Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o homem pode ser feito bem-aventurado pela ação de alguma criatura superior, a saber, um anjo. Pois, observando uma dupla ordem nas coisas — uma, das partes do universo entre si; a outra, de todo o universo para um bem que está fora do universo —, a primeira ordem é ordenada à segunda como ao seu fim (Metaf. xii, 10). Assim, a ordem mútua das partes de um exército depende da ordem de todo o exército para o general. Ora, a ordem mútua das partes do universo consiste em as criaturas superiores atuarem sobre as inferiores, como se afirma na Primeira Parte, Q. 109, A. 2; ao passo que a bem-aventurança consiste na ordem do homem para um bem que está fora do universo, i.e., Deus. Logo, o homem é feito bem-aventurado por meio de uma criatura superior, a saber, um anjo, que atua sobre ele. **Objeção 2:** Ademais, aquilo que é potencial pode ser reduzido a ato por aquilo que é atualmente tal; assim, o que é potencialmente quente torna-se atualmente quente por algo que é atualmente quente. Ora, o homem é potencialmente bem-aventurado. Logo, pode ser feito atualmente bem-aventurado por um anjo que é atualmente bem-aventurado. **Objeção 3:** Ademais, a bem-aventurança consiste numa operação do intelecto, como se disse acima (Q. 3, A. 4). Ora, um anjo pode iluminar o intelecto do homem, como se mostra na Primeira Parte, Q. 111, A. 1. Logo, um anjo pode fazer um homem bem-aventurado. **Em contrário,** está escrito (Sl 83, 12): "O Senhor dará graça e glória." **Respondo:** Visto que toda criatura está sujeita às leis da natureza, pelo próprio fato de que seu poder e ação são limitados, aquilo que supera a natureza criada não pode ser feito pelo poder de nenhuma criatura. Consequentemente, se algo precisa ser feito que esteja acima da natureza, é feito imediatamente por Deus; tais como ressuscitar os mortos, restituir a vista aos cegos e coisas semelhantes. Ora, mostrou-se acima (A. 5) que a bem-aventurança é um bem que supera a natureza criada. Portanto, é impossível que ela seja concedida pela ação de alguma criatura; mas só por Deus é o homem feito bem-aventurado, se falamos da bem-aventurança perfeita. Se, porém, falamos da bem-aventurança imperfeita, o mesmo se deve dizer dela como da virtude em cujo ato ela consiste. **Resposta à Objeção 1:** Acontece frequentemente, no caso de potências ativas ordenadas entre si, que pertence à potência mais alta alcançar o fim último, enquanto as potências inferiores contribuem para a consecução desse fim último, causando uma disposição para ele; assim, à arte da navegação, que comanda a arte da construção naval, pertence usar o navio para o fim para o qual foi feito. Assim também, na ordem do universo, o homem é certamente ajudado pelos anjos na consecução de seu fim último, quanto a certas disposições preliminares para ele; ao passo que ele alcança o próprio fim último mediante o Primeiro Agente, que é Deus. **Resposta à Objeção 2:** Quando uma forma existe perfeita e naturalmente em algo, pode ser princípio de ação sobre outra coisa; por exemplo, uma coisa quente aquece pelo calor. Mas se uma forma existe imperfeitamente em algo, e não naturalmente, não pode ser princípio pelo qual seja comunicada a outra coisa; assim, a "intenção" da cor que está na pupila não pode tornar algo branco; nem pode todo iluminado ou aquecido dar calor ou luz a outra coisa; pois, se pudessem, a iluminação e o aquecimento iriam ao infinito. Ora, a luz da glória, pela qual Deus é visto, está em Deus perfeita e naturalmente; ao passo que em qualquer criatura está imperfeitamente e por semelhança ou participação. Consequentemente, nenhuma criatura pode comunicar sua bem-aventurança a outra. **Resposta à Objeção 3:** Um anjo bem-aventurado ilumina o intelecto de um homem ou de um anjo inferior quanto a certas noções das obras divinas; mas não quanto à visão da Essência Divina, como se afirmou na Primeira Parte, Q. 106, A. 1; pois, para ver esta, todos são imediatamente iluminados por Deus.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether man attains happiness through the action of some higher creature? · séc. XIII
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