Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Pareceria que não era conveniente que Deus Se fizesse encarnado. Pois, sendo Deus desde toda a eternidade a própria essência da bondade, era-lhe ótimo ser como desde toda a eternidade fora. Mas desde toda a eternidade Ele estivera sem carne. Logo, era-lhe ótimo não Se unir à carne. Portanto, não era conveniente que Deus Se fizesse encarnado. Objeção 2: Ademais, não é conveniente unir coisas que infinitamente distam, assim como não seria união conveniente se alguém "pintasse uma figura em que o pescoço de um cavalo se juntasse à cabeça de um homem" (Horácio, *Ars Poet.* v. 1). Ora, Deus e a carne distam infinitamente, pois Deus é simplicíssimo, e a carne é compositíssima — sobretudo a carne humana. Logo, não era conveniente que Deus Se unisse à carne humana. Objeção 3: Ademais, um corpo dista do sumo espírito tanto quanto o mal dista do sumo bem. Ora, de todo não era conveniente que Deus, que é o sumo bem, assumisse o mal. Logo, não era conveniente que o sumo espírito incriado assumisse um corpo. Objeção 4: Ademais, não é decente que Aquele que excede as coisas grandíssimas seja contido nas mínimas, e que Aquele sobre quem repousa o cuidado das coisas grandes deixe estas pelas menores. Ora, Deus — que cuida do mundo inteiro — o universo inteiro não O pode conter. Logo, pareceria inconveniente que "Ele Se escondesse sob o frágil corpo de um menino em faixas, em comparação de Quem todo o universo é tido por pequeno; e que este Príncipe abandonasse o Seu trono por tanto tempo, e transferisse o governo do mundo inteiro a um corpo tão frágil", como escreve Volusiano a Agostinho (Ep. cxxxv). Ao contrário, Pareceria sumamente conveniente que pelas coisas visíveis as coisas invisíveis de Deus se fizessem conhecer; pois para este fim foi feito o mundo inteiro, como é claro pela palavra do Apóstolo (Rm 1,20): "Porque as coisas invisíveis d'Ele . . . se veem claramente, sendo entendidas pelas coisas que são feitas." Ora, como diz Damasceno (De Fide Orth. iii, 1), pelo mistério da Encarnação se manifestam simultaneamente a bondade, a sabedoria, a justiça e o poder ou força de Deus — "a bondade, porque não desprezou a fraqueza da Sua própria obra; a justiça, porque, vencido o homem, fez com que o tirano fosse vencido por nenhum outro senão o homem, e contudo não arrebatou os homens à força da morte; a sabedoria, porque achou uma satisfação idônea para uma dívida gravíssima; o poder, ou infinita potência, porque nada é maior do que Deus Se fazer encarnado . . ." Respondo que: A cada coisa é conveniente aquilo que lhe pertence por razão da sua própria natureza; assim, a razão convém ao homem, porque isto lhe pertence por ser de natureza racional. Ora, a própria natureza de Deus é a bondade, como é claro por Dionísio (Div. Nom. i). Por isso, o que pertence à essência da bondade convém a Deus. Mas pertence à essência da bondade comunicar-se a outros, como é evidente por Dionísio (Div. Nom. iv). Logo, pertence à essência do sumo bem comunicar-se sumamente à criatura, e isto se realiza principalmente por "Ele unir de tal modo a natureza criada a Si mesmo que uma só Pessoa se componha destes três: o Verbo, uma alma e carne", como diz Agostinho (De Trin. xiii). Portanto, é manifesto que era conveniente que Deus Se fizesse encarnado. Resposta à Objeção 1: O mistério da Encarnação não se consumou por ter Deus mudado de algum modo do estado em que estivera desde a eternidade, mas por Ele Se ter unido à criatura de modo novo, ou antes, por a ter unido a Si. Ora, é conveniente que a criatura, que por natureza é mutável, nem sempre exista do mesmo modo. E portanto, assim como a criatura começou a ser, embora antes não existisse, assim também, não tendo estado antes unida a Deus em Pessoa, depois Lhe foi unida. Resposta à Objeção 2: Unir-se a Deus em unidade de pessoa não era conveniente à carne humana, segundo os seus dotes naturais, pois isso superava a sua dignidade; contudo, era conveniente que Deus, por causa da Sua infinita bondade, a unisse a Si para a salvação do homem. Resposta à Objeção 3: Todo modo de ser pelo qual qualquer criatura difere do Criador foi estabelecido pela sabedoria de Deus e ordenado para a bondade de Deus. Pois Deus, que é incriado, imutável e incorpóreo, produziu criaturas mutáveis e corpóreas para a Sua própria bondade. E assim também o mal de pena foi estabelecido pela justiça de Deus para a glória de Deus. Mas o mal de culpa é cometido afastando-se da arte da divina sabedoria e da ordem da divina bondade. E portanto, podia ser conveniente a Deus assumir uma natureza criada, mutável, corpórea e sujeita à pena, mas não Lhe convinha assumir o mal de culpa. Resposta à Objeção 4: Como responde Agostinho (Ep. ad Volusian. cxxxvii): "A doutrina cristã em nenhum lugar sustenta que Deus estivesse de tal modo unido à carne humana que abandonasse ou perdesse, ou transferisse e como que contraísse dentro deste frágil corpo, o cuidado de governar o universo. Isto é pensamento de homens que não podem ver senão coisas corpóreas . . . Deus é grande não em massa, mas em poder. Logo, a grandeza do Seu poder não sente estreiteza em recintos apertados. Nem, se a palavra passageira de um homem é ouvida ao mesmo tempo por muitos, e inteiramente por cada um, é incrível que o Verbo permanente de Deus esteja em toda a parte simultaneamente?" Portanto, nenhum inconveniente resulta do fato de Deus Se fazer encarnado.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether it was fitting that God should become incarnate? · séc. XIII
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