Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que o objecto da fé é algo visto. Pois Nosso Senhor disse a Tomé (Jo. 20,29): «Porque me viste, Tomé, creste.» Logo, a visão e a fé têm o mesmo objecto. Objecção 2: Além disso, o Apóstolo, falando do conhecimento da fé, diz (1 Cor. 13,12): «Vemos agora por espelho em enigma.» Logo, o que se crê é visto. Objecção 3: Além disso, a fé é uma luz espiritual. Ora, sob toda luz algo se vê. Logo, a fé é de coisas vistas. Objecção 4: Além disso, «Todo sentido é uma espécie de visão», como diz Agostinho (De Verb. Domini, Serm. xxxiii). Ora, a fé é de coisas ouvidas, segundo Rom. 10,17: «A fé... vem pelo ouvir.» Logo, a fé é de coisas vistas. Em contrário, o Apóstolo diz (Heb. 11,1) que «a fé é o argumento das coisas que não aparecem.» Respondo que a fé implica o assentimento do intelecto àquilo que se crê. Ora, o intelecto assente a algo de dois modos. Primeiro, sendo movido a assentir pelo seu próprio objecto, que é conhecido ou por si mesmo (como no caso dos primeiros princípios, que são tidos pelo hábito do entendimento), ou por meio de algo já conhecido (como no caso das conclusões, que são tidas pelo hábito da ciência). Segundo, o intelecto assente a algo, não sendo suficientemente movido a este assentimento pelo seu objecto próprio, mas por um acto de escolha, pelo qual se volta voluntariamente para uma parte em vez da outra: e se isto for acompanhado de dúvida ou receio da parte contrária, haverá opinião; ao passo que, se houver certeza e nenhum receio da outra parte, haverá fé. Ora, dizem-se vistas aquelas coisas que, por si mesmas, movem o intelecto ou os sentidos ao conhecimento delas. Por onde é evidente que nem a fé nem a opinião podem ser de coisas vistas, quer pelos sentidos, quer pelo intelecto. Resposta à primeira objecção: Tomé «viu uma coisa, e creu outra» [*São Gregório: Hom. xxvi in Evang.]: viu o Homem, e crendo que Ele era Deus, fez profissão da sua fé, dizendo: «Senhor meu e Deus meu.» Resposta à segunda objecção: As coisas que caem sob a fé podem considerar-se de dois modos. Primeiro, em particular; e assim não podem ser vistas e cridas ao mesmo tempo, como se mostrou acima. Segundo, em geral, isto é, sob a razão comum de credibilidade; e deste modo são vistas pelo crente. Pois ele não creria a menos que, pela evidência dos sinais ou de algo semelhante, visse que deviam ser cridas. Resposta à terceira objecção: A luz da fé faz-nos ver o que cremos. Pois assim como, pelos hábitos das outras virtudes, o homem vê o que lhe convém segundo esse hábito, assim, pelo hábito da fé, a mente humana é dirigida a assentir àquelas coisas que convêm a uma fé recta, e não a assentir a outras. Resposta à quarta objecção: O ouvido é das palavras que significam o que é de fé, mas não das próprias coisas que se crêem; donde não se segue que essas coisas sejam vistas.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the object of faith can be something seen? · séc. XIII
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