolvida de vários modos. Agostinho a interpreta misticamente, e diz que a vida ativa, significada por Pedro, ama mais a Deus do que a contemplativa, significada por João, porque aquela é mais consciente das misérias desta vida presente, e por isso deseja mais ardentemente ser delas libertada e partir para Deus. Deus, diz ele, ama mais a vida contemplativa, pois a conserva por mais tempo. Porque ela não termina, como a vida ativa, com a vida do corpo. Alguns dizem que Pedro amou mais a Cristo nos Seus membros, e por isso foi também mais amado por Cristo, pelo que Lhe deu o cuidado da Igreja; mas que João amou mais a Cristo em Si mesmo, e assim foi mais amado por Ele; por isso Cristo confiou Sua mãe aos seus cuidados. Outros dizem que é incerto qual deles amou mais a Cristo com o amor de caridade, e incerto também qual deles Deus amou mais e ordenou a um maior grau de glória na vida eterna. Diz-se que Pedro amou mais, quanto a uma certa prontidão e fervor; mas que João foi mais amado, quanto a certos sinais de familiaridade que Cristo lhe mostrou mais do que aos outros, por causa da sua juventude e pureza. Enquanto outros dizem que Cristo amou mais a Pedro, pelo seu mais excelente dom de caridade; mas a João mais, pelos seus dons de intelecto. Por isso, absolutamente falando, Pedro era o melhor e o mais amado; mas, em certo sentido, João era o melhor, e era o mais amado. Contudo, pode parecer presunçoso julgar estas matérias; pois «o Senhor» e nenhum outro «é o pesador dos espíritos» (Prov. 16,2). Resposta à Objecção 4: O penitente e o inocente se relacionam como o que excede e o que é excedido. Pois, quer inocente quer penitente, são melhores e mais amados aqueles que têm mais graça. Em igualdade de condições, a inocência é a coisa mais nobre e mais amada. Diz-se que Deus se alegra mais com o penitente do que com o inocente, porque muitas vezes os penitentes se levantam do pecado mais cautelosos, humildes e fervorosos. Donde Gregório, comentando estas palavras (Hom. 34 in Ev.), diz que «Na batalha, o general ama mais o soldado que, depois da fuga, volta e persegue bravamente o inimigo, do que aquele que nunca fugiu, mas nunca fez um ato valente.» Ou pode-se responder que os dons da graça, iguais em si mesmos, são maiores quando conferidos ao penitente, que merecia castigo, do que quando conferidos ao inocente, a quem nenhum castigo era devido; assim como cem marcos são um dom maior para um pobre do que para um rei. Resposta à Objecção 5: Visto que a vontade de Deus é a causa da bondade nas coisas, a bondade de quem é amado por Deus deve ser considerada segundo o tempo em que algum bem lhe deve ser dado pela bondade divina. Portanto, segundo o tempo, quando pela vontade divina deve ser dado ao pecador predestinado um bem maior, o pecador é melhor; ainda que segundo algum outro tempo seja pior; porque mesmo segundo algum tempo ele não é nem bom nem mau.
Summa Theologiae — First Part · Article. 4 - Whether God always loves more the better things? · séc. XIII
tradução automática