Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a vida não se atribui propriamente a Deus. Pois as coisas se dizem viver na medida em que se movem a si mesmas, como antes se disse (A. 2). Ora, o movimento não pertence a Deus. Logo, nem a vida. Objeção 2: Ademais, em todas as coisas viventes é necessário supor algum princípio de vida. Por isso diz o Filósofo (De Anima ii, 4) que "a alma é a causa e o princípio do corpo vivo". Ora, Deus não tem princípio. Logo, não se Lhe pode atribuir vida. Objeção 3: Ademais, o princípio de vida nas coisas viventes que existem entre nós é a alma vegetativa. Mas esta só existe nas coisas corpóreas. Logo, a vida não pode ser atribuída às coisas incorpóreas. Ao contrário, diz-se (Sl 83,3): "Meu coração e minha carne exultaram no Deus vivo." Respondo que a vida está propriissimamente em Deus. Para prová-lo, deve-se considerar que, uma vez que uma coisa se diz viver enquanto opera por si mesma e não como movida por outro, quanto mais perfeitamente se encontra esta potência em algo, tanto mais perfeita é a vida dessa coisa. Nas coisas que movem e são movidas, encontra-se uma tríplice ordem. Em primeiro lugar, o fim move o agente; e o agente principal é aquele que age através de sua forma, e às vezes o faz através de algum instrumento que age em virtude não de sua própria forma, mas do agente principal, e não faz mais do que executar a ação. Por conseguinte, há coisas que se movem a si mesmas, não quanto a qualquer forma ou fim naturalmente inerente nelas, mas apenas quanto à execução do movimento; a forma pela qual agem e o fim da ação são-lhes igualmente determinados pela sua natureza. Deste tipo são as plantas, que se movem a si mesmas segundo sua natureza inerente, apenas quanto à execução dos movimentos de crescimento e decadência. Outras coisas têm automovimento em grau mais elevado, isto é, não só quanto à execução do movimento, mas também quanto à forma, princípio do movimento, forma que elas mesmas adquirem. Deste tipo são os animais, nos quais o princípio do movimento não é uma forma naturalmente implantada, mas recebida através dos sentidos. Por isso, quanto mais perfeito é seu sentido, mais perfeita é sua capacidade de automovimento. Aqueles que têm apenas o tato, como os mariscos, movem-se apenas com o movimento de expansão e contração; e assim seu movimento mal excede o das plantas. Ao passo que aqueles que têm a potência sensitiva em perfeição, de modo a reconhecer não só a conexão e o tato, mas também objetos distantes de si, podem mover-se a distância por movimento progressivo. Contudo, embora os animais deste último tipo recebam pelos sentidos a forma que é o princípio de seu movimento, não podem, todavia, propor a si mesmos o fim de sua operação ou movimento; pois este lhes foi implantado pela natureza; e por instinto natural são movidos a qualquer ação através da forma apreendida pelo sentido. Portanto, os animais que se movem a si mesmos em relação a um fim que eles mesmos propõem são superiores a estes. Isso só pode ser feito pela razão e pelo intelecto; cuja função é conhecer a proporção entre o fim e os meios para esse fim, e coordená-los devidamente. Donde, um grau mais perfeito de vida é o dos seres inteligíveis; pois sua capacidade de automovimento é mais perfeita. Isto se mostra pelo fato de que, no mesmo homem, a faculdade intelectual move as potências sensitivas; e estas, por seu comando, movem os órgãos do movimento. Assim, nas artes, vemos que a arte de usar um navio, i.e., a arte da navegação, rege a arte de projetar navios; e esta, por sua vez, rege a arte que se ocupa apenas de preparar o material para o navio. Mas, embora nosso intelecto se mova a si mesmo para algumas coisas, outras lhe são fornecidas pela natureza, como os primeiros princípios, que não pode duvidar; e o fim último, que não pode deixar de querer. Portanto, embora quanto a algumas coisas se mova a si mesmo, quanto a outras, deve ser movido por outro. Pelo que, aquele ser cujo ato de entender é a sua própria natureza, e que, no que possui naturalmente, não é determinado por outro, deve ter vida no grau mais perfeito. Tal é Deus; e, portanto, n'Ele está principalmente a vida. Donde o Filósofo conclui (Metaf. xii, 51), após mostrar que Deus é inteligente, que Deus tem vida perfeitíssima e eterna, pois o Seu intelecto é perfeitíssimo e sempre em ato. Resposta à objeção 1: Como se diz em Metaf. ix, 16, a ação é dupla. As ações de um tipo passam para a matéria externa, como aquecer ou cortar; enquanto as ações do outro tipo permanecem no agente, como entender, sentir e querer. A diferença entre elas é que a primeira ação é a perfeição não do agente que move, mas da coisa movida; ao passo que a segunda ação é a perfeição do agente. Por isso, porque o movimento é um ato da coisa em movimento, a segunda ação, enquanto é o ato do operador, chama-se seu movimento, por esta semelhança: que, assim como o movimento é um ato da coisa movida, assim um ato deste tipo é o ato do agente, embora o movimento seja um ato do imperfeito, i.e., do que está em potência; enquanto este tipo de ato é um ato do perfeito, i.e., do que está em ato, como se diz em De Anima iii, 28. No sentido, portanto, em que entender é movimento, aquele que se entende a si mesmo diz-se mover-se a si mesmo. É neste sentido que Platão também ensinou que Deus se move a Si mesmo; não no sentido em que movimento é um ato do imperfeito. Resposta à objeção 2: Assim como Deus é o Seu próprio ser e entender, assim também é a Sua própria vida; e, portanto, Ele vive de tal modo que não tem princípio de vida. Resposta à objeção 3: A vida neste mundo inferior é concedida a uma natureza corruptível, que necessita de geração para preservar a espécie e de nutrição para preservar o indivíduo. Por esta razão, a vida não se encontra aqui abaixo sem uma alma vegetativa; mas isso não se aplica às naturezas incorruptíveis.
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether life is properly attributed to God? · séc. XIII
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