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Rm 11, 29

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Matos Soares

29Com efeito, os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a predestinação não pode ser auxiliada pelas orações dos santos. Pois nada de eterno pode ser precedido por algo de temporal; e, por consequência, nada de temporal pode ajudar para tornar algo eterno. Ora, a predestinação é eterna. Logo, sendo as orações dos santos temporais, não podem ajudar de modo a fazer com que alguém se torne predestinado. A predestinação, portanto, não é auxiliada pelas orações dos santos. **Objeção 2:** Ademais, assim como não há necessidade de conselho senão por defeito de conhecimento, assim também não há necessidade de auxílio senão por defeito de poder. Ora, nenhuma destas coisas se pode dizer de Deus quando predestina. Donde está escrito: “Quem ajudou o Espírito do Senhor? [*Vulg.: ‘Quem conheceu o pensamento do Senhor?’] Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 11,34). Logo, a predestinação não pode ser auxiliada pelas orações dos santos. **Objeção 3:** Ademais, se uma coisa pode ser auxiliada, também pode ser impedida. Ora, a predestinação não pode ser impedida por coisa alguma. Logo, também não pode ser auxiliada por coisa alguma. **Em contrário,** está escrito que “Isaac suplicou ao Senhor por sua mulher, porque era estéril; e ele o ouviu, e fez conceber a Rebeca” (Gn 25,21). Ora, dessa conceição nasceu Jacó, e ele foi predestinado. Mas sua predestinação não teria acontecido se ele nunca houvesse nascido. Logo, a predestinação pode ser auxiliada pelas orações dos santos. **Respondo que:** Sobre esta questão houve diversos erros. Alguns, considerando a certeza da divina predestinação, disseram que as orações eram supérfluas, bem como tudo o mais que se faz para alcançar a salvação; porque, quer estas coisas se fizessem ou não, os predestinados alcançariam, e os réprobos não alcançariam a salvação eterna. Mas contra esta opinião estão todas as exortações da Sagrada Escritura, que nos incitam à oração e às outras boas obras. Outros declararam que a divina predestinação era alterada pela oração. Diz-se que esta é a opinião dos egípcios, os quais pensavam que a ordenação divina, que chamavam fado, podia ser frustrada por certos sacrifícios e orações. Contra esta opinião está também a autoridade da Escritura. Pois está escrito: “O Triunfador de Israel não poupará, nem se moverá ao arrependimento” (1Sm 15,29); e que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11,29). Por isso, devemos dizer de outro modo que, na predestinação, duas coisas se devem considerar: a ordenação divina, e o seu efeito. Quanto à primeira, de modo nenhum pode a predestinação ser auxiliada pelas orações dos santos. Pois não é por causa de suas orações que alguém é predestinado por Deus. Quanto ao segundo, diz-se que a predestinação é ajudada pelas orações dos santos e por outras boas obras; porque a providência, da qual a predestinação é uma parte, não elimina as causas secundárias, mas provê os efeitos de tal modo que a ordem das causas secundárias também caia sob a providência. Assim como os efeitos naturais são providos por Deus de modo que as causas naturais são ordenadas a produzir aqueles efeitos naturais, sem os quais tais efeitos não aconteceriam; assim também a salvação de uma pessoa é predestinada por Deus de tal maneira, que tudo o que ajuda essa pessoa para a salvação cai sob a ordem da predestinação; quer sejam as próprias orações ou as de outrem; ou outras boas obras, e outros meios semelhantes, sem os quais ninguém alcançaria a salvação. Por isso, os predestinados devem esforçar-se pelas boas obras e pela oração; porque por esses meios a predestinação se cumpre certissimamente. Por esta razão está escrito: “Procurai com mais diligência fazer firme a vossa vocação e eleição por boas obras” (2Pd 1,10). **Resposta à objeção 1:** Este argumento mostra que a predestinação não é auxiliada pelas orações dos santos quanto à preordenação. **Resposta à objeção 2:** Diz-se que alguém é auxiliado por outro de dois modos: de um modo, enquanto dele recebe força; e ser assim auxiliado pertence ao fraco; mas isto não se pode dizer de Deus, e assim se deve entender: “Quem ajudou o Espírito do Senhor?” De outro modo, diz-se que alguém é auxiliado por uma pessoa por meio de quem realiza sua obra, como o senhor por meio do servo. Deste modo Deus é ajudado por nós, enquanto executamos as suas ordens, segundo 1Cor 3,9: “Nós somos cooperadores de Deus”. E isto não é por algum defeito do poder de Deus, mas porque Ele emprega causas intermediárias, para que a beleza da ordem seja preservada no universo; e também para comunicar às criaturas a dignidade da causalidade. **Resposta à objeção 3:** As causas secundárias não podem escapar à ordem da primeira causa universal, como já se disse acima (Q. 19, A. 6); antes, elas executam essa ordem. E, portanto, a predestinação pode ser auxiliada pelas criaturas, mas não pode ser impedida por elas.

Summa Theologiae — First Part · Article. 8 - Whether predestination can be furthered by the prayers of the saints? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Pareceria que a Divindade foi separada da carne quando Cristo morreu. Pois, como Mateus relata (27,46), estando o Senhor pendente da cruz, clamou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" Palavras que Ambrósio, comentando Lc 23,46, assim explica: "Clamou o homem, prestes a expirar por ser separado da Divindade; porque, sendo a Divindade imune da morte, certamente a morte não poderia ali estar, a não ser que a vida se retirasse, pois a Divindade é vida." E assim parece que, quando Cristo morreu, a Divindade foi separada da sua carne. **Objeção 2:** Demais, os extremos são separados quando se remove o meio. Ora, a alma era o meio pelo qual a Divindade se unia à carne, como se disse (q. 6, a. 1). Logo, tendo a alma sido separada da carne pela morte, parece que, em consequência, a sua Divindade também dela se separou. **Objeção 3:** Demais, o poder vivificante de Deus é maior que o da alma. Ora, o corpo não poderia morrer se a alma o não deixasse. Logo, muito menos poderia morrer se a Divindade não se retirasse. **Ao contrário,** como se disse acima (q. 16, aa. 4 e 5), os atributos da natureza humana são predicados do Filho de Deus somente em razão da união. Ora, o que pertence ao corpo de Cristo depois da morte é predicado do Filho de Deus — a saber, ser sepultado; como é evidente no Credo, em que se diz que o Filho de Deus "foi concebido e nascido da Virgem, padeceu, morreu e foi sepultado". Portanto, a Divindade de Cristo não foi separada da carne quando Ele morreu. **Respondo que:** O que é concedido pela graça de Deus nunca é retirado senão por culpa. Por isso está escrito (Rm 11,29): "Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento." Ora, a graça da união, pela qual a Divindade se uniu à carne na Pessoa de Cristo, é maior que a graça da adoção, pela qual os outros são santificados; também é, em si mesma, mais permanente, porque esta graça é ordenada para a união pessoal, ao passo que a graça da adoção se refere a uma união afetiva. E, no entanto, vemos que a graça da adoção nunca se perde sem culpa. Como, pois, não houve pecado em Cristo, era impossível que a união da Divindade com a carne se dissolvesse. Consequentemente, assim como antes da morte a carne de Cristo estava unida pessoal e hipostaticamente ao Verbo de Deus, assim permaneceu depois da sua morte, de modo que a hipóstase do Verbo de Deus não era diferente da da carne de Cristo depois da morte, como diz Damasceno (De Fide Orth. III). **Resposta à objeção 1:** Tal desamparo não se refere à dissolução da união pessoal, mas a que Deus Pai o entregou à Paixão; portanto, ali "desamparar" significa simplesmente não proteger dos perseguidores. Ou então Ele diz que está desamparado com referência à oração que fizera: "Pai, se é possível, passe de mim este cálice", como explica Agostinho (De Gratia Novi Test.). **Resposta à objeção 2:** Diz-se que o Verbo de Deus está unido à carne por meio da alma, enquanto é pela alma que a carne pertence à natureza humana, que o Filho de Deus intentou assumir; não, porém, como se a alma fosse o meio que as liga. Mas é por causa da alma que a carne é humana, mesmo depois que a alma dela se separou — a saber, enquanto, por ordenação divina, permanece na carne morta uma certa relação com a ressurreição. E, portanto, a união da Divindade com a carne não é desfeita. **Resposta à objeção 3:** A alma possui formalmente a energia vivificante; por isso, enquanto está presente e unida formalmente, o corpo necessariamente é vivo; ao passo que a Divindade não possui a energia vivificante formalmente, mas efetivamente; porque não pode ser forma do corpo. Portanto, não é necessário que a carne seja viva enquanto permanece a união da Divindade com a carne, visto que Deus não age por necessidade, mas por sua própria vontade.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether the Godhead was separated from the flesh when Christ died? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que obras de satisfação devem ser impostas aos pecadores que foram batizados. Porque a justiça de Deus parece exigir que o homem seja punido por cada um dos seus pecados, segundo Eclesiastes 12,14: «Deus trará a juízo todas as coisas que se fazem.» Ora, obras de satisfação são impostas aos pecadores em castigo dos pecados passados. Logo, parece que obras de satisfação devem ser impostas aos pecadores que foram batizados. **Objeção 2:** Ademais, por meio de obras de satisfação, os pecadores recentemente convertidos são exercitados na justiça e levados a evitar as ocasiões de pecado; «porque a satisfação consiste em extirpar as causas do vício e fechar as portas ao pecado» (De Eccl. Dogm. iv). Ora, isto é sumamente necessário no caso dos que foram batizados recentemente. Logo, parece que obras de satisfação devem ser impostas aos pecadores. **Objeção 3:** Além disso, o homem deve satisfação a Deus não menos que ao próximo. Ora, se os que foram recentemente batizados prejudicaram o próximo, devem ser mandados a reparar o dano para com Deus por obras de penitência. **Em contrário,** Ambrósio, comentando Romanos 11,29 («Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento»), diz: «A graça de Deus não requer no Batismo suspiros nem gemidos, nem, na verdade, obra alguma, mas só a fé; e remite tudo de graça.» **Respondo que,** como diz o Apóstolo (Rm 6,3-4), «todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte; porque fomos sepultados com ele pelo batismo na morte»; o que significa que, pelo Batismo, o homem é incorporado na própria morte de Cristo. Ora, é manifesto pelo que foi dito acima (Q. 48, Aa. 2 e 4; Q. 49, A. 3) que a morte de Cristo satisfez suficientemente pelos pecados, «não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo», segundo 1 João 2,2. Consequentemente, nenhuma espécie de satisfação deve ser imposta ao que está sendo batizado por quaisquer pecados que seja; e isto seria desonrar a Paixão e a morte de Cristo, como se fossem insuficientes para a satisfação plenária dos pecados dos que haviam de ser batizados. **Resposta à primeira objeção:** Como diz Agostinho no seu livro sobre o Batismo das Crianças (De Pecc. Merit. et Remiss. I), «o efeito do Batismo é fazer com que os batizados sejam incorporados em Cristo como seus membros». Por onde, as próprias dores de Cristo foram satisfatórias pelos pecados dos que haviam de ser batizados; assim como a dor de um membro pode ser satisfatória pelo pecado de outro membro. Por isso está escrito (Is 53,4): «Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores.» **Resposta à segunda objeção:** Os que foram batizados recentemente devem ser exercitados na justiça, não por obras penais, mas por «obras fáceis, para que avancem à perfeição tomando exercício, como as crianças que tomam leite», como diz uma glosa ao Salmo 130,2: «Como o menino desmamado para com sua mãe.» Por esta razão o Senhor escusou seus discípulos de jejuar quando foram recentemente convertidos, como lemos em Mateus 9,14-15; e o mesmo está escrito em 1 Pedro 2,2: «Como meninos recém-nascidos, desejai o leite … para que por ele cresçais para a salvação.» **Resposta à terceira objeção:** Restituir o que foi mal tomado ao próximo e fazer satisfação pela ofensa feita a ele é cessar do pecado; porque o próprio fato de reter o que é de outrem e não se reconciliar com o próximo é pecado. Por onde, os que são batizados devem ser mandados a fazer satisfação ao próximo, assim como a dessistir do pecado. Mas não se lhes deve impor que sofram qualquer castigo pelos pecados passados.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether works of satisfaction should be enjoined on sinners that have been baptized? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que os pecadores que vão ser baptizados são obrigados a confessar os seus pecados. Porque está escrito (Mat. 3,6) que muitos foram baptizados por João no Jordão, confessando os seus pecados. Mas o Batismo de Cristo é mais perfeito que o de João. Logo, parece que há ainda maior razão para que os que estão para receber o Batismo de Cristo confessem os seus pecados. Objecção 2: Além disso, está escrito (Prov. 28,13): O que encobre os seus pecados, não prosperará; mas o que os confessar e largar, alcançará misericórdia. Ora, para isto é baptizado um homem, para alcançar misericórdia pelos seus pecados. Logo, os que vão ser baptizados devem confessar os seus pecados. Objecção 3: Além disso, a Penitência é requerida antes do Batismo, segundo Atos 2,38: Fazei penitência, e cada um de vós seja baptizado. Mas a confissão é parte da Penitência. Logo, parece que a confissão dos pecados deve ter lugar antes do Batismo. Porém, em contrário, a confissão dos pecados deve ser dolorosa; assim diz Agostinho (De Vera et Falsa Poenit. xiv): «Todas estas circunstâncias devem ser consideradas e deploradas.» Ora, como diz Ambrósio sobre Rom. 11,29, «a graça de Deus não requer nem suspiros nem gemidos no Batismo.» Logo, a confissão dos pecados não deve ser exigida daqueles que vão ser baptizados. Respondo que a confissão dos pecados é dupla. Uma é feita interiormente a Deus; e tal confissão dos pecados é requerida antes do Batismo, isto é, o homem deve trazer os seus pecados à memória e deles se condoer; porque «não pode começar a nova vida, senão se arrepender da vida anterior», como diz Agostinho no seu livro sobre a Penitência (Serm. cccli). A outra é a confissão exterior dos pecados, que se faz ao sacerdote; e tal confissão não é requerida antes do Batismo. Primeiro, porque esta confissão, por se dirigir à pessoa do ministro, pertence ao sacramento da Penitência, que não é requerido antes do Batismo, que é a porta de todos os sacramentos. Segundo, porque a razão pela qual um homem faz confissão exterior ao sacerdote é que o sacerdote o absolva dos seus pecados e o obrigue a obras de satisfação, as quais não devem ser impostas aos baptizados, como acima se disse (A[5]). Além disso, os que estão sendo baptizados não precisam ser soltos dos seus pecados pelas chaves da Igreja, pois todos lhes são perdoados no Batismo. Terceiro, porque o próprio ato de confissão feita a um homem é penal, pela vergonha que inflige a quem confessa; ao passo que nenhum castigo exterior é imposto ao homem que está sendo baptizado. Portanto, não se requer nenhuma confissão especial dos pecados daqueles que estão sendo baptizados; mas basta aquela confissão geral que fazem quando, segundo o rito da Igreja, «renunciam a Satanás e a todas as suas obras». E neste sentido uma glosa explica Mat. 3,6, dizendo que no batismo de João «os que vão ser baptizados aprendem que devem confessar os seus pecados e prometer emendar a sua vida». Se, todavia, algumas pessoas prestes a ser baptizadas quiserem, por devoção, confessar os seus pecados, a sua confissão deve ser ouvida; não com o fim de lhes impor que façam satisfação, mas para instruí-las na vida espiritual como remédio contra os seus hábitos viciosos. Resposta à Objecção 1: No batismo de João, que era o batismo de penitência, os pecados não eram perdoados. Por conseguinte, convinha que os que iam receber aquele batismo confessassem os seus pecados, para que recebessem uma penitência proporcionada aos seus pecados. Mas o Batismo de Cristo é sem penitência exterior, como diz Ambrósio (sobre Rom. 11,29); e portanto não há comparação. Resposta à Objecção 2: Basta que os baptizados façam confissão interior a Deus, e também uma confissão geral exterior, para que «prosperem e alcancem misericórdia»; e não necessitam de nenhuma confissão exterior especial, como acima se disse. Resposta à Objecção 3: A confissão é parte da Penitência sacramental, que não é requerida antes do Batismo, como acima se disse; porém, a virtude interior da Penitência é requerida.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether sinners who are going to be baptized are bound to confess their sins? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que o homem não é libertado pelo Batismo de toda a dívida da pena devida ao pecado. Porque diz o Apóstolo (Rm 13,1): «As coisas que são de Deus estão bem ordenadas [Vulg.: 'As que são, por Deus foram ordenadas']». Ora, a culpa não se ordena senão pela pena, como diz Agostinho (Ep. cxl). Logo, o Batismo não tira a dívida da pena devida aos pecados já cometidos. Objecção 2: Além disso, o efeito do sacramento tem certa semelhança com o próprio sacramento; pois os sacramentos da Nova Lei «produzem o que significam», como se disse acima (Q[62], A[1], ad 1). Ora, a lavagem do Batismo tem, com efeito, certa semelhança com a limpeza da mancha do pecado, mas nenhuma, ao que parece, com a remissão da dívida da pena. Logo, a dívida da pena não é tirada pelo Batismo. Objecção 3: Além disso, quando a dívida da pena é remitida, o homem já não merece ser punido, e assim seria injusto puni-lo. Se, portanto, a dívida da pena é remitida pelo Batismo, seria injusto, depois do Batismo, enforcar um ladrão que tivesse cometido homicídio antes. Consequentemente, a severidade da legislação humana relaxar-se-ia por causa do Batismo; o que é inconveniente. Logo, o Batismo não remite a dívida da pena. *Em contrário*, diz Ambrósio, comentando Rm 11,29: «Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento»: «A graça de Deus no Batismo remite tudo, gratuitamente». *Respondo que*, como se disse acima (Q[49], A[3], ad 2; Q[68], AA[1],4,5), pelo Batismo o homem é incorporado na Paixão e morte de Cristo, segundo Rm 6,8: «Se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos». Donde é claro que a Paixão de Cristo é comunicada a todo batizado, de modo que ele é curado como se ele mesmo houvera padecido e morrido. Ora, a Paixão de Cristo, como se disse acima (Q[68], A[5]), é uma satisfação suficiente por todos os pecados de todos os homens. Por conseguinte, quem é batizado fica liberto da dívida de toda a pena devida por seus pecados, como se ele mesmo houvesse oferecido suficiente satisfação por todos os seus pecados. *Resposta à Objecção 1*: Visto que as dores da Paixão de Cristo são comunicadas ao batizado, na medida em que é feito membro de Cristo, como se ele mesmo houvera suportado essas dores, os seus pecados são ordenados pelas dores da Paixão de Cristo. *Resposta à Objecção 2*: A água não só limpa, mas também refrigera. E assim, pela refrigeração, significa a remissão da dívida da pena, assim como pela limpeza significa a lavagem da culpa. *Resposta à Objecção 3*: Nas penas infligidas por um tribunal humano, deve-se considerar não só qual a pena que um homem merece perante Deus, mas também a que ponto ele é devedor aos homens que são lesados e escandalizados pelo pecado de outrem. Por conseguinte, embora um homicida seja libertado pelo Batismo da sua dívida da pena perante Deus, fica, todavia, devedor para com os homens; e é justo que eles sejam edificados com a sua pena, visto que foram escandalizados com o seu pecado. Mas o soberano pode, por bondade, remitir a pena a tais homens.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether man is freed by Baptism from all debt of punishment due to sin? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que os pecados uma vez perdoados voltam por um pecado subsequente. Com efeito, diz Agostinho (Do Batismo contra os Donatistas, i, 12): «Nosso Senhor ensina mui explicitamente no Evangelho que os pecados que foram perdoados voltam, quando cessa a caridade fraterna, no exemplo do servo a quem seu senhor exigiu o pagamento da dívida já perdoada, porque ele recusara perdoar a dívida de seu companheiro.» Ora, a caridade fraterna é destruída por cada pecado mortal. Portanto, os pecados já tirados pela Penitência voltam por cada pecado mortal subsequente. Objecção 2: Além disso, sobre Lc 11,24: «Voltarei para minha casa, donde saí», diz Beda: «Este versículo deve fazer-nos tremer; não devemos esforçar-nos por explicá-lo de modo a evitá-lo, para que por negligência não demos lugar ao pecado que pensávamos ter sido tirado e nos tornemos novamente seus escravos.» Ora, isto não seria assim a menos que ele voltasse. Portanto, um pecado volta depois de uma vez tirado pela Penitência. Objecção 3: Além disso, o Senhor disse (Ez 18,24): «Se o justo se apartar da sua justiça e cometer a iniquidade… todas as suas justiças que fez não serão lembradas.» Ora, entre as outras «justiças» que ele fizera, está também a sua penitência anterior, pois foi dito acima (Q. 85, art. 3) que a Penitência é parte da justiça. Portanto, quando alguém que fez penitência peca, a sua penitência anterior, pela qual recebeu o perdão dos pecados, não lhe é imputada. Logo, os seus pecados voltam. Objecção 4: Além disso, os pecados passados são cobertos pela graça, como declara o Apóstolo (Rm 4,7), onde cita Sl 31,1: «Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos.» Mas um pecado mortal subsequente tira a graça. Portanto, os pecados cometidos anteriormente tornam-se descobertos; e, assim, ao que parece, voltam. Pelo contrário, diz o Apóstolo (Rm 11,29): «Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.» Ora, os pecados do penitente são tirados por um dom de Deus. Portanto, os pecados que foram tirados não voltam por um pecado subsequente, como se Deus se arrependesse do seu dom de perdão. Além disso, diz Agostinho (Livro das Respostas a Próspero, i [*Cf. Próspero, Respostas aos Capítulos dos Gauleses, ii]): «Quando aquele que se afasta de Cristo chega ao fim desta vida estranho à graça, para onde vai senão para a perdição? Contudo, não cai de novo naquilo que fora perdoado, nem será condenado pelo pecado original.» Respondo que, como foi dito acima (Q. 86, art. 4), o pecado mortal contém duas coisas: aversão de Deus e adesão a um bem criado. Ora, no pecado mortal, tudo o que diz respeito à aversão é, considerado em si mesmo, comum a todos os pecados mortais, pois o homem se afasta de Deus por cada pecado mortal, de modo que, por consequência, a mácula resultante da privação da graça e a dívida da pena eterna são comuns a todos os pecados mortais. E é isto o que significa o que está escrito (Tg 2,10): «Quem… ofender em um ponto, torna-se culpado de todos.» Por outro lado, quanto à adesão, eles são diferentes e às vezes contrários entre si. Portanto, é evidente que, por parte da adesão, um pecado mortal subsequente não causa o retorno dos pecados mortais anteriormente dissipados; do contrário, seguir-se-ia que, por um pecado de prodigalidade, um homem seria trazido de volta ao hábito ou disposição de avareza anteriormente dissipada, de modo que um contrário seria causa de outro, o que é impossível. Mas se, nos pecados mortais, consideramos absolutamente aquilo que diz respeito à aversão, então um pecado mortal subsequente [causa o retorno daquilo que estava compreendido nos pecados mortais antes de serem perdoados, na medida em que o pecado mortal subsequente] [*As palavras entre colchetes são omitidas na edição Leonina.] priva o homem da graça e o torna merecedor da pena eterna, tal como era antes. Não obstante, uma vez que a aversão do pecado mortal é [de certo modo causada pela adesão, aquelas coisas que dizem respeito à aversão são*] diversificadas de algum modo em relação a várias adesões, como a várias causas, de modo que haverá uma aversão diferente, uma mácula diferente, uma dívida de pena diferente, conforme os diferentes atos de pecado mortal dos quais procedem; daí se levanta a questão: a mácula e a dívida da pena eterna, como causadas pelos atos dos pecados anteriormente perdoados, voltam por um pecado mortal subsequente? Assim, alguns sustentaram que voltam simplesmente mesmo desta maneira. Mas isto é impossível, porque o que Deus fez não pode ser desfeito pela obra do homem. Ora, o perdão dos pecados anteriores foi obra da misericórdia divina, de modo que não pode ser desfeito pelo pecado subsequente do homem, conforme Rm 3,3: «Porventura a sua incredulidade tornará sem efeito a fidelidade de Deus?» Por isso, outros que sustentavam a possibilidade de os pecados voltarem disseram que Deus perdoa os pecados de um penitente que depois pecará de novo, não segundo a Sua presciência, mas apenas segundo a Sua justiça presente: pois Ele prevê que punirá eternamente tal homem pelos seus pecados e, contudo, pela Sua graça, torna-o justo no presente. Mas isto não pode valer: porque, se uma causa é posta absolutamente, o seu efeito é posto absolutamente; de modo que, se a remissão dos pecados fosse efetuada pela graça e pelos sacramentos da graça, não absolutamente, mas sob alguma condição dependente de algum evento futuro, seguir-se-ia que a graça e os sacramentos da graça não são causas suficientes da remissão dos pecados, o que é erróneo, por ser depreciativo da graça de Deus. Consequentemente, de modo algum é possível que a mácula dos pecados passados e a dívida da pena por eles incorrida voltem como causadas por esses atos. Contudo, pode acontecer que um ato pecaminoso subsequente contenha virtualmente a dívida da pena devida ao pecado anterior, na medida em que, quando um homem peca pela segunda vez, por isso mesmo parece pecar mais gravemente do que antes, como está dito em Rm 2,5: «Segundo a tua dureza e coração impenitente, entesouras para ti ira para o dia da ira», pelo simples fato de que a bondade de Deus, que espera que nos arrependamos, é desprezada. E tanto mais é desprezada a bondade de Deus se o primeiro pecado é cometido uma segunda vez depois de ter sido perdoado, pois é maior favor o pecado ser perdoado do que o pecador ser tolerado. Assim, o pecado que segue a penitência traz de volta, em certo sentido, a dívida da pena devida aos pecados anteriormente perdoados, não como causada por esses pecados já perdoados, mas como causada por este último pecado ser cometido, por ser agravado em vista daqueles pecados anteriores. Isto significa que aqueles pecados voltam, não simplesmente, mas em sentido restrito, isto é, na medida em que estão virtualmente contidos no pecado subsequente. Resposta à Objecção 1: Esta palavra de Agostinho parece referir-se ao retorno dos pecados quanto à dívida da pena eterna considerada em si mesma, a saber, que aquele que peca depois de fazer penitência incorre numa dívida de pena eterna, tal como antes, mas não totalmente pela mesma «razão». Por isso Agostinho, depois de dizer (Livro das Respostas a Próspero, i [*Cf. Próspero, Respostas aos Capítulos dos Gauleses, ii]) que «ele não cai de novo naquilo que foi perdoado, nem será condenado pelo pecado original», acrescenta: «Contudo, por estes últimos pecados será condenado à mesma morte que merecera sofrer pelos primeiros», porque incorre na pena da morte eterna que merecera pelos seus pecados anteriores. Resposta à Objecção 2: Por estas palavras, Beda significa que a culpa já perdoada torna o homem escravo, não pelo retorno da sua dívida de pena anterior, mas pela repetição do seu ato. Resposta à Objecção 3: O efeito de um pecado subsequente é que as «justiças» anteriores não são lembradas, na medida em que eram merecedoras da vida eterna, mas não na medida em que eram um obstáculo ao pecado. Consequentemente, se um homem peca mortalmente depois de ter feito restituição, não se torna culpado como se não tivesse pago o que devia; e muito menos a penitência feita anteriormente é esquecida quanto ao perdão da culpa, pois isto é obra de Deus antes que do homem. Resposta à Objecção 4: A graça remove a mácula e a dívida da pena eterna simplesmente; mas ela cobre os atos pecaminosos passados, para que, por causa deles, Deus não prive o homem da graça e não o julgue merecedor da pena eterna; e o que a graça uma vez fez, perdura para sempre.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether sins once forgiven return through a subsequent sin? · séc. XIII

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