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Rm 11, 35

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Matos Soares

35Ou quem lhe deu alguma coisa, primeiro, para que tenha de receber em troca?

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que não há justiça em Deus. Porque a justiça se opõe à temperança. Ora, a temperança não existe em Deus; logo, nem a justiça. Objeção 2: Ademais, aquele que faz tudo quanto quer e apraz não obra segundo a justiça. Ora, como diz o Apóstolo: «Deus opera todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade» (Efés. 1,11). Logo, não se Lhe pode atribuir justiça. Objeção 3: Ademais, o ato da justiça é pagar o que é devido. Ora, Deus não é devedor de ninguém. Logo, a justiça não pertence a Deus. Objeção 4: Ademais, tudo o que está em Deus é a Sua essência. Ora, a justiça não pode pertencer a ela, porque Boécio diz (De Hebdom.) que «o bem respeita a essência; a justiça, o ato». Logo, a justiça não pertence a Deus. Em contrário, está escrito (Sal. 10,8): «O Senhor é justo, e amou a justiça.» Respondo que: Há duas espécies de justiça. Uma consiste no dar e receber mútuo, como na compra e venda, e outros gêneros de trato e troca. A esta chama o Filósofo (Ética v, 4) justiça comutativa, que dirige as trocas e os negócios. Esta não pertence a Deus, pois, como diz o Apóstolo: «Quem primeiro Lhe deu, para que lhe seja retribuído?» (Rom. 11,35). A outra consiste na distribuição, e chama-se justiça distributiva, pela qual o governante ou o dispenseiro dá a cada um o que lhe cabe segundo a sua condição. Portanto, assim como a ordem própria que se vê no governo de uma família ou de qualquer multidão manifesta esta justiça no governante, assim também a ordem do universo, que se vê tanto nos efeitos da natureza como nos efeitos da vontade, mostra a justiça de Deus. Por isso Dionísio diz (Div. Nom. viii, 4): «É necessário que vejamos que Deus é verdadeiramente justo, ao ver como dá a todas as coisas existentes o que é próprio da condição de cada uma, e conserva a natureza de cada uma na ordem e com os poderes que lhe pertencem propriamente.» Resposta à Objeção 1: Algumas virtudes morais versam sobre as paixões, como a temperança sobre a concupiscência, a fortaleza sobre o temor e a ousadia, a mansidão sobre a ira. Tais virtudes só metaforicamente se podem atribuir a Deus, porque, como se disse acima (Q.20, A.1), em Deus não há paixões, nem apetite sensitivo, que é, como diz o Filósofo (Ética iii, 10), o sujeito dessas virtudes. Por outro lado, certas virtudes morais versam sobre obras de dar e despender, como a justiça, a liberalidade e a magnificência; e estas residem não na faculdade sensitiva, mas na vontade. Logo, nada impede que atribuamos a Deus tais virtudes; não, porém, em coisas civis, mas naqueles atos que Lhe não são inconvenientes. Pois, como diz o Filósofo (Ética x, 8), seria absurdo louvar a Deus pelas suas virtudes políticas. Resposta à Objeção 2: Visto que o bem apreendido pelo intelecto é o objeto da vontade, é impossível que Deus queira algo senão o que a Sua sabedoria aprova. Isto é, por assim dizer, a Sua lei de justiça, segundo a qual a Sua vontade é reta e justa. Portanto, o que faz segundo a Sua vontade, fá-lo justamente; assim como nós fazemos justamente o que fazemos segundo a lei. Porém, ao passo que a lei nos vem de um poder superior, Deus é lei para Si mesmo. Resposta à Objeção 3: A cada um é devido o que é seu. Ora, diz-se que é seu aquilo que está ordenado para o homem. Assim, o senhor possui o servo, e não o contrário, porque é livre o que é causa de si mesmo. Na palavra débito, portanto, está implícita uma certa exigência ou necessidade da coisa para a qual se ordena. Ora, há que considerar dupla ordem nas coisas: uma, pela qual uma criatura se ordena a outra, como as partes ao todo, o acidente à substância, e todas as coisas ao seu fim; outra, pela qual todas as criaturas se ordenam a Deus. Assim, nas operações divinas o débito pode considerar-se de dois modos: como devido a Deus, ou como devido às criaturas; e de ambos os modos Deus paga o que é devido. É devido a Deus que se cumpra nas criaturas o que a Sua vontade e sabedoria requerem, e que manifesta a Sua bondade. Neste sentido, a justiça de Deus respeita o que Lhe convém, enquanto Ele rende a Si mesmo o que Lhe é devido. É também devido à criatura que possua o que lhe está ordenado; assim, é devido ao homem ter mãos, e que os outros animais o sirvam. Deste modo também Deus exerce a justiça quando dá a cada coisa o que lhe é devido pela sua natureza e condição. Este débito, porém, deriva do primeiro; porque o que é devido a cada coisa o é enquanto está ordenada a ela segundo a divina sabedoria. E embora Deus pague assim a cada coisa o seu devido, todavia Ele mesmo não é devedor, porque não está ordenado para outras coisas, mas antes as outras coisas estão ordenadas para Ele. Por isso, a justiça em Deus umas vezes se diz como o acompanhamento conveniente da Sua bondade; outras vezes, como a recompensa do merecimento. Anselmo toca em ambos os aspectos quando diz (Prosolog. 10): «Quando Tu castigas os ímpios, é justo, porque concorda com os seus merecimentos; e quando Tu poupas os ímpios, também é justo, porque convém à Tua bondade.» Resposta à Objeção 4: Embora a justiça respeite o ato, isso não impede que seja a essência de Deus; pois mesmo o que é da essência de uma coisa pode ser princípio de ação. Mas o bem nem sempre respeita o ato; porque uma coisa se chama boa não só relativamente ao ato, mas também enquanto perfeição na sua essência. Por esta razão se diz (De Hebdom.) que o bem se relaciona com o justo como o geral com o especial.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether there is justice in God? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que o homem nada pode merecer de Deus. Porque ninguém, ao que parece, merece dando a outro o que lhe é devido. Ora, por todo o bem que fazemos, não podemos retribuir suficientemente a Deus, pois ainda mais Lhe é devido, como também diz o Filósofo (Ética viii, 14). Donde está escrito (Lc 17,10): «Assim também vós, depois de haverdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.» Logo, o homem nada pode merecer de Deus. Objeção 2: Ademais, parece que o homem nada merece de Deus por aquilo que aproveita somente a si mesmo, e nada aproveita a Deus. Ora, agindo bem, o homem aproveita a si mesmo ou a outro homem, mas não a Deus, pois está escrito (Jó 35,7): «Se tu procederes justamente, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?» Logo, o homem nada pode merecer de Deus. Objeção 3: Ademais, quem quer que mereça algo de outrem, torna-o seu devedor; porque o salário de um homem é uma dívida que lhe é devida. Ora, Deus não é devedor de ninguém; donde está escrito (Rm 11,35): «Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído?» Logo, ninguém pode merecer algo de Deus. Ao contrário, está escrito (Jr 31,16): «Há recompensa para o teu trabalho.» Ora, recompensa significa algo concedido por razão de mérito. Logo, parece que o homem pode merecer de Deus. Respondo que: Mérito e recompensa dizem respeito ao mesmo, pois recompensa significa algo dado a alguém em retorno por trabalho ou fadiga, como preço por ele. Portanto, assim como é ato de justiça dar um justo preço por algo recebido de outro, também é ato de justiça retribuir por trabalho ou fadiga. Ora, a justiça é uma espécie de igualdade, como é claro pelo Filósofo (Ética v, 3); e portanto a justiça existe de modo simples entre os que são simplesmente iguais; mas onde não há igualdade absoluta entre eles, também não há justiça absoluta, mas pode haver uma certa maneira de justiça, como quando falamos do direito paterno ou do senhor (Ética v, 6), como diz o Filósofo. E portanto onde há justiça simples, há caráter de mérito e recompensa simples. Mas onde não há direito simples, mas apenas relativo, não há caráter de mérito simples, mas apenas relativo, na medida em que se encontra ali o caráter de justiça, pois o filho merece algo de seu pai e o servo de seu senhor. Ora, é claro que entre Deus e o homem há a máxima desigualdade: pois estão infinitamente separados, e todo o bem do homem vem de Deus. Logo, não pode haver justiça de igualdade absoluta entre o homem e Deus, mas apenas de uma certa proporção, na medida em que ambos operam à sua própria maneira. Ora, o modo e a medida da virtude humana estão no homem procedentes de Deus. Portanto, o mérito do homem diante de Deus só existe sob a pressuposição da ordenação divina, de modo que o homem obtém de Deus, como recompensa de sua operação, aquilo para o que Deus lhe deu o poder de operar, assim como as coisas naturais por seus próprios movimentos e operações obtêm aquilo para que foram ordenadas por Deus; diferentemente, contudo, pois a criatura racional move-se a si mesma para agir por seu livre arbítrio, por isso sua ação tem caráter de mérito, o que não ocorre nas outras criaturas. Resposta à Objeção 1: O homem merece na medida em que faz o que deve, por seu livre arbítrio; de outro modo, o ato de justiça pelo qual alguém paga uma dívida não seria meritório. Resposta à Objeção 2: Deus busca de nossos bens não proveito, mas glória, isto é, a manifestação de Sua bondade; assim como também a busca em Suas próprias obras. Ora, nada Lhe acresce, mas apenas a nós mesmos, por nosso culto a Ele. Portanto, merecemos de Deus, não porque por nossas obras algo Lhe acresça, mas na medida em que trabalhamos para Sua glória. Resposta à Objeção 3: Visto que nossa ação tem caráter de mérito apenas sob a pressuposição da ordenação divina, não se segue que Deus se torne nosso devedor simplesmente, mas devedor de Si mesmo, na medida em que é justo que Sua vontade se cumpra.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether a man may merit anything from God? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que, sem a graça, alguém pode merecer a vida eterna. Pois o homem merece de Deus aquilo para que é divinamente ordenado, como se disse acima (A[1]). Ora, o homem, pela sua natureza, está ordenado para a beatitude como seu fim; por isso também deseja naturalmente ser bem-aventurado. Logo, o homem, pelos seus dotes naturais e sem a graça, pode merecer a beatitude, que é a vida eterna. **Objeção 2:** Ademais, quanto menos devido é um trabalho, tanto mais meritório é. Ora, menos devido é o trabalho que é feito por quem recebeu menos benefícios. Portanto, aquele que possui apenas dotes naturais recebeu menos dons de Deus do que aquele que, além da natureza, possui também dons gratuitos; por conseguinte, parece que suas obras são mais meritórias diante de Deus. E assim, se aquele que tem a graça pode, em certa medida, merecer a vida eterna, muito mais a pode merecer aquele que não tem graça. **Objeção 3:** Além disso, a misericórdia e a liberalidade de Deus superam infinitamente a misericórdia e a liberalidade humanas. Ora, um homem pode merecer de outro, mesmo sem ter tido até então a sua graça. Logo, muito mais parece que um homem sem graça pode merecer a vida eterna. **Ao contrário,** diz o Apóstolo (Rm 6,23): «A graça de Deus é a vida eterna». **Respondo que:** O homem sem a graça pode ser considerado em dois estados, como se disse acima (Q[109], A[2]): o primeiro, um estado de natureza perfeita, em que Adão estava antes do seu pecado; o segundo, um estado de natureza corrupta, em que nos encontramos antes de ser restaurados pela graça. Portanto, se falamos do homem no primeiro estado, há uma única razão pela qual ele não pode merecer a vida eterna sem a graça, pelos seus dotes puramente naturais, a saber: o mérito do homem depende da preordenação divina. Ora, nenhum ato de coisa alguma é divinamente ordenado a algo que exceda a proporção das potências que são os princípios do seu ato; pois é lei da divina providência que nada aja além das suas potências. A vida eterna, porém, é um bem que excede a proporção da natureza criada; porque excede o seu conhecimento e desejo, conforme 1 Cor 2,9: «O que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem subiu ao coração do homem». E portanto, nenhuma natureza criada é princípio suficiente de um ato meritório da vida eterna, a menos que se lhe acrescente um dom sobrenatural, que chamamos graça. Mas se falamos do homem existente em pecado, acrescenta-se a esta razão um segundo impedimento, a saber, o impedimento do pecado. Porquanto o pecado, sendo uma ofensa a Deus, exclui-nos da vida eterna, como é claro pelo que foi dito acima (Q[71], A[6]; Q[113], A[2]), ninguém que exista em estado de pecado mortal pode merecer a vida eterna, a menos que primeiramente seja reconciliado com Deus, mediante a remissão do seu pecado, a qual se realiza pela graça. Pois o pecador não merece a vida, mas a morte, segundo Rm 6,23: «O salário do pecado é a morte». **Resposta à objeção 1:** Deus ordenou a natureza humana a alcançar o fim da vida eterna, não pelas suas próprias forças, mas com o auxílio da graça; e deste modo o seu ato pode ser meritório da vida eterna. **Resposta à objeção 2:** Sem a graça, o homem não pode ter uma obra igual a uma obra que procede da graça, porquanto quanto mais perfeito o princípio, tanto mais perfeita a ação. Mas a objeção procederia se supuséssemos as operações iguais em ambos os casos. **Resposta à objeção 3:** Quanto à primeira razão aduzida, o caso é diferente em Deus e no homem. Pois o homem recebe de Deus, e não do homem, todo o seu poder de bem agir. Por isso, o homem nada pode merecer de Deus senão por Seu dom, o que o Apóstolo exprime acertadamente dizendo (Rm 11,35): «Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído?». Ao passo que o homem pode merecer de outro homem, antes de dele ter recebido alguma coisa, pelo que recebeu de Deus. Mas quanto à segunda prova, tomada do impedimento do pecado, o caso é semelhante entre o homem e Deus, pois um homem não pode merecer de outro a quem ofendeu, a menos que lhe faça satisfação e seja reconciliado.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether anyone without grace can merit eternal life? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que o homem não pode merecer nada de Deus. Pois ninguém, ao que parece, merece dando a outro o que lhe é devido. Ora, com todo o bem que fazemos, não podemos retribuir suficientemente a Deus, pois ainda mais lhe é devido, como também diz o Filósofo (Ética, VIII, 14). Donde está escrito (Lc 17,10): «Assim vós também, depois de terdes feito todas estas coisas que vos foram mandadas, dizei: Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.» Logo, o homem nada pode merecer de Deus. Objeção 2: Ademais, parece que o homem nada merece de Deus pelo que só a si aproveita e a Deus em nada aproveita. Ora, agindo bem, o homem aproveita a si ou a outro homem, mas não a Deus, pois está escrito (Jó 35,7): «Se procedes com justiça, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?» Logo, o homem nada pode merecer de Deus. Objeção 3: Além disso, quem merece algo de outrem torna-o seu devedor; pois o salário de um homem é-lhe devido como dívida. Ora, Deus não é devedor de ninguém; donde está escrito (Rm 11,35): «Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído?» Logo, ninguém pode merecer nada de Deus. Em contrário, está escrito (Jr 31,16): «Há recompensa para o teu trabalho.» Ora, recompensa significa algo concedido em razão de mérito. Logo, parece que o homem pode merecer de Deus. Respondo que: Mérito e recompensa se referem à mesma realidade, pois recompensa significa algo dado a alguém em troca de trabalho ou fadiga, como um preço por isso. Portanto, assim como é ato de justiça dar um justo preço por algo recebido de outrem, também é ato de justiça retribuir o trabalho ou a fadiga. Ora, a justiça é uma espécie de igualdade, como é claro pelo Filósofo (Ética, V, 3); por isso a justiça absoluta existe entre aqueles que são absolutamente iguais; mas onde não há igualdade absoluta entre eles, também não há justiça absoluta, mas pode haver uma certa maneira de justiça, como quando falamos do direito paterno ou do senhor (Ética, V, 6), como diz o Filósofo. E, portanto, onde há justiça absoluta, aí há razão de mérito e recompensa absolutos. Mas onde não há direito absoluto, mas apenas relativo, não há razão de mérito absoluto, mas apenas relativo, enquanto se encontra aí a razão de justiça, pois o filho merece algo do pai e o escravo do senhor. Ora, é manifesto que entre Deus e o homem há a máxima desigualdade: pois estão infinitamente distantes, e todo o bem do homem vem de Deus. Logo, não pode haver justiça de igualdade absoluta entre Deus e o homem, mas apenas de certa proporção, enquanto ambos operam segundo o seu modo próprio. Ora, o modo e a medida da virtude humana vêm ao homem de Deus. Portanto, o mérito do homem diante de Deus só existe pressuposta a ordenação divina, de modo que o homem obtém de Deus, como recompensa da sua operação, aquilo para o que Deus lhe deu o poder de operar, assim como as coisas naturais, por seus movimentos e operações próprios, obtêm aquilo para que foram ordenadas por Deus; diferentemente, porém, porque a criatura racional se move a si mesma para agir por seu livre-arbítrio; por isso a sua ação tem razão de mérito, o que não se dá nas outras criaturas. Resposta à objeção 1: O homem merece enquanto, pelo seu livre-arbítrio, faz o que deve; de outra forma, o ato de justiça pelo qual alguém paga uma dívida não seria meritório. Resposta à objeção 2: Deus busca de nossos bens não o proveito, mas a glória, isto é, a manifestação da sua bondade; assim como a busca também nas suas próprias obras. Ora, nada lhe advém a Ele, mas apenas a nós, pelo nosso culto. Logo, merecemos de Deus não porque por nossas obras algo lhe advém, mas enquanto operamos para a sua glória. Resposta à objeção 3: Visto que a nossa ação tem razão de mérito apenas pressuposta a ordenação divina, não se segue que Deus se faça nosso devedor absoluto, mas seu próprio, enquanto é justo que a sua vontade se cumpra.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether a man may merit anything from God? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que sem a graça qualquer um pode merecer a vida eterna. Pois o homem merece de Deus aquilo para que é divinamente ordenado, como se disse acima (A[1]). Ora, o homem por sua natureza é ordenado para a beatitude como seu fim; por isso também deseja naturalmente ser bem-aventurado. Logo, o homem por seus dotes naturais e sem a graça pode merecer a beatitude, que é a vida eterna. Objeção 2: Além disso, quanto menos devido é um trabalho, tanto mais meritório é. Ora, menos devido é aquele trabalho que é feito por quem recebeu menos benefícios. Donde, como aquele que tem apenas dotes naturais recebeu menos dons de Deus do que aquele que tem dons gratuitos além da natureza, parece que suas obras são mais meritórias diante de Deus. E assim, se quem tem graça pode merecer a vida eterna em certa medida, muito mais pode quem não tem graça. Objeção 3: Além disso, a misericórdia e a liberalidade de Deus superam infinitamente a misericórdia e a liberalidade humanas. Ora, um homem pode merecer de outro, mesmo que até então não tenha tido a sua graça. Muito mais, portanto, parece que um homem sem graça pode merecer a vida eterna. Ao contrário, o Apóstolo diz (Rm 6,23): «A graça de Deus, a vida eterna.» Respondo que o homem sem graça pode ser considerado em dois estados, como se disse acima (Q[109], A[2]): o primeiro, um estado de natureza perfeita, no qual Adão estava antes do seu pecado; o segundo, um estado de natureza corrupta, no qual nos encontramos antes de sermos restaurados pela graça. Portanto, se falamos do homem no primeiro estado, há apenas uma razão pela qual o homem não pode merecer a vida eterna sem a graça, apenas por seus dotes puramente naturais, a saber: porque o mérito do homem depende da divina preordenação. Ora, nenhum ato de coisa alguma é divinamente ordenado para algo que exceda a proporção das potências que são os princípios do seu ato; pois é lei da divina providência que nada aja além das suas potências. Ora, a vida eterna é um bem que excede a proporção da natureza criada; pois excede o seu conhecimento e o seu desejo, segundo 1 Cor 2,9: «Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem entrou no coração do homem.» E daí vem que nenhuma natureza criada é princípio suficiente de um ato meritório da vida eterna, a menos que se lhe acrescente um dom sobrenatural, que chamamos graça. Mas se falamos do homem como existente em pecado, acrescenta-se a esta uma segunda razão, a saber, o impedimento do pecado. Pois, sendo o pecado uma ofensa contra Deus, que nos exclui da vida eterna, como é claro pelo que foi dito acima (Q[71], A[6]; Q[113], A[2]), ninguém existindo em estado de pecado mortal pode merecer a vida eterna a menos que primeiro seja reconciliado com Deus, mediante o perdão do seu pecado, o que se realiza pela graça. Pois o pecador merece não a vida, mas a morte, segundo Rm 6,23: «O salário do pecado é a morte.» Resposta à objeção 1: Deus ordenou a natureza humana a atingir o fim da vida eterna, não por sua própria força, mas com o auxílio da graça; e deste modo seu ato pode ser meritório da vida eterna. Resposta à objeção 2: Sem a graça, um homem não pode ter uma obra igual a uma obra procedente da graça, pois quanto mais perfeito o princípio, mais perfeita a ação. Mas a objeção valeria se supuséssemos as operações iguais em ambos os casos. Resposta à objeção 3: Quanto à primeira razão aduzida, o caso é diferente em Deus e no homem. Pois o homem recebe de Deus, e não do homem, todo o seu poder de bem agir. Donde o homem nada pode merecer de Deus senão pelo Seu dom, o que o Apóstolo expressa apropriadamente dizendo (Rm 11,35): «Quem primeiro Lhe deu, para que lhe seja retribuído?» Mas o homem pode merecer do homem, antes de ter recebido dele alguma coisa, por aquilo que recebeu de Deus. Quanto à segunda prova, tirada do impedimento do pecado, o caso é semelhante entre o homem e Deus, pois um homem não pode merecer de outro a quem ofendeu, a menos que lhe faça satisfação e seja reconciliado.

Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether anyone without grace can merit eternal life? · séc. XIII

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