Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os anjos não receberam graça e glória segundo o grau de seus dons naturais. Porque a graça é concedida pela vontade absoluta de Deus. Logo, o grau da graça depende da vontade de Deus, e não do grau de seus dons naturais. Objeção 2: Além disso, um ato moral parece estar mais estreitamente aliado à graça do que a natureza; porque um ato moral é preparatório para a graça. Ora, a graça não vem "das obras", como se diz em Rom. 11, 6. Logo, muito menos depende o grau da graça do grau de seus dons naturais. Objeção 3: Além disso, o homem e o anjo são igualmente ordenados para a bem-aventurança ou graça. Ora, o homem não recebe mais graça segundo o grau de seus dons naturais. Logo, tampouco o anjo. Em contrário, está o dito do Mestre das Sentenças (Sent. ii, D, 3) de que "aqueles anjos que foram criados com naturezas mais sutis e de inteligência mais aguçada em sabedoria, foram igualmente dotados com maiores dons de graça". Respondo que é razoável supor que os dons da graça e a perfeição da bem-aventurança foram concedidos aos anjos segundo o grau de seus dons naturais. A razão para isso pode ser tirada de duas fontes. Primeiramente, da parte de Deus, que, na ordem de sua sabedoria, estabeleceu diversos graus na natureza angélica. Ora, assim como a natureza angélica foi feita por Deus para alcançar a graça e a bem-aventurança, do mesmo modo os graus da natureza angélica parecem estar ordenados para os diversos graus de graça e glória; assim como, por exemplo, quando o edificador talha as pedras para construir uma casa, pelo fato de preparar algumas mais artisticamente e mais convenientemente do que outras, fica claro que as está separando para a parte mais ornada da casa. Assim parece que Deus destinou aqueles anjos para maiores dons de graça e mais plena bem-aventurança, a quem fez de natureza mais elevada. Em segundo lugar, o mesmo é evidente da parte do anjo. O anjo não é um composto de naturezas diferentes, de modo que a inclinação de uma frustre ou retarde a tendência da outra; como acontece no homem, em quem o movimento da sua parte intelectual é ou retardado ou frustrado pela inclinação da sua parte sensitiva. Mas quando não há nada que retarde ou frustre, a natureza é movida com toda a sua energia. Logo, é razoável supor que os anjos que tinham uma natureza mais elevada se voltaram para Deus mais poderosa e eficazmente. O mesmo acontece nos homens, pois maior graça e glória são concedidas segundo a maior veemência da sua conversão para Deus. Daí parece que os anjos que tinham maiores poderes naturais tiveram maior graça e glória. Resposta à Objeção 1: Assim como a graça vem da só vontade de Deus, assim também a natureza do anjo; e como a vontade de Deus ordenou a natureza para a graça, assim também ordenou os diversos graus da natureza para os diversos graus de graça. Resposta à Objeção 2: Os atos da criatura racional procedem da própria criatura; ao passo que a natureza vem imediatamente de Deus. Por conseguinte, parece que a graça é concedida antes segundo o grau da natureza do que segundo as obras. Resposta à Objeção 3: A diversidade dos dons naturais dá-se de um modo nos anjos, que são eles mesmos diferentes especificamente; e de modo bastante diverso nos homens, que diferem apenas numericamente. Pois a diferença específica é por causa do fim; ao passo que a diferença numérica é por causa da matéria. Além disso, há algo no homem que pode frustrar ou impedir o movimento de sua natureza intelectiva; mas não nos anjos. Consequentemente, o argumento não é o mesmo para ambos.
Summa Theologiae — First Part · Article. 6 - Whether the angels receive grace and glory according to the degree of their natural gifts? · séc. XIII
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