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Rm 11, 34

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Matos Soares

34Pois quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a predestinação não pode ser auxiliada pelas orações dos santos. Pois nada de eterno pode ser precedido por algo de temporal; e, por consequência, nada de temporal pode ajudar para tornar algo eterno. Ora, a predestinação é eterna. Logo, sendo as orações dos santos temporais, não podem ajudar de modo a fazer com que alguém se torne predestinado. A predestinação, portanto, não é auxiliada pelas orações dos santos. **Objeção 2:** Ademais, assim como não há necessidade de conselho senão por defeito de conhecimento, assim também não há necessidade de auxílio senão por defeito de poder. Ora, nenhuma destas coisas se pode dizer de Deus quando predestina. Donde está escrito: “Quem ajudou o Espírito do Senhor? [*Vulg.: ‘Quem conheceu o pensamento do Senhor?’] Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 11,34). Logo, a predestinação não pode ser auxiliada pelas orações dos santos. **Objeção 3:** Ademais, se uma coisa pode ser auxiliada, também pode ser impedida. Ora, a predestinação não pode ser impedida por coisa alguma. Logo, também não pode ser auxiliada por coisa alguma. **Em contrário,** está escrito que “Isaac suplicou ao Senhor por sua mulher, porque era estéril; e ele o ouviu, e fez conceber a Rebeca” (Gn 25,21). Ora, dessa conceição nasceu Jacó, e ele foi predestinado. Mas sua predestinação não teria acontecido se ele nunca houvesse nascido. Logo, a predestinação pode ser auxiliada pelas orações dos santos. **Respondo que:** Sobre esta questão houve diversos erros. Alguns, considerando a certeza da divina predestinação, disseram que as orações eram supérfluas, bem como tudo o mais que se faz para alcançar a salvação; porque, quer estas coisas se fizessem ou não, os predestinados alcançariam, e os réprobos não alcançariam a salvação eterna. Mas contra esta opinião estão todas as exortações da Sagrada Escritura, que nos incitam à oração e às outras boas obras. Outros declararam que a divina predestinação era alterada pela oração. Diz-se que esta é a opinião dos egípcios, os quais pensavam que a ordenação divina, que chamavam fado, podia ser frustrada por certos sacrifícios e orações. Contra esta opinião está também a autoridade da Escritura. Pois está escrito: “O Triunfador de Israel não poupará, nem se moverá ao arrependimento” (1Sm 15,29); e que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11,29). Por isso, devemos dizer de outro modo que, na predestinação, duas coisas se devem considerar: a ordenação divina, e o seu efeito. Quanto à primeira, de modo nenhum pode a predestinação ser auxiliada pelas orações dos santos. Pois não é por causa de suas orações que alguém é predestinado por Deus. Quanto ao segundo, diz-se que a predestinação é ajudada pelas orações dos santos e por outras boas obras; porque a providência, da qual a predestinação é uma parte, não elimina as causas secundárias, mas provê os efeitos de tal modo que a ordem das causas secundárias também caia sob a providência. Assim como os efeitos naturais são providos por Deus de modo que as causas naturais são ordenadas a produzir aqueles efeitos naturais, sem os quais tais efeitos não aconteceriam; assim também a salvação de uma pessoa é predestinada por Deus de tal maneira, que tudo o que ajuda essa pessoa para a salvação cai sob a ordem da predestinação; quer sejam as próprias orações ou as de outrem; ou outras boas obras, e outros meios semelhantes, sem os quais ninguém alcançaria a salvação. Por isso, os predestinados devem esforçar-se pelas boas obras e pela oração; porque por esses meios a predestinação se cumpre certissimamente. Por esta razão está escrito: “Procurai com mais diligência fazer firme a vossa vocação e eleição por boas obras” (2Pd 1,10). **Resposta à objeção 1:** Este argumento mostra que a predestinação não é auxiliada pelas orações dos santos quanto à preordenação. **Resposta à objeção 2:** Diz-se que alguém é auxiliado por outro de dois modos: de um modo, enquanto dele recebe força; e ser assim auxiliado pertence ao fraco; mas isto não se pode dizer de Deus, e assim se deve entender: “Quem ajudou o Espírito do Senhor?” De outro modo, diz-se que alguém é auxiliado por uma pessoa por meio de quem realiza sua obra, como o senhor por meio do servo. Deste modo Deus é ajudado por nós, enquanto executamos as suas ordens, segundo 1Cor 3,9: “Nós somos cooperadores de Deus”. E isto não é por algum defeito do poder de Deus, mas porque Ele emprega causas intermediárias, para que a beleza da ordem seja preservada no universo; e também para comunicar às criaturas a dignidade da causalidade. **Resposta à objeção 3:** As causas secundárias não podem escapar à ordem da primeira causa universal, como já se disse acima (Q. 19, A. 6); antes, elas executam essa ordem. E, portanto, a predestinação pode ser auxiliada pelas criaturas, mas não pode ser impedida por elas.

Summa Theologiae — First Part · Article. 8 - Whether predestination can be furthered by the prayers of the saints? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o dom do conselho não permanece no céu. Porque o conselho é acerca do que se deve fazer por causa de um fim. Ora, no céu nada se terá de fazer por causa de um fim, pois ali o homem possui o último fim. Logo, o dom do conselho não está no céu. Objeção 2: Além disso, o conselho implica dúvida, pois é absurdo aconselhar-se em matérias evidentes, como observa o Filósofo (Ética iii, 3). Ora, toda dúvida cessará no céu. Logo, não há conselho no céu. Objeção 3: Além disso, os santos no céu são conformíssimos a Deus, segundo 1 Jo 3,2: «Quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele.» Mas o conselho não convém a Deus, segundo Rm 11,34: «Quem foi seu conselheiro?» Logo, nem aos santos no céu convém o dom do conselho. Em contrário, diz Gregório (Moral. xvii, 12): «Quando ou a culpa ou a justiça de cada nação é trazida ao debate da Corte celestial, o guardião daquela nação é dito ter vencido no conflito, ou não ter vencido.» Respondo: Como foi dito acima (A[2]; FS, Q[68], A[1]), os dons do Espírito Santo estão conexos com a moção da criatura racional por Deus. Devemos agora observar dois pontos acerca da moção da mente humana por Deus. Primeiro, que a disposição daquilo que é movido difere enquanto é movido da sua disposição quando está no termo do movimento. De fato, se o motor é apenas princípio do movimento, quando cessa o movimento, a ação do motor cessa quanto à coisa movida, pois já alcançou o termo do movimento, assim como uma casa, depois de construída, cessa de ser edificada pelo edificador. Por outro lado, quando o motor é causa não apenas do movimento, mas também da forma para a qual o movimento tende, então a ação do motor não cessa mesmo depois de a forma ter sido alcançada: assim o sol ilumina o ar mesmo depois de já iluminado. Deste modo, pois, Deus causa em nós virtude e conhecimento, não apenas quando primeiro os adquirimos, mas também enquanto perseveramos neles; e é assim que Deus causa nos bem-aventurados um conhecimento do que se deve fazer, não como se fossem ignorantes, mas continuando aquele conhecimento neles. Contudo, há coisas que os bem-aventurados, sejam anjos ou homens, não conhecem: tais coisas não são essenciais à bem-aventurança, mas dizem respeito ao governo das coisas segundo a Divina Providência. Quanto a estas, devemos fazer uma observação adicional: que Deus move a mente dos bem-aventurados de um modo, e a mente do viandante, de outro. Pois Deus move a mente do viandante nas coisas da ação, serenando a ansiedade pré-existente da dúvida; ao passo que na mente dos bem-aventurados há simples nesciência quanto às coisas que não conhecem. Desta nesciência a mente do anjo é purificada, segundo Dionísio (Coel. Hier. vii), nem precede neles qualquer inquirição de dúvida, pois simplesmente se voltam para Deus; e isto é aconselhar-se com Deus, pois como diz Agostinho (Gên. ad lit. v, 19) «os anjos aconselham-se com Deus acerca das coisas inferiores a eles»; pelo que a instrução que recebem de Deus em tais matérias é chamada «conselho». Portanto, o dom do conselho está nos bem-aventurados, na medida em que Deus preserva neles o conhecimento que têm, e os ilumina na sua nesciência do que se deve fazer. Resposta à Objeção 1: Mesmo nos bem-aventurados há atos dirigidos a um fim, ou resultantes, por assim dizer, da sua consecução do fim, tais como os atos de louvar a Deus, ou de ajudar outros a alcançar o fim que eles mesmos alcançaram, por exemplo, as ministrações dos anjos e as orações dos santos. Sob este aspecto, o dom do conselho encontra lugar neles. Resposta à Objeção 2: A dúvida pertence ao conselho segundo o presente estado de vida, mas não ao conselho que ocorre no céu. Assim também as virtudes teologais não têm exatamente os mesmos atos no céu como no caminho para lá. Resposta à Objeção 3: O conselho está em Deus, não como recebendo-o, mas como dando-o; e os santos no céu são conformes a Deus, como os recebedores à fonte de onde recebem.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the gift of counsel remains in heaven? · séc. XIII

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