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Rm 1, 4

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Matos Soares

4estabelecido no seu poder de Filho de Deus, segundo o seu espírito de santidade, a partir da sua ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo Senhor Nosso,

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Pareceria que, se o homem não houvera pecado, Deus ainda assim se teria encarnado. Pois, permanecendo a causa, permanece também o efeito. Mas, como diz Agostinho (De Trin. xiii, 17): «Muitas outras coisas hão de considerar-se na Encarnação de Cristo além da absolvição do pecado»; e estas foram discutidas acima (A[2]). Portanto, se o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 2:** Demais, pertence à onipotência do poder divino aperfeiçoar as suas obras e manifestar-se a Si mesmo por algum efeito infinito. Ora, nenhuma criatura pura pode chamar-se efeito infinito, pois é finita pela sua própria essência. Mas, ao que parece, só na obra da Encarnação se manifesta de modo especial um efeito infinito do poder divino, pelo qual se unem coisas infinitamente distantes, uma vez que se trouxe a efeito que o homem é Deus. E nesta obra principalmente o universo pareceria ser aperfeiçoado, visto que a última criatura — o homem — é unida ao primeiro princípio — Deus. Portanto, mesmo que o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 3:** Demais, a natureza humana não se tornou mais capaz de graça pelo pecado. Ora, depois do pecado ela é capaz da graça de união, que é a máxima graça. Logo, se o homem não houvera pecado, a natureza humana teria sido capaz desta graça; nem Deus teria recusado à natureza humana qualquer bem de que ela fosse capaz. Portanto, se o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 4:** Demais, a predestinação de Deus é eterna. Ora, diz-se de Cristo (Rm 1,4): «Que foi predestinado Filho de Deus em poder». Logo, mesmo antes do pecado, era necessário que o Filho de Deus se encarnasse, para cumprir a predestinação de Deus. **Objeção 5:** Demais, o mistério da Encarnação foi revelado ao primeiro homem, como se vê claramente de Gn 2,23: «Isto é agora osso dos meus ossos», etc., o que o Apóstolo diz ser «grande sacramento… em Cristo e na Igreja», como é claro de Ef 5,32. Ora, o homem não podia ter presciência da sua queda, pela mesma razão por que os anjos não puderam, como prova Agostinho (Gênese à letra xi, 18). Portanto, mesmo que o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Em contrário,** Agostinho diz (Das Palavras do Apóstolo viii, 2), expondo o que se relata em Lc 19,10: «Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido»; «Portanto, se o homem não houvera pecado, o Filho do Homem não teria vindo.» E sobre 1 Tm 1,15: «Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os pecadores», diz uma glosa: «Não houve causa da vinda de Cristo ao mundo senão para salvar pecadores. Tirai as doenças, tirai as chagas, e não há necessidade de remédio.» **Respondo que** há diferentes opiniões sobre esta questão. Pois alguns dizem que, mesmo que o homem não houvera pecado, o Filho do Homem se teria encarnado. Outros afirmam o contrário, e ao que parece devemos antes dar o nosso assentimento a esta opinião. Porque tais coisas que procedem da vontade de Deus e excedem o devido à criatura só nos podem ser conhecidas mediante a revelação na Sagrada Escritura, na qual a Vontade divina nos é manifestada. Donde, visto que em toda a Sagrada Escritura se assinala o pecado do primeiro homem como razão da Encarnação, é mais conforme a isto dizer que a obra da Encarnação foi ordenada por Deus como remédio do pecado; de modo que, se o pecado não houvera existido, a Encarnação não teria lugar. E contudo o poder de Deus não está limitado a isto; mesmo que o pecado não houvera existido, Deus poderia ter-Se encarnado. **Resposta à objeção 1:** Todas as outras causas que se assinalam no artigo precedente dizem respeito ao remédio do pecado. Pois, se o homem não houvera pecado, teria sido dotado da luz da sabedoria divina e aperfeiçoado por Deus com a retidão da justiça para conhecer e realizar tudo o que fosse necessário. Mas porque o homem, ao desertar de Deus, se abaixara às coisas corpóreas, foi necessário que Deus tomasse carne e, pelas coisas corpóreas, lhe ministrasse o remédio da salvação. Por isso, sobre Jo 1,14: «E o Verbo se fez carne», diz Santo Agostinho (Tratado ii): «A carne te cegara, a carne te cura; porque Cristo veio e derribou os vícios da carne.» **Resposta à objeção 2:** A infinitude do poder divino mostra-se no modo de produção das coisas a partir do nada. Além disso, basta para a perfeição do universo que a criatura seja ordenada de modo natural a Deus como a um fim. Mas que uma criatura se una a Deus em pessoa excede os limites da perfeição da natureza. **Resposta à objeção 3:** Pode notar-se na natureza humana uma dupla capacidade: uma, quanto à ordem do poder natural, e esta é sempre cumprida por Deus, que distribui a cada um segundo a sua capacidade natural; a outra, quanto à ordem do poder divino, a qual todas as criaturas implicitamente obedecem; e a capacidade de que falamos pertence a esta. Mas Deus não cumpre todas estas capacidades; de outro modo, Deus só poderia fazer o que fez nas criaturas, o que é falso, como se disse acima (FP, Q[105], A[6]). Mas não há razão para que a natureza humana não fosse elevada a algo maior depois do pecado. Pois Deus permite que os males aconteçam para daí tirar um bem maior; por isso está escrito (Rm 5,20): «Onde abundou o pecado, superabundou a graça.» Donde, também na bênção do círio pascal dizemos: «Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor!» **Resposta à objeção 4:** A predestinação pressupõe a presciência das coisas futuras; e assim como Deus predestina a salvação de alguém para ser realizada pelas orações de outros, assim também predestinou a obra da Encarnação para ser o remédio do pecado humano. **Resposta à objeção 5:** Nada impede que um efeito seja revelado a alguém a quem a causa não é revelada. Donde, o mistério da Encarnação pôde ser revelado ao primeiro homem sem que ele tivesse presciência da sua queda. Pois nem todo aquele que conhece o efeito conhece a causa.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether, if man had not sinned, God would have become incarnate? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a predestinação coloca algo nos predestinados. Pois toda ação por si mesma causa paixão. Se, portanto, a predestinação é ação em Deus, a predestinação deve ser paixão nos predestinados. Objeção 2: Ademais, Orígenes diz sobre o texto: “Aquele que foi predestinado”, etc. (Rm 1,4): “A predestinação é de quem não é; a destinação, de quem é.” E Agostinho diz (De Praed. Sanct.): “Que é a predestinação senão a destinação de quem é?” Logo, a predestinação é somente de quem existe atualmente; e assim coloca algo nos predestinados. Objeção 3: Ademais, a preparação é algo na coisa preparada. Ora, a predestinação é a preparação dos benefícios de Deus, como diz Agostinho (De Praed. Sanct. ii, 14). Portanto, a predestinação é algo nos predestinados. Objeção 4: Ademais, nada temporal entra na definição de eternidade. Mas a graça, que é algo temporal, encontra-se na definição de predestinação. Pois a predestinação é a preparação da graça no presente; e da glória no futuro. Logo, a predestinação não é algo eterno. Assim, é necessário que esteja nos predestinados, e não em Deus; porque tudo o que está n’Ele é eterno. Ao contrário, Agostinho diz (De Praed. Sanct. ii, 14) que “a predestinação é a presciência dos benefícios de Deus”. Ora, a presciência não está nas coisas prescindidas, mas na pessoa que as prescinde. Portanto, a predestinação está naquele que predestina, e não nos predestinados. Respondo que a predestinação não é algo nos predestinados, mas somente na pessoa que predestina. Dissemos acima que a predestinação é parte da providência. Ora, a providência não é algo nas coisas providas, mas é um tipo na mente do provedor, como foi provado acima (Q. 22, A. 1). Mas a execução da providência, que se chama governo, está de modo passivo na coisa governada, e de modo ativo no governador. Donde é claro que a predestinação é uma espécie de tipo da ordenação de algumas pessoas para a salvação eterna, existente na mente divina. A execução, porém, desta ordem está de modo passivo nos predestinados, mas ativamente em Deus. A execução da predestinação é a vocação e a magnificação; segundo o Apóstolo (Rm 8,30): “Aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também magnificou” [Vulg. “justificou”]. Resposta à Objeção 1: As ações que passam para a matéria externa implicam por si mesmas paixão — por exemplo, as ações de aquecer e cortar; mas não assim as ações que permanecem no agente, como entender e querer, como foi dito acima (Q. 14, A. 2; Q. 18, A. 3, ad 1). A predestinação é uma ação desta última classe. Portanto, não coloca nada nos predestinados. Mas a sua execução, que passa para as coisas externas, tem efeito nelas. Resposta à Objeção 2: Destinação às vezes denota uma missão real de alguém para um dado fim; assim, destinação só pode ser dita de alguém que existe atualmente. É tomada, porém, noutro sentido como uma missão que uma pessoa concebe na mente; e deste modo dizemos que destinamos uma coisa que firmemente propomos em nossa mente. Desta última maneira, diz-se que Eleazar “determinou não fazer coisas ilícitas por amor à vida” (2 Mac 6,20). Assim, a destinação pode ser de uma coisa que não existe. A predestinação, porém, por causa da natureza antecedente que implica, pode ser atribuída a uma coisa que não existe atualmente; de qualquer modo que se aceite a destinação. Resposta à Objeção 3: A preparação é dupla: do paciente em relação à paixão, e esta está na coisa preparada; e do agente para a ação, e esta está no agente. Tal preparação é a predestinação, e assim como um agente pelo intelecto se diz preparar-se para agir, segundo o qual ele preconcebe a ideia do que deve ser feito. Assim, Deus desde toda a eternidade preparou pela predestinação, concebendo a ideia da ordem de alguns para a salvação. Resposta à Objeção 4: A graça não entra na definição de predestinação como algo pertencente à sua essência, mas na medida em que a predestinação implica uma relação com a graça, como de causa a efeito, e de ato ao seu objeto. Donde não se segue que a predestinação seja algo temporal.

Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether predestination places anything in the predestined? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Se convém que Cristo seja predestinado. Objeção 1: Parece que não convém que Cristo seja predestinado. Pois o termo da predestinação de alguém parece ser a adoção de filhos, segundo Efésios 1,5: «O qual nos predestinou para a adoção de filhos». Ora, não convém a Cristo ser Filho adotivo, como se disse acima (Q. 23, a. 4). Logo, não convém que Cristo seja predestinado. Objeção 2: Além disso, em Cristo podemos considerar duas coisas: a sua natureza humana e a sua pessoa. Ora, não se pode dizer que Cristo seja predestinado por razão da sua natureza humana, pois esta proposição é falsa: «A natureza humana é o Filho de Deus». Do mesmo modo, nem por razão da pessoa, porque esta pessoa é o Filho de Deus, não por graça, mas por natureza, ao passo que a predestinação diz respeito ao que é da graça, como se afirmou na Primeira Parte (Q. 23, aa. 2,5). Logo, Cristo não foi predestinado a ser o Filho de Deus. Objeção 3: Ademais, assim como aquilo que foi feito nem sempre existiu, também o que foi predestinado; porque a predestinação implica uma certa antecedência. Ora, como Cristo sempre foi Deus e o Filho de Deus, não se pode dizer que esse Homem «foi feito o Filho de Deus». Logo, por igual razão, não devemos dizer que Cristo «foi predestinado o Filho de Deus». Em sentido contrário, o Apóstolo, falando de Cristo (Romanos 1,4): «O qual foi predestinado Filho de Deus em poder». Respondo: Como está claro pelo que foi dito na Primeira Parte (Q. 23, aa. 1,2), a predestinação, em sentido próprio, é uma certa preordenação divina desde a eternidade daquelas coisas que devem ser feitas no tempo pela graça de Deus. Ora, que o homem é Deus e que Deus é homem é algo feito no tempo por Deus mediante a graça da união. Nem se pode dizer que Deus não preordenou desde a eternidade fazer isto no tempo, pois daí seguir-se-ia que algo viria de novo à Mente Divina. E é necessário admitir que a própria união das naturezas na Pessoa de Cristo cai sob a eterna predestinação de Deus. Por esta razão dizemos que Cristo foi predestinado. Resposta à primeira objeção: O Apóstolo aí fala da predestinação pela qual somos predestinados a ser filhos adotivos. E assim como Cristo de modo singular, acima de todos os outros, é o Filho natural de Deus, assim de modo singular é predestinado. Resposta à segunda objeção: Como diz uma glosa [de Santo Agostinho, De Praedest. Sanct. xv] sobre Romanos 1,4, alguns entenderam que a predestinação se refere à natureza e não à Pessoa, isto é, que à natureza humana foi outorgada a graça de ser unida ao Filho de Deus em unidade de Pessoa. Mas, nesse caso, a expressão do Apóstolo seria imprópria, por duas razões. Primeiro, por uma razão geral: pois não dizemos que a natureza de uma pessoa é predestinada, mas sim a sua pessoa, porque ser predestinado é ser ordenado para a salvação, o que pertence a um suposto que opera para o fim da bem-aventurança. Segundo, por uma razão especial: porque ser Filho de Deus não convém à natureza humana, pois é falsa esta proposição: «A natureza humana é o Filho de Deus»; a menos que alguém force uma exposição como esta: «O qual foi predestinado Filho de Deus em poder» — isto é, «foi predestinado que a natureza humana fosse unida ao Filho de Deus na Pessoa». Portanto, devemos atribuir a predestinação à Pessoa de Cristo, não, na verdade, em si mesma ou enquanto subsiste na natureza divina, mas enquanto subsiste na natureza humana. Por isso o Apóstolo, depois de dizer: «O qual lhe foi feito da descendência de Davi segundo a carne», acrescentou: «O qual foi predestinado Filho de Deus em poder», para nos dar a entender que, em relação a ser da descendência de Davi segundo a carne, foi predestinado Filho de Deus em poder. Pois, embora seja natural àquela Pessoa, considerada em si mesma, ser o Filho de Deus em poder, todavia isto não lhe é natural enquanto considerada na natureza humana, com respeito à qual lhe convém segundo a graça da união. Resposta à terceira objeção: Orígenes, comentando Romanos 1,4, diz que a verdadeira leitura desta passagem do Apóstolo é: «O qual foi destinado a ser o Filho de Deus em poder», de modo que não se implica nenhuma antecedência. E assim não haveria dificuldade. Outros referem a antecedência implicada no particípio «predestinado» não ao fato de ser o Filho de Deus, mas à sua manifestação, segundo o modo costumeiro de falar na Sagrada Escritura, pelo qual as coisas se dizem acontecer quando são conhecidas. Assim, o sentido seria: «Cristo foi predestinado a ser manifestado como Filho de Deus». Mas esta é uma significação imprópria de predestinação. Pois uma pessoa é propriamente dita predestinada por ser ordenada ao fim da bem-aventurança; ora, a bem-aventurança de Cristo não depende do nosso conhecimento dela. É, portanto, melhor dizer que a antecedência implicada no particípio «predestinado» deve ser referida à Pessoa não em si mesma, mas por razão da natureza humana: pois, embora essa Pessoa fosse o Filho de Deus desde a eternidade, nem sempre foi verdade que alguém subsistindo na natureza humana fosse o Filho de Deus. Por isso Agostinho diz (De Praedest. Sanct. xv): «Jesus foi predestinado, de modo que Aquele que segundo a carne havia de ser filho de Davi, fosse contudo Filho de Deus em poder.» Além disso, deve-se observar que, embora o particípio «predestinado», assim como o particípio «feito», implique antecedência, contudo há uma diferença. Pois «ser feito» pertence à coisa em si mesma, ao passo que «ser predestinado» pertence a alguém enquanto está na apreensão de quem preordena. Ora, aquilo que é sujeito de uma forma ou natureza na realidade pode ser apreendido ou sob essa forma ou absolutamente. E como não se pode dizer absolutamente da Pessoa de Cristo que Ele começou a ser o Filho de Deus, contudo isto lhe convém enquanto entendida ou apreendida como existindo na natureza humana, porque num tempo começou a ser verdade que alguém existente na natureza humana era o Filho de Deus. Portanto, esta proposição: «Cristo foi predestinado o Filho de Deus» é mais verdadeira do que esta: «Cristo foi feito o Filho de Deus».

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether it is befitting that Christ should be predestinated? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que a predestinação de Cristo não é o exemplar da nossa. Pois o exemplar existe antes do exemplado. Mas nada existe antes do eterno. Visto que, portanto, a nossa predestinação é eterna, parece que a predestinação de Cristo não é o exemplar da nossa. Objeção 2: Além disso, o exemplar nos conduz ao conhecimento do exemplado. Mas Deus não tinha necessidade de ser conduzido por outra coisa ao conhecimento da nossa predestinação; pois está escrito (Rm 8,29): “Aos que Ele conheceu de antemão, também predestinou.” Portanto, a predestinação de Cristo não é o exemplar da nossa. Objeção 3: Além disso, o exemplar é conforme ao exemplado. Mas a predestinação de Cristo parece ser de natureza diferente da nossa: pois nós somos predestinados para a filiação de adoção, ao passo que Cristo foi predestinado “Filho de Deus em poder”, como está escrito (Rm 1,4). Portanto, a Sua predestinação não é o exemplar da nossa. Em contrário, Agostinho diz (De Praedest. Sanct. xv): “O próprio Salvador, o Mediador de Deus e dos homens, o Homem Cristo Jesus é a luz esplendidíssima da predestinação e da graça.” Ora, Ele é chamado luz da predestinação e da graça, na medida em que a nossa predestinação se manifesta pela Sua predestinação e graça; e isto parece pertencer à natureza de um exemplar. Portanto, a predestinação de Cristo é o exemplar da nossa. Respondo que a predestinação pode ser considerada de dois modos. Primeiro, por parte do ato de predestinação: e assim a predestinação de Cristo não pode ser dita o exemplar da nossa: pois pelo mesmo modo e pelo mesmo ato eterno Deus predestinou a nós e a Cristo. Segundo, a predestinação pode ser considerada por parte daquilo para o qual alguém é predestinado, e este é o termo e efeito da predestinação. Neste sentido, a predestinação de Cristo é o exemplar da nossa, e isto de dois modos. Primeiro, quanto ao bem ao qual somos predestinados: pois Ele foi predestinado a ser o Filho natural de Deus, enquanto nós somos predestinados para a adoção de filhos, que é uma semelhança participada da filiação natural. Donde está escrito (Rm 8,29): “Aos que Ele conheceu de antemão, também predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho.” Segundo, quanto ao modo de obter este bem – isto é, pela graça. Isto é manifestíssimo em Cristo; porque a natureza humana n’Ele, sem quaisquer méritos antecedentes, foi unida ao Filho de Deus; e da plenitude da Sua graça todos nós recebemos, como está escrito (Jo 1,16). Resposta à objeção 1: Este argumento considera o referido ato do predestinador. O mesmo se diga da segunda objeção. Resposta à objeção 3: O exemplado não precisa ser conforme ao exemplar em todos os aspectos: basta que o imite em algum.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether Christ's predestination is the exemplar of ours? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que, pela sua santificação no seio materno, a Bem-Aventurada Virgem não recebeu a plenitude ou perfeição da graça. Pois isto parece ser privilégio de Cristo, segundo Jo 1,14: «Vimos a Sua glória, como do Unigênito, cheio de graça e de verdade». Ora, o que é próprio de Cristo não deve ser atribuído a outrem. Logo, a Bem-Aventurada Virgem não recebeu a plenitude da graça no tempo da sua santificação. **Objeção 2:** Ademais, nada resta a acrescentar àquilo que é pleno e perfeito; pois «o perfeito é o que a nada é deficiente», como se diz no livro III da Física. Mas a Bem-Aventurada Virgem recebeu graça adicional depois, quando concebeu a Cristo; pois a Ela foi dito (Lc 1,35): «O Espírito Santo virá sobre ti»; e também quando foi assumida na glória. Logo, parece que não recebeu a plenitude da graça no tempo da sua primeira santificação. **Objeção 3:** Ademais, «Deus nada faz inutilmente», como se diz no livro I do Céu e do Mundo. Ora, teria sido inútil que Ela possuísse certas graças, pois nunca as teria posto em uso; visto que não lemos que Ela ensinasse – o que é ato de sabedoria – ou que operasse milagres – o que é ato de uma das graças gratuitas. Logo, não teve a plenitude da graça. **Em contrário,** O anjo disse-lhe: «Ave, cheia de graça» (Lc 1,28); palavras que Jerônimo assim expõe, num sermão sobre a Assunção (cf. Ep. a Paula e Eustóquio): «Cheia, na verdade, de graça: porque a outros é dada por porções; enquanto sobre Maria a plenitude da graça foi derramada toda de uma vez.» **Respondo que,** Em todo gênero, quanto mais próximo uma coisa está do princípio, tanto maior parte ela tem no efeito desse princípio; donde Dionísio diz (Hier. Cel. IV) que os anjos, por estarem mais próximos de Deus, têm maior parte do que os homens nos efeitos da bondade divina. Ora, Cristo é o princípio da graça, por autoridade quanto à Sua Divindade, por instrumento quanto à Sua humanidade; donde está escrito (Jo 1,17): «A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo». Mas a Bem-Aventurada Virgem Maria foi a mais próxima de Cristo na Sua humanidade; porque Dele recebeu a natureza humana. Portanto, era devido a Ela receber maior plenitude de graça do que os outros. **Resposta à objeção 1:** Deus dá a cada um segundo o fim para o qual o escolheu. E, como Cristo, enquanto homem, foi predestinado e escolhido para ser «predestinado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação» (Rm 1,4), foi próprio Dele ter tal plenitude de graça que dela transbordasse para todos, conforme Jo 1,16: «Todos recebemos da Sua plenitude». Ao passo que a Bem-Aventurada Virgem Maria recebeu tal plenitude de graça que foi de todos a mais próxima do Autor da graça; de modo que recebeu dentro de Si Aquele que é cheio de toda a graça; e, dando-O à luz, por assim dizer, dispensou a graça a todos. **Resposta à objeção 2:** Nas coisas naturais, primeiro há a perfeição da disposição, por exemplo, quando a matéria é perfeitamente disposta para a forma. Segundo, há a perfeição da forma; e esta é mais excelente, pois o calor que procede da forma do fogo é mais perfeito do que aquele que dispunha para a forma do fogo. Terceiro, há a perfeição do fim; por exemplo, quando o fogo tem as suas qualidades no grau mais perfeito, tendo subido ao seu próprio lugar. De modo semelhante, houve na Bem-Aventurada Virgem uma tríplice perfeição de graça. A primeira foi como que uma disposição, pela qual Ela se tornou digna de ser a Mãe de Cristo: e esta foi a perfeição da sua santificação. A segunda perfeição de graça na Bem-Aventurada Virgem foi pela presença do Filho de Deus Encarnado no seu ventre. A terceira perfeição do fim é a que Ela tem na glória. Que a segunda perfeição excede a primeira, e a terceira a segunda, aparece (1) do ponto de vista da libertação do mal. Pois primeiro, na sua santificação, Ela foi liberta do pecado original; depois, na conceição do Filho de Deus, foi totalmente purificada do *fomes*; finalmente, na sua glorificação, foi também liberta de toda aflição qualquer. Aparece (2) do ponto de vista da ordenação para o bem. Pois primeiro, na sua santificação, recebeu a graça inclinando-a para o bem; na conceição do Filho de Deus, recebeu a graça consumada confirmando-a no bem; e na sua glorificação, a sua graça foi ainda mais consumada, de modo a aperfeiçoá-la no gozo de todo o bem. **Resposta à objeção 3:** Não há dúvida de que a Bem-Aventurada Virgem recebeu em alto grau tanto o dom da sabedoria como a graça dos milagres e até mesmo da profecia, assim como Cristo os teve. Mas não os recebeu de modo a usar de todos eles e de tais graças em toda ocasião, como fez Cristo; mas segundo convinha à sua condição de vida. Pois Ela teve o uso da sabedoria na contemplação, conforme Lc 2,19: «Maria, porém, conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração». Mas não teve o uso da sabedoria quanto ao ensinar, pois isso não convinha ao sexo feminino, segundo 1 Tm 2,12: «Não permito, porém, que a mulher ensine». O uso dos milagres não lhe convinha enquanto vivia; porque naquele tempo o ensino de Cristo devia ser confirmado por milagres, e portanto era conveniente que só Cristo, e os seus discípulos, que eram os portadores da sua doutrina, operassem milagres. Daí que de João Batista está escrito (Jo 10,41) que «não fez nenhum sinal»; isto é, para que todos fixassem a atenção em Cristo. Quanto ao uso da profecia, é claro que Ela o teve, pelo cântico pronunciado por Ela: «A minha alma engrandece ao Senhor» (Lc 1,46 e seguintes).

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether, by her sanctification in the womb, the Blessed Virgin received the fulness of grace? · séc. XIII

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Rm 1, 4 nos Padres da Igreja | Aurea