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Rm 10, 17

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Matos Soares

17Logo a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que o objecto da fé é algo visto. Pois Nosso Senhor disse a Tomé (Jo. 20,29): «Porque me viste, Tomé, creste.» Logo, a visão e a fé têm o mesmo objecto. Objecção 2: Além disso, o Apóstolo, falando do conhecimento da fé, diz (1 Cor. 13,12): «Vemos agora por espelho em enigma.» Logo, o que se crê é visto. Objecção 3: Além disso, a fé é uma luz espiritual. Ora, sob toda luz algo se vê. Logo, a fé é de coisas vistas. Objecção 4: Além disso, «Todo sentido é uma espécie de visão», como diz Agostinho (De Verb. Domini, Serm. xxxiii). Ora, a fé é de coisas ouvidas, segundo Rom. 10,17: «A fé... vem pelo ouvir.» Logo, a fé é de coisas vistas. Em contrário, o Apóstolo diz (Heb. 11,1) que «a fé é o argumento das coisas que não aparecem.» Respondo que a fé implica o assentimento do intelecto àquilo que se crê. Ora, o intelecto assente a algo de dois modos. Primeiro, sendo movido a assentir pelo seu próprio objecto, que é conhecido ou por si mesmo (como no caso dos primeiros princípios, que são tidos pelo hábito do entendimento), ou por meio de algo já conhecido (como no caso das conclusões, que são tidas pelo hábito da ciência). Segundo, o intelecto assente a algo, não sendo suficientemente movido a este assentimento pelo seu objecto próprio, mas por um acto de escolha, pelo qual se volta voluntariamente para uma parte em vez da outra: e se isto for acompanhado de dúvida ou receio da parte contrária, haverá opinião; ao passo que, se houver certeza e nenhum receio da outra parte, haverá fé. Ora, dizem-se vistas aquelas coisas que, por si mesmas, movem o intelecto ou os sentidos ao conhecimento delas. Por onde é evidente que nem a fé nem a opinião podem ser de coisas vistas, quer pelos sentidos, quer pelo intelecto. Resposta à primeira objecção: Tomé «viu uma coisa, e creu outra» [*São Gregório: Hom. xxvi in Evang.]: viu o Homem, e crendo que Ele era Deus, fez profissão da sua fé, dizendo: «Senhor meu e Deus meu.» Resposta à segunda objecção: As coisas que caem sob a fé podem considerar-se de dois modos. Primeiro, em particular; e assim não podem ser vistas e cridas ao mesmo tempo, como se mostrou acima. Segundo, em geral, isto é, sob a razão comum de credibilidade; e deste modo são vistas pelo crente. Pois ele não creria a menos que, pela evidência dos sinais ou de algo semelhante, visse que deviam ser cridas. Resposta à terceira objecção: A luz da fé faz-nos ver o que cremos. Pois assim como, pelos hábitos das outras virtudes, o homem vê o que lhe convém segundo esse hábito, assim, pelo hábito da fé, a mente humana é dirigida a assentir àquelas coisas que convêm a uma fé recta, e não a assentir a outras. Resposta à quarta objecção: O ouvido é das palavras que significam o que é de fé, mas não das próprias coisas que se crêem; donde não se segue que essas coisas sejam vistas.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the object of faith can be something seen? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a fé não é mais certa do que a ciência e as outras virtudes intelectuais. Pois a dúvida se opõe à certeza, e por isso uma coisa parece ser tanto mais certa quanto menos duvidosa, assim como uma coisa é tanto mais branca quanto menos tem de mistura de preto. Ora, o entendimento, a ciência e também a sabedoria estão isentos de qualquer dúvida acerca de seus objetos; ao passo que o crente pode, às vezes, sofrer um movimento de dúvida, e duvidar das matérias da fé. Logo, a fé não é mais certa do que as virtudes intelectuais. Objeção 2: Além disso, a vista é mais certa do que a audição. Mas "a fé vem pela audição", segundo Rom. 10,17; enquanto o entendimento, a ciência e a sabedoria implicam uma certa visão intelectual. Logo, a ciência e o entendimento são mais certos do que a fé. Objeção 3: Além disso, nas coisas que dizem respeito ao intelecto, o mais perfeito é o mais certo. Ora, o entendimento é mais perfeito do que a fé, pois a fé é o caminho para o entendimento, segundo outra versão [*A Septuaginta] de Is. 7,9: "Se não crerdes, não entendereis [Vulg.: 'permanecereis']": e Agostinho diz (De Trin. xiv, 1) que "a fé é fortalecida pela ciência". Portanto, parece que a ciência ou o entendimento é mais certo do que a fé. Em contrário, o Apóstolo diz (1 Tess. 2,15): "Tendo recebido de nós a palavra da audição", i.e., pela fé… "a recebestes não como palavra de homens, mas, como é na verdade, palavra de Deus". Ora, nada é mais certo do que a palavra de Deus. Logo, a ciência não é mais certa do que a fé; nem qualquer outra coisa. Respondo que, como foi dito acima (FS, Q[57], A[4], ad 2), duas das virtudes intelectuais versam sobre matéria contingente, a saber, a prudência e a arte; às quais a fé é preferível em ponto de certeza, em razão de sua matéria, pois é sobre coisas eternas, que nunca mudam, enquanto as outras três virtudes intelectuais, a saber, a sabedoria, a ciência [*Em inglês, o dom correspondente é chamado knowledge] e o entendimento, versam sobre coisas necessárias, como foi dito acima (FS, Q[57], A[5], ad 3). Mas é preciso observar que a sabedoria, a ciência e o entendimento podem ser tomados de dois modos: primeiro, como virtudes intelectuais, segundo o Filósofo (Ética VI, 2-3); segundo, como dons do Espírito Santo. Se os considerarmos do primeiro modo, devemos notar que a certeza pode ser considerada de dois modos. Primeiro, pelo lado da causa, e assim uma coisa que tem uma causa mais certa é ela mesma mais certa. Deste modo, a fé é mais certa do que essas três virtudes, porque está fundada na verdade divina, enquanto as três virtudes mencionadas se baseiam na razão humana. Segundo, a certeza pode ser considerada pelo lado do sujeito, e assim, quanto mais o intelecto de um homem se apodera de uma coisa, mais certa ela é. Deste modo, a fé é menos certa, porque as matérias da fé estão acima do intelecto humano, enquanto os objetos das três virtudes mencionadas não o estão. Contudo, como uma coisa é julgada absolutamente em relação à sua causa, mas relativamente, em respeito a uma disposição do sujeito, segue-se que a fé é mais certa absolutamente, enquanto as outras são mais certas relativamente, isto é, para nós. Da mesma forma, se essas três forem tomadas como dons recebidos nesta vida presente, estão relacionadas com a fé como seu princípio, que pressupõem: de modo que, também assim, a fé é mais certa. Resposta à primeira objeção: Essa dúvida não está do lado da causa da fé, mas do nosso lado, na medida em que não apreendemos plenamente as matérias da fé com o nosso intelecto. Resposta à segunda objeção: Em igualdade de condições, a vista é mais certa do que a audição; mas se (a autoridade de) a pessoa de quem ouvimos supera grandemente a da vista do vidente, a audição é mais certa do que a vista: assim, um homem de pouca ciência está mais certo daquilo que ouve pela autoridade de um perito em ciência, do que daquilo que lhe é aparente segundo a sua própria razão; e muito mais está um homem certo daquilo que ouve de Deus, que não pode ser enganado, do que daquilo que vê com a sua própria razão, que pode errar. Resposta à terceira objeção: Os dons do entendimento e da ciência são mais perfeitos do que o conhecimento da fé no ponto de sua maior clareza, mas não no que diz respeito à adesão mais certa: porque toda a certeza dos dons do entendimento e da ciência provém da certeza da fé, assim como a certeza do conhecimento das conclusões provém da certeza das premissas. Mas, na medida em que a ciência, a sabedoria e o entendimento são virtudes intelectuais, baseiam-se na luz natural da razão, que fica aquém da certeza da palavra de Deus, na qual a fé se funda.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 8 - Whether faith is more certain than science and the other intellectual virtues? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que não houve fé, nem nos anjos, nem no homem, no seu estado original. Porquanto Hugo de São Vítor diz nas suas *Sentenças* (De Sacram. i, 10) que «o homem não pode ver a Deus nem as coisas que estão em Deus, porque fecha os olhos à contemplação». Ora, os anjos, no seu estado original, antes de serem confirmados na graça ou dela terem caído, tinham os olhos abertos à contemplação, pois «viam as coisas no Verbo», segundo Agostinho (Gen. ad lit. ii, 8). Do mesmo modo, o primeiro homem, enquanto no estado de inocência, ao que parece, tinha os olhos abertos à contemplação; pois Hugo de São Vítor diz (De Sacram. i, 6) que «no seu estado original o homem conhecia o seu Criador, não pela mera percepção exterior da audição, mas por inspiração interior, não como agora os crentes buscam pela fé um Deus ausente, mas vendo-O claramente presente à sua contemplação». Portanto, não houve fé nos anjos e no homem no seu estado original. **Objeção 2:** Ademais, o conhecimento da fé é tenebroso e obscuro, segundo 1 Cor 13,12: «Vemos agora por espelho em enigma». Ora, no estado original não havia obscuridade nem nos anjos nem no homem, porque é um castigo do pecado. Logo, não podia haver fé nos anjos nem no homem no seu estado original. **Objeção 3:** Ademais, o Apóstolo diz (Rm 10,17) que «a fé vem pelo ouvir». Ora, isso não se podia aplicar aos anjos e ao homem no seu estado original; pois então não podiam ouvir nada de outrem. Portanto, naquele estado, não houve fé nem no homem nem nos anjos. **Pelo contrário,** está escrito (Hb 11,6): «O que se chega a Deus, deve crer». Ora, o estado original dos anjos e do homem era de aproximação a Deus. Logo, eles necessitavam da fé. **Respondo:** Alguns dizem que não houve fé nos anjos antes de serem confirmados na graça ou dela caírem, e no homem antes de pecar, por causa da manifesta contemplação que tinham das coisas divinas. Contudo, sendo «a fé a prova das coisas que não aparecem», segundo o Apóstolo (Hb 11,2), e «pela fé cremos no que não vemos», segundo Agostinho (Trat. 40 sobre João; Quest. sobre os Evangelhos, II, q. 39), só aquela manifestação exclui a fé que torna manifesto ou visto o principal objeto da fé. Ora, o principal objeto da fé é a Primeira Verdade, cuja vista dá a bem-aventurança do céu e ocupa o lugar da fé. Por conseguinte, como os anjos antes da sua confirmação na graça, e o homem antes do pecado, não possuíam a bem-aventurança pela qual Deus é visto na sua Essência, é evidente que o conhecimento que possuíam não era tal que excluísse a fé. Segue-se, pois, que a ausência de fé neles só se poderia explicar por serem totalmente ignorantes do objeto da fé. E se o homem e os anjos foram criados num estado puramente natural, como alguns [*São Boaventura, Sent. ii, D, 29] sustentam, talvez se pudesse defender que não houve fé nos anjos antes da sua confirmação na graça, nem no homem antes do pecado, porque o conhecimento da fé supera não só o conhecimento natural do homem, mas até mesmo o do anjo acerca de Deus. Visto, porém, que na Primeira Parte (Q. 62, a. 3; Q. 95, a. 1) afirmamos que o homem e os anjos foram criados com o dom da graça, devemos necessariamente dizer que houve neles um certo início da bem-aventurança esperada, em virtude da graça recebida, mas ainda não consumada, a qual bem-aventurança se iniciava na vontade pela esperança e caridade, e no intelecto pela fé, como acima se disse (Q. 4, a. 7). Por conseguinte, devemos sustentar que os anjos tiveram fé antes de serem confirmados, e o homem, antes de pecar. Não obstante, devemos observar que no objeto da fé há algo de formal, por assim dizer, a saber, a Primeira Verdade, que supera todo o conhecimento natural da criatura, e algo de material, a saber, a coisa à qual assentimos aderindo à Primeira Verdade. Quanto ao primeiro, antes de se obter a bem-aventurança futura, a fé é comum a todos os que têm conhecimento de Deus, aderindo à Primeira Verdade; enquanto que, quanto às coisas que se propõem como objeto material da fé, umas são cridas por um, e conhecidas manifestamente por outro, mesmo no estado presente, como mostramos acima (Q. 1, a. 5; Q. 2, a. 4, ad 2). Neste aspecto, também se pode dizer que os anjos antes de serem confirmados, e o homem antes do pecado, possuíam conhecimento manifesto acerca de certos pontos dos mistérios divinos, os quais agora não podemos conhecer senão crendo neles. **Resposta à Objeção 1:** Embora as palavras de Hugo de São Vítor sejam de um mestre e tenham força de autoridade, pode-se dizer que a contemplação que remove a necessidade da fé é a contemplação celestial, pela qual a verdade sobrenatural é vista na sua essência. Ora, os anjos não possuíam esta contemplação antes de serem confirmados, nem o homem antes de pecar; contudo, a sua contemplação era de ordem mais elevada do que a nossa, pois por meio dela se aproximavam mais de Deus, e tinham conhecimento manifesto de mais efeitos e mistérios divinos do que nós podemos ter. Daí que a fé não estivesse neles de modo a buscarem um Deus ausente como nós O buscamos: pois pela luz da sabedoria Ele lhes era mais presente do que a nós, embora não lhes fosse tão presente como o é aos bem-aventurados pela luz da glória. **Resposta à Objeção 2:** Não havia trevas de pecado ou de castigo no estado original do homem e dos anjos, mas havia uma certa obscuridade natural no intelecto humano e angélico, na medida em que toda criatura é trevas em comparação com a imensidade da luz divina; e esta obscuridade basta para a fé. **Resposta à Objeção 3:** No estado original, não se ouvia nada de um homem que falasse exteriormente, mas ouvia-se de Deus que inspirava interiormente; assim ouviam os profetas, conforme está expresso no Sl 84,9: «Eu ouvirei o que diz o Senhor Deus dentro de mim.»

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether there was faith in the angels, or in man, in their original state? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a fé não é infundida no homem por Deus. Com efeito, diz Agostinho (De Trin. xiv) que «a ciência gera em nós a fé, e a nutre, defende e fortalece». Ora, aquelas coisas que a ciência gera em nós parecem ser adquiridas, e não infundidas. Logo, a fé não parece estar em nós por infusão divina. **Objeção 2:** Além disso, aquilo a que o homem chega pelo ouvir e pelo ver parece ser por ele adquirido. Ora, o homem chega a crer tanto vendo milagres como ouvindo os ensinamentos da fé; pois está escrito (Jo 4,53): «Conheceu o pai que era naquela mesma hora em que Jesus lhe disse: O teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa»; e (Rm 10,17) está dito que «a fé é pelo ouvido». Logo, o homem chega à fé por a adquirir. **Objeção 3:** Além disso, aquilo que depende da vontade do homem pode ser por ele adquirido. Ora, «a fé depende da vontade do crente», segundo Agostinho (De Praedest. Sanct. v). Logo, a fé pode ser adquirida pelo homem. **Em contrário,** está escrito (Ef 2,8-9): «Pela graça sois salvos por meio da fé, e isto não vem de vós... para que ninguém se glorie... porque é dom de Deus.» **Respondo que:** Para a fé são necessárias duas coisas. Primeiro, que as coisas que são de fé sejam propostas ao homem: isto é necessário para que o homem acredite em algo explicitamente. A segunda coisa necessária para a fé é o assentimento do crente às coisas que lhe são propostas. Portanto, quanto à primeira destas, a fé deve necessariamente ser de Deus. Porque aquelas coisas que são de fé excedem a razão humana, pelo que não chegam ao conhecimento do homem, a menos que Deus as revele. A alguns, com efeito, são reveladas por Deus imediatamente, como aquelas que foram reveladas aos apóstolos e profetas; a outros, são propostas por Deus enviando pregadores da fé, segundo Rm 10,15: «Como pregarão, se não forem enviados?» Quanto à segunda, a saber, o assentimento do homem às coisas que são de fé, podemos observar uma dupla causa: uma de indução externa, como ver um milagre, ou ser persuadido por alguém a abraçar a fé; nenhuma destas é causa suficiente, pois daqueles que veem o mesmo milagre, ou que ouvem o mesmo sermão, uns creem e outros não. Logo, devemos afirmar outra causa interna, que move interiormente o homem a assentir às coisas da fé. Os pelagianos sustentaram que esta causa não era senão o livre-arbítrio do homem; e consequentemente disseram que o início da fé vem de nós mesmos, isto é, que está em nosso poder estarmos prontos a assentir às coisas que são de fé, mas que a consumação da fé vem de Deus, que nos propõe as coisas que devemos crer. Mas isto é falso, pois, assentindo o homem às coisas da fé, é elevado acima da sua natureza, o que lhe deve advir de algum princípio sobrenatural que o move interiormente; e este é Deus. Portanto, a fé, quanto ao assentimento que é o ato principal da fé, é de Deus que move interiormente o homem pela graça. **Resposta à Objeção 1:** A ciência gera e nutre a fé por meio da persuasão externa que a ciência proporciona; mas a causa principal e própria da fé é aquela que move interiormente o homem a assentir. **Resposta à Objeção 2:** Este argumento também se refere à causa que propõe exteriormente as coisas que são de fé, ou persuade o homem a crer por palavras ou obras. **Resposta à Objeção 3:** Crer depende, de fato, da vontade do crente; mas a vontade do homem precisa ser preparada por Deus com a graça, para que ele seja elevado às coisas que estão acima da sua natureza, como foi dito acima (Q[2], A[3]).

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether faith is infused into man by God? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o dom de entendimento não é distinto dos outros dons. Pois não há distinção entre aquelas coisas cujos contrários não são distintos. Ora, “a sabedoria é contrária à estultícia, o entendimento é contrário ao torpor, o conselho é contrário à temeridade, a ciência é contrária à ignorância”, como diz Gregório (Moral. ii, 49). Mas parece não haver diferença entre estultícia, torpor, ignorância e temeridade. Logo, também o entendimento não difere dos outros dons. Objeção 2: Além disso, a virtude intelectual do entendimento difere das outras virtudes intelectuais por ser próprio dela versar sobre princípios por si mesmos evidentes. Ora, o dom de entendimento não versa sobre princípios por si mesmos evidentes, pois o hábito natural dos primeiros princípios basta para aquelas coisas que são naturalmente evidentes por si mesmas; enquanto a fé basta para aquelas coisas que são sobrenaturais, visto que os artigos de fé são como primeiros princípios no conhecimento sobrenatural, como foi dito acima (Q[1], A[7]). Logo, o dom de entendimento não difere dos outros dons intelectuais. Objeção 3: Além disso, todo conhecimento intelectual ou é especulativo ou prático. Ora, o dom de entendimento se relaciona com ambos, como foi dito acima (A[3]). Logo, não é distinto dos outros dons intelectuais, mas os compreende a todos. Em contrário: Quando várias coisas são enumeradas juntas, devem ser, de algum modo, distintas entre si, porque a distinção é a origem do número. Ora, o dom de entendimento é enumerado juntamente com os outros dons, como aparece em Is. 11,2. Logo, o dom de entendimento é distinto dos outros dons. Respondo: A diferença entre o dom de entendimento e três dos outros, a saber, piedade, fortaleza e temor, é evidente, pois o dom de entendimento pertence à potência cognoscitiva, enquanto os três pertencem à potência apetitiva. Mas a diferença entre este dom de entendimento e os três restantes, a saber, sabedoria, ciência e conselho, que também pertencem à potência cognoscitiva, não é tão evidente. A alguns [*Guilherme de Auxerre, Sum. Aur. III, iii, 8] parece que o dom de entendimento difere dos dons de ciência e conselho, porquanto estes dois pertencem ao conhecimento prático, enquanto o dom de entendimento pertence ao conhecimento especulativo; e que difere do dom de sabedoria, que também pertence ao conhecimento especulativo, porque a sabedoria diz respeito ao juízo, enquanto o entendimento torna a mente apta a apreender as coisas que são propostas e a penetrar até o seu âmago. E neste sentido atribuímos o número dos dons, acima (FS, Q[68], A[4]). Mas se considerarmos a matéria atentamente, o dom de entendimento diz respeito não apenas às coisas especulativas, mas também às práticas, como foi dito acima (A[3]), e, da mesma forma, o dom de ciência diz respeito a ambas as matérias, como mostraremos adiante (Q[9], A[3]); e, consequentemente, devemos tomar sua distinção de outro modo. Pois todos estes quatro dons são ordenados ao conhecimento sobrenatural, que, em nós, tem seu fundamento na fé. Ora, “a fé é pelo ouvido” (Rm. 10,17). Portanto, algumas coisas devem ser propostas ao homem para serem cridas, não como vistas, mas como ouvidas, às quais ele dá assentimento pela fé. Mas a fé, primeiro e principalmente, é acerca da Primeira Verdade; secundariamente, acerca de certas considerações sobre as criaturas; e, além disso, estende-se à direção das ações humanas, na medida em que obra pela caridade, como aparece do que foi dito acima (Q[4], A[2], ad 3). Assim, por parte das coisas propostas à fé para serem cridas, duas coisas são necessárias da nossa parte: primeiro, que sejam penetradas ou apreendidas pelo intelecto, e isto pertence ao dom de entendimento. Segundo, é necessário que o homem julgue retamente essas coisas, que estime que deve aderir a elas e afastar-se de seus contrários: e este juízo, quanto às coisas divinas, pertence ao dom de sabedoria; quanto às coisas criadas, pertence ao dom de ciência; e quanto à sua aplicação às ações individuais, pertence ao dom de conselho. Resposta à Objeção 1: A diferença acima entre estes quatro dons está claramente de acordo com a distinção daquelas coisas que Gregório atribui como seus contrários. Pois o torpor é contrário à agudeza, visto que o intelecto é dito, por comparação, ser agudo quando é capaz de penetrar no âmago das coisas que lhe são propostas. Donde o torpor da mente é que torna a mente incapaz de penetrar no âmago de uma coisa. Diz-se que um homem é estulto se julga erroneamente acerca do fim comum da vida; por isso a estultícia é propriamente oposta à sabedoria, que nos faz julgar retamente acerca da causa universal. A ignorância implica um defeito na mente, mesmo acerca de quaisquer coisas particulares, de modo que é contrária à ciência, que dá ao homem um juízo reto acerca das causas particulares, isto é, acerca das criaturas. A temeridade é claramente oposta ao conselho, pelo qual o homem não procede à ação antes de deliberar com sua razão. Resposta à Objeção 2: O dom de entendimento versa sobre os primeiros princípios daquele conhecimento que é conferido pela graça; mas de modo diverso da fé, porque pertence à fé assentir a eles, enquanto pertence ao dom de entendimento penetrar com a mente as coisas que são ditas. Resposta à Objeção 3: O dom de entendimento se relaciona com ambos os tipos de conhecimento, isto é, especulativo e prático, não quanto ao juízo, mas quanto à apreensão, apreendendo o que é dito.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether the gift of understanding is distinct from the other gifts? · séc. XIII

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