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Rm 12, 1

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Matos Soares

1Rogo-vos, pois, Irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus: tal é o culto que a razão exige de vós.

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que devemos observar algum modo no amor a Deus. Pois a noção de bem consiste em modo, espécie e ordem, como afirma Agostinho (De Nat. Boni iii, iv). Ora, o amor de Deus é o que há de melhor no homem, segundo Cl 3,14: "Sobre todas as coisas, tende caridade." Portanto, deve haver um modo no amor de Deus. Objeção 2: Ademais, Agostinho diz (De Morib. Eccl. viii): "Rogo-te, dize-me qual é o modo do amor. Pois temo arder com o desejo e amor de meu Senhor, mais ou menos do que devo." Mas seria inútil buscar o modo do amor divino, se não houvesse um. Logo, há um modo no amor de Deus. Objeção 3: Ademais, como diz Agostinho (Gen. ad lit. iv, 3), "a medida que a natureza atribui a uma coisa é o seu modo." Ora, a medida da vontade humana, como também da ação exterior, é a razão. Portanto, assim como é necessário que a razão atribua um modo ao efeito exterior da caridade, segundo Rm 12,1: "Vosso serviço racional", assim também o amor interior de Deus requer um modo. Em contrário, Bernardo diz (De Dilig. Deum 1) que "Deus é a causa de amarmos a Deus; a medida é amá-Lo sem medida." Respondo: Como se depreende das palavras de Agostinho citadas acima (OBJ 3), modo significa uma determinação de medida; tal determinação se encontra tanto na medida quanto na coisa medida, mas não do mesmo modo. Pois encontra-se na medida essencialmente, porque uma medida é por si mesma a regra determinante e moduladora de outras coisas; ao passo que nas coisas medidas, encontra-se relativamente, isto é, na medida em que atingem a medida. Por isso, nada pode ser desmedido na medida, ao passo que a coisa medida é desmedida se não atinge a medida, seja por deficiência ou por excesso. Ora, em todas as matérias de apetite e ação, a medida é o fim, porque a razão própria de tudo o que desejamos ou fazemos deve ser tirada do fim, como prova o Filósofo (Phys. ii, 9). Portanto, o fim tem um modo por si mesmo, enquanto os meios recebem o seu modo de serem proporcionados ao fim. Por isso, segundo o Filósofo (Polit. i, 3), "em toda arte, o desejo do fim é interminável e ilimitado", ao passo que há um limite para os meios: assim, o médico não impõe limites à saúde, mas torna-a tão perfeita quanto possível; mas impõe um limite ao medicamento, pois não dá tanto medicamento quanto pode, mas segundo a saúde o exige, de modo que, se der demais ou de menos, o medicamento seria desmedido. Além disso, o fim de todas as ações e afeições humanas é o amor de Deus, pelo qual principalmente alcançamos o nosso último fim, como foi dito acima (Q[23], A[6]); por isso, o modo no amor de Deus não deve ser tomado como numa coisa medida, onde encontramos demasiado ou demasiado pouco, mas como na própria medida, onde não pode haver excesso, e onde quanto mais a regra é alcançada, melhor é; de modo que quanto mais amamos a Deus, melhor é o nosso amor. Resposta à Objeção 1: Aquilo que é assim por essência precede aquilo que é assim por outro; por isso, a bondade da medida, que tem o modo essencialmente, precede a bondade da coisa medida, que tem o seu modo através de outra coisa; e assim também a caridade, que tem um modo como a medida tem, está antes das outras virtudes, que têm um modo por serem medidas. Resposta à Objeção 2: Como Agostinho acrescenta no mesmo passo, "a medida do nosso amor a Deus é amá-Lo de todo o coração", isto é, amá-Lo tanto quanto pode ser amado, e isto pertence ao modo próprio da medida. Resposta à Objeção 3: Uma afeição, cujo objeto está sujeito ao juízo da razão, deve ser medida pela razão. Mas o objeto do amor divino, que é Deus, supera o juízo da razão; por isso, não é medido pela razão, mas a transcende. Nem há paridade entre o ato interior e os atos exteriores da caridade. Pois o ato interior da caridade tem a natureza de fim, visto que o bem último do homem consiste na sua alma aderir a Deus, segundo Sl 72,28: "Para mim é bom aderir a Deus"; ao passo que os atos exteriores são como meios para o fim, e assim devem ser medidos tanto segundo a caridade quanto segundo a razão.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether in loving God we ought to observe any mode? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Parece que a oferta de sacrifício não é um acto especial de virtude. Pois Agostinho diz (De Civ. Dei X, 6): «Um verdadeiro sacrifício é qualquer obra feita para que nos unamos a Deus em santa comunhão.» Ora, nem toda a boa obra é um acto especial de alguma virtude determinada. Logo, a oferta de sacrifício não é um acto especial de uma virtude determinada. Além disso, a mortificação do corpo pelo jejum pertence à abstinência, pela continência pertence à castidade, pelo martírio pertence à fortaleza. Ora, todas estas coisas parecem estar compreendidas na oferta de sacrifício, segundo Rom. 12, 1: «Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo.» Além disso, o Apóstolo diz (Heb. 13, 16): «Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir, pois com tais sacrifícios se alcança o favor de Deus.» Ora, fazer o bem e repartir pertence à caridade, à misericórdia e à liberalidade. Logo, a oferta de sacrifício não é um acto especial de uma virtude determinada. Além disso, um sacrifício é aparentemente qualquer coisa oferecida a Deus. Ora, muitas coisas são oferecidas a Deus, como a devoção, a oração, os dízimos, as primícias, as oblações e os holocaustos. Logo, o sacrifício não parece ser um acto especial de uma virtude determinada. Mas, em contrário, a lei contém preceitos especiais sobre os sacrifícios, como aparece desde o início do Levítico. Respondo que, como se disse acima (Primeira da Segunda, Q. 18, A. 6, 7), quando um acto de uma virtude é ordenado ao fim de outra virtude, participa de certo modo da sua espécie; assim, quando um homem furta para cometer fornicação, o seu furto assume, de certo modo, a deformidade da fornicação, de modo que, mesmo que não fosse pecado por outra razão, seria pecado pelo próprio facto de ser ordenado à fornicação. Assim, o sacrifício é um acto especial digno de louvor na medida em que é feito por reverência a Deus; e por isso pertence a uma virtude determinada, a saber, a religião. Mas acontece que os actos das outras virtudes são ordenados à reverência de Deus, como quando um homem dá esmola dos seus bens por amor de Deus, ou quando um homem sujeita o seu próprio corpo a alguma aflição por reverência a Deus; e desta forma também os actos das outras virtudes podem chamar-se sacrifícios. Por outro lado, há actos que não são dignos de louvor senão por serem feitos por reverência a Deus: tais actos chamam-se propriamente sacrifícios, e pertencem à virtude da religião. Resposta à primeira objeção: O próprio facto de desejarmos unir-nos a Deus em comunhão espiritual pertence à reverência a Deus; e consequentemente o acto de qualquer virtude assume a natureza de sacrifício por ser feito para que nos unamos a Deus em santa comunhão. Resposta à segunda objeção: O bem do homem é tríplice. Primeiro, o bem da sua alma, que é oferecido a Deus num certo sacrifício interior pela devoção, oração e outros actos interiores semelhantes: e este é o principal sacrifício. Segundo, o bem do seu corpo, que é, por assim dizer, oferecido a Deus no martírio, e na abstinência ou continência. Terceiro, o bem que consiste nas coisas exteriores: e destas oferecemos um sacrifício a Deus, directamente quando oferecemos a nossa possessão imediatamente a Deus, e indirectamente quando as repartimos com o nosso próximo por amor de Deus. Resposta à terceira objeção: Um «sacrifício», propriamente falando, requer que se faça algo à coisa que é oferecida a Deus, por exemplo, os animais eram mortos e queimados, o pão é partido, comido, benzido. A própria palavra significa isto, pois «sacrifício» se chama assim porque um homem faz algo sagrado [facit sacrum]. Por outro lado, uma «oblação» é propriamente a oferta de algo a Deus, mesmo que nada se lhe faça; assim, falamos de oferecer dinheiro ou pão no altar, e contudo nada se lhes faz. Por isso, todo o sacrifício é uma oblação, mas não inversamente. As «primícias» são oblações, porque eram oferecidas a Deus, segundo Deut. 26, mas não são um sacrifício, porque não se lhes fazia nada sagrado. Os «dízimos», porém, não são nem sacrifício nem oblação, propriamente falando, porque não são oferecidos imediatamente a Deus, mas aos ministros do culto divino.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the offering of sacrifice is a special act of virtue? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o voto não precisa ser sempre acerca de um bem melhor. Um bem maior é o que pertence à supererrogação. Mas os votos não são apenas acerca de matérias de supererrogação, mas também acerca de matérias de salvação: assim no Batismo os homens prometem renunciar ao demônio e às suas pompas, e guardar a fé, como observa uma glosa sobre Sl 75,12: "Votai, e pagai ao Senhor vosso Deus"; e Jacó prometeu (Gn 28,21) que o Senhor fosse o seu Deus. Ora, isto, acima de tudo, é necessário para a salvação. Portanto, os votos não são apenas acerca de um bem melhor. Objeção 2: Além disso, Jefté é contado entre os santos (Hb 11,32). Contudo, ele matou a sua filha inocente por causa do seu voto (Jz 11). Ora, sendo que a morte de uma pessoa inocente não é um bem melhor, mas é em si mesma ilícita, parece que se pode fazer voto não apenas acerca de um bem melhor, mas também acerca de algo ilícito. Objeção 3: Ademais, coisas que tendem a ser nocivas à pessoa, ou que são totalmente inúteis, não se enquadram na categoria de bem melhor. Contudo, às vezes se fazem votos acerca de vigílias ou jejuns imoderados, que tendem a prejudicar a pessoa; e às vezes se fazem votos acerca de coisas indiferentes e que não servem para nada. Portanto, o voto nem sempre é acerca de um bem melhor. Ao contrário, está escrito (Dt 23,22): "Se não prometeres, não terás pecado." Respondo que, como foi dito acima (A[1]), o voto é uma promessa feita a Deus. Ora, uma promessa diz respeito a algo que se faz voluntariamente para outrem; visto que não seria uma promessa, mas uma ameaça, dizer que se faria algo contra alguém. Do mesmo modo, seria fútil prometer a alguém algo que lhe é inaceitável. Portanto, como todo pecado é contra Deus, e nenhuma obra é aceitável a Deus a menos que seja virtuosa, segue-se que nada de ilícito ou indiferente, mas apenas algum ato de virtude, deve ser a matéria do voto. Mas como o voto denota uma promessa voluntária, ao passo que a necessidade exclui a voluntariedade, tudo o que é absolutamente necessário, quer seja ser ou não ser, de modo algum pode ser matéria de voto. Pois seria tolo prometer que se morreria ou que não se voaria. Por outro lado, se uma coisa é necessária não absolutamente, mas na suposição de um fim — por exemplo, se a salvação é inatingível sem ela —, pode ser matéria de voto enquanto é feita voluntariamente, mas não enquanto há necessidade de fazê-la. Mas aquilo que não é necessário, nem absolutamente nem na suposição de um fim, é totalmente voluntário e, portanto, é o que mais propriamente constitui a matéria do voto. E isto é dito ser um bem maior em comparação com o que é universalmente necessário para a salvação. Portanto, propriamente falando, diz-se que o voto é acerca de um bem melhor. Resposta à Objeção 1: Renunciar às pompas do demônio e guardar a fé de Cristo são a matéria dos votos batismais, enquanto essas coisas são feitas voluntariamente, ainda que sejam necessárias para a salvação. A mesma resposta se aplica ao voto de Jacó: embora também se possa explicar que Jacó prometeu que teria o Senhor por seu Deus, prestando-Lhe um culto particular ao qual não estava obrigado, por exemplo, oferecendo dízimos e assim por diante, como se menciona adiante na mesma passagem. Resposta à Objeção 2: Certas coisas são boas, qualquer que seja o seu resultado; tais são os atos de virtude, e estas podem, absolutamente falando, ser matéria de voto: algumas são más, qualquer que seja o seu resultado; como aquelas coisas que são pecados em si mesmas, e estas de modo algum podem ser matéria de voto: enquanto algumas, consideradas em si mesmas, são boas, e como tais podem ser matéria de voto, contudo podem ter um resultado mau, e neste caso o voto não deve ser cumprido. Assim foi com o voto de Jefté, que, conforme narrado em Jz 11,30-31, "fez um voto ao Senhor, dizendo: Se entregares os filhos de Amon nas minhas mãos, quem quer que primeiro sair das portas da minha casa e me vier ao encontro quando eu voltar em paz… esse oferecerei em holocausto ao Senhor." Pois isto poderia ter um resultado mau se, como de fato aconteceu, viesse a ser encontrado por algum animal que fosse ilícito sacrificar, como um asno ou um ser humano. Por isso Jerônimo diz [*Implicitamente 1 Contra Joviniano: Comentário sobre Miqueias vi, viii: Comentário sobre Jeremias vii. A citação é de Pedro Comestor, Hist. Scholast.]: "Ao fazer o voto foi insensato, por falta de discrição, e ao cumprir o voto foi ímpio." No entanto, está dito antes (Jz 11,29) que "o Espírito do Senhor veio sobre ele", porque a sua fé e devoção, que o moveram a fazer aquele voto, eram do Espírito Santo; e por esta razão é contado entre os santos, bem como pela vitória que obteve, e porque é provável que se tenha arrependido do seu ato pecaminoso, que, não obstante, prefigurou algo de bom. Resposta à Objeção 3: A mortificação do próprio corpo, por exemplo pelas vigílias e jejuns, não é aceitável a Deus senão enquanto é ato de virtude; e isso depende de ser feita com a devida discrição, a saber, que a concupiscência seja refreada sem sobrecarregar a natureza. Sob esta condição, tais coisas podem ser matéria de voto. Por isso o Apóstolo, depois de dizer (Rm 12,1): "Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus", acrescenta: "vosso culto racional." Contudo, visto que o homem facilmente se engana ao julgar as coisas que lhe dizem respeito, tais votos são mais convenientemente cumpridos ou omitidos segundo o juízo de um superior, mas de tal modo que, se alguém perceber que sem dúvida é gravemente sobrecarregado por cumprir tal voto, e não puder recorrer ao superior, não deve cumpri-lo. Quanto aos votos sobre coisas vãs e inúteis, devem ser ridicularizados em vez de cumpridos.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether a vow should always be about a better good? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a consagração deste sacramento não pertence exclusivamente ao sacerdote. Porque foi dito acima (Q[78], A[4]) que este sacramento é consagrado em virtude das palavras, que são a forma deste sacramento. Mas tais palavras não são mudadas, sejam ditas por um sacerdote ou por qualquer outro. Logo, parece que não só o sacerdote, mas qualquer outro pode consagrar este sacramento. Objeção 2: Ademais, o sacerdote realiza este sacramento na pessoa de Cristo. Mas um leigo devoto está unido a Cristo pela caridade. Logo, parece que até um leigo pode realizar este sacramento. Donde diz Crisóstomo (Opus imperfectum in Matth. Hom. xliii): «Todo homem santo é sacerdote.» Objeção 3: Ademais, assim como o Batismo é ordenado para a salvação dos homens, também o é este sacramento, como é claro pelo que foi dito acima (Q[74], A[1]; Q[79], A[2]). Ora, um leigo também pode batizar, como foi estabelecido acima (Q[67], A[3]). Por conseguinte, a consagração deste sacramento não é própria do sacerdote. Objeção 4: Ademais, este sacramento se completa na consagração da matéria. Ora, a consagração de outras matérias, como o crisma, o óleo santo e o óleo bento, pertence exclusivamente ao bispo; contudo, sua consagração não iguala a dignidade da consagração da Eucaristia, na qual está contido todo o Cristo. Portanto, realizar este sacramento pertence, não ao sacerdote, mas somente ao bispo. Ao contrário, diz Isidoro numa Epístola a Ludifredo (Decretais, dist. 25): «Pertence ao sacerdote consagrar este sacramento do corpo e sangue do Senhor sobre o altar de Deus.» Respondo que, como foi dito acima (Q[78], AA[1],4), tal é a dignidade deste sacramento que ele é realizado apenas como na pessoa de Cristo. Ora, quem realiza qualquer ato em lugar de outro deve fazê-lo pelo poder daquele que o confere. Mas, assim como o poder de receber este sacramento é concedido por Cristo ao batizado, assim também o poder de consagrar este sacramento em nome de Cristo é conferido ao sacerdote em sua ordenação: pois por ela ele é posto ao nível daqueles a quem o Senhor disse (Lc 22,19): «Fazei isto em memória de Mim.» Portanto, deve-se dizer que pertence aos sacerdotes realizar este sacramento. Resposta à Objeção 1: O poder sacramental está em várias coisas, e não apenas em uma: assim o poder do Batismo reside tanto nas palavras como na água. Por conseguinte, o poder consagrador não está meramente nas palavras, mas também no poder conferido ao sacerdote em sua consagração e ordenação, quando o bispo lhe diz: «Recebe o poder de oferecer o Sacrifício na Igreja pelos vivos e pelos mortos.» Pois o poder instrumental reside em vários instrumentos pelos quais o agente principal atua. Resposta à Objeção 2: Um leigo devoto está unido a Cristo por união espiritual mediante a fé e a caridade, mas não pelo poder sacramental; consequentemente, ele possui um sacerdócio espiritual para oferecer sacrifícios espirituais, dos quais está dito (Sl 51,19): «Sacrifício a Deus é o espírito aflito»; e (Rm 12,1): «Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo.» Daí também está escrito (1 Pe 2,5): «Sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais.» Resposta à Objeção 3: O recebimento deste sacramento não é de tanta necessidade como o recebimento do Batismo, como é evidente pelo que foi dito acima (Q[65], AA[3],4; Q[80], A[11], ad 2). E portanto, embora um leigo possa batizar em caso de necessidade, não pode realizar este sacramento. Resposta à Objeção 4: O bispo recebe o poder de agir em nome de Cristo sobre o seu corpo místico, isto é, sobre a Igreja; mas o sacerdote não recebe tal poder em sua consagração, embora possa tê-lo por comissão do bispo. Consequentemente, todas as coisas que não pertencem ao corpo místico não são reservadas ao bispo, como a consagração deste sacramento. Mas pertence ao bispo entregar, não só ao povo, mas também aos sacerdotes, as coisas que lhes servem no cumprimento de seus respectivos deveres. E porque a bênção do crisma, do óleo santo, do óleo dos enfermos e de outras coisas consagradas, como altares, igrejas, vestimentas e vasos sagrados, torna tais coisas aptas para uso na realização dos sacramentos que pertencem ao ofício sacerdotal, por isso tais consagrações são reservadas ao bispo como cabeça de toda a ordem eclesiástica.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether the consecration of this sacrament belongs to a priest alone? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não é lícito conjurar um homem. Diz Orígenes (Tratado XXXV sobre São Mateus): «Penso que um homem que deseja viver segundo o Evangelho não deve conjurar outro homem. Porque se, segundo o mandamento evangélico de Cristo, é ilícito jurar, é evidente que também não é lícito conjurar; e consequentemente é manifesto que o sumo sacerdote conjurou ilicitamente a Jesus pelo Deus vivo.» Objeção 2: Além disso, quem conjura um homem, de certo modo o obriga. Mas é ilícito obrigar um homem contra a sua vontade. Logo, ao que parece, também é ilícito conjurar um homem. Objeção 3: Além disso, conjurar é induzir alguém a jurar. Ora, induzir alguém a jurar pertence ao seu superior, pois o superior impõe juramento ao seu súdito. Logo, os súditos não podem conjurar os seus superiores. Ao contrário, ainda quando oramos a Deus, O imploramos por certas coisas santas; e o Apóstolo também suplicou aos fiéis «pela misericórdia de Deus» (Rm 12,1); e isto parece ser uma espécie de conjuração. Logo, é lícito conjurar. Respondo: O homem que profere um juramento promissório, jurando por reverência ao nome divino, que invoca em confirmação da sua promessa, obriga-se a cumprir o que empreendeu, e assim se ordena imutavelmente a fazer certa coisa. Ora, assim como o homem pode ordenar-se a si mesmo a fazer certa coisa, também pode ordenar os outros, suplicando aos seus superiores ou comandando os seus inferiores, como foi dito acima (Q. 83, A. 1). Por conseguinte, quando qualquer uma destas ordenações é confirmada por algo divino, é uma conjuração. Contudo, há esta diferença entre elas: que o homem é senhor das suas próprias ações, mas não das dos outros; pelo que pode colocar-se a si mesmo sob obrigação invocando o nome divino, mas não pode colocar os outros sob tal obrigação, a menos que sejam seus súditos, a quem pode obrigar em virtude do juramento que fizeram. Portanto, se um homem, invocando o nome de Deus ou qualquer coisa santa, tenciona por esta conjuração colocar alguém que não é seu súdito sob obrigação de fazer certa coisa, do mesmo modo que se obrigaria a si mesmo por juramento, tal conjuração é ilícita, porque usurpa sobre outrem um poder que não tem. Mas os superiores podem obrigar os seus inferiores por este tipo de conjuração, se houver necessidade. Se, contudo, tencionar apenas, por reverência ao nome divino ou a alguma coisa santa, obter algo do outro homem sem o colocar sob qualquer obrigação, tal conjuração pode ser licitamente empregada para com qualquer um. Resposta à Objeção 1: Orígenes fala de uma conjuração pela qual um homem tenciona colocar outro sob obrigação, do mesmo modo que se obrigaria a si mesmo por juramento; pois assim o sumo sacerdote presumiu conjurar a Nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 26,63). Resposta à Objeção 2: Esta objeção considera a conjuração que impõe obrigação. Resposta à Objeção 3: Conjurar não é induzir um homem a jurar, mas empregar termos que se assemelham a um juramento para incitar outro a fazer certa coisa. Além disso, conjuramos a Deus de um modo e ao homem de outro; porque quando conjuramos um homem, tencionamos alterar a sua vontade apelando para a sua reverência por uma coisa santa; e não podemos ter tal intenção a respeito de Deus, cuja vontade é imutável. Se obtivermos algo de Deus pela Sua vontade eterna, isso se deve, não aos nossos méritos, mas à Sua bondade.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether it is lawful to adjure a man? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não se pode atribuir causa conveniente às cerimônias pertinentes aos sacrifícios. Pois aquelas coisas que se ofereciam em sacrifício são as necessárias para sustentar a vida humana, como certos animais e certos pães. Mas Deus não necessita de tal sustento, segundo o Salmo 49,13: «Acaso comerei eu a carne de touros? Ou beberei o sangue de bodes?» Logo, tais sacrifícios eram oferecidos a Deus inconvenientemente. Objeção 2: Ademais, apenas três espécies de quadrúpedes eram oferecidas em sacrifício a Deus, a saber: bois, ovelhas e cabras; das aves, geralmente a rola e a pomba; mas especialmente, na purificação de um leproso, ofereciam-se pardais. Ora, muitos outros animais são mais nobres que estes. Portanto, visto que o que é melhor deve ser oferecido a Deus, parece que não só destes três se Lhe deveriam oferecer sacrifícios. Objeção 3: Ademais, assim como o homem recebeu de Deus o domínio sobre as aves e os animais, também o recebeu sobre os peixes. Consequentemente, era inconveniente que os peixes fossem excluídos dos divinos sacrifícios. Objeção 4: Ademais, indistintamente se manda oferecer rolas e pombas. Portanto, assim como se manda oferecer os pombinhos, também se deveriam oferecer os filhotes da rola. Objeção 5: Ademais, Deus é o Autor da vida, não só dos homens, mas também dos animais, como se vê em Gn 1,20 e seguintes. Ora, a morte é oposta à vida. Logo, era conveniente que animais vivos, e não mortos, fossem oferecidos a Deus, especialmente porque o Apóstolo nos admoesta (Rm 12,1) a apresentar nossos corpos «como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». Objeção 6: Ademais, se somente animais mortos eram oferecidos em sacrifício a Deus, parece que não importava como eram mortos. Logo, era inconveniente que se determinasse o modo de imolação, especialmente quanto às aves (Lv 1,15 e seguintes). Objeção 7: Ademais, todo defeito em um animal é um passo para a corrupção e a morte. Se, portanto, animais mortos eram oferecidos a Deus, não era razoável proibir a oferta de um animal imperfeito, como coxo, cego ou com outro defeito. Objeção 8: Ademais, aqueles que oferecem vítimas a Deus devem delas participar, segundo as palavras do Apóstolo (1Cor 10,18): «Não são porventura participantes do altar os que comem dos sacrifícios?» Era, pois, inconveniente que se negassem aos ofertantes certas partes das vítimas, a saber, o sangue, a gordura, o peito e a espádua direita. Objeção 9: Ademais, assim como os holocaustos eram oferecidos em honra de Deus, também o eram os sacrifícios pacíficos e os pelo pecado. Ora, nenhum animal fêmea era oferecido a Deus como holocausto, embora holocaustos fossem oferecidos tanto de quadrúpedes como de aves. Logo, era inconsistente que animais fêmeas fossem oferecidas nos sacrifícios pacíficos e pelo pecado, e que, no entanto, não se oferecessem aves nos sacrifícios pacíficos. Objeção 10: Ademais, todos os sacrifícios pacíficos parecem ser de uma só espécie. Portanto, era inconveniente fazer distinção entre eles, proibindo-se comer a carne de certos sacrifícios pacíficos no dia seguinte, enquanto se permitia comer a carne de outros, conforme o estabelecido em Lv 7,15 e seguintes. Objeção 11: Ademais, todos os pecados concordam em afastar-nos de Deus. Portanto, para nos reconciliar com Deus, um só tipo de sacrifício deveria ter sido oferecido por todos os pecados. Objeção 12: Ademais, todos os animais que se ofereciam em sacrifício eram oferecidos de um mesmo modo, a saber, mortos. Logo, não parece conveniente que os produtos do solo fossem oferecidos de modos diversos; pois umas vezes se ofereciam espigas, outras farinha, outras pão, cozido este ora no forno, ora na frigideira, ora na grelha. Objeção 13: Ademais, todas as coisas que nos são úteis devem ser reconhecidas como vindas de Deus. Era, portanto, inconveniente que, além dos animais, somente se oferecessem a Deus pão, vinho, azeite, incenso e sal. Objeção 14: Ademais, os sacrifícios corporais significam o sacrifício interior do coração, pelo qual o homem oferece a sua alma a Deus. Ora, no sacrifício interior, a doçura, significada pelo mel, supera a picância que o sal representa; pois está escrito (Eclo 24,27): «O meu espírito é doce sobre o mel.» Logo, era inconveniente que se proibisse o uso do mel e do fermento, que torna o pão saboroso, no sacrifício, enquanto se prescrevia o uso do sal, que é picante, e do incenso, que tem gosto amargo. Consequentemente, parece que as coisas pertencentes às cerimônias dos sacrifícios não têm causa razoável. Pelo contrário, está escrito (Lv 1,13): «O sacerdote oferecerá tudo e queimará tudo sobre o altar, em holocausto, e aroma de suavidade para o Senhor.» Ora, segundo Sb 7,28, «Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria»; donde parece seguir-se que tudo o que é aceito a Deus é feito sabiamente. Logo, estas cerimônias dos sacrifícios foram sabiamente feitas, por terem causas razoáveis. Respondo que, como se disse acima (A[2]), as cerimônias da Lei Antiga tinham dupla causa: uma causa literal, segundo eram ordenadas ao culto divino; e uma causa figurativa ou mística, segundo eram ordenadas a prefigurar Cristo; e de ambos os lados se podem atribuir causas convenientes às cerimônias dos sacrifícios. Porque, segundo as cerimônias dos sacrifícios eram ordenadas ao culto divino, as causas dos sacrifícios podem-se tomar de dois modos. Primeiro, na medida em que o sacrifício representava a ordenação da mente para Deus, à qual o ofertante do sacrifício era estimulado. Ora, para ordenar retamente a mente para Deus, o homem deve reconhecer que tudo quanto tem vem de Deus como de seu primeiro princípio, e ordená-lo para Deus como seu último fim. Isto se significava nas oblações e sacrifícios, pelo fato de o homem oferecer algumas de suas próprias coisas em honra de Deus, como que em reconhecimento de as ter recebido de Deus, conforme o dito de Davi (1Cr 29,14): «Todas as coisas são tuas; e o que recebemos de tua mão, isso te damos.» Por onde, ao oferecer sacrifícios, o homem protestava que Deus é o primeiro princípio da criação de todas as coisas e o seu último fim, para o qual todas as coisas devem ser ordenadas. E porque, para que a mente humana se ordene retamente para Deus, é mister que não reconheça outro autor primeiro das coisas senão Deus, nem ponha o seu fim em outro; por isso foi proibido na Lei oferecer sacrifício a outro senão a Deus, segundo Êx 22,20: «Quem sacrificar a deuses, será morto, exceto só ao Senhor.» Por onde, pode-se atribuir outra causa razoável às cerimônias dos sacrifícios, pelo fato de que por elas os homens eram afastados de oferecer sacrifícios aos ídolos. Daí também vem que os preceitos acerca dos sacrifícios não foram dados ao povo judeu senão depois de terem caído na idolatria, adorando o bezerro de fundição; como se aqueles sacrifícios fossem instituídos para que o povo, estando disposto a oferecer sacrifícios, os oferecesse a Deus antes que aos ídolos. Assim está escrito (Jr 7,22): «Não falei a vossos pais e não lhes ordenei, no dia em que os tirei da terra do Egito, acerca de holocaustos e sacrifícios.» Ora, de todos os dons que Deus concedeu ao gênero humano depois que este caiu pelo pecado, o principal é que deu o seu Filho; por onde está escrito (Jo 3,16): «Deus amou de tal modo o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.» Consequentemente, o principal sacrifício é aquele pelo qual o próprio Cristo «se entregou a Deus em odor de suavidade» (Ef 5,2). E por esta razão todos os outros sacrifícios da Lei Antiga eram oferecidos para prefigurar este único e supremo sacrifício — o imperfeito prefigurando o perfeito. Por isso o Apóstolo diz (Hb 10,11) que o sacerdote da Lei Antiga «oferecia muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas» Cristo ofereceu «um único sacrifício pelos pecados, para sempre». E como a razão da figura se toma daquilo que a figura representa, por isso as razões dos sacrifícios figurados da Lei Antiga devem ser tomadas do verdadeiro sacrifício de Cristo. Resposta à Objeção 1: Deus não queria que estes sacrifícios Lhe fossem oferecidos por causa das próprias coisas oferecidas, como se delas necessitasse; por onde está escrito (Is 1,11): «Não desejo holocaustos de carneiros, nem gordura de cevados, nem sangue de bezerros, de cordeiros e de bodes.» Mas, como se disse acima, queria que Lhe fossem oferecidos para evitar a idolatria; para significar a reta ordenação da mente do homem para Deus; e para representar o mistério da Redenção do homem por Cristo. Resposta à Objeção 2: Em todos os aspectos mencionados acima (ad 1), houve razão conveniente para que estes animais, mais do que outros, fossem oferecidos em sacrifício a Deus. Primeiro, para evitar a idolatria. Porque os idólatras ofereciam todos os outros animais aos seus deuses, ou deles se serviam nas suas feitiçarias; enquanto os egípcios (entre os quais o povo estivera morando) consideravam abominável matar estes animais, por isso não costumavam oferecê-los em sacrifício aos seus deuses. Daí está escrito (Êx 8,26): «Sacrificaremos as abominações dos egípcios ao Senhor nosso Deus.» Pois eles adoravam a ovelha; reverenciavam o carneiro (porque os demônios apareciam sob sua forma); e empregavam os bois para a agricultura, o que era por eles tido como algo sagrado. Segundo, isto era conveniente para a mencionada reta ordenação da mente do homem para Deus; e de dois modos. Primeiro, porque é principalmente por meio destes animais que a vida humana se sustenta; além disso, são muito limpos e se alimentam de comida muito limpa; ao passo que outros animais ou são selvagens e não destinados ao uso comum entre os homens; ou, se são domésticos, têm comida impura, como os porcos e os gansos; e nada senão o que é limpo deve ser oferecido a Deus. Estas aves especialmente eram oferecidas em sacrifício porque havia abundância delas na terra da promessa. Segundo, porque o sacrifício destes animais representava a pureza do coração. Porque, como diz a glosa sobre Lv 1, «Oferecemos um bezerro, quando vencemos a soberba da carne; um cordeiro, quando refreamos nossos movimentos desordenados; um cabrito, quando vencemos a lascívia; uma rola, quando guardamos a castidade; pão ázimo, quando nos saciamos com o pão da sinceridade.» E é evidente que a pomba significa a caridade e a simplicidade do coração. Terceiro, era conveniente que estes animais fossem oferecidos para prefigurar a Cristo. Porque, como observa a glosa, «Cristo é oferecido no bezerro, para significar a força da cruz; no cordeiro, para significar a sua inocência; no carneiro, para prefigurar a sua chefia; e no cabrito, para significar a semelhança da 'carne do pecado' [Alusão a Cl 2,11 (Texto Recebido)]. A rola e a pomba significavam a união das duas naturezas»; ou então a rola significava a castidade, enquanto a pomba era figura da caridade. «A farinha de trigo prefigurava a aspersão dos crentes com a água do Batismo.» Resposta à Objeção 3: Os peixes, por viverem na água, estão mais afastados do homem do que os outros animais, que, como o homem, vivem no ar. Além disso, os peixes morrem logo que são tirados da água; por isso não podiam ser oferecidos no templo como os outros animais. Resposta à Objeção 4: Entre as rolas, as mais velhas são melhores que as novas; ao passo que com as pombas se dá o contrário. Por onde, como observa o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), mandam-se oferecer rolas e pombinhos, porque nada se deve oferecer a Deus senão o que é melhor. Resposta à Objeção 5: Os animais que se ofereciam em sacrifício eram mortos, porque é sendo mortos que se tornam úteis ao homem, visto que Deus os deu ao homem para alimento. Por onde também eram queimados com fogo: porque é sendo cozidos que se tornam aptos para o consumo humano. Além disso, a morte dos animais significava a destruição dos pecados; e também que o homem merecia a morte por causa dos seus pecados; como se aqueles animais fossem mortos em lugar do homem, para significar a expiação dos pecados. Igualmente, a morte destes animais significava a morte de Cristo. Resposta à Objeção 6: A Lei fixou o modo especial de matar os animais sacrificiais para excluir outras maneiras de matar, pelas quais os idólatras sacrificavam animais aos ídolos. Ou ainda, como diz o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), «a Lei escolheu aquele modo de matar que era menos doloroso para o animal morto.» Isto excluía a crueldade por parte dos ofertantes e qualquer mutilação dos animais mortos. Resposta à Objeção 7: É porque os animais impuros costumam ser tidos em desprezo entre os homens, que se proibiu oferecê-los em sacrifício a Deus; e por esta razão também se proibiu (Dt 23,18) oferecer «o salário de prostituta ou o preço de um cão na casa de... Deus». Pela mesma razão, não ofereciam animais antes do sétimo dia, porque estes eram como que abortivos, não estando ainda firme a carne devido à sua excessiva moleza. Resposta à Objeção 8: Havia três espécies de sacrifícios. Havia um em que a vítima era totalmente consumida pelo fogo; chamava-se «holocausto, i.e., tudo queimado». Pois esta espécie de sacrifício era oferecida a Deus especialmente para mostrar reverência à sua majestade e amor à sua bondade; e tipificava o estado de perfeição quanto ao cumprimento dos conselhos. Por onde tudo era queimado; de modo que, assim como o animal todo, dissolvendo-se em vapor, se elevava ao alto, significava que o homem todo e tudo o que lhe pertence estão sujeitos à autoridade de Deus e devem ser-Lhe oferecidos. Outro sacrifício era o «pelo pecado», que se oferecia a Deus por causa da necessidade que o homem tem do perdão dos pecados; e este tipifica o estado dos penitentes na satisfação pelos pecados. Dividia-se em duas partes: pois uma parte era queimada; a outra era concedida ao uso dos sacerdotes para significar que a remissão dos pecados é concedida por Deus mediante o ministério dos seus sacerdotes. Quando, porém, este sacrifício era oferecido pelos pecados de todo o povo, ou especialmente pelo pecado do sacerdote, a vítima toda era queimada. Pois não era conveniente que os sacerdotes tivessem o uso daquilo que era oferecido pelos seus próprios pecados, para significar que neles não devia permanecer nada de pecaminoso. Além disso, isto não seria satisfação pelo pecado: pois se a oferta fosse concedida ao uso daqueles por cujos pecados era oferecida, pareceria o mesmo que se não tivesse sido oferecida. O terceiro tipo de sacrifício chamava-se «pacífico», que se oferecia a Deus, ou em ação de graças, ou pelo bem-estar e prosperidade dos ofertantes, em reconhecimento de benefícios já recebidos ou a receber; e este tipifica o estado daqueles que são proficientes na observância dos mandamentos. Estes sacrifícios dividiam-se em três partes: pois uma parte era queimada em honra de Deus; outra parte era atribuída ao uso dos sacerdotes; e a terceira parte, ao uso dos ofertantes; para significar que a salvação do homem vem de Deus, pela direção dos ministros de Deus e pela cooperação dos que são salvos. Mas era regra universal que o sangue e a gordura não fossem atribuídos ao uso nem dos sacerdotes nem dos ofertantes; sendo o sangue derramado ao pé do altar, em honra de Deus, enquanto a gordura era queimada sobre o altar (Lv 9,9.10). A razão disto era, primeiro, para evitar a idolatria: porque os idólatras costumavam beber o sangue e comer a gordura das vítimas, segundo Dt 32,38: «Da gordura de cujas vítimas comiam, e bebiam o vinho das suas libações.» Segundo, para os formar a um reto modo de viver. Pois era-lhes proibido o uso do sangue para que abominassem o derramamento de sangue humano; por onde está escrito (Gn 9,4.5): «Carne com sangue não comereis; porque eu requererei o sangue das vossas almas»; e era-lhes proibido comer a gordura, para os afastar da lascívia; daí está escrito (Ez 34,3): «Matastes o que era gordo.» Terceiro, por causa da reverência devida a Deus: porque o sangue é o mais necessário para a vida, pelo que se diz que «a vida está no sangue» (Lv 17,11.14); enquanto a gordura é sinal de abundante nutrição. Por onde, para mostrar que a Deus devemos tanto a vida como a suficiência de todos os bens, o sangue era derramado e a gordura queimada em sua honra. Quarto, para prefigurar o derramamento do sangue de Cristo e a abundância da sua caridade, pela qual se ofereceu a Deus por nós. Nos sacrifícios pacíficos, o peito e a espádua direita eram atribuídos ao uso do sacerdote, para evitar uma certa espécie de adivinhação conhecida como «spatulamantia», assim chamada porque era costume, na adivinhação, usar a omoplata [spatula] e o peito dos animais oferecidos em sacrifício; por onde estas coisas eram tiradas aos ofertantes. Isto também significava a necessidade que o sacerdote tem de sabedoria no coração, para instruir o povo — o que era significado pelo peito, que cobre o coração; e a sua necessidade de fortaleza, para suportar a fraqueza humana — o que era significado pela espádua direita. Resposta à Objeção 9: Porque o holocausto era o mais perfeito tipo de sacrifício, por isso somente um macho era oferecido em holocausto: porque a fêmea é um animal imperfeito. A oferta de rolas e pombas era por causa da pobreza dos ofertantes, que não podiam oferecer animais maiores. E como as vítimas pacíficas eram oferecidas livremente, e ninguém era obrigado a oferecê-las contra a sua vontade, por isso estas aves não eram oferecidas entre as vítimas pacíficas, mas entre os holocaustos e as vítimas pelo pecado, que o homem era obrigado a oferecer por vezes. Além disso, estas aves, devido ao seu voo elevado, são adequadas à perfeição dos holocaustos; e eram convenientes para os sacrifícios pelo pecado porque o seu canto é lastimoso. Resposta à Objeção 10: O holocausto era o principal de todos os sacrifícios: porque tudo era queimado em honra de Deus, e nada dele se comia. O segundo lugar em santidade pertence ao sacrifício pelos pecados, que era comido somente no átrio e no mesmo dia do sacrifício (Lv 7,6.15). O terceiro lugar deve ser dado aos sacrifícios pacíficos de ação de graças, que eram comidos no mesmo dia, mas em qualquer lugar de Jerusalém. Quarto na ordem estavam os sacrifícios pacíficos «ex voto», cuja carne podia ser comida até o dia seguinte. A razão desta ordem é que o homem está obrigado a Deus, principalmente por causa da sua majestade; em segundo lugar, por causa dos pecados que cometeu; em terceiro lugar, por causa dos benefícios que já recebeu dele; em quarto lugar, por causa dos benefícios que espera receber dele. Resposta à Objeção 11: Os pecados são mais graves pela condição do pecador, como se disse acima (Q[73], A[10]); por isso se mandam oferecer diferentes vítimas pelo pecado de um sacerdote, de um príncipe ou de algum outro particular. «Mas», como diz o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), «devemos notar que, quanto mais grave o pecado, mais baixa é a espécie de animais oferecida por ele. Por onde, o cabrito, que é um animal muito baixo, era oferecido pela idolatria; enquanto um bezerro era oferecido pela ignorância do sacerdote, e um carneiro pela negligência do príncipe.» Resposta à Objeção 12: Na matéria dos sacrifícios, a Lei tinha em vista a pobreza dos ofertantes; de modo que aqueles que não podiam dispor de um animal quadrúpede pudessem ao menos oferecer uma ave; e que aquele que não pudesse ter uma ave pudesse ao menos oferecer pão; e que, se alguém nem pão tivesse, pudesse oferecer farinha ou espigas. A causa figurativa é que o pão significa Cristo, que é o «pão vivo» (Jo 6,41.51). Ele era como uma espiga, por assim dizer, durante o estado da lei da natureza, na fé dos patriarcas; era como farinha na doutrina da Lei dos profetas; e era como pão perfeito depois que assumiu a natureza humana; cozido no fogo, i.e., formado pelo Espírito Santo no forno do ventre virginal; cozido outra vez numa frigideira, pelos trabalhos que sofreu no mundo; e consumido pelo fogo na cruz como numa grelha. Resposta à Objeção 13: Os produtos da terra são úteis ao homem, ou como alimento, e destes oferecia-se pão; ou como bebida, e destes oferecia-se vinho; ou como tempero, e destes oferecia-se azeite e sal; ou como remédio, e destes oferecia-se incenso, que tanto cheira bem como se liga facilmente. Ora, o pão prefigurava a carne de Cristo; e o vinho, o seu sangue, pelo qual fomos redimidos; o azeite significa a graça de Cristo; o sal, o seu conhecimento; o incenso, a sua oração. Resposta à Objeção 14: O mel não era oferecido nos sacrifícios a Deus, tanto porque costumava ser oferecido nos sacrifícios aos ídolos, como para significar a ausência de toda doçura e prazer carnal naqueles que pretendem sacrificar a Deus. O fermento não era oferecido, para significar a exclusão da corrupção. Talvez também costumasse ser oferecido nos sacrifícios aos ídolos. O sal, porém, era oferecido, porque afasta a corrupção da putrefação: pois os sacrifícios oferecidos a Deus devem ser incorruptos. Além disso, o sal significa a discrição da sabedoria, ou ainda a mortificação da carne. O incenso era oferecido para significar a devoção do coração, que é necessária no ofertante; e ainda para significar o odor de boa fama: pois o incenso é composto de matéria rica e fragrante. E porque o sacrifício «de ciúmes» não procedia da devoção, mas antes da suspeita, por isso nele não se oferecia incenso (Nm 5,15).

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether a suitable cause can be assigned for the ceremonies which pertained to sacrifices? · séc. XIII

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Rm 12, 1 nos Padres da Igreja | Aurea