Santo Thomas Aquinas
**Tradução do texto para o português brasileiro (pt-BR):** **Objeção 1:** Parece que o homem não é obrigado a crer em algo explicitamente. Pois ninguém é obrigado a fazer o que não está em seu poder. Ora, não está no poder do homem crer em algo explicitamente, porque está escrito (Rm 10,14-15): «Como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão sem pregador? E como pregarão se não forem enviados?» Logo, o homem não é obrigado a crer em algo explicitamente. **Objeção 2:** Ademais, assim como pela fé somos dirigidos a Deus, assim também o somos pela caridade. Ora, o homem não é obrigado a guardar os preceitos da caridade, bastando que esteja pronto para cumpri-los, como se evidencia pelo preceito de Nosso Senhor (Mt 5,39): «Se alguém te ferir numa face, oferece-lhe também a outra», e outros semelhantes, segundo a exposição de Agostinho (Sobre o Sermão do Senhor no Monte, XIX). Portanto, também o homem não é obrigado a crer em algo explicitamente, bastando que esteja pronto para crer em tudo o que Deus propuser para ser crido. **Objeção 3:** Além disso, o bem da fé consiste na obediência, segundo Rm 1,5: «Para a obediência da fé entre todas as nações.» Ora, a virtude da obediência não exige que o homem guarde certos preceitos fixos, mas basta que seu ânimo esteja pronto para obedecer, conforme Sl 118,60: «Estou pronto e não estou perturbado; para guardar os teus mandamentos.» Logo, parece que também para a fé basta que o homem esteja pronto para crer em tudo o que Deus possa propor, sem crer em nada explicitamente. **Em contrário,** está escrito (Hb 11,6): «Aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe e é recompensador dos que o buscam.» **Respondo:** Os preceitos da Lei, que o homem é obrigado a cumprir, dizem respeito aos atos das virtudes que são meios para alcançar a salvação. Ora, um ato de virtude, como foi dito acima (I-II, Q. 60, A. 5), depende da relação do hábito com seu objeto. Além disso, duas coisas podem ser consideradas no objeto de qualquer virtude: aquilo que é o objeto próprio e direto dessa virtude, e aquilo que é acidental e consequente ao objeto propriamente dito. Assim, pertence própria e diretamente ao objeto da fortaleza enfrentar os perigos da morte e investir contra o inimigo com perigo para si mesmo, em prol do bem comum; mas que, numa guerra justa, um homem esteja armado, ou fira outro com sua espada, e assim por diante, reduz-se ao objeto da fortaleza, mas indiretamente. Portanto, assim como um ato virtuoso é exigido para o cumprimento de um preceito, também é necessário que o ato virtuoso termine em seu objeto próprio e direto; por outro lado, o cumprimento do preceito não exige que um ato virtuoso termine naquelas coisas que têm uma relação acidental ou secundária com o objeto próprio e direto dessa virtude, exceto em certos lugares e em certos tempos. Devemos, portanto, dizer que o objeto direto da fé é aquilo pelo qual o homem se torna um dos bem-aventurados, como foi dito acima (Q. 1, A. 8); enquanto o objeto indireto e secundário compreende todas as coisas que nos são transmitidas por Deus na Sagrada Escritura, por exemplo, que Abraão teve dois filhos, que Davi foi filho de Jessé, e assim por diante. Por conseguinte, quanto aos pontos ou artigos primários da fé, o homem é obrigado a crer neles, assim como é obrigado a ter fé; mas quanto aos outros pontos da fé, o homem não é obrigado a crer neles explicitamente, mas apenas implicitamente, ou a estar pronto para crer neles, na medida em que está preparado para crer em tudo o que está contido nas Divinas Escrituras. Só então é obrigado a crer em tais coisas explicitamente, quando lhe é claro que estão contidas na doutrina da fé. **Resposta à Objeção 1:** Se entendermos que estão no poder do homem apenas aquelas coisas que podemos fazer sem o auxílio da graça, então somos obrigados a fazer muitas coisas que não podemos fazer sem o auxílio da graça curativa, como amar a Deus e ao próximo, e igualmente crer nos artigos da fé. Mas com o auxílio da graça podemos fazer isso, pois esse auxílio «a quem é dado do alto, é dado misericordiosamente; e a quem é negado, é justamente negado, como castigo de um pecado anterior, ou ao menos original», como afirma Agostinho (Sobre a Correção e a Graça, V-VI; cf. Ep. CXC; Sobre a Predestinação dos Santos, VIII). **Resposta à Objeção 2:** O homem é obrigado a amar de modo definido aquelas coisas amáveis que são própria e diretamente os objetos da caridade, a saber, Deus e o próximo. A objeção se refere àqueles preceitos da caridade que pertencem, como consequência, aos objetos da caridade. **Resposta à Objeção 3:** A virtude da obediência reside, propriamente falando, na vontade; por isso, a prontidão da vontade sujeita à autoridade basta para o ato de obediência, porque é o objeto próprio e direto da obediência. Mas este ou aquele preceito é acidental ou consequente a esse objeto próprio e direto.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether man is bound to believe anything explicitly? · séc. XIII
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